A antiga cidade de Veneza, na Itália, que sedia tanto as edições de arte quanto as de arquitetura da Bienal de Veneza, é conhecida por sua geografia singular como uma cidade insular de canais. Com sua proeminência naval e mercantil hoje reduzida, a cidade encontrou um novo propósito como centro de estudos, exposições e turismo. Ainda assim, sua morfologia urbana e, de fato, a maioria de seus edifícios são históricos e permanecem praticamente inalterados há centenas de anos. Sua aparência exibe um vernáculo veneziano específico que resistiu ao tempo e serve de pano de fundo para as atividades contemporâneas da cidade. Como as fachadas desses edifícios, em especial suas janelas, refletem essa história? E de que maneira as poucas construções modernas da cidade, como o Palazzo Nervi-Scattolin, respondem a esse peso histórico?
Gyumri, capital da região de Shirak na Armênia e segunda maior cidade do país, era historicamente conhecida por sua cultura e patrimônio arquitetônico. Quando integrava a União Soviética, a cidade abrigava diversas fábricas que a transformaram no principal polo industrial da região, alcançando uma população de aproximadamente 225 mil habitantes. No entanto, nas últimas décadas, Gyumri registrou um declínio populacional considerável em decorrência de um terremoto devastador que destruiu a cidade em 1988 e causou a morte de milhares de pessoas. Mais de 30 anos depois, o processo de regeneração de Gyumri ainda está em andamento. Os esforços contínuos da cidade para restaurar seu ambiente construído e impulsionar o desenvolvimento econômico oferecem lições valiosas sobre como conduzir a regeneração urbana após um desastre.
O reuso adaptativo tornou-se uma palavra de ordem na arquitetura. Apresentada como uma solução sustentável e econômica para a decadência urbana, a prática tem sido adotada por cidades que enfrentam as pressões das mudanças climáticas, restrições imobiliárias e a necessidade de preservação cultural. Profissionais de arquitetura são cada vez mais contratados/as para reabilitar o antigo em vez de construir o novo. No âmbito desse discurso, surge uma reflexão crescente sobre quem tem o direito de reutilizar e como.
Projetado pelo escritório David Chipperfield Architects, o Muzej Lah, um novo museu de arte contemporânea, deve ser inaugurado no verão de 2026 em Bled, na Eslovênia. Localizado no sopé dos Alpes Julianos, o museu abrigará a coleção de arte da Fundacija Lah, desenvolvida ao longo de mais de três décadas pelos filantropos eslovenos Igor e Mojca Lah. A coleção será aberta ao público pela primeira vez com a inauguração da instituição.
A instalação e a exposição que representam a Estônia na 19ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza têm curadoria das arquitetas Keiti Lige, Elina Liiva e Helena Männa. Intitulada Let Me Warm You, a mostra nacional explora diferentes dimensões da sustentabilidade ao questionar se as renovações focadas em isolamento térmico na Estônia são meras medidas de conformidade para atingir as metas energéticas europeias ou se também podem servir como oportunidades para melhorar a qualidade espacial e social dos distritos de habitação de massa. Para ilustrar essa questão, a instalação estoniana reveste a fachada de um edifício veneziano com painéis de isolamento, replicando a maneira como são comumente aplicados na Estônia em reformas de habitações coletivas.
A livraria contemporânea é um espaço paradoxal. É comercial, mas raramente comercializada; pública, mas frequentemente de propriedade privada; de escala reduzida, mas de impacto abrangente. À medida que tipologias arquitetônicas adjacentes evoluem sob as pressões do consumo digital, da precariedade econômica e da mudança de hábitos sociais, a livraria não encolheu, mas se adaptou ao século XXI. Não se trata de um local para trocas literárias privadas ou institucionais, mas de um híbrido espacial que acolhe o ritual, o descanso, a performance e a socialização.
Viver em cidades densamente povoadas é uma realidade para muitas pessoas. Embora os benefícios da vida urbana—como a proximidade de comodidades, infraestrutura, oportunidades de emprego e estilo de vida—continuem sendo muito valorizados, as residências sofreram uma redução significativa em sua área útil. A tendência de apartamentos menores tem se tornado cada vez mais comum, com o design de interiores desempenhando um papel fundamental. A redução da metragem quadrada exige o uso eficiente do espaço e layouts de planta inteligentes. No entanto, longe de gerar espaços monótonos, a criatividade no design tem levado a soluções arquitetônicas interessantes que condensam uma vida de alta qualidade no que frequentemente se chama de microapartamento ou estúdio, com áreas de até 40 m².
No cerne do design está a intersecção entre técnica e criatividade — um espaço onde ideias ganham forma e os ambientes são reimaginados. Em um mundo repleto de objetos produzidos em massa, o foco se volta para algo mais intencional, no qual cada decisão abre novas possibilidades e permite que o design se liberte do convencional. Pense na poltrona LC1 de Le Corbusier ou na cadeira Barcelona de Mies van der Rohe — não meramente mobiliários, mas sim resultados que ilustram a liberdade criativa de um ateliê, onde ideias, materiais e acabamentos dialogam em vez de simplesmente se conformarem. Essas peças não apenas preenchem um espaço; elas o reimaginam. Esse espírito de inovação estende-se hoje a cada detalhe, dos metais de cozinha aos de banheiro, nos quais a gama de escolhas — materiais, formas e funções — torna-se uma oportunidade para criar algo verdadeiramente único.
https://www.archdaily.com.br/pt/1142999/torneiras-de-cisne-metais-de-concha-quadriculados-e-a-nova-fronteira-do-design-sob-medidaEnrique Tovar
O escritório de arquitetura ADEPT, com sedes em Copenhague e Hamburgo, venceu o primeiro prêmio no concurso internacional para transformar um antigo armazém da Karstadt no centro histórico de Braunschweig, Alemanha, na Haus der Musik. O complexo cultural de 18.000 metros quadrados incluirá uma nova sala de concertos, uma escola pública de música e espaços voltados para a comunidade. Enfatizando o reuso adaptativo, o projeto mantém a estrutura portante existente e o ritmo arquitetônico, posicionando a intervenção como uma continuidade, e não como uma substituição.
Concursos de arquitetura há muito tempo oferecem um espaço para experimentação: plataformas onde ideias podem ser testadas, tipologias reimaginadas e questões críticas abordadas por meio do projeto. Livres de algumas das restrições das encomendas comerciais, as propostas de concursos frequentemente refletem visões ambiciosas de como a arquitetura pode responder a desafios ambientais, culturais e sociais. Quer estejam focadas em habitats futuros, instituições públicas ou infraestruturas comunitárias de pequena escala, essas propostas dão forma aos valores e prioridades que impulsionam o pensamento arquitetônico hoje.
A seleção de projetos não construídos deste mês reúne oito projetos premiados em concursos enviados pela comunidade do ArchDaily. Cada um deles conquistou o primeiro, segundo ou terceiro lugar em premiações locais e internacionais recentes. As propostas selecionadas abrangem uma ampla variedade de programas e geografias: uma biblioteca sustentável em Lima, um habitat marciano que explora sistemas de ciclo fechado, um orfanato para adultos projetado para o empoderamento na Índia, uma nova escola francesa em Atenas e uma iniciativa de placemaking em Singapura enraizada no folclore local. Embora variem em escala e escopo, todos eles destacam a capacidade da arquitetura de dialogar com o contexto, promover a inclusão e propor novas maneiras de habitar o espaço.
Que estruturas e infraestruturas mantêm os vínculos e relações entre o campo e a cidade? Como a arquitetura e as tecnologias emergentes manterão ou não essa coexistência de ambos os mundos no futuro? A redução da pegada ecológica, o impacto das mudanças climáticas, a descentralização das grandes cidades, a segurança alimentar e demais problemáticas contemporâneas interpelam profissionais de arquitetura e urbanismo em nível global sob o principal objetivo comum de melhorar a qualidade de vida da população e alcançar o bem-estar físico, mental e emocional no ambiente construído e natural.
O que as nossas edificações existentes podem nos ensinar sobre como construir para o futuro? Em uma época de recursos escassos, cresce a demanda para que profissionais de arquitetura dialoguem—com o local, com sua história e com o potencial inexplorado do que já está de pé. Em vez de optar imediatamente pela demolição e por uma nova construção, o futuro da arquitetura pode residir na descoberta de possibilidades de inovação em edifícios que já resistiram ao teste do tempo.
A proposta de torre de uso misto na 175 Third Street é o quinto edifício planejado em quatro lotes dentro do empreendimento Gowanus Wharf, no Brooklyn, em Nova York. Com vistas para Manhattan e para a Estátua da Liberdade, o projeto de aproximadamente 100.000 m² (1.080.000 sq ft) inclui habitação de interesse social, espaços comerciais e para artistas, áreas de ginástica, espaços sociais e de lazer, culminando em uma cobertura com áreas de convivência e piscina externa. O projeto também prevê uma esplanada pública à beira-mar de cerca de 2.600 m² (28.000 sq ft) projetada pelo escritório Field Operations, destinada a contribuir para a recuperação ecológica do Canal de Gowanus, dando continuidade à transformação mais ampla deste bairro industrial. Outros colaboradores do projeto incluem os escritórios dencityworks | architecture, AKRF, bucharest.studio, DeSimone, Ettinger Engineering Associates, Fried Frank, Hatfield Group, Impact Environmental e Jenkins and Huntington.
À medida que os bairros urbanos continuam a evoluir, o design desempenha um papel fundamental em moldar como os edifícios respondem à urbanização, às demandas funcionais e ao caráter de seu entorno. Interligados, esses elementos orientam a transformação da vida urbana e influenciam como os novos empreendimentos se relacionam com seu contexto — uma dinâmica claramente visível no Central District de Seattle. Considerado há muito tempo um polo histórico da comunidade afro-americana da cidade, o projeto Africatown Plaza propõe uma abordagem abrangente que integra o desempenho arquitetônico com a ressonância comunitária, utilizando o envelope do edifício como principal meio de expressão.
https://www.archdaily.com.br/pt/1143076/sistemas-de-fachadas-metalicas-com-ressonancia-comunitaria-o-caso-do-africatown-plazaEnrique Tovar
Nos últimos anos, a arquitetura tem adotado cada vez mais a adaptabilidade, a flexibilidade e a responsividade como princípios fundamentais de projeto. Essa evolução reflete uma transição das noções tradicionais de estruturas estáticas e permanentes para ambientes dinâmicos que conseguem se ajustar a necessidades e condições em constante transformação. No cerne dessa transformação está o conceito de "arquitetura maleável", que utiliza materiais flexíveis e sistemas inovadores para criar espaços funcionais, sustentáveis e centrados nas pessoas. A arquitetura maleável ganha forma por meio de membranas que respiram, fachadas que se movem, estruturas que inflam ou se dobram e superfícies que se curvam em vez de quebrar. Isso envolve projetar para a transformação — não apenas no desempenho ambiental do edifício, mas também em como ele pode acomodar funções dinâmicas, interações de quem o utiliza ou ocupações temporárias. Essa abordagem construtiva contesta as noções tradicionais de durabilidade e controle, propondo, em contrapartida, uma arquitetura mais responsiva e de caráter aberto. Isso reflete uma consciência crescente de que os edifícios, assim como as sociedades que atendem, precisam ser capazes de evoluir.
As inscrições para o Built by Nature Prize 2025 já estão abertas. A premiação reconhece projetos concluídos — novas construções, reformas e ampliações — que demonstrem liderança no uso de madeira sustentável e construção com materiais de base biológica. Com o objetivo de destacar as melhores práticas globais, o Prêmio oferece a profissionais de arquitetura e equipes de projeto a oportunidade de obter visibilidade internacional e contribuir para o debate em constante evolução sobre a construção regenerativa. O prazo para envio de propostas vai até as 23h59 (CET) do dia 8 de junho de 2025. As inscrições podem ser feitas pelo site builtbn.org/prize.
A Expo 2025 abriu oficialmente suas portas em 13 de abril de 2025, em Yumeshima, uma ilha artificial na Baía de Osaka. Realizado sob o tema "Projetando a Sociedade do Futuro para Nossas Vidas", o evento reúne mais de 150 países e organizações internacionais para abordar desafios globais urgentes por meio da arquitetura, tecnologia e design. No centro do parque da Expo ergue-se o Grand Ring, uma monumental estrutura circular projetada pelo arquiteto japonês Sou Fujimoto. Com cerca de 2 quilômetros de circunferência e 20 metros de altura, a estrutura de madeira circunda a área de exposição principal e foi reconhecida pelo Guinness World Records como "A maior estrutura arquitetônica de madeira".
Intitulada "The People of the Ring", esta série de fotos de Stéphane Aboudaram documenta o Grand Ring na Expo 2025 Osaka sob a perspectiva do usuário, capturando tanto a estrutura quanto os visitantes que interagem com ela.
A Terra se Lembra: Pavilhão do Líbano. Imagem Cortesia de CAL
Na 19ª Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza de 2025, o Pavilhão Libanês, com curadoria do Collective for Architecture Lebanon (CAL), apresenta "The Land Remembers" [A terra se lembra], uma investigação sobre o ecocídio e a regeneração ambiental. Selecionado pelo Ministério da Cultura do Líbano e pela Federação Libanesa de Engenheiros, o CAL é uma organização sem fins lucrativos fundada em 2019 por Shereen Doummar, Edouard Souhaid, Elias Tamer e Lynn Chamoun. Sua proposta curatorial busca transformar o pavilhão em uma instituição fictícia, o Ministério da Inteligência da Terra (Ministry of Land Intelligens), dedicada a enfrentar a devastação ambiental e propor estratégias de restauração ecológica.
O Pavilhão do Canadá na 19ª Exposição Internacional de Arquitetura – La Biennale di Venezia apresentou Picoplanktonics. Uma pesquisa que surgiu como um repensar radical de como a arquitetura pode se tornar uma plataforma que une biologia, computação e fabricação para propor um futuro alternativo — no qual os edifícios não apenas minimizam danos, mas participam ativamente da reparação do planeta. Em seu cerne está um organismo simples: a cianobactéria marinha, capaz tanto de capturar carbono quanto de contribuir para o crescimento material da estrutura que habita. O projeto foi desenvolvido ao longo de cinco anos por uma equipe de pesquisa na ETH Zurich, liderada por Andrea Shin Ling e um grupo multidisciplinar de colaboradores e colaboradoras. Juntos, formaram o Living Room Collective, fundado há um ano para dar continuidade a esse trabalho e apresentá-lo na Bienal de Veneza. A equipe principal inclui Nicholas Hoban, Vincent Hui e Clayton Lee. Esta entrevista com a equipe por trás do projeto compartilha a filosofia, os desafios técnicos e os horizontes especulativos que impulsionaram seu trabalho — desde a impressão de treliças de areia viva até a manutenção da vida microbiana em uma exposição pública. O objetivo do grupo é inspirar as pessoas a reconsiderarem a arquitetura não como um objeto estático, mas como um processo vivo e em evolução; um processo que exige cuidado, paciência e uma mudança radical de mentalidade.
Centro Aquático Les Bains des Docks. Imagem cortesia de VELUX Commercial
Condensação, manutenção e umidade são três desafios corriqueiros que continuam a testar os edifícios que projetamos e construímos. Sejam decorrentes de condições climáticas, de uma ventilação limitada ou de especificidades no detalhamento construtivo, esses fatores afetam não apenas a durabilidade dos materiais, mas também o conforto cotidiano e o desempenho dos espaços ocupados. Tratando-se de um centro aquático ou de uma piscina coberta, as exigências são ainda maiores. A presença constante de vapor, o acúmulo de umidade e o risco de mofo podem comprometer tanto a eficiência energética quanto a experiência dos/as usuários/as. Em ambientes como esses, a ventilação e o acesso à luz natural, para além de seu valor estético, tornam-se ferramentas essenciais para manter o equilíbrio, aumentar o conforto interno e, em última análise, otimizar a forma como o espaço é percebido e usufruído.
https://www.archdaily.com.br/pt/1142620/deixando-o-ceu-entrar-4-estudos-de-caso-sobre-solucoes-de-iluminacao-natural-na-arquitetura-aquaticaEnrique Tovar
Desi Training Center / Studio Anna Heringer. Image Courtesy of Studio Anna Heringer
“The times they are a-changin’” (os tempos estão mudando), cantava um jovem Bob Dylan em 1964, capturando um país tomado por protestos por direitos civis e pelas tensões da Guerra Fria. Quase uma década depois, David Bowie voltou o olhar para dentro de si com “Ch-ch-ch-ch-changes” (mudanças, mudanças, mudanças), uma abordagem pessoal sobre identidade e reinvenção, em meio ao colapso das promessas da contracultura e à aceleração da globalização. Já nos anos 1990, Tupac Shakur trouxe a conversa de volta para as ruas, escancarando as realidades da injustiça racial e da violência sistêmica com um lembrete direto: “That’s just the way it is, things are never gonna change” (é assim que as coisas são, elas nunca vão mudar).
Três vozes, três décadas, três maneiras de confrontar a mudança. Se a arte — aqui, por meio da música — tem historicamente funcionado tanto como espelho quanto como grito em tempos de turbulência, é legítimo perguntar: como a indústria da construção tem respondido a um mundo em constante transformação, um mundo que clama, com urgência, por novas direções? A arquitetura tem, de fato, se engajado com as necessidades da sociedade ou apenas reforçado a lógica dos sistemas econômicos vigentes? Hoje, enfrentamos uma confluência entre crise planetária e fragmentação social: o planeta aquece, as desigualdades persistem e se aprofundam, os dados se multiplicam, as identidades se fraturam. Nesse contexto, a arquitetura já não pode se dar ao luxo de se limitar à experimentação formal ou aos imperativos do mercado. É chamada a repensar — com clareza, responsabilidade e imaginação — o que construímos, com o quê construímos, como construímos e, sobretudo, para quem.