Em muitas cidades asiáticas, o clima de verão pode, cada vez mais, ser vivenciado à distância. Em Hong Kong, é possível deslocar-se de uma torre de apartamentos por um shopping no embasamento, entrar no sistema de metrô (MTR), chegar sob outro complexo comercial e seguir por passarelas de pedestres fechadas ou passagens subterrâneas sem praticamente sentir a atmosfera exterior. O calor, a umidade, a chuva e a variação sazonal continuam presentes, mas podem ser amplamente contornados por meio de uma rede contínua de interiores climatizados.
Ao longo de várias décadas, o ar-condicionado deixou de ser uma tecnologia para resfriar cômodos individuais e se tornou uma infraestrutura capaz de produzir um ambiente urbano alternativo. Isso tem sido especialmente visível em partes do Leste e do Sudeste Asiático, onde o desenvolvimento orientado ao transporte (TOD) frequentemente combina estações ferroviárias, shopping centers, moradias, escritórios e outros serviços cotidianos em complexos interconectados. O modelo "Ferrovia mais Propriedade" (Railway plus Property) ajudou a institucionalizar essa relação entre transporte e desenvolvimento, criando distritos onde o deslocamento pela cidade é, muitas vezes, inseparável da circulação por espaços internos de gestão privada.
A Trienal de Arquitetura de Sharjah (SAT) disponibilizou on-line os documentários completos de A Journey into ArchitectureArchives: Baghdad, Damascus, Tunis. Com curadoria de George Arbid, o projeto faz parte do programa de pesquisa de longo prazo da SAT voltado a documentar e salvaguardar arquivos de arquitetura em todo o mundo árabe. Os três filmes, gravados localmente em Bagdá, Damasco e Túnis, combinam pesquisa de arquivo com trabalho de campo e histórias orais, analisando como as trajetórias históricas da arquitetura são construídas, preservadas e revisitadas ao longo do tempo.
Uma campanha liderada pela Red Lima Milenaria busca o reconhecimento da UNESCO para sítios pré-coloniais na capital peruana. Atualmente, restam mais de 600 sítios arqueológicos em Lima, uma metrópole de 11 milhões de habitantes. A campanha, movida por cidadãos/ãs, visa melhorar as condições de conservação e a conscientização pública sobre os locais que resistiram à colonização europeia, promovendo a indicação de uma seleção de estruturas para inscrição na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. A iniciativa pública foi lançada recentemente com o objetivo de reunir apoio popular e estabelecer parcerias com organizações que atuam na área do patrimônio e em campos correlatos, a fim de preparar a estrutura para uma candidatura formal a ser apresentada pelo Estado peruano. A iniciativa coincide com movimentos de reconstrução no continente que respondem à desigualdade socioeconômica e a injustiças históricas estruturais, levantando questionamentos sobre a própria definição de patrimônio.
Histórias como recurso. Imagem: Cobe (gerada por IA)
Este artigo faz parte de "Thresholds", uma edição especial impressa do jornal Cobe Notes x ArchDaily.
Há duas características únicas no ser humano que nos permitiram sobreviver aos primórdios e nos espalhar por todo o planeta: suar e contar histórias. O suor ajuda a resfriar o corpo ao correr longas distâncias. As histórias nos ajudam a colaborar em grande escala e a compartilhar conhecimento entre grupos e gerações. Como profissionais da arquitetura, ainda dependemos dessas mesmas ferramentas para transformar visões em realidade.
Como aponta o professor de narrativas Angus Fletcher em seu livro Primal Intelligence, existe um equívoco comum sobre o papel das histórias: quando nosso cérebro "racional" desenvolve uma ideia que não conseguimos explicar a um grupo maior, nós a envelopamos em uma história e, de repente, todos a compreendem. Fletcher argumenta que, na verdade, o processo ocorre de forma inversa: as ideias surgem das histórias, nosso cérebro funciona por meio de histórias e as histórias moldam a realidade. Na arquitetura, existe um termo pejorativo para quando esse processo é invertido: "pós-racionalização" — como, por exemplo, quando diagramas são criados para justificar um projeto que já foi decidido.
Construída sobre diversas colinas, Amã cresceu em um ritmo que poucas capitais do Oriente Médio conseguiram acompanhar. A cidade recebeu sucessivas ondas migratórias — circassianos no final do século XIX, refugiados palestinos em 1948 e 1967, a população iraquiana após 1990 e sírios a partir de 2011 —, cada uma redesenhando sua densidade e seu perfil social. O calcário extraído localmente de pedreiras por toda a Jordânia, cujo uso em fachadas é obrigatório por lei desde a década de 1970, tornou-se o único denominador visual comum da cidade. Por trás dessa uniformidade material, contudo, reside um diálogo contínuo entre a tradição vernacular e a ambição internacional.
O lar podia estender-se por vários locais ocupados em diferentes momentos do ano. Dispersava-se por uma geografia mais ampla de lugares que eram deixados e retomados ao longo do ano. Muitos empreendimentos contemporâneos no Golfo tentam agora reunir condições climáticas e espaciais contrastantes no mesmo sistema urbano permanente.
Uma fachada de tijolos faz mais do que apenas definir o limite exterior de uma residência. Quando projetada como um painel poroso, ela se transforma em um elemento intermediário entre o interior e o exterior, moldando a atmosfera e as condições térmicas e lumínicas dos espaços situados logo atrás. Na arquitetura residencial indiana contemporânea, o jali de tijolos — um anteparo perfurado ou treliçado — vem sendo reinterpretado sob uma sensibilidade contemporânea, inspirando-se em elementos da arquitetura vernacular.
Madeira e arquitetura litorânea sempre caminharam juntas. Trata-se de um dos materiais que mais definem as estruturas costeiras. No entanto, viabilizar essa estética em um ambiente onde as intempéries são uma constante exige muito mais da madeira escolhida.
A chuva não é exclusividade das regiões litorâneas. O diferencial do litoral reside na combinação e na frequência da exposição. Umidade, ventos marítimos, maresia, sol direto e tempestades frequentes submetem a madeira a ciclos constantes de umedecimento e secagem. Em muitas regiões costeiras, esses fenômenos não são eventos climáticos esporádicos; são, simplesmente, parte do cotidiano local. Diante disso, duas características tornam-se fundamentais ao selecionar a madeira para construções litorâneas: durabilidade e estabilidade dimensional.
O escritório Office for Future está convertendo uma antiga escola em Stavyshche, na Ucrânia, em habitação para 42 famílias deslocadas pela guerra. Desenvolvido para a Charity Foundation Housing for IDP, o projeto, intitulado "Dvir – The Shared Courtyard", reaproveita o edifício de aproximadamente 1.900 metros quadrados para criar 42 apartamentos e 200 metros quadrados de espaços internos compartilhados. A intervenção combina a estrutura existente com novos elementos de madeira, um retrofit energético e a transformação do antigo pátio de asfalto em um espaço verde permeável.
Algumas experiências urbanas se gravam em nossa memória por meio de uma mudança de ritmo. A cidade pós-moderna costuma ser descrita como uma experiência vivenciada no ritmo da mobilidade motorizada, em contraste com o passeio, a promenade ou mesmo as procissões que a antecederam. Em uma cultura urbana acelerada, a caminhabilidade é defendida no planejamento urbano não apenas como um fator de segurança e coesão social, mas também como um caminho para um modo de vida mais sensorial. Esta seleção de projetos não construídos, enviados por leitores/as do ArchDaily, apresenta exemplos de design que priorizam a experiência do ambiente por meio do ritmo de quem caminha. Para além de respeitar o caminhar como uma opção de mobilidade, essas propostas conceituais vinculam o ato de caminhar à contemplação do entorno, ao respeito pelo que já existe e à conexão com outras pessoas.
Um incêndio danificou gravemente o La Querola d'Ordino, um empreendimento residencial em Ordino, Andorra, projetado por Jean Nouvel em colaboração com o escritório Ribas & Ribas Arquitectes e Jordi Sala. O fogo começou nas primeiras horas de 22 de setembro e se espalhou pelo complexo de sete edifícios antes de ser controlado em 23 de setembro. Equipes de bombeiros de Andorra e da vizinha França participaram do combate às chamas, e as autoridades locais informaram que não houve feridos. A causa do incêndio ainda não foi estabelecida.
"Afinal, o tempo é um ingrediente fundamental da minha profissão", afirma Francis Kéré em seu livro Francis Kéré: Building Stories. A arquitetura está em constante evolução e se transforma ao longo do tempo. Tijolos, portas, janelas, paredes, escadas e outros elementos tornam-se protagonistas de um processo que começa com um esboço e, eventualmente, ganha forma como obra construída.
Considerando que a arquitetura começa quando seus habitantes passam a se apropriar de um espaço, Francis Kéré desenvolve seus projetos de forma progressiva, continuando a trabalhar no desenho mesmo durante a fase de construção. À medida que sua arquitetura cresce com o tempo, integra-se ao entorno, adapta-se às necessidades de seus usuários e usuárias e responde às mudanças de maneira flexível e experimental, ela busca se tornar parte da vida de quem a habita.
A Fondation Beyeler em Riehen, na Suíça, está expandindo seu complexo de museus com três novos edifícios projetados pelo arquiteto suíço Peter Zumthor, além de um parque ampliado e restaurado e da reutilização adaptativa de várias estruturas históricas. A expansão amplia o museu existente, projetado por Renzo Piano, somando novos espaços de exposição, educação, cultura e áreas públicas, além de abrir ao público um trecho do entorno paisagístico que antes era privado. O complexo ampliado começará a receber visitantes em 26 de setembro de 2026, durante uma fase de pré-estreia que vai até 14 de janeiro de 2027, com a abertura oficial marcada para 15 de janeiro. As adições de Zumthor compreendem o Wyss Museum, o Ammann Pavilion e o Erlen Torhaus, inseridos na paisagem existente e diferenciados por seus programas, formas e tratamentos de materiais.
Esta semana começou com a celebração do Dia Internacional da Paz pelas Nações Unidas, um convite para refletir sobre as condições necessárias para cultivar a não violência, a estabilidade social e o respeito à dignidade humana. Diante de um cenário de crescente isolamento individual, autoritarismo e uma crise material multidimensional, reunimos artigos nos quais a arquitetura atua como mediadora entre o conflito e a coexistência por meio da construção de espaços de encontro e memória. Outras notícias desta semana destacam uma ferramenta disciplinar que une esses dois conceitos: a transformação do ambiente já construído para adaptá-lo às nossas necessidades e aspirações atuais, ao mesmo tempo em que um novo conjunto de projetos de grande escala e alta visibilidade é inaugurado no Norte Global. Em nosso radar, também analisamos novos projetos em Dubai, Oxford, Portland e Paris, assinados por grandes escritórios internacionais.
Na maioria dos projetos de arquitetura, a circulação vertical é expressa como um elemento puramente funcional, oculta atrás de portas corta-fogo ou de um poço de elevador. No entanto, por vezes as equipes de arquitetura também recorrem a espirais para resolver variações de cota no terreno. Na escala adequada, esses elementos permitem uma expressão formal mais artística que atende a propósitos utilitários e estéticos, sem a necessidade de elevadores ou caixas de escada. Sistemas estruturais como treliças metálicas em balanço e lajes de concreto armado permitem que esses elementos helicoidais se projetem para fora como coberturas de entrada abrigadas ou se desenvolvam em torno de átrios centrais abertos. Funcionalmente, esses caminhos de circulação podem se expressar de diversas maneiras: como escadas, a exemplo do Palácio do Itamaraty em Brasília, ou como rampas, que oferecem a possibilidade de mitigar barreiras de acessibilidade para as pessoas que visitam o local. Em ambos os casos, o desenho helicoidal proporciona transições suaves entre os diferentes níveis de piso, ao mesmo tempo que mantém linhas de visão desimpedidas em todo o programa.
Superfícies contínuas e juntas mínimas tornaram-se uma assinatura marcante da arquitetura contemporânea, valorizadas pelas linhas limpas e pela uniformidade que conferem ao envelope do edifício. No entanto, na engenharia de fachadas, essa busca raramente se resume à aparência. Independentemente do material utilizado, o aumento das dimensões dos painéis pode influenciar a durabilidade, a reciclabilidade do material, o desempenho contra agentes externos e outros aspectos, como a resistência a impactos e a manutenção a longo prazo. Ao aliar a facilidade de instalação e a eficiência no transporte à flexibilidade projetual, os sistemas de fachada monomateriais utilizam painéis de grande formato enquanto solucionam desafios práticos relacionados à planeza, movimentação térmica e suporte estrutural. Contudo, que outros fatores relacionados aos materiais por trás dos painéis de grande formato podem fazer a diferença na construção de envelopes prediais hoje em dia?
A 9ª Trienal de Arquitetura de Oslo acontece em um cenário que já incorpora muitos dos questionamentos que ela mesma levanta. A Igreja de Sofienberg, um edifício de tijolos góticos do século XIX que atualmente passa por um processo de conversão de templo religioso para centro cultural, serve como sede principal de uma edição organizada em torno de uma pergunta central: "E se a natureza vier em primeiro lugar?" De 17 de setembro a 1º de outubro de 2026, seminários, debates, workshops e exposições examinam o que essa mudança de prioridades pode significar para a arquitetura, desde o uso de recursos até a relação dos edifícios com os ecossistemas ao seu redor.
Ao contrário dos edifícios, que são ancorados em fundações e respondem ao clima a partir de uma posição fixa, os iates são projetados para o movimento e a mudança constantes. Os interiores balançam com a embarcação, a luz muda a cada minuto, a umidade é uma condicionante de projeto permanente e cada quilograma influencia o desempenho. Projetar para o mar exige, portanto, que profissionais da arquitetura, da arquitetura naval, da engenharia e do design de interiores resolvam questões que raramente existem em terra firme: como um espaço pode permanecer calmo enquanto tudo ao seu redor está em movimento?
Após o fim de semana de abertura da temporada de shows de Shakira em Madri, o Macondo Park foi oficialmente inaugurado no espaço Iberdrola Music, em Villaverde, Madri. Projetado pelo Bjarke Ingels Group (BIG) em colaboração com Komodo e Vampire, o destino temporário de 185.000 metros quadrados envolve a arena projetada pelo BIG para os shows de Shakira, expandindo o complexo com uma série de espaços públicos e culturais inspirados na cidade fictícia de Macondo, da obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. O parque abrigará uma programação cultural diária paralela aos shows durante a residência de 12 apresentações da cantora, que segue até 11 de outubro, quando suas estruturas temporárias e elementos paisagísticos serão desmontados e removidos do local.
Em 16 de setembro de 2026, o Google anunciou a revitalização do Thompson Center de Chicago como um espaço de trabalho, cultura e comunidade. O James R. Thompson Center é um marco da arquitetura pós-moderna projetado por Helmut Jahn e concluído em 1985. Encomendado pelo governador de Illinois, James R. Thompson, o edifício reinterpreta o clássico capitólio estadual ao inverter o conceito tradicional de cúpula e praça pública. Ocupando um quarteirão inteiro no Loop de Chicago, o edifício apresenta um átrio de vidro curvo multicolorido e uma entrada de esquina inclinada e transparente. Polêmico desde a sua inauguração, o projeto recebeu críticas pelo controle climático deficiente, altos custos de manutenção e problemas estruturais e de infiltração. Com o objetivo de restaurá-lo em vez de demoli-lo, a empresa colaborou com o escritório Architecture Plus Information (A+I) no desenvolvimento de um projeto para integrar o edifício à vida urbana do Loop de Chicago.
Apesar de estarem entre as formas estruturais mais antigas da arquitetura, as cúpulas continuam a oferecer possibilidades para criar grandes espaços livres de pilares e trabalhar com geometrias circulares ou de formas livres, indo além das tipologias edilícias retangulares convencionais. Sua evolução esteve estreitamente ligada a mudanças nos materiais, nos métodos construtivos e nas ferramentas de projeto. Hoje, as plataformas digitais agregam uma nova camada a esse processo, permitindo que decisões tradicionalmente tomadas em etapas mais avançadas do projeto sejam exploradas muito antes.
Não há lugar mais difícil para se construir do que a alta montanha, e nenhum outro onde uma edificação pareça tão provisória. Dos Andes ao Himalaia e aos Alpes, a construção em alta altitude reduz a arquitetura às suas relações mais elementares. A rocha evoca a própria permanência; no entanto, uma estrutura implantada próxima ao limite do habitável existe em constante negociação com quase tudo ao seu redor: com o vento que sopra livre de obstruções, com um solo íngreme e congelado demais para ser escavado, e com a premissa de que tudo de que necessita deve vir de muito abaixo. O que pode ser transportado montanha acima, o que pode ser montado por poucas mãos e o que pode se autossustentar são algumas das variáveis dessa equação.
Essas restrições geraram uma cultura construtiva notavelmente consistente em cordilheiras que, de outro modo, não teriam relação entre si. O refúgio, a cabana, o bivaque e o observatório pertencem a uma tipologia compartilhada na qual o abrigo é indissociável da logística, e onde a leveza, a pré-fabricação e a autossuficiência eram necessidades estruturais muito antes de se tornarem virtudes.