Um novo espaço dedicado à arte contemporânea na Île Seguin, na região metropolitana de Paris, será inaugurado em outubro de 2026. A nova instituição cultural, batizada de "Large", será abrigada em um edifício projetado pela equipe de arquitetura catalã e vencedora do Prêmio Pritzker RCR Arquitectes, marcando o primeiro projeto do escritório em Paris. O complexo está situado na La Pointe des Arts, uma grande reconfiguração da antiga área industrial da Île Seguin em um empreendimento de uso misto com mais de 53.000 m², focado em arte e cultura. A volumetria arquitetônica do projeto segue o conceito de estratificação definido no plano diretor do escritório Ateliers Jean Nouvel. A instituição abrirá as portas com a exposição "Imaginary Engine: From Masterpieces of the Collection Renault to Artists of Today", que reunirá 55 artistas de 23 países para explorar a relação entre a humanidade e as máquinas, em uma homenagem à história industrial do local e à colaboração de décadas da Renault com artistas.
Como um material concebido para pontes, fábricas e grandes estruturas chegou ao banco da sala, à estante do apartamento, à mesa do café? O metal atravessou séculos associado ao esforço, à máquina e à monumentalidade — das estruturas expostas das Exposições Universais do século XIX à lógica produtiva da indústria moderna. Sua presença no interior doméstico não é um dado óbvio, mas uma conquista cultural: a transformação de um material fabril em elemento de uso cotidiano, íntimo e próximo do corpo.
Estabelece-se, portanto, uma hierarquia visual que orienta o olhar, determinando o que deve ser visto, de que maneira e com qual intensidade emocional, sendo capaz de definir como o usuário interpreta o entorno. Nesse contexto, a estratégia projetual ultrapassa o campo da decisão estética para atuar como uma manipulação da experiência fenomenológica do espaço. Ao selecionar um fragmento específico do horizonte por meio de uma abertura controlada, ou dissolver os limites entre interior e exterior com amplos planos envidraçados, a arquitetura passa a operar como uma lente. Ela pode enfatizar a pequenez da escala humana diante da vastidão do território ou, em sentido oposto, domesticar a natureza, incorporando-a como parte da vida cotidiana.
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milano Cortina 2026 foram oficialmente abertos na sexta-feira, 6 de fevereiro, com uma cerimônia realizada em quatro locais no norte da Itália. O principal evento de abertura aconteceu no Estádio San Siro, um dos marcos modernistas mais significativos de Milão, reunindo dança e artes performáticas em uma homenagem à cultura italiana, com apresentações de artistas internacionais, incluindo a estrela pop Mariah Carey. Embora diversas competições já tivessem começado em 4 de fevereiro, a cerimônia de abertura marcou o início de uma programação mais ampla de eventos esportivos, sociais e culturais distribuídos por Milão e pelas três áreas alpinas que sediam os Jogos: Cortina d'Ampezzo, Valtellina e Val di Fiemme. Os Jogos estão programados para acontecer até 22 de fevereiro, encerrando-se com uma cerimônia de encerramento na Arena de Verona, antes dos Jogos Paralímpicos, que ocorrerão de 6 a 15 de março. Por ser um evento internacional de grande escala, as Olimpíadas impõem exigências significativas sobre a infraestrutura esportiva, as redes de transporte, a hotelaria e a capacidade turística, oferecendo os primeiros indícios dos impactos urbanos, arquitetônicos e territoriais de longo prazo que os Jogos podem deixar como legado.
Símbolos do desenvolvimento tecnológico e da densidade urbana, os edifícios em altura, tal qual conhecemos hoje, surgiram no final do século XIX, principalmente nos Estados Unidos, como resposta ao crescimento acelerado do comércio urbano e à necessidade de expandir as cidades sem ocupar mais território. O termo arranha-céu, por exemplo, foi cunhado na década de 1880 e originalmente se referia a edifícios com cerca de 10 a 20 pavimentos — uma altura impressionante para a época.
No entanto, a ideia de construir verticalmente é bem mais antiga do que os arranha-céus de aço e vidro sugerem. Muito antes da revolução industrial, algumas sociedades já experimentavam formas de urbanização vertical como solução para limitações de espaço, defesa territorial ou adaptação ambiental.
Sob a superfície do solo encontra-se um material que moldou silenciosamente a arquitetura do mundo moderno. O petróleo raramente é discutido no discurso arquitetônico, mas sua extração, circulação e consumo reorganizaram profundamente a lógica espacial dos territórios. Oleodutos, refinarias, plataformas de perfuração, portos, rodovias e complexos petroquímicos compõem uma vasta paisagem infraestrutural que sustenta a vida contemporânea, formando uma arquitetura dispersa da energia.
Ao longo dos séculos XX e XXI, o petróleo consolidou-se como a base material da sociedade industrial. Ele impulsionou o transporte, alimentou fábricas e sustentou o crescimento de cidades cuja organização espacial depende de fluxos contínuos de energia. Ainda assim, as infraestruturas que viabilizam esses fluxos raramente se tornam objeto de investigação arquitetônica. A atenção permanece, em grande parte, voltada à forma, à tipologia ou à densidade urbana, enquanto os sistemas materiais que sustentam esses ambientes tendem a permanecer deslocados do campo disciplinar.
Os mirantes são estruturas destinadas à observação da paisagem a partir de pontos elevados. Implantados em meio à natureza ou no cenário urbano, funcionam como dispositivos que organizam o olhar e estabelecem uma relação direta entre o corpo e o território. Nessa fronteira entre o observador e a paisagem, os mirantes podem assumir diferentes configurações, desde pequenos gestos até estruturas monumentais, sempre em resposta ao contexto em que se inserem. Independente da escala, são – em certa medida -, tentativas de domesticar a vastidão, recortes precisos que tornam legível aquilo que, sem mediação, poderia se apresentar como excesso.
Esta semana marcou o Dia Mundial da Saúde, celebrado anualmente em 7 de abril pela Organização Mundial da Saúde. A edição deste ano lançou o apelo "Apoie a ciência", convidando a um engajamento renovado com o conhecimento científico como base para a ação coletiva em diversas disciplinas. Na arquitetura e no desenho urbano, esse imperativo reverbera em projetos que traduzem pesquisas em estratégias espaciais: desde a implantação de gêmeos digitais para subsidiar o planejamento urbano e a tomada de decisões, passando por iniciativas de renaturalização (rewilding) que integram a biodiversidade como ferramenta para mitigar as mudanças climáticas, até práticas fundamentadas nos materiais que promovem uma construção consciente dos recursos. Dentro desse panorama mais amplo, obras recentes também destacam a agência social da arquitetura em múltiplas escalas, incluindo um centro de apoio a pessoas com câncer focado na paisagem em Kent, que alia o bem-estar à sensibilidade ambiental; uma instalação urbana em Brescia, que funciona como um dispositivo de conscientização cívica sobre a vida na prisão e os caminhos para a reintegração; e a transformação de uma rua em Mântua em um espaço público voltado para pedestres e rico em biodiversidade.
Uma superfície perfurada costuma ser tratada como um elemento secundário: algo aplicado para suavizar a luz, decorar uma fachada ou acrescentar textura onde uma parede poderia parecer excessivamente plana. Ela é fotografada como superfície, desenhada como padrão e discutida como artesanato. Mas, em muitos edifícios do subcontinente indiano e do mundo islâmico, esse anteparo nunca foi um acréscimo. Ele era a própria parede. Removê-lo não altera apenas a aparência da construção; significa comprometer sua capacidade de regular o calor, conduzir o ar e mediar a relação entre interior e exterior.
Essa leitura equivocada revela mais sobre hábitos contemporâneos do que sobre o próprio elemento. O pensamento arquitetônico há muito separa estrutura de envoltória, desempenho de expressão. Dentro dessa lógica, componentes como o jaali ou a mashrabiya são facilmente classificados como ornamentais — visualmente ricos, porém tecnicamente secundários. No entanto, esses elementos foram concebidos como sistemas integrados, nos quais geometria, material e clima atuam em conjunto. Sua inteligência reside justamente naquilo que são capazes de fazer.
Há um gesto ancestral em dar forma à terra. Muito antes da arquitetura se constituir como disciplina, o barro já era moldado pelas mãos e transformado pelo fogo, convertendo matéria bruta em utensílio doméstico e objeto cultural. Na história desse ofício, as fábricas de cerâmicamarcam a transição do saber manual para a produção em série, ampliando sua escala sem romper completamente com a origem material. Dispersas por diferentes territórios, essas estruturas registram a relação entre técnica, paisagem e tempo. Com o passar das décadas, no entanto, muitas delas acabaram perdendo sua função original, sendo substituídas por processos mais tecnológicos ou fagocitadas pelo desenvolvimento urbano ao seu redor, passando a ocupar um estado intermediário, entre permanência e obsolescência.
A arquitetura costuma ser compreendida como uma questão de fechamento. As paredes definem o espaço, separam interior e exterior e estabelecem limites claros. Em muitos projetos latino-americanos, porém, essa distinção se torna menos precisa. Em vez de operarem como objetos fechados, os edifícios frequentemente permanecem abertos, permitindo que ar, luz e movimento atravessem sua constituição.
Essa condição está ligada a algo que vai além da forma. Em toda a região, a arquitetura responde historicamente a climas marcados por calor, umidade, forte incidência solar e chuvas sazonais, mas também a culturas construtivas moldadas pela adaptação, pelo trabalho coletivo e pelo contato direto com o ambiente. Nesses contextos, interiores totalmente vedados nem sempre representam a resposta mais eficiente. O espaço costuma ser organizado por meio de sombra, ventilação e zonas intermediárias que regulam, em vez de isolar.
Mesmo o transeunte mais distraído é capturado pela presença monumental dessa estrutura situada no consolidado bairro valenciano de Benimaclet. Diante dela, qualquer tentativa de apreensão racional se desfaz. A lógica construtiva parece escapar enquanto o espaço se desdobra em tensões e desvios onde nada se oferece de imediato. Entre massas de concreto e a insurgência da vegetação, emerge um jogo quase coreográfico de planos, ângulos e rotações. Na vertigem desse encontro, percebe-se que o edifício não foi feito para ser compreendido, mas para ser experimentado.
No dia 12 de março, o arquiteto chileno de ascendência croata, Smiljan Radić Clarke, recebeu o Prêmio Pritzker de Arquitetura de 2026. O júri destacou sua "abordagem pouco ortodoxa do projeto", que "pode inicialmente parecer incomum, inesperada e até rebelde; no entanto, longe de produzir distanciamento ou estranhamento, sua postura anticanônica soa nova e sem precedentes. Ela transmite a sensação inequívoca de estarmos diante de algo novo". Esse reconhecimento será celebrado com a tradicional Palestra e Mesa-Redonda do Laureado com o Prêmio Pritzker de Arquitetura, que acontecerá na Cidade do México, na Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), no Teatro Estefanía Chávez da Faculdade de Arquitetura, em 12 de maio de 2026.
Diferente de muitos programas industriais tradicionalmente ocultos atrás de fachadas neutras e espaços herméticos, as destilarias contemporâneas frequentemente expõem seus processos produtivos como parte essencial da experiência arquitetônica. O calor dos alambiques, os vapores da destilação ou os percursos da matéria-prima deixam de ser apenas operações técnicas para assumir protagonismo espacial.
Embora produzam bebidas distintas, os projetos selecionados a seguir compartilham desafios arquitetônicos semelhantes. Todos precisam organizar fluxos industriais, controlar condições específicas de temperatura, ventilação e armazenamento, além de compatibilizar áreas técnicas com percursos de visitação pública. Ao mesmo tempo, cada destilaria estabelece respostas particulares ao território em que se insere, revelando diferentes maneiras de relacionar produção e paisagem.
Cidades modernas funcionam com base em indicadores de desempenho. Elas movem milhões de pessoas a cada dia, concentram capital, separam usos do solo e sustentam complexos sistemas logísticos e de consumo. Nesse sentido, a cidade funciona como um sistema a ser continuamente ajustado e otimizado.
As métricas dominantes de hoje são familiares e amplamente visíveis: veículos por hora, tempos médios de deslocamento, índices de aproveitamento de área, rotatividade de vagas de estacionamento, lançamentos habitacionais e receita tributária por parcela de terreno. Esses números descrevem uma cidade legível pela eficiência. Eles são herdados de uma lógica industrial, em que o espaço urbano é tratado mais como um mecanismo de produção do que como um ambiente vivido. Sob essa ótica, as cidades começam a imitar as necessidades e os indicadores de uma máquina.
A arquitetura contemporânea aprendeu a celebrar a matéria viva. Painéis de micélio, sistemas de algas, paredes vivas: a vida agora é acolhida nos edifícios e apresentada como inovação. No entanto, a mesma disciplina que celebra esses organismos trata o mofo como contaminação. Ambos são biológicos. Ambos respondem à umidade, à temperatura e às condições materiais. A diferença não é científica. Ela está relacionada às formas de vida que a arquitetura está disposta a aceitar e àquelas que prefere eliminar.
O mofo não está restrito a edifícios abandonados ou interiores mal conservados. Ele aparece em residências, escolas, escritórios, construções históricas e edifícios novos, em diferentes climas e contextos. Isso torna mais difícil tratá-lo como um problema menor ou isolado. Se o mofo continua reaparecendo, o que ele está nos dizendo sobre os ambientes que os edifícios produzem?
Existe uma maneira consagrada de contar a história da arquitetura e da alimentação. Ela começa com a decisão humana de cultivar, armazenar, distribuir e consumir alimentos, e termina com os edifícios produzidos por essa decisão. Nessa narrativa, a comida é a causa e a arquitetura é a resposta.
Mas e se a história for diferente? E se o tomate tiver construído Almería? E se o bacalhau tiver redesenhado o Atlântico Norte? E se a soja estiver, neste exato momento, construindo um porto em Santos e destruindo uma floresta no Cerrado ao mesmo tempo, enquanto os arquitetos simplesmente não foram informados? Essas não são hipóteses, mas descrições de processos já concluídos — ou em pleno curso — que produziram algumas das paisagens contemporâneas mais transformadoras do ponto de vista espacial. Grande parte do ambiente construído é moldada pelas pressões, pelos metabolismos e pelas ambições territoriais daquilo que comemos. Nesse contexto, a arquitetura frequentemente é menos um projeto do que uma consequência, e a disciplina tem contado sua própria história a partir da perspectiva errada.
No campo da arquitetura, entretanto, essa pergunta ainda permanece relativamente marginal. Muitas vezes sabemos quem projetou um edifício, conhecemos seus acabamentos, o fabricante de suas esquadrias, a marca de seus revestimentos e até mesmo seu desempenho energético mas, quase nunca, nos perguntamos de onde vieram as toneladas de matéria que tornaram sua existência possível.
Nas décadas seguintes à independência, alguns dos experimentos arquitetônicos mais ambiciosos do mundo não surgiram por meio de museus, monumentos ou palácios governamentais. Eles emergiram das universidades. Em toda a Ásia e a África, países recém-formados transformaram os campi em campos de teste para novas formas de imaginar a vida coletiva. Esses campi funcionavam como muito mais do que instituições educacionais. Tornaram-se territórios onde os Estados ensaiavam como a modernidade poderia ser organizada — como cidadãos poderiam se reunir, instituições poderiam operar, o clima poderia moldar a arquitetura e ideias importadas poderiam transformar realidades locais.
Em 2025, o mercado global de saúde animal movimentou cerca de 70 bilhões de dólares, e a projeção é de que esse número dobre até 2033. Por trás da cifra, no entanto, há também uma transformação silenciosa no espaço construído, sendo o hospital veterinário um exemplo disso. Esse programa que por décadas ocupou fundos de clínicas improvisadas e anexos de petshops, tem ganhado cada vez mais uma linguagem e identidade próprias. É a consolidação arquitetônica de um vínculo que já dura mais de 15 mil anos.
A habitação moderna foi um dos campos em que o modernismo fez sua promessa mais ambiciosa: a de que a arquitetura poderia transformar não apenas a cidade, mas também a forma como as pessoas vivem dentro dela. Como argumenta o historiador da arquitetura argentino Ramón Gutiérrez, a habitação popular é "o grande tema não resolvido, aquele que geralmente não aparece nas histórias da arquitetura". Na América Latina, essa ausência é particularmente significativa. Ao longo do século XX, o crescimento das cidades transformou a habitação em um dos principais instrumentos para imaginar mudanças urbanas, e o modernismo passou a ocupar não apenas plantas e desenhos, mas também apartamentos, bairros, ruas e rotinas domésticas.
No entanto, uma vez construídos, esses projetos passaram a fazer parte de cidades moldadas pela política, pela memória, pelas desigualdades e pelas transformações nos modos de ocupação. Seus significados deixaram de pertencer apenas ao plano original, passando a ser definidos também pelas formas como foram habitados, modificados e transformados ao longo do tempo. O que essa história revela não é adaptação, mas fricção: o momento em que a arquitetura deixa de ser um modelo ideal e se confronta com a cidade que não consegue controlar plenamente.
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