Arquitetura e água pertencem a naturezas opostas. Enquanto uma delimita e contém, a outra insiste em se espalhar, e é dessa tensão entre o sólido e o líquido que surgem os centros aquáticos. Nesses edifícios, a presença da água transforma tudo ao seu redor. A luz se fragmenta em reflexos instáveis, os sons adquirem uma reverberação particular, a temperatura e a umidade passam a definir a atmosfera dos espaços, enquanto materiais e sistemas construtivos são permanentemente postos à prova. Mas sua singularidade não é apenas técnica.
Acontecimentos recentes destacaram as diversas maneiras pelas quais a arquitetura responde às transformações nas condições ambientais, sociais e culturais. Grandes terremotos na Venezuela, no Japão e no norte da Califórnia renovaram a atenção para o papel do planejamento, da infraestrutura e das práticas construtivas na promoção da resiliência a desastres naturais. Enquanto essas questões seguem moldando o ambiente construído, a abertura do Congresso Mundial de Arquitetos da UIA 2026, em Barcelona, reuniu profissionais e pesquisadores/as para debater clima, habitação, espaço público e o futuro da profissão. Anúncios recentes de projetos, iniciativas de preservação, obras concluídas e novas ferramentas de projeto também refletiram a diversidade de abordagens que moldam a prática arquitetônica atual, desde a conservação do patrimônio e o reuso adaptativo até o desempenho ambiental e o planejamento de longo prazo.
Projeto Dar al Funoon Abu Dhabi por Frank Gehry. Imagem cortesia do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi
O Dar al Funoon Abu Dhabi, a nova instituição de artes performáticas projetada pelo falecido arquiteto Frank Gehry, está entre suas obras finais. Com nome que se traduz como "Casa das Artes", o edifício de destaque, encomendado pelo Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, foi projetado para ser um polo global de artes performáticas e tem previsão de inauguração para 2030. O projeto se soma ao portfólio de Gehry no emirado, que também inclui o futuro Guggenheim Abu Dhabi, e dá sequência à nomeação da cidade como Cidade Criativa da Música pela UNESCO em 2021.
Galeria Cívica de Arte Moderna e Contemporânea de Turim. Imagem cortesia de MVRDV
O escritório MVRDV e a Balance Architettura apresentaram sua proposta para a renovação da Galeria Cívica de Arte Moderna e Contemporânea (GAM) de Turim, na Itália, após terem sido selecionados em um concurso público em dezembro de 2025. O projeto busca recuperar as qualidades espaciais do edifício do museu, datado de 1959, ao mesmo tempo em que introduz novas estratégias de exposição, uma reserva técnica aberta ao público e sistemas de exibição flexíveis, projetados para se adaptar às constantes transformações das demandas de curadoria. Concebida tanto como uma restauração arquitetônica quanto como uma transformação institucional, a proposta visa reconectar o museu com a cidade ao seu redor, adaptando-o às abordagens contemporâneas de expografia e engajamento do público. O projeto conta com o apoio da Fondazione Torino Musei, é financiado pela Fondazione Compagnia di San Paolo e a previsão é que as obras comecem no segundo semestre de 2027.
Uma rebelião experiencial ganha destaque no quarto episódio do podcast Room For Dreams, tocando diretamente no cerne da cultura de design contemporânea, obcecada por imagens e pela superficialidade das telas. Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026 em parceria com a INDX|GLOBAL, a apresentadora Claire Broadka conversa com quatro profissionais da arquitetura indiana — Indrajit Kembhavi, Manish Gulati, Sanjay Singh e Sidhartha Talwar — para discutir uma questão crucial: teríamos sacrificado a alma da arquitetura em prol de um post perfeito no Instagram?
Vencedor do Primeiro Prêmio: Seeds in Forgotten Soil. Imagem cortesia de Buildner
A Buildner anunciou os resultados da segunda edição do concurso Re-Form: New Life for Old Spaces, uma premiação internacional de ideias que investiga o reuso adaptativo de edifícios existentes de pequena escala. O concurso convidou profissionais de arquitetura e design a proporem transformações de estruturas usadas, abandonadas ou negligenciadas com uma área de projeção aproximada de 250 metros quadrados, localizadas em qualquer lugar do mundo. Sem terreno ou programa definidos, incentivou-se a exploração de alternativas à demolição e à construção nova, por meio de estratégias de reuso fundamentadas em questões sociais e ambientais contemporâneas.
A 15ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo (BIAsp), programada para ocorrer em setembro e outubro de 2027, anunciou a dupla de profissionais da arquitetura Gabriela de Matos e Pedro Rossi na curadoria-geral do evento. Dando continuidade à edição anterior, sob o tema Extremos: Arquiteturas para um mundo quente, espera-se que a dupla traga perspectivas críticas sobre arquitetura, cultura e cidade para o tema Arquitetura, Cultura e Soberania. O papel de ambos/as será coordenar o desenvolvimento conceitual da Bienal, definir a equipe de curadoria e realizar uma chamada pública para co-curadores/as.
A maior parte das futuras habitações da Europa já existe; no entanto, a renovação continua ocorrendo de forma muito lenta para responder aos desafios climáticos, habitacionais, de saúde e de recursos na escala necessária. O Re:Living explora como a renovação pode deixar de ser uma série de projetos isolados para se tornar uma abordagem escalável de transformação de edifícios existentes. No cerne da iniciativa está um novo projeto de pesquisa, The Housing We Need for the Future We Want, que examina como o melhor aproveitamento do parque imobiliário existente pode abrir novas oportunidades para profissionais de arquitetura, cidades e comunidades.
Museu Nacional do Equador (MUNA). Imagem cortesia de Studio Campo Baeza
Studio Campo Baeza, com sede em Madri, em parceria com o escritório Maoda, sediado em Quito, venceu o concurso internacional para projetar o novo Museu Nacional do Equador (MUNA) em Quito. A proposta da equipe, intitulada Echoes of the Sun (Ecos do Sol), foi selecionada por um júri nacional e internacional entre 17 finalistas na segunda fase do concurso. A chamada pública atraiu inicialmente 148 equipes de todo o mundo, das quais 20 foram pré-selecionadas para desenvolver propostas de projeto antes do anúncio do projeto vencedor em uma cerimônia pública em Quito, em 6 de julho de 2026.
Um novo espaço dedicado à arte contemporânea na Île Seguin, na região metropolitana de Paris, será inaugurado em outubro de 2026. A nova instituição cultural, batizada de "Large", será abrigada em um edifício projetado pela equipe de arquitetura catalã e vencedora do Prêmio Pritzker RCR Arquitectes, marcando o primeiro projeto do escritório em Paris. O complexo está situado na La Pointe des Arts, uma grande reconfiguração da antiga área industrial da Île Seguin em um empreendimento de uso misto com mais de 53.000 m², focado em arte e cultura. A volumetria arquitetônica do projeto segue o conceito de estratificação definido no plano diretor do escritório Ateliers Jean Nouvel. A instituição abrirá as portas com a exposição "Imaginary Engine: From Masterpieces of the Collection Renault to Artists of Today", que reunirá 55 artistas de 23 países para explorar a relação entre a humanidade e as máquinas, em uma homenagem à história industrial do local e à colaboração de décadas da Renault com artistas.
Espaços de refúgio continuam a oferecer um terreno fértil para explorações conceituais, revelando como a arquitetura pode promover o descanso, a reflexão e a imersão na natureza em meio a transformações ambientais e culturais. Nesta edição de projetos Não Construídos, enviados pela comunidade do ArchDaily, as propostas selecionadas reúnem um conjunto diversificado de abordagens que reconsideram a hospitalidade sob a ótica do acolhimento. Essas obras posicionam a acomodação não como espetáculo ou excesso, mas como estruturas espaciais moldadas pela paisagem, pelo clima, pela contenção material e pela experiência compartilhada.
Em diferentes geografias — das encostas do Sudeste Asiático e do litoral da Indonésia às savanas africanas, ao território alpino, às paisagens do Oriente Médio e às florestas norte-americanas —, as propostas demonstram variadas respostas arquitetônicas a locais sensíveis. Entre os projetos, destacam-se estruturas elevadas que pairam suavemente sobre terrenos íngremes, sistemas temporários de cabanas inseridos em ecologias remotas, abrigos de montanha reconstruídos com base na memória e no reuso, estadias comunitárias organizadas em torno de pátios centrais orientadas por estilos de vida, refúgios desérticos contemplativos e acampamentos florestais inclusivos projetados sob a ótica da acessibilidade e do equilíbrio ambiental.
No interior do oeste de Honduras, em um vale próximo à fronteira com a Guatemala, localiza-se a antiga cidade maia de Copán. Tendo florescido durante o período Clássico, entre os séculos V e IX d.C., a cidade desenvolveu-se como um epicentro regional por meio de redes comerciais, políticas dinásticas e uma arquitetura monumental. Hoje, o sítio é reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO devido aos seus extensos remanescentes arquitetônicos, que incluem pirâmides em degraus, estelas esculpidas e um núcleo cerimonial. Mais de um século de pesquisas arqueológicas sistemáticas documentou sua morfologia urbana, revelando distritos residenciais distintos, espaços cívicos e sistemas de circulação e visibilidade.
Esta análise examina a organização espacial de Copán sob a ótica do teórico urbano Kevin Lynch e sua obra "A Imagem da Cidade". Ao aplicar os cinco elementos estruturais de Lynch — limites, bairros, caminhos, nós e marcos — é possível analisar como Copán funcionava não apenas como um centro ritual, mas como uma paisagem urbana legível, projetada para reforçar a hierarquia política e regular o movimento coletivo. Os dados históricos para esta análise foram extraídos de livros e artigos hiperlinkados ao longo do texto, viabilizados pela colaboração do historiador Arnulfo Ramirez de la Costa, professor e coordenador do curso de História no Departamento de História da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (UNAH) em Tegucigalpa.
Aprender algo novo é, biologicamente, uma transformação do cérebro. A cada experiência, as conexões neurais são reorganizadas, criando e fortalecendo sinapses. Muito mais do que simplesmente acumular informações, o aprendizado envolve reconfigurar estruturas internas — um processo capaz de remodelar tanto indivíduos quanto sociedades. O ambiente no qual isso ocorre pode cultivar a curiosidade, a adaptabilidade e a resiliência emocional, apoiando assim a nossa próxima geração de líderes, ou suprimir essas qualidades, levando ao retraimento e ao isolamento.
Com o surgimento da escolarização moderna durante a Revolução Industrial, emergiu um modelo padronizado, definido por fileiras de carteiras, instrução simultânea e supervisão visual. Frequentemente comparado a um sistema fabril, esse modelo ainda persiste em muitos lugares, apesar de profundas transformações tecnológicas. Esses ambientes rígidos permanecem mesmo quando o aprendizado contemporâneo exige experimentação e adaptabilidade.
Quando pensamos em fachadas, raramente as imaginamos como habitats. Nós as vemos como os elementos que separam o interior do exterior, regulam a temperatura, atenuam ruídos e protegem as edificações das condições externas. Elas conferem à arquitetura sua linguagem visual, mas delas também se espera que mantenham o mundo exterior à distância. Com isso, as fachadas frequentemente acabam sendo compreendidas como barreiras: superfícies que definem onde começa o conforto humano e onde o meio ambiente deve ser mantido do lado de fora.
No entanto, o lado de fora de um edifício nunca está vazio. Durante séculos, a arquitetura involuntariamente criou oportunidades para outras formas de vida. Aves faziam ninhos sob as telhas, insetos ocupavam frestas em paredes de alvenaria e musgos ou plantas criavam raízes em beirais, calhas e superfícies ásperas de pedra. Essas condições raramente eram projetadas pensando em outras espécies, mas abriam pequenas brechas para que a vida as habitasse.
O patrimônio arquitetônico não se limita ao que um edifício foi, mas abrange o que ele continua a se tornar: um longo processo de construção, reconstrução e reocupação ao longo do tempo. Onde há oportunidade, essa continuidade gera uma condição estratificada — na qual os/as visitantes podem testemunhar, vivenciar e sentir a transição gradual da estrutura física, da materialidade, da ordem espacial e dos padrões de uso da edificação e, ocasionalmente, até mesmo participar dessa transformação.
No entanto, muitos projetos — sobretudo aqueles impulsionados por imperativos comerciais — optam por não valorizar, ou sequer reconhecer, esse trabalho mais lento de reuso adaptativo e continuidade do patrimônio. Empreendimentos regidos por uma lógica estritamente financeira costumam preferir o caminho mais fácil da demolição e reconstrução: maximizar o coeficiente de aproveitamento, a área construída bruta e a área locável com a eficiência de uma folha em branco. Ainda assim, de tempos em tempos, surge uma oportunidade que nos permite testemunhar — e desfrutar — o processo de "patrimonialização" arquitetônica da cidade em tempo real.
Analisar com mais profundidade a interação entre luz e sombra na arquitetura parece ser um tema recorrente na agenda de muitos/as profissionais da área. Espaços de luz e escuridão são concebidos para potencializar a circulação e a direcionalidade espacial, bem como para destacar as cores, texturas e formas de elementos arquitetônicos específicos. Diante disso, o impacto da luz natural nas fachadas dos edifícios revela a necessidade de desenvolver estratégias que promovam a economia de energia, melhorem o conforto térmico e visual dos espaços internos e contribuam para a redução das emissões de carbono. Considerando a luz como mais um material na arquitetura, de que maneiras o seu poder poderia contribuir para a experiência arquitetônica?
Uma catedral gótica pode levar séculos para ser concluída. Um pavilhão de exposição mundial pode permanecer de pé por apenas seis meses. Uma estrutura ritualística em Calcutá surge e desaparece em cinco dias. Ainda assim, cada uma delas atrai peregrinações, molda a memória coletiva e reorganiza a vida urbana. Se o patrimônio há muito é definido por aquilo que perdura, a arquitetura demonstra repetidamente que a autoridade cultural também pode residir naquilo que reúne as pessoas.
Durante grande parte do século XX, os parâmetros de conservação privilegiaram a permanência. A Carta de Veneza, adotada pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, concentrou-se na salvaguarda dos monumentos e de sua autenticidade material. O valor cultural estava atrelado à materialidade física, como a pedra, o tijolo e a madeira. Proteger o patrimônio significava preservar o que estava de pé. Uma lógica que parecia sólida, até mesmo evidente por si só.
Exposição At the Table with Nature, ambiente 2026. Crédito da foto: Jürgen Baumhauer
A célebre frase "o homem é o que come" (Der Mensch ist, was er isst), de Ludwig Feuerbach, afirma que a constituição física, mental e até mesmo moral dos seres humanos está diretamente ligada ao que consomem. Hoje, essa ideia está amplamente internalizada, acompanhada de uma crescente conscientização sobre alimentação, nutrição e o impacto do que ingerimos em nosso organismo. No entanto, essa mesma consciência não se estende aos ambientes que habitamos, onde os materiais continuam sendo tratados como decisões técnicas em vez de agentes ativos na relação entre corpo e espaço. Tendo em vista que grande parte da população global passa cerca de 90% do seu tempo em espaços fechados, raramente se discute o que realmente compõe esses espaços em seu nível mais fundamental: os materiais. Paredes, pisos e acabamentos são frequentemente abordados como escolhas técnicas ou estéticas quando, na realidade, podem funcionar como fontes contínuas de exposição a substâncias potencialmente nocivas.
No final de 2024, um evento foi realizado nos jardins do recém-reformado Palais de Lomé, de época colonial, na capital do Togo. Estudantes da faculdade de arquitetura de Lomé participaram dos primeiros Encontros de Arquitetura de Lomé (RAL #1), com curadoria do Studio NEiDA, escritório transdisciplinar, que incluiu palestras, exibições de filmes, oficinas e visitas a edifícios. Uma exposição paralela exibiu a produção arquitetônica mais significativa da história do país. O objetivo do evento era explorar o patrimônio arquitetônico do Togo, marcando o início de uma jornada que cruza fronteiras e levanta questões sobre a conservação do patrimônio moderno. Ao contrário de edifícios coloniais como o próprio Palais de Lomé, que costumam ser mais valorizados e prontamente restaurados, edifícios modernos negligenciados — como o Hôtel de la Paix — exigem abordagens criativas e de base (bottom-up) para recuperar sua antiga vitalidade.
Os desenhos de arquitetura operam por meio da abstração. Plantas, cortes e elevações condensam informações espaciais, construtivas e dimensionais em um conjunto de códigos que fazem sentido dentro da disciplina, mas que nem sempre são imediatamente legíveis para quem não está familiarizado com essa linguagem. Em alguns projetos, essa condição pode gerar uma tensão recorrente entre o que é projetado e o que pode ser compreendido. Isso se intensifica quando as ferramentas utilizadas não correspondem à escala e à complexidade do projeto. Em contextos como casas unifamiliares, reformas ou ampliações, softwares excessivamente complexos podem introduzir ruídos, atrasos e dependências desnecessárias, tornando as propostas mais difíceis de desenvolver e transmitir.