Vista de pedestres da sede do BCIE em Tegucigalpa. Imagem cortesia do Banco Centroamericano de Integración Económica (BCIE)
As nações da América Central ocupam uma estreita ponte de terra entre o México e a Colômbia, mas não nasceram como países separados. Elas surgiram de uma única entidade: a República Federal da América Central em 1823. Essa federação entrou em colapso, mas o ideal de uma região unificada nunca morreu por completo. Em 1951, os governos assinaram a Carta de San Salvador, criando a ODECA, a Organização dos Estados Centro-Americanos. Quatro décadas depois, o Protocolo de Tegucigalpa de 1991 a substituiu pelo SICA, o Sistema de Integração Centro-Americana, a estrutura que norteia a cooperação regional na atualidade. No âmbito desse processo de integração, o Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) foi fundado em 1960 por Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua, estabelecendo sua sede em Tegucigalpa. À primeira vista, trata-se de um complexo de escritórios convencional do final do século XX; contudo, ao observar sua fachada mais de perto, o edifício se transforma em um manifesto sobre identidade — escrito em pedra de cantaria rosada extraída das próprias colinas que cercam a capital hondurenha.
Imagine um corredor. Paredes de concreto a dois metros de distância, teto baixo, iluminação artificial sem sombra nem gradação. Ao fundo, uma janela de vidro blindado e, do outro lado, um agente uniformizado. Você está em um posto de entrada. Pode ser em Calais, em El Paso, em Lampedusa. Um espaço anônimo, mas não neutro. Desenhado para que qualquer um entenda: a passagem não é um direito, é uma concessão.
Esse corredor, no entanto, não é uma exceção, mas a expressão de uma linguagem arquitetônica que se repete nas fronteiras contemporâneas. Os labirínticos aeroportos, as estações de triagem, os muros; arquiteturas que fazem da hostilidade um elemento constitutivo do espaço, demonstrando que ela transcende a expressão fechada de quem está do outro lado do vidro.
No Congresso Mundial de Arquitetos da UIA de 2026 em Barcelona, as discussões sobre o futuro da habitação frequentemente foram além das questões de projeto para abranger temas como governança, propriedade e gestão a longo prazo. Entre os/as palestrantes que participaram dessas conversas estava Cristina Gamboa, cofundadora da Lacol, cooperativa com sede em Barcelona, cuja prática alia arquitetura, ativismo pela habitação, gestão de obras e pesquisa ambiental por meio de um modelo cooperativo. Durante o Congresso, o ArchDaily conversou com Gamboa sobre como a prática cooperativa redefine o papel do/a arquiteto/a, por que a participação vai muito além da mera consulta e de que forma projetos como La Borda e La Morada continuam a alimentar debates mais amplos sobre habitação, cuidado e vida coletiva.
Times Litfest Delhi 2017, realizado no India Habitat Centre, em Nova Deli, 26 de novembro de 2017 por DiplomatTesterMan. Imagem cortesia do Wikimedia (domínio público)
Toda democracia mais cedo ou mais tarde se depara com a mesma questão: onde seus cidadãos e cidadãs podem falar?
Praças públicas, marchas e manifestações historicamente servem como as expressões mais visíveis e impactantes da opinião coletiva. Há um desejo cada vez maior por parte da população de se fazer ver e ouvir no espaço público. As manifestações, por sua própria natureza, são momentos de urgência que surgem quando o diálogo chega a um impasse. Embora sejam essenciais para a democracia, elas não podem ser sua única linguagem.
Poucas condições moldaram o discurso arquitetônico contemporâneo de forma tão profunda quanto a incerteza. Em bienais, exposições e fóruns internacionais, a arquitetura projeta cada vez mais sua relação com o mundo por meio da flexibilidade, da reversibilidade e da capacidade de resposta — qualidades destinadas a lidar com emergências climáticas, instabilidade política e uma mobilidade humana sem precedentes. Edifícios são projetados para se transformar, infraestruturas para evoluir e cidades para acolher condições que parecem cada vez mais imprevisíveis. Essa ênfase na agilidade expandiu a capacidade da disciplina de dialogar com as mudanças ambientais, oferecendo estratégias valiosas para um mundo em constante transformação.
No entanto, essa evolução aponta para uma mudança mais profunda na forma como a arquitetura media a condição humana. Há muito tempo a arquitetura funciona como um mecanismo de orientação existencial — uma maneira de a consciência humana esculpir uma coordenada inteligível em meio a um cosmos indiferente, ancorando a memória e a identidade a um ponto fixo. Em grande parte do discurso arquitetônico contemporâneo, a incerteza aparece cada vez menos como uma condição externa a ser mitigada e mais como o próprio horizonte a partir do qual o pensamento arquitetônico se inicia. A experiência espacial é cada vez mais moldada por ambientes projetados em torno de um fluxo persistente, onde pontos de referência estáticos dão lugar a condições de transformação contínua.
Museu Nacional do Equador (MuNA) por SANAA, Estudio A0, Caá Porá Arquitectura, Jerome Haferd Studio, Taller Capital Landscape. Imagem cortesia de Jerome Haferd Studio
Uma equipe internacional liderada pelo escritório SANAA, em colaboração com Estudio A0, Caá Porá Arquitectura, Jerome Haferd Studio e Taller Capital Landscape, foi selecionada para projetar o novo Museo Nacional del Ecuador (MuNA) em Quito. Intitulada "Living Strata", a proposta foi escolhida após a fase de avaliação final revisada do concurso, que combinou a deliberação do júri com uma votação pública, e concebe o museu como uma paisagem cívica que integra espaços de exposição, programas públicos e áreas verdes abertas. O anúncio conclui o concurso internacional lançado para projetar o futuro museu nacional do Equador.
Em muitas casas, a entrada é tratada como um espaço residual ou uma faixa estreita de transição antes do início da sala de estar. No entanto, em interiores densos da região Ásia-Pacífico, por vezes apesar das dimensões reduzidas, a entrada frequentemente desempenha um papel muito mais complexo do que seu tamanho sugere. Trata-se do limiar que dita a transição: a rua é filtrada, o corpo se ajusta, os sapatos são retirados, as visitas são recebidas, a privacidade é negociada e a ordem doméstica se inicia. Antes que a sala de estar se tornasse reconhecível como interior, a sequência e o espaço de entrada já haviam encenado o primeiro ato do habitar.
O genkan japonês é talvez a versão mais familiar dessa condição, mas essa lógica se estende muito além do Japão. Em apartamentos, casas geminadas, unidades de habitação social e residências urbanas compactas, o limiar de entrada torna-se um dispositivo arquitetônico pequeno, porém potente. Ele gerencia tanto a higiene quanto o sequenciamento espacial por meio de vários elementos arquitetônicos deliberados. Pode ser um piso rebaixado, uma parede espessada, um corredor comprimido, um painel divisório ou um pequeno hall de entrada entre a circulação pública e a vida privada. Sua importância reside não em seu tamanho, mas na quantidade de transições que comporta.
O que define a qualidade de um banheiro para além de suas funções básicas? Sendo um dos espaços mais reservados da casa, o banheiro está intimamente conectado aos rituais cotidianos e aos momentos de pausa. Enquanto louças, metais, circulação e requisitos técnicos estabelecem a base prática, a atmosfera do ambiente surge de uma combinação de decisões espaciais: a maneira como o mobiliário toca o piso ou deliberadamente evita tocá-lo, como os materiais interagem com a luz, de que forma o armazenamento é integrado e como a forma e as proporções moldam a nossa percepção.
Nesta semana na arquitetura, debates sobre a vida útil dos edifícios, a evolução das instituições culturais e o projeto responsivo ao clima destacaram como a prática contemporânea se estende cada vez mais para além do momento da construção. De discussões sobre demolição e reuso adaptativo a novos museus que integram paisagem e desempenho ambiental, os acontecimentos da semana refletem a mudança de prioridades em torno da permanência, da transformação e do valor público. Paralelamente a esses projetos, importantes anúncios institucionais, desde os finalistas do Prêmio RIBA Stirling até a eleição da nova liderança da UIA, oferecem um panorama das agendas arquitetônicas que moldam a profissão em diferentes escalas e geografias.
A Antártica não tem governo, população permanente ou economia. Além disso, desde 1959, não possui proprietário legalmente reconhecido, uma vez que o Tratado da Antártica congela qualquer reivindicação territorial no continente. No papel, isso faz da Antártica o que há de mais próximo na Terra de um verdadeiro bem comum. Na prática, cerca de trinta países operam atualmente mais de setenta estações de pesquisa por lá, várias delas a uma curta distância de voo umas das outras, e uma dessas estações conta com escola, capela, cemitério e um cartório de registro civil que já registrou onze nascimentos desde 1978.
Nada nessa arquitetura é acidental, e muito pouco se explica apenas pela ciência. Uma estação de pesquisa custa milhões de dólares para ser construída e abastecida em um dos lugares logisticamente mais hostis do planeta; um país não assume esse custo apenas para medir o ozônio atmosférico que poderia, em muitos casos, monitorar de um local mais próximo. O que uma estação faz, de fato, é marcar presença em um território onde isso é legalmente proibido.
Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026 em parceria com a INDX|GLOBAL, o nono episódio do podcast Room For Dreams reúne os/as arquitetos/as Rajiv Parekh, da Red Architects, Hiren Patel, da HPAD, e Rudraksh Charan, da 42mm Architecture, para discutir como o design pode servir como uma ferramenta poderosa para a resiliência emocional e a cura coletiva.
As imagens dos bancos do High Line Park, em Nova York, correram o mundo quando o projeto foi inaugurado em 2009. Emergindo diagonalmente do mesmo material e padrão modular da pavimentação, eles transitam de forma fluida do concreto para a madeira, evocando os trilhos ferroviários que outrora ocupavam o local. Para resistir a décadas de exposição às intempéries, o projeto exigia uma espécie de madeira de durabilidade excepcional, e o ipê, extraído da Amazônia brasileira, foi o escolhido. Seu crescimento lento produz uma madeira de lei densa e de baixa porosidade, naturalmente resistente ao desgaste, à umidade e à deterioração biológica. Essa escolha, no entanto, gerou polêmica na época devido a preocupações com a certificação do manejo florestal da madeira. Essa perspectiva mais ampla transforma a forma como pensamos os materiais. Sua origem ainda importa, mas o que acontece após o fim da vida útil do edifício também é fundamental.
MTM—Made to Measure desenhado por Herzog & de Meuron para a UniFor, Direção Criativa do Studio Klass. Imagem cortesia de UniFor
O que permite que um único princípio arquitetônico gere tantos resultados diferentes? A resposta está nos sistemas que organizam a arquitetura: geometria, proporção, estrutura e construção. Juntos, esses elementos estabelecem um conjunto de regras capaz de acomodar diferentes programas, contextos e condições espaciais, mantendo uma identidade coerente. Uma malha estrutural, por exemplo, pode organizar uma variedade de usos, assim como um único detalhe construtivo pode ser repetido em todo um edifício sem produzir espaços idênticos. Esse mesmo raciocínio pode ser transposto para o design de mobiliário sem perder sua identidade? A linha MTM—Made to Measure, desenvolvida por Herzog & de Meuron para a UniFor, explora essa questão. Em vez de projetar cada peça de forma independente, a coleção se desenvolve a partir de um único princípio estrutural que pode ser expandido, adaptado e repetido em diferentes funções, preservando sua coerência interna.
O escritório MVRDV venceu o concurso internacional de projeto organizado pela empresa social Shift para projetar a Shift Embassy, um novo destino cultural planejado para o distrito em desenvolvimento de Waterkant, em Roterdã. Concebida como um híbrido entre arquitetura e paisagem, a proposta, intitulada "Rotterdam ROCKS!", combina espaços expositivos, hotelaria, educação, equipamentos públicos e infraestrutura ecológica em um edifício de acesso público, cujo objetivo é apoiar a missão da Shift de engajar visitantes em desafios ambientais e sociais. O projeto fará parte do Waterkant, um desenvolvimento urbano de grande escala na margem sul do rio Mosa, planejado para incluir 3.750 moradias, além de escolas, locais de trabalho, espaços culturais e áreas públicas.
A lei 21st Century ROAD to Housing Act, um projeto de lei bipartidário sobre habitação do Senado dos Estados Unidos, tornou-se lei de forma automática em 11 de julho de 2026. Oficialmente denominada "Renewing Opportunity in the American Dream (ROAD) to Housing Act", a medida tem sido descrita como a iniciativa habitacional mais significativa no país desde a Lei Nacional de Habitação de Interesse Social (National Affordable Housing Act) de 1990, e "a legislação de habitação mais abrangente em décadas". Diante de uma crise global de moradia, o texto revisa programas habitacionais federais, expande as opções de financiamento disponíveis, oferece subsídios para comunidades, foca em exigências regulatórias para a construção civil e enfrenta a concentração da propriedade imobiliária. Essa legislação soma-se a iniciativas globais por moradias dignas, tais como limites para aluguéis de curta temporada, a tributação de unidades residenciais desocupadas e o reaproveitamento e adaptação de estruturas existentes, com o duplo objetivo de aumentar o número de unidades residenciais e disponibilizar os imóveis já existentes.
Na costa caribenha de Honduras, fica o Vale de Leán, uma estreita faixa costeira delimitada pela Cordilheira Nombre de Dios ao sul e pelo Mar do Caribe ao norte. Durante muito tempo, essa foi a última fronteira: selva densa, pântanos, nenhuma infraestrutura e um difícil acesso ao interior. No entanto, esse cenário começou a mudar com a chegada do povo Garífuna, que se estabeleceu na área entre os rios Danto e Cangrejal, lançando as bases do que viria a ser a cidade de La Ceiba. Um polo urbano no Caribe hondurenho cuja história foi definida por ondas migratórias compostas por populações centro-americanas, afro-caribenhas, europeias e o corporativismo norte-americano. Esses fluxos de várias partes do mundo não apenas contribuíram para o crescimento econômico, mas produziram ativamente a lógica espacial, a identidade e a forma arquitetônica da cidade.
O que significa o luxo quando os produtos são projetados para uma obsolescência rápida? Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026 em cooperação com a INDX|GLOBAL, o oitavo episódio do podcast Room For Dreams reúne os/as arquitetos/as Priyanka Mehra, Simran Boparai, Ashmit Singh Alag e Adreesh Chakraborty para analisar a relação em constante evolução, e muitas vezes contraditória, entre exclusividade, sustentabilidade e um artesanato com propósito.
A arquitetura frequentemente herda um paradoxo. Os edifícios que passam a definir um lugar raramente são os únicos que o moldaram. Em vez disso, eles se tornam símbolos, repetidos em guias, campanhas de turismo, agendas de conservação e histórias da arquitetura, até que passem a representar uma região inteira. Com o tempo, a riqueza de uma paisagem construída é comprimida em um punhado de imagens familiares. O que fica fora desse enquadramento raramente desaparece. Apenas desliza para fora do discurso arquitetônico.
Poucos lugares ilustram isso de forma tão clara quanto Odisha. Durante décadas, sua identidade arquitetônica foi representada pelos monumentais templos de pedra de Bhubaneswar, Konark e Puri. A sofisticação escultural da tradição Kalinga conquistou, com justiça, reconhecimento internacional, tornando-se um dos legados arquitetônicos mais célebres da Índia. Contudo, esse protagonismo também gerou uma consequência imprevista. Odisha é frequentemente compreendida apenas como uma terra de templos, deixando outras trajetórias arquitetônicas comparativamente inexploradas. Residências reais, edifícios administrativos, encontros coloniais, assentamentos vernáculos e antigas capitais ocupam um espaço muito menor no imaginário arquitetônico, apesar de revelarem histórias igualmente complexas de governança, diplomacia, ecologia e intercâmbio cultural.
Grand Stade Hassan II no Marrocos por Populous e Oualalou + Choi. Imagem cortesia de Oualalou + Choi
O encerramento da Copa do Mundo da FIFA 2026 marca o fim da maior edição do torneio até hoje. Sediada no Canadá, México e Estados Unidos, a competição foi expandida para 48 seleções nacionais e reuniu dezesseis cidades-sede distribuídas por três países. Há décadas, as Copas do Mundo da FIFA servem como catalisadoras para a produção arquitetônica. Cada edição gerou um conjunto singular de estádios, investimentos em transporte, espaços públicos e intervenções urbanas que frequentemente permanecem integrados às cidades-sede muito após o encerramento do torneio. Embora as competições recentes tenham sido associadas a projetos de estádios monumentais e programas nacionais de construção ambiciosos, a edição de 2026 seguiu uma trajetória diferente, apoiando-se principalmente em arenas existentes adaptadas aos requisitos técnicos e operacionais da FIFA.