O dia 26 de janeiro marca o Dia Internacional da Energia Limpa, uma iniciativa voltada a conscientizar e mobilizar ações para uma transição inclusiva dos combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, para sistemas de geração de energia com menores emissões de gases de efeito estufa e menos poluentes. O termo "limpa" sinaliza uma mudança fundamental de fontes de energia extrativas, finitas e esgotáveis em direção a sistemas baseados em recursos renováveis ou na captura de energia integrada a processos naturais. Em um mundo que enfrenta a crise climática, a energia limpa desempenha um papel fundamental na redução de emissões e na ampliação do acesso a uma energia confiável. Contudo, o rótulo de "limpa" não isenta esses sistemas dos impactos associados à sua produção, implantação e comercialização. Nesse contexto, o conhecimento arquitetônico relacionado ao espaço, à materialidade e à habitação torna-se relevante para apoiar uma transição rumo a sistemas de energia que sejam sustentáveis ao longo do tempo. Como afirmam as Nações Unidas, a ciência é clara: para limitar as mudanças climáticas, a dependência dos combustíveis fósseis deve acabar, e as edificações devem ser aquecidas, iluminadas e eletrificadas por meio de fontes de energia limpas, acessíveis, economicamente viáveis, sustentáveis e confiáveis.
A crise habitacional atual é um fenômeno global que pode ser amplamente dividido em dois grandes problemas: a escassez de edifícios residenciais e as barreiras de acesso aos que já existem. O déficit é real e concreto no que diz respeito ao que a ONU chama de "moradia adequada para todas as pessoas". Segundo o ONU-Habitat, estima-se que 96.000 novas unidades habitacionais precisariam ser construídas por dia para atender às necessidades da população até 2030. As mudanças climáticas e as migrações forçadas estão ampliando essa lacuna. No entanto, 2,8 bilhões de pessoas em todo o mundo — o que representa quase 40% da população global — não têm acesso a um abrigo estável, terra segura e serviços básicos de saneamento, não apenas pela subprodução, mas também devido a uma barreira econômica: uma crise de acessibilidade financeira. À medida que a demanda cresce e os preços sobem, a moradia, que hoje funciona cada vez mais como uma forma de seguridade social, torna-se alvo de renda de aluguel e especulação imobiliária. Sendo a moradia adequada um direito humano, cresce em todo o mundo a pressão sobre governos e entidades privadas para limitar a especulação e garantir o acesso justo às habitações existentes. A seguir, apresentamos quatro exemplos de iniciativas na Espanha, Austrália, França e Estados Unidos que buscam ampliar com urgência o acesso à moradia e, ao mesmo tempo, conter a especulação.
Enda Mariam, Asmara Heritage Project, Eritreia. Imagem cortesia de Pan-African Biennale (PAB)
A Bienal Pan-Africana (PAB) é uma plataforma de debate e intercâmbio sobre arquitetura que reúne, pela primeira vez, todos os países do continente africano. Com o objetivo de destacar as contribuições africanas para a área, a iniciativa busca mudar a narrativa de fragilidade para uma de resiliência, promovendo a conscientização sobre as tradições, o design, a cultura e a memória coletiva do continente. O evento inaugural, com duração de uma semana, está programado para ocorrer em Nairóbi, no Quênia, com início em 7 de setembro de 2026. Como a primeira bienal de arquitetura deste tipo no continente e um evento altamente antecipado, a semana de abertura contará com exposições, instalações, palestras e debates principais, além de eventos públicos por toda a cidade e em outras sedes satélites. Com curadoria do/a arquiteto/a somali-italiano/a Omar Degan, a bienal visa transformar o discurso arquitetônico ao ampliar as contribuições de escritórios que representam as 54 nações africanas, exibindo trabalhos enraizados em contextos, materiais e narrativas culturais locais.
O escritório Lacaton & Vassal anunciou a transformação de um antigo centro administrativo em um edifício de uso misto, residencial e de escritórios, em Vannes, uma cidade medieval na Bretanha, no noroeste da França. O projeto faz parte de uma política governamental para mobilizar terrenos públicos para habitação. Em 2023, o Estado francês lançou uma chamada de manifestação de interesse para um projeto no antigo complexo administrativo, que abrigava diversos serviços públicos, em consulta com a prefeitura de Vannes. A proposta vencedora é fruto de uma parceria entre a GReeStone Immobilier e a Grand Ouest Immobilier, com uma equipe de arquitetura formada pelo escritório de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal, laureados com o Prêmio Pritzker de 2021, em parceria com a arquiteta Emmanuelle Delage. Segundo a prefeitura, a proposta foi escolhida com o objetivo de promover a resiliência e reduzir a pegada de carbono por meio da renovação, em vez da demolição.
O Sanatório de Paimio, de Aino e Alvar Aalto, é um exemplo reconhecido de arquitetura moderna voltada à cura, representando uma abordagem higienista centrada no paciente que tratava o próprio edifício como um instrumento médico. Construído entre 1929 e 1933, foi projetado como um sanatório de tuberculose voltado para a natureza, posteriormente utilizado como hospital, e hoje funciona como uma atração turística. A propriedade compreende o edifício principal juntamente com quatorze estruturas adicionais, tombadas na Finlândia em 1993 sob a Lei de Proteção de Edifícios finlandesa. O complexo foi incluído na lista indicativa da UNESCO em 2004 e faz parte da candidatura "Aalto Works", com decisão prevista para julho de 2026. O escritório Snøhetta desenvolveu um plano diretor que apresenta uma nova visão para o complexo modernista, reimaginando-o como um destino que combina hospitalidade, bem-estar, espaços culturais e áreas de debate internacional.
Campo agrícola Waru Waru. Imagem via World Monuments Fund
O Dia Internacional da Mãe Terra da Organização das Nações Unidas, celebrado anualmente em 22 de abril, tem como objetivo "promover a harmonia com a natureza e com a Terra". Diante da urgência imposta pelas mudanças climáticas, a data busca conscientizar sobre os desafios de preservar todas as formas de vida sustentadas pelo planeta. Trata-se de um chamado à comunidade global para salvaguardar a biodiversidade, buscando equilibrar os sistemas econômicos, sociais e ecológicos. Crimes contra a biodiversidade incluem práticas de grande escala, como desmatamento, mudança no uso do solo, agricultura intensiva, pecuária e comércio ilegal de animais silvestres, todos considerados pela ONU como fatores aceleradores da destruição do planeta.
Entre 2005 e 2021, os/as fotógrafos/as franceses/as Yves Marchand e Romain Meffre desenvolveram um projeto de longo prazo intitulado Theaters. Recentemente exposta na KYOTOGRAPHIE 2026, a obra documenta um fenômeno que segue se desdobrando gradualmente ao redor do mundo: o declínio de infraestruturas originalmente projetadas para o entretenimento público no início do século XX. Teatros, cinemas e casas de espetáculo que outrora acompanharam a modernização das cidades estão sendo cada vez mais abandonados, reaproveitados ou "deixados em suspensão como ruínas híbridas." Esse processo é frequentemente associado à crescente individualização do consumo cultural — desde a popularização da televisão até a ascensão da indústria de streaming —, bem como ao impacto da pandemia de COVID-19 nas instituições culturais. Abaixo, três casos localizados na Inglaterra, no Chile e no Japão ilustram diferentes etapas dessa transformação, ao mesmo tempo em que destacam os esforços liderados pela comunidade para preservar o patrimônio cultural moderno.
A segunda edição do The Bread & Heart Festival será realizada em Tirana, na Albânia, de 3 a 5 de junho de 2026. O evento anual é organizado pela The Bread & Heart Foundation e co-curado com a Cátedra NEWROPE de Arquitetura e Transformação Urbana da ETH Zürich. O objetivo da Fundação é oferecer uma plataforma aberta de diálogo sobre arquitetura, paisagem e desenvolvimento na Albânia, um país que passa por uma rápida transformação e está se tornando um dos ambientes urbanos mais ativos do Sudeste Europeu. O propósito do evento é conectar figuras internacionais da comunidade da arquitetura, como Francis Kéré, Jeanne Gang, Ma Yansong e Sumayya Vally, a profissionais locais, instituições e ao público em geral. Assim como em 2025, o festival ocorrerá no Book Building, projetado pelo escritório 51N4E e localizado na Praça Skanderbeg, reunindo os/as participantes sob o tema "Landscapes of Abundance" (Paisagens de Abundância).
O UIA 2026, 29ª edição do evento internacional trienal de debate arquitetônico organizado pela União Internacional de Arquitetos, abriu suas portas no domingo, 28 de junho, com um evento inaugural realizado em Three Chimneys, uma antiga usina termoelétrica em Sant Adrià de Besòs. Cada edição do congresso foca em um tema urgente e relevante para a profissão, articulado por meio de um eixo central. O tema de 2026 é "Becoming. Arquiteturas para um Planeta em Transição", propondo uma visão ampla e crítica sobre os futuros possíveis da arquitetura. O evento acontece até 2 de julho de 2026, de forma distribuída por diversas sedes e contextos urbanos. Com uma abordagem multidisciplinar, Barcelona, Capital Mundial da Arquitetura UNESCO 2026, deve se tornar um laboratório e polo global para debater as próximas transições ecológicas, sociais, materiais e culturais.
Três décadas após sediar o evento pela primeira vez, Barcelona volta a ser o palco do debate global da disciplina. O Congresso Mundial de Arquitetos da UIA 2026 em Barcelona pretende reunir 10.000 profissionais, estudantes e representantes institucionais de mais de 130 países. Os debates abordam temas como a emergência climática, a crise habitacional, a circularidade e sustentabilidade dos materiais, e a evolução do espaço público em grande e pequena escala, bem como tópicos mais específicos, como o papel e a responsabilidade futura das premiações de arquitetura ou conferências dedicadas às inundações causadas pelo fenômeno DANA em Valência. A programação diária será marcada por duas sessões plenárias por dia, no início (09h00) e no encerramento (16h45).
Xu Tiantian é a sócia-fundadora do DnA_Design and Architecture, um escritório interdisciplinar que aborda tanto as dimensões físicas quanto as sociais do ambiente habitado contemporâneo, em diferentes escalas. Nascida em 1975 em Fujian, na China, ela obteve o título de Mestre em Arquitetura em Design Urbano pela Harvard Graduate School of Design e o diploma de bacharel em arquitetura pela Universidade de Tsinghua, em Pequim. Seu trabalho recente se concentra na revitalização rural por meio de uma estratégia que ela descreve como "acupuntura arquitetônica", compreendida como intervenções de pequena escala e específicas para cada local, projetadas para ativar a cultura, a agricultura e o turismo locais. Essas intervenções, concentradas principalmente nas regiões rurais da China, foram reconhecidas pelo ONU-Habitat como um modelo global para a integração urbano-rural. Nesta entrevista para o Louisiana Channel, ela reflete sobre o papel do/a arquiteto/a, questiona a própria arquitetura e o conceito de beleza, explica sua metodologia de trabalho e enfatiza a dimensão espacial da natureza.
MVRDV e OODA revelaram um novo plano diretor para a regeneração de uma área vaga de 28 hectares entre Marvila e Beato, na frente ribeirinha de Lisboa. Recentemente aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa, o projeto foi desenvolvido em colaboração com o escritório LOLA Landscape Architects e a empresa de engenharia Thornton Tomasetti para transformar a área em um distrito urbano pautado pelo paisagismo. Sob o título *The Marvila Masterplan*, a proposta estabelece diretrizes para a implantação de 1.400 moradias, além de equipamentos públicos, espaços comerciais e de serviços, em um território fragmentado e majoritariamente abandonado. O projeto é uma iniciativa privada liderada pelo/a principal proprietário/a do terreno e desenvolvida em coordenação com a Câmara Municipal de Lisboa e a Infraestruturas de Portugal.
Abuja foi declarada a capital da Nigéria em 12 de dezembro de 1991. Localizada na região central do Território da Capital Federal (FCT), a cidade substituiu Lagos, a litorânea mais populosa do país, em um processo de reforma estrutural que visava à integração nacional e a um desenvolvimento regional mais equilibrado. Assim como em outras transferências de capitais, a mudança ocorreu por razões estratégicas para transformar Abuja no novo centro administrativo do país, frequentemente chamado de "o centro da unidade". A cidade foi concebida como um núcleo planejado com base em um plano diretor desenvolvido pelo consórcio norte-americano International Planning Associates (IPA). Mais de três décadas depois, um novo plano diretor intitulado "City Walk" foi desenvolvido pela MAG International Links Limited com projeto do escritório Benoy, concebido como um distrito de uso misto que integra hotéis, escritórios, residências, comércio, além de instalações culturais, educacionais e de saúde, ao lado de uma torre de 450 metros de altura e uma arena coberta para 13 mil pessoas, distribuídos por 250 hectares.
RICA, MASS Design, Ruanda. Imagem cortesia de Pan-African Biennale (PAB)
Nesta semana, a arquitetura apresenta novas visões de futuro em um cenário geograficamente diverso, com projetos emblemáticos e iniciativas de renovação surgindo na Arábia Saudita, Taiwan, Bahrein, Alemanha, Itália, Austrália, Marrocos e Burundi. Novas plataformas para discutir o futuro urbano destacam a descolonização e a crise climática como prioridades centrais para a prática arquitetônica contemporânea. Ao mesmo tempo, perspectivas contrastantes sobre a regeneração urbana se refletem tanto na demolição de estruturas emblemáticas recentes quanto na transformação em larga escala de antigas áreas industriais. Em outra frente, os Jogos Olímpicos continuam a atuar como catalisadores para a produção arquitetônica, como demonstra a proposta de um novo centro esportivo na Austrália para Brisbane 2032. Esse impulso coincide com importantes desenvolvimentos de infraestrutura internacional na África, incluindo um novo terminal aeroportuário no Marrocos, bem como projetos que repensam espaços de pesquisa e engajamento público, como o novo edifício para o Fórum da Língua Alemã.
Abordando uma grande variedade de temas, as principais notícias desta semana refletem a amplitude da prática arquitetônica: seu potencial para responder à crise climática, a construção e renovação de infraestruturas culturais pelo mundo e eventos que promovem a reflexão disciplinar contemporânea. Isso também levanta questionamentos sobre a contradição entre as habilidades técnicas e criativas exigidas pela disciplina e o papel que ela passou a ocupar no mercado atual. Além dessas reflexões, apresentamos esta semana projetos que reforçam o significado cultural da arquitetura na preservação do conhecimento, no entretenimento coletivo e no suporte a novas formas de habitar: um museu de histórias em quadrinhos em Taiwan, um clube de membros para famílias em Londres e a renovação de um estádio emblemático em Riade.
A recém-inaugurada exposição matière en résonance ("matéria em ressonância") reúne uma ampla variedade de maquetes e uma seleção curada de fotografias para apresentar a constante exploração da madeira pelo escritório sauerbruch hutton. A mostra parte do pressuposto de que, embora a era do concreto tenha definido o século XX, o início do século XXI testemunha um ressurgimento global da madeira, um material construtivo muito mais antigo. A madeira é apresentada como uma alternativa que oferece "uma versão diferente de modernidade", sendo objeto de um interesse renovado que desperta imaginários coletivos de longa data. Há mais de duas décadas, o escritório de arquitetura sediado em Berlim explora as possibilidades da construção em madeira, desde elementos de fachada até estruturas autoportantes e sistemas modulares. A exposição reflete os resultados dessa investigação contínua, evidenciando tanto a inovação técnica quanto as qualidades intrínsecas da madeira em diversos contextos europeus. A mostra estará em exibição de 3 a 28 de fevereiro de 2026 na Galerie d'Architecture de Paris.
Projeto de revitalização do Centro Comercial de Montparnasse e da Torre CIT, 2026. Imagem cortesia de RPBW
A compilação de notícias desta semana começa com duas celebrações internacionais, o Dia Internacional da Energia Limpa e o Dia Internacional da Educação, juntamente com uma importante descoberta arqueológica em Fano, Itália, onde escavações revelaram uma basílica descrita por Vitrúvio, conectando o discurso arquitetônico contemporâneo com uma profunda continuidade histórica. No panorama mais amplo das notícias de arquitetura desta semana, surge um tema central em torno do avanço de uma arquitetura cívica concebida como infraestrutura aberta e voltada ao público, com projetos culturais e institucionais cada vez mais desenhados para fortalecer sua relação com a cidade e com a vida urbana cotidiana. Ao mesmo tempo, as atenções globais se voltam novamente para a África, onde infraestruturas de transporte em grande escala e a conservação de marcos modernistas refletem o interesse na região e a reavaliação do patrimônio arquitetônico do continente. Complementando essas narrativas, os destaques desta semana também incluem um novo modelo para distritos urbanos sem carros, paisagens públicas de cocriação baseadas no conhecimento indígena e um empreendimento residencial que responde ao contexto regional, refletindo como a arquitetura está negociando o espaço público, a responsabilidade cívica e a identidade territorial em diversas geografias.
No dia 21 de maio, uma caverna realista tomou forma na Pont Neuf, em Paris, a ponte mais antiga ainda de pé sobre o rio Sena. A obra de arte inflável foi projetada e construída pelo fotógrafo e artista de rua francês JR, juntamente com uma ampla equipe multidisciplinar. La Caverne du Pont Neuf foi concebida em homenagem a The Pont Neuf Wrapped, obra de 1985 de Christo e Jeanne-Claude, uma intervenção artística ambiental na qual a dupla de artistas envolveu a histórica ponte em um tecido cor de arenito por duas semanas. A estrutura cria um efeito trompe-l'œil que simula uma formação rochosa texturizada por meio de impressão fotográfica em tons de branco, preto e cinza. O formato do exterior já oferece ao público a ilusão de ótica da obra, ao mesmo tempo em que prepara o terreno para a etapa final do projeto de interiores.