Nesta semana, revisitamos as ideias que moldam o desenho das cidades do século XXI, com um olhar voltado para um horizonte temporal mais amplo do que o que caracterizou o design moderno. Esses exemplos do desenho urbano contemporâneo apontam para as cidades do amanhã, buscando refletir a memória coletiva e a identidade social ao mesmo tempo em que enfrentam os desafios climáticos atuais. De um novo museu no Panamá inspirado na tradição arquitetônica latino-americana a uma instalação inflável sobre a ponte mais antiga de Paris, no rio Sena, projetos construídos e não construídos resgatam a arquitetura como um repositório de memória coletiva, enquanto outros exploram seu potencial transformador sob a ótica do bem-estar contemporâneo. Nesta compilação semanal de notícias, apresentamos projetos em andamento no Panamá, em diversos países africanos, na França, no Canadá, na Itália, na Austrália e nos Estados Unidos.
Em Hong Kong, onde a arquitetura é frequentemente impulsionada pela lógica imobiliária, pela infraestrutura e pelo desenvolvimento acelerado, o espaço para a experimentação cívica em escala humana pode ser surpreendentemente limitado. É aí que o Design Trust se destaca. Como uma plataforma de fomento e viabilização de projetos, a organização apoia intervenções espaciais que transitam entre arquitetura, pesquisa e programação pública — um trabalho que costuma ser modesto, coletivo ou incerto demais para se encaixar nos fluxos convencionais entre cliente e arquiteto/a.
No centro desse trabalho está Marisa Yiu, cuja liderança posiciona o Design Trust tanto como agente viabilizador quanto como ator cultural. Por meio de iniciativas como o Micro-Parks Hong Kong, além de exposições e programas públicos, a organização trata o discurso e a prototipagem como formas de agência espacial, conectando designers, comunidades, instituições e debates sobre políticas públicas, ao mesmo tempo em que coloca em primeiro plano questões de gestão, manutenção e a "sobrevida" do espaço público.
Fundador da Åvontuura, Karl van Es, com seu Guia de Arquitetura de Toronto
Karl van Es passou vinte anos atuando como arquiteto antes de deixar a profissão para resolver um problema que todo(a) arquiteto(a) enfrenta: a simples inexistência de recursos para viajar com um olhar profissional. Guias de viagem convencionais e aplicativos de turismo raramente destacam os edifícios que realmente importam para a comunidade da arquitetura. A Åvontuura nasceu dessa frustração — uma editora independente de guias ilustrados de arquitetura criada por um arquiteto para profissionais da área. Seu lançamento mais recente, Madri, mapeia 70 das obras mais significativas da cidade, com a missão de encurtar a distância entre o interesse arquitetônico e a logística de viagem.
https://www.archdaily.com.br/pt/1093943/vagas-em-chengdu-e-nanjing-modum-atelier-contrata-arquitetura-design-de-interiores-pesquisa-comercial-comunicacao-e-branding-estagiarios-as韩爽 - HAN Shuang
Tsuyoshi Tane é um arquiteto japonês nascido em 1979 em Tóquio e radicado em Paris, onde fundou o ATTA – Atelier Tsuyoshi Tane Architects em 2006. Com atuação em projetos culturais, institucionais e de paisagismo, Tane desenvolveu uma abordagem arquitetônica que posiciona a memória como diretriz fundamental do projeto. Em sua entrevista ao Louisiana Channel, gravada em seu estúdio em Paris, ele reflete sobre a arquitetura como uma disciplina de observação e pensamento, argumentando que o design significativo surge de uma leitura atenta dos vestígios contidos em um terreno. Para ele, a arquitetura não é produzida a partir de uma tela em branco, mas começa com uma investigação sobre o que já existe física, cultural e emocionalmente sob a superfície de um lugar.
O escritório de paisagismo e desenho urbano SLA revelou o projeto para o espaço público e as vias urbanas de uma nova comunidade de 39,8 hectares à beira-mar em Toronto. O projeto de paisagismo urbano "Ookwemin Minising" está localizado em Port Lands, um distrito industrial e recreativo a sudeste do centro de Toronto, que atualmente passa por uma revitalização urbana para transformar a antiga zona industrial em um vale fluvial renaturalizado, bairros de uso misto e parques públicos. A transformação geral está sendo liderada pela Waterfront Toronto, uma corporação sem fins lucrativos financiada por recursos públicos, fundada em 2001 para supervisionar a regeneração da área, como parte de uma iniciativa governamental mais ampla para renaturalizar áreas urbanas e aumentar a densidade habitacional. Espera-se que a reurbanização de Ookwemin Minising seja concluída em fases entre 2031 e 2040.
Quando coberturas se articulam, paredes deslizam e estruturas inteiras respondem a seus/suas ocupantes, algo extraordinário acontece: os espaços arquitetônicos tornam-se componentes ativos dos rituais cotidianos. Esses momentos de abertura, fechamento, deslocamento e transposição espacial ancoram os edifícios no momento presente e exigem um engajamento ativo dos/as usuários/as. A arquitetura deixa de ser apenas um objeto ou monumento para se transformar em uma coreografia de participação.
Quando a Cidade do México sediou as Olimpíadas em 1968, foi a primeira vez que os Jogos foram concedidos a um país latino-americano, bem como a primeira vez que uma nação de língua espanhola os sediou. Isso fez dos jogos uma excelente oportunidade para projetar o México e sua cultura internacionalmente, levando o governo a constituir um comitê organizador com grandes talentos locais. Para a presidência do comitê, foi nomeado Pedro Ramírez Vázquez, arquiteto mexicano que exercia grande influência sobre o programa de obras públicas do Estado em meados do século. Sua abordagem era clara: a arquitetura como uma síntese da técnica modernista internacional com referências pré-colombianas e a cultura material local. Sob sua direção, o comitê supervisionou a construção e a adaptação de locais de competição distribuídos pelas zonas sul da Cidade do México, quase todos concebidos e construídos por profissionais locais de arquitetura, engenharia e áreas técnicas.
Ao longo dos anos, a arquitetura de cinemas tem se reinventado continuamente. De experiências cinematográficas que aguçam múltiplos sentidos a tecnologias materiais que reinterpretam a estética de eras passadas, o conceito da sala de cinema tem viabilizado a recuperação, a revitalização e a renovação de inúmeros espaços obsoletos, em ruínas ou mesmo protegidos pelo patrimônio histórico. Assim como o Majestic Cinema reflete uma importante função comunitária em Zanzibar, na Tanzânia, muitos edifícios do século XX encontraram no reuso adaptativo uma oportunidade para restaurar e preservar culturas, memórias e tradições que permanecem significativas para suas comunidades.
Stefano Boeri Architetti, Depositi Delle Vittorie Render. Imagem cortesia de Stefano Boeri Architetti
A Prefeitura de Roma aprovou um Memorando para a regeneração urbana do Depositi delle Vittorie na Piazza Bainsizza, um antigo depósito da ATAC em Roma que remonta ao início do século XX. Abandonado há quase duas décadas e hoje de propriedade privada, o local será transformado em um complexo multifuncional projetado por Stefano Boeri Architetti. O projeto prevê o reuso adaptativo da antiga infraestrutura de transporte por meio da introdução de funções culturais, educacionais, comerciais, de co-working e lazer, além de novos espaços públicos e amplas áreas paisagísticas.
Após um concurso internacional de projeto lançado em janeiro de 2026, o Museu de Arte Contemporânea do Panamá (MAC Panamá) anunciou a seleção dos escritórios mexicanos Palma + Taller TO para projetar seu novo edifício. O museu é descrito como "uma nova infraestrutura cultural aberta à cidade, concebida a partir da identidade, do clima e da paisagem do Panamá." A futura sede do museu ficará localizada no corregimento de San Francisco, consolidando a área como um polo de atividade cultural. Os critérios de seleção envolveram a relação entre o museu e a cidade, priorizando propostas que integrassem elementos de engajamento comunitário e que posicionassem o edifício como uma infraestrutura cultural, enriquecendo o ambiente urbano contemporâneo da Cidade do Panamá.
Celebrado anualmente em 25 de maio, o Dia da África comemora a fundação da Organização da Unidade Africana em 1963, atual União Africana. Instituída em um período marcado por movimentos de independência em todo o continente, a data reconhece não apenas a solidariedade política, mas também as trajetórias culturais, sociais e intelectuais que continuam a moldar as sociedades africanas hoje. No campo da arquitetura e do urbanism, essas histórias se refletem em debates em constante evolução sobre a construção de nações, a preservação do patrimônio, o design responsivo ao clima, a inovação material e as práticas centradas na comunidade.
Vinte anos após sua idealização, a controversa Tour Triangle, projetada por Herzog & de Meuron em Paris, está em fase de conclusão. A torre triangular, toda em vidro, localizada no 15º arrondissement da cidade, atingiu sua altura máxima de 42 andares em 24 de abril de 2026. O avanço do projeto foi marcado por oposição, entraves financeiros e disputas judiciais antes do início das obras em 2022. A torre de 180 metros de altura é hoje o terceiro edifício mais alto dentro dos limites da cidade de Paris, atrás apenas da Torre Eiffel, com 330 metros de altura, do The Link, com 231 metros, em La Défense, e da Tour Montparnasse, de 210 metros. O edifício manterá esse título por tempo indeterminado devido à proibição de arranha-céus restabelecida em 2023 pela prefeita Anne Hidalgo, após persistente oposição a edifícios altos na cidade. O avanço recente das obras foi documentado pelo fotógrafo Stefano Candito, abrangendo desde vistas urbanas do edifício até registros detalhados de sua estrutura quase concluída.
Situada na interseção entre as paisagens do Adriático e a geopolítica dos Bálcãs, Tirana passou por uma das transformações urbanas mais aceleradas da Europa nas últimas três décadas. Outrora definida por um rígido planejamento socialista e pelo isolamento político, a cidade se reorientou progressivamente por meio de uma combinação de crescimento informal, investimento internacional e intervenções urbanas estratégicas que buscam redefinir sua imagem pública e estrutura espacial.
Desde o início dos anos 2000, uma série de políticas públicas urbanas, notadamente aquelas iniciadas durante o mandato de Edi Rama como prefeito (atual primeiro-ministro da Albânia), promoveu o uso da cor, do espaço público e da experimentação arquitetônica como ferramentas de reativação cívica. Em vez de depender exclusivamente de planos diretores, o desenvolvimento de Tirana tem se operado por meio de intervenções, nas quais edifícios individuais e espaços públicos funcionam como catalisadores em um tecido urbano fragmentado.
"Café ou chá?" é uma daquelas frases que nos acompanham em diversos contextos: ouvida em aviões, após as refeições, em lounges de hotéis e em salas de reunião. Soa como uma pergunta simples — mera preferência, uma rápida ramificação no roteiro de atendimento. No entanto, ela também carrega uma sutil herança cultural. O chá traz consigo a longa história do ritual e do ritmo doméstico, ligada a antigas geografias de comércio e à etiqueta cotidiana. Já o café surge de uma linhagem diferente de circulação, posteriormente industrializada no café moderno e em seus rituais públicos. Em ambos os casos, a bebida nunca é apenas uma bebida; trata-se de uma relação praticada com o tempo e o espaço.
No Leste Asiático contemporâneo, no entanto, "café ou chá" assume cada vez mais outro significado: imperceptível ou inconscientemente, a frase torna-se uma escolha sobre onde se deseja estar. Cada bebida agora carrega uma expectativa espacial. O café pressupõe um ambiente que se pode ocupar — frequentemente um lugar para pausar, trabalhar, encontrar pessoas ou refrescar-se. O chá, apesar de culturalmente onipresente, manifesta-se de forma mais difusa pela cidade — ora como um destino dedicado, ora como um quiosque de alta rotatividade e, muitas vezes, como uma opção padrão integrada a tipologias gastronômicas. O resultado é que uma pergunta formulada em termos de paladar passa a funcionar como um indicador sutil de preferência espacial: se o que se busca é permanência ou velocidade, confinamento ou fluxo, um terceiro lugar ou um nó rápido na rua.
Sentados em bancos baixos, conversando informalmente, vestindo roupas confortáveis e cercados por livros, objetos de design e obras de arte, Charles e Ray Eames aparecem em uma das imagens mais emblemáticas da domesticidade moderna do pós-guerra nos Estados Unidos. A casa não se apresenta como um manifesto arquitetônico explícito, mas sim como um espaço habitado, apropriado, cotidiano. Ainda assim, quase tudo nessa cena funciona como a síntese de um ideal cuidadosamente construído: a informalidade moderna, a integração entre arquitetura e vida cotidiana aliada à coexistência da produção industrial. Mais do que representar uma residência, a fotografia projeta um modo de vida. E talvez essa tenha sido, desde o início, a ambição central por trás das Case Study Houses.
Na época em que este texto foi escrito, um artigo de Martyn Evans perguntava "A arquitetura está em crise?". No mesmo ano, Reinier de Graaf publicou o livro "Architecture Against Architecture", no qual expôs quatorze problemas da profissão e da disciplina. A questão de uma crise na arquitetura é perene. No que se refere à arquitetura como profissão, esse debate costuma vir à tona especialmente quando crises econômicas são previstas ou já estão em pleno curso. Paralelamente, persistem questionamentos sobre a eficácia da arquitetura em lidar com os problemas mais urgentes do planeta e da sociedade — habitação, mudanças climáticas e desenvolvimento humano. Uma iniciativa que busca enfrentar essas questões é o MASS, fundado em Ruanda pouco tempo após a crise financeira de 2008. A pista está no próprio nome, uma sigla para Model of Architecture Serving Society (Modelo de Arquitetura a Serviço da Sociedade). O MASS foi criado como uma forma diferente de praticar a arquitetura.
Em Gabrovo, na Bulgária, o município convida arquitetos e arquitetas a projetar o Centro de Arte Contemporânea Christo e Jeanne-Claude, transformando, adaptando e modernizando a antiga Escola Técnica Têxtil e seu terreno adjacente. Com cofinanciamento da União Europeia, um orçamento definido, um júri de especialistas e uma estrutura em duas fases, este concurso reflete o próprio espírito da prática artística de Christo and Jeanne-Claude: uma criação artística audaciosa e acessível. Mais do que a encomenda de um edifício cultural, a iniciativa exige uma proposta projetual que compreenda o caráter específico de sua obra, agregando uma dimensão curatorial ao que, de outro modo, seria um simples projeto de reuso adaptativo.
No dia 21 de maio, uma caverna realista tomou forma na Pont Neuf, em Paris, a ponte mais antiga ainda de pé sobre o rio Sena. A obra de arte inflável foi projetada e construída pelo fotógrafo e artista de rua francês JR, juntamente com uma ampla equipe multidisciplinar. La Caverne du Pont Neuf foi concebida em homenagem a The Pont Neuf Wrapped, obra de 1985 de Christo e Jeanne-Claude, uma intervenção artística ambiental na qual a dupla de artistas envolveu a histórica ponte em um tecido cor de arenito por duas semanas. A estrutura cria um efeito trompe-l'œil que simula uma formação rochosa texturizada por meio de impressão fotográfica em tons de branco, preto e cinza. O formato do exterior já oferece ao público a ilusão de ótica da obra, ao mesmo tempo em que prepara o terreno para a etapa final do projeto de interiores.
Vista aérea de colinas verdes exuberantes e casas tradicionais em Cauca, Colômbia, destacando a natureza e o turismo rural. Imagem por Jhampier Giron M, via Shutterstock
Antes que um edifício possa ser habitado, muitos outros processos precisam ocorrer. A água deve chegar, a energia deve ser gerada, o alimento precisa ser cultivado ou transportado e os resíduos devem ter uma destinação. Esses processos geralmente são tratados como algo alheio à arquitetura, embora moldem as condições mais básicas da vida cotidiana.
Por essa razão, a ideia de comunidades autossuficientes é mais complexa do que parece à primeira vista. Ela pode sugerir um lugar que provê a maior parte de suas necessidades: energia, água, alimento, abrigo e gestão de resíduos. Contudo, em muitos contextos latino-americanos, a autonomia não significa uma separação completa do mundo, mas sim uma forma de aproximar os sistemas da vida cotidiana das pessoas que os utilizam, mantêm e cuidam deles.
Parque Prado, Colômbia, por Connatural Arquitectura en el Paisaje, Vencedor da Categoria 5 do Prêmio UIA 2030. Imagem cortesia de International Union of Architects (UIA)
As notícias desta semana revelam um foco crescente em reconectar o design com a realidade física, seja por meio da construção, da paisagem, do espaço público ou da participação coletiva. Da proposta curatorial da próxima Bienal de Arquitetura de Veneza 2027 a projetos reconhecidos internacionalmente que abordam a resiliência a enchentes, habitação acessível e restauração ecológica, muitos dos debates da semana questionaram o crescente distanciamento da arquitetura em relação às condições materiais, ambientais e sociais. Ao mesmo tempo, grandes intervenções culturais, estruturas temporárias e fóruns públicos exploraram como as instituições e os espaços cívicos podem se tornar mais acessíveis, adaptáveis e engajados com a vida urbana cotidiana.