Castelo de Hurst em Hampshire, Inglaterra. Uma fortaleza construída por Henrique VIII que sofreu um colapso parcial em 2021. Imagem via World Monuments Fund
O World Monuments Fund (WMF), uma organização independente sem fins lucrativos dedicada à preservação da arquitetura histórica e do patrimônio cultural desde 1965, recebe indicações por meio do World Monuments Watch, seu principal programa de defesa e conservação. A cada dois anos, o Watch seleciona 25 locais a partir das indicações enviadas por indivíduos e organizações de base comunitária de todo o mundo. As indicações para o World Monuments Watch de 2027 foram encerradas em 20 de março de 2026, totalizando 372 propostas públicas de 84 países e territórios. Antes de anunciar os locais selecionados no início de 2027, o WMF apresenta uma análise das candidaturas. Os dados globais apontam três causas principais de ameaça ao patrimônio no mundo: a austeridade governamental, a intensificação dos impactos climáticos e a falta de acesso a habilidades e conhecimentos técnicos especializados. Em um momento em que as prioridades políticas tendem a se afastar da história, o apelo é para que se reconheçam os sítios históricos como espaços de oportunidade compartilhada, e não como um fardo.
O que torna um edifício digno de preservação? A idade é a resposta mais comum, mas nem sempre a melhor. Um edifício das décadas de 1950 ou 1970 pode ter tanta relevância histórica quanto uma catedral medieval; a questão exige apenas uma abordagem diferente, que pondere o contexto político, o significado cultural e a inovação arquitetônica em vez da mera passagem do tempo. Isso se aplica sobretudo à arquitetura modernista no chamado Sul Global, onde o movimento assumiu formas de expressão singulares.
É justamente esse debate que o ArchDaily e o World Monuments Fund (WMF) estão abrindo juntos. O WMF traz sua expertise prática em conservação ao redor do mundo, enquanto o ArchDaily entra com a capacidade editorial para contextualizar esse trabalho e conectá-lo a um público global. O objetivo é atuar em duas frentes simultâneas: preservar lugares e contar suas histórias, moldando a compreensão do patrimônio modernista para muito além do próprio campo da preservação.
Casa sobre el Arroyo, Amancio Williams. Imagem via World Monuments Fund
O que acontece com uma casa quando a vida para a qual ela foi projetada chega ao fim? Na Casa sobre el Arroyo, a resposta se desenrolou gradualmente à medida que o edifício mudou de uso, propriedade e estado de conservação ao longo de quase oito décadas. Mesmo diante dessas transformações, a estrutura, a circulação e a relação com o terreno permaneceram fundamentais para a compreensão da casa e, eventualmente, para seu restauro.
Projetada por Amancio Williams e Delfina Gálvez Bunge de Williams a partir de 1943 para o pai de Amancio, Alberto Williams, a Casa sobre el Arroyo nasceu diretamente das condicionantes de seu terreno em Mar del Plata, Argentina. Em vez de tratar o arroio Las Chacras como um obstáculo a ser contornado, o projeto o utiliza para organizar a própria casa. Um arco de concreto armado cruza as águas e eleva os espaços de permanência, transformando o curso d'água em parte da experiência de circulação e habitação da casa.
Da esquerda para a direita: Oanh Nguyen Henriksen (Foto: Tuala Hjarnø), Susana Rojas Saviñón (Foto: Estudio Ome), Javier Ors Ausín, Sumayya Vally (Foto: Lou Jasmine), Charles Kettaneh e Nicolas Fayad (EAST Architecture Studio, Foto: Julien Lanoo)
Desde o seu lançamento em 2020, o ArchDaily Next Practices Awards tem destacado escritórios de arquitetura inovadores que estão redefinindo as fronteiras da disciplina. Ao longo de cinco edições, a iniciativa já reconheceu 105 escritórios de 44 países, amplificando vozes de todo o mundo e fomentando um diálogo global sobre o papel em constante evolução da arquitetura na sociedade. Entre as práticas premiadas, emergem valores recorrentes: sensibilidade ao contexto, uso sustentável de materiais, cocriação com comunidades, abordagens experimentais e interdisciplinares, memória e patrimônio, responsabilidade social e intervenções em escala humana.
O programa reflete o que vem a seguir: as ideias, práticas e projetos que devem ser levados adiante. O termo "Next" sintetiza escritórios que encontram soluções para os desafios urgentes de hoje enquanto antecipam as necessidades de amanhã. Ao destacar essas práticas, esperamos iluminar os caminhos que podem levar a um futuro mais significativo e resiliente para a arquitetura e além dela.
Exterior of the Cinema Studio Namibe, Angola. Photo credit: Walter Fernandes
O que sustenta o propósito de uma arquitetura que nunca foi ocupada? Durante décadas, essa foi a pergunta que rondou o Cinema-Estúdio de Namibe, construído na costa da Angola, em 1973. Concebido para ser um espaço de exibição cinematográfica, o edifício permaneceu fechado e abandonado sem nunca exercer o papel para o qual foi criado. Ainda assim, sobreviveu ao tempo, tornando-se um ícone da paisagem e da arquitetura angolana, até finalmente exibir seu primeiro filme quase cinquenta anos depois.
Mas o que manteve esse edifício vivo no imaginário coletivo durante tanto tempo? Teria sido justamente sua arquitetura ousada e singular capaz de atribuir significado a uma obra que nunca teve um uso?
Quando os países africanos conquistaram sua independência do domínio colonial europeu em meados do século XX, a construção nacional envolveu muito mais do que estabelecer novos governos e instituições políticas. Os novos Estados soberanos também precisavam estabelecer uma identidade edificada que os diferenciasse de seu passado colonial, e a arquitetura tornou-se uma ferramenta crucial nesse processo. Em todo o continente, edifícios cívicos monumentais, universidades, centros de convenções e instituições culturais foram encomendados para personificar o progresso e a unidade nacional. No entanto, isso criou uma contradição fundamental: muitos desses edifícios adotaram linguagens arquitetônicas modernistas e brutalistas de origem europeia, sendo que alguns foram inclusive projetados por profissionais de arquitetura das antigas potências coloniais. A Maison du Peuple em Ouagadougou, Burkina Faso, oferece um exemplo particularmente revelador de como uma linguagem arquitetônica associada à Europa pôde ser apropriada e transformada em uma expressão de independência pós-colonial.
No coração do distrito de Navrangpura, em Ahmedabad, na Índia, ergue-se o Estádio Sardar Vallabhbhai Patel. Muito mais do que um campo de críquete, o estádio representa um dos primeiros experimentos da Índia em arquitetura pública modernista. Construída nas décadas que se seguiram à independência do país, a estrutura tornou-se não apenas um marco da engenharia, mas também um espaço público de destaque na malha urbana de Ahmedabad. Apesar do significado arquitetônico e histórico do edifício, bem como de sua profunda inserção na vida cotidiana da comunidade, a estrutura sofreu uma degradação física significativa devido a décadas de manutenção precária e falta de recursos. Essa fragilidade foi justamente o que atraiu a atenção internacional. Em 2020, o World Monuments Fund (WMF) incluiu o Estádio Sardar Vallabhbhai Patel no World Monuments Watch, uma lista global que destaca sítios de patrimônio cultural que enfrentam desafios urgentes de preservação.
Como pilares da nossa paisagem cultural, muitas obras-primas do Movimento Moderno são frequentemente demolidas, abandonadas ou alteradas, independentemente do contexto em que estão inseridas. Preservar esse legado arquitetônico destaca o papel dos/as profissionais de arquitetura e design na configuração de ambientes construídos onde a continuidade entre o passado e o presente reforça o senso de lugar das comunidades. Em Long Island, uma coalizão de defensores uniu forças para salvar a Casa A. Conger Goodyear, projetada em 1938 por Edward Durell Stone. Considerada um dos exemplos mais notáveis do Estilo Internacional nos Estados Unidos, a residência atraiu grande atenção ao longo da década de 1940, figurando em periódicos especializados, livros e publicações de grande circulação.
World Monuments Fund (WMF) é uma organização independente dedicada a salvaguardar lugares de grande valor em todo o mundo que enriquecem vidas e promovem a compreensão mútua entre culturas e comunidades. No dia 10 de fevereiro, o WMF anunciou um compromisso de US$ 7 milhões para apoiar 21 projetos de preservação do patrimônio que serão lançados em 2026. Esses investimentos impulsionam o trabalho em locais incluídos no 2025 World Monuments Watch, o programa de defesa do WMF baseado em indicações, ao mesmo tempo em que apoiam novas fases de conservação, planejamento e capacitação em outros sítios patrimoniais em cinco continentes. Os locais selecionados refletem uma ampla variedade cronológica e geográfica, desde paisagens culturais antigas até marcos arquitetônicos modernos. Os projetos destacam a diversidade do patrimônio global, abrangendo desde jardins mogóis e complexos religiosos otomanos até cinemas modernistas, paisagens de mineração industrial, rotas culturais indígenas e santuários sagrados, evidenciando o conhecimento cultural de longo prazo incorporado em sua preservação.
O World Monuments Fund (WMF) é uma organização independente dedicada a salvaguardar lugares significativos que enriquecem a vida das pessoas e promovem a compreensão mútua entre culturas e comunidades. Desde 2008, o World Monuments Fund/Knoll Modernism Prize é um prêmio bienal que reconhece conquistas de destaque na conservação de edifícios emblemáticos do movimento arquitetônico modernista. A premiação homenageia pessoas e organizações que revitalizam o patrimônio moderno construído por meio de intervenções arquitetônicas inovadoras e sensíveis.
Em 22 de janeiro de 2026, o WMF e a Knoll anunciaram o escritório de arquitetura australiano Architectus como o vencedor do World Monuments Fund/Knoll Modernism Prize de 2026 pela restauração do histórico Africa Hall das Nações Unidas em Adis Abeba, na Etiópia. O júri reconheceu o projeto por restabelecer uma obra marcante do modernismo africano como um espaço ativo de diplomacia e intercâmbio cultural. Além do prêmio principal, o júri concedeu à Umbrella House, de Paul Rudolph, em Sarasota, Flórida (Estados Unidos), o Stewardship Award for Modernist Homes.
A estrutura foi originalmente construída para sediar partidas internacionais e domésticas de críquete. Na década de 1950, o Clube de Críquete de Ahmedabad recebeu um terreno de 67.000 metros quadrados para construir um Estádio de Críquete. Ele foi o primeiro campo de grama do país e testemunhou a realização da primeira partida de críquete na Índia. O SVP é um lugar significativo para a comunidade do críquete no país, pois tem sido um berço de talentos e tem contribuído para o desenvolvimento de jovens jogadores de críquete. Vários jogadores lendários da Índia também jogaram no estádio.
Paisagem Cultural Yanacancha-Huaquis, Peru. Cortesia da imagem do World Monuments Fund
O World Monuments Fund (WMF) anunciou que dedicará mais de US$ 10 milhões para projetos de preservação destinados a proteger sítios culturalmente significativos de todo o mundo com necessidade urgente de intervenção. As iniciativas variam em escopo, de sítios ucranianos históricos até a proteção de sítios arqueológicos remotos representativos da Civilização Chachapoyas do Peru. O conjunto de projetos lançados em 2023 visa abordar e ajudar a mitigar as ameaças enfrentadas pelos lugares tombados: conflitos, mudanças climáticas e sub-representação.
Acabamos de ultrapassar a marca de seis meses desde que a Rússia iniciou guerra e invadiu cidades na Ucrânia, causando destruição em escala local e global. Desde o início da guerra, milhões de ucranianos foram obrigados a se deslocar internamente, perdendo suas casas, negócios e famílias. A UNESCO verificou danos em 139 localidades, incluindo 62 sítios religiosos, 12 museus, 26 edifícios históricos, 17 edifícios dedicados a atividades culturais, 15 museus e sete bibliotecas em Kiev, Chernihiv, Kharkiv, Zaporizhzhya, Zhytomyr, Donetsk, Lugansk e Sumy .
Para ajudar a mitigar as repercussões devastadoras da guerra sobre os ucranianos e o patrimônio do país, várias iniciativas humanitárias, de preservação e econômicas foram implementadas por ONGs e governos de todo o mundo.
Heritage Buildings of Beirut, Lebanon. Image via World Monuments Fund
O World Monuments Fund divulgou sua lista World Monuments Watch 2022, uma seleção de 25 sítios em todo o mundo que possuem grande importância cultural e patrimonial, mas estão enfrentando ameaças econômicas, políticas ou naturais. A seleção deste ano destaca questões globais como mudanças climáticas, turismo desenfreado, sub-representatividade e recuperação após crises, exigindo planos de preservação imediatos.
Índia, Post-Independence Architecture of Delhi. The Hall of Nations, a complex of exhibition halls built for the 1972 International Trade Fair, was demolished in April 2017. Ariel Huber, Lausanne/World Monuments Fund
O World Monuments Fund publicou uma lista de monumentos ao redor do mundo que merecem cuidado especial em 2018, destacando 25 patrimônios culturais do mundo todo que atualmente estão em risco devido a ameaças econômicas, políticas ou naturais. Abrangendo mais de 30 países e territórios, esses monumentos possuem valores culturais inestimáveis que datam desde a pré-história até o século XX.
O World Monuments Fund divulgou a lista "2016 World Monuments Watch" com 50 locais de patrimônio cultural de 36 diferentes países que estão em situação de risco. A lista, em sua vigésima edição, busca identificar locais "em risco pelas forças da natureza ou pelo impacto das mudanças sociais, políticas e econômicas" e direciona apoio financeiro e técnico para tais sítios.
A lista de 2016 inclui todos os monumentos e obras danificados pelo terremoto no Nepal, uma cidade submersa, o único arco quadrifronte ainda de pé em Roma e uma torre de estrutura hiperboloide, entre outras antigas construções.
Saiba mais sobre os monumentos listados, a seguir.
O 2014 World Monuments Fund/Knoll Modernism Prize foi concedido ao Comitê Finlandês pelo restauro da Biblioteca Viipuri de Alvar Aalto em Vyborg, Rússia. "Projetada por Aalto e construída entre 1927 e 1935, na cidade de Viipuri (até então na Finlândia)", informava o comunicado de imprensa do WMF, "a biblioteca reflete a emergência da distinta combinação de formas e materiais orgânicos com os princípios de clara expressão funcionalista, que se tornou a marca da arquitetura de Aalto."
Uma citação de Barry Bergdoll e mais imagens, a seguir.