Embora muitos pioneiros da arquitetura verde corram o risco de ser rotulados como monótonos e "tecnocráticos" (technocratic), tais críticas nunca atingiram Emilio Ambasz. Desde a década de 1970, sua premissa de "o verde sobre o cinza" ("green over gray") tem impulsionado os debates sobre sustentabilidade na arquitetura. Ao mesmo tempo, ele desenvolveu uma abordagem crítica para investigar o significado e a gênese formal do espaço construído, permitindo-lhe ombrear-se com mentes brilhantes e de inclinação mais poética e romântica em um cenário profissional altamente competitivo.
Antes da abertura de "Emilio Ambasz: Architecture Toward Nature", exposição com curadoria de Vladimir Belogolovsky que estará em cartaz na Autoridade de Redesenvolvimento Urbano de Singapura de 6 a 28 de fevereiro de 2017, o autor compartilha aqui sua entrevista com Ambasz para a coluna City of Ideas.
Vladimir Belogolovsky (VB): Sei que você descobriu muito cedo que queria ser arquiteto. Aos 11 anos, você já organizava uma exposição sobre arquitetura americana em Buenos Aires. O que despertou seu interesse inicial pela arquitetura?
Vivo em uma bolha. Salto de conversa em conversa com arquitetos e arquitetas que vivem em suas próprias bolhas. Fico pulando de uma bolha para a outra. Essas bolhas são formadas pelos profundos desalinhamentos e discrepâncias entre o que esses profissionais dizem e o que de fato fazem. Gosto de me aventurar em suas mentes fascinantes; elas moldam a mitologia da arquitetura na qual adoro habitar. Na entrevista a seguir, o arquiteto, educador e crítico Zhang Li, radicado em Pequim, me ajudou a diagnosticar essas discrepâncias. Ele afirmou: “Não importa quão moral, ético ou correto você seja; se não for capaz de criar coisas belas, estará condenado... A arquitetura é grandiosa porque é bela.”
Zhang Li formou-se na Universidade de Tsinghua, em Pequim, e lecionou em prestigiosas universidades europeias e americanas. Atuou como professor de arquitetura e chefe do Departamento de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Tsinghua, a mais renomada instituição de ensino superior da China. Seu escritório com 50 profissionais, o Atelier TeamMinus, foi fundado em 2001. Desde 2012, o arquiteto atua como editor-chefe da prestigiada revista mensal chinesa World Architecture. A seguir, apresentamos um trecho de nossa recente conversa em seu estúdio em Pequim.
De origem italiana, os/as arquitetos/as Massimiliano e Doriana Fuksas nasceram e cresceram em Roma. Ambos se formaram na Universidade de La Sapienza – ele em 1969, ela uma década depois. Ele começou seus estudos como pintor, enquanto ela inicialmente se dedicou à história da arte. No início dos anos 60, Massimiliano foi assistente de Giorgio De Chirico e, após a formatura, trabalhou para o Archigram em Londres e, em seguida, para Henning Larsen e Jørn Utzon em Copenhague. Ele fundou seu primeiro escritório, o GRANMA, em 1967. Doriana juntou-se a ele em 1985 e tornou-se sócia em 1997. Posteriormente, foram abertas filiais em Paris (1989) e em Shenzhen (2004). Em 2000, Massimiliano Fuksas atuou como Diretor da 7ª Bienal de Arquitetura de Veneza sob o tema "Menos Estética, Mais Ética". As obras construídas mais reconhecidas da dupla incluem o Museu do Grafite em Ariège, França; o Aeroporto Internacional Bao'an de Shenzhen; o Centro de Convenções EUR em Roma; a Nova Feira de Milão, Rho-Pero; o Zenith Music Hall em Estrasburgo; e a Casa da Paz Peres em Jafa, Tel Aviv. Encontrei-me com os/as arquitetos/as durante sua recente visita a Nova York onde, até o momento, realizaram apenas um projeto, a flagship store da Armani na 5ª Avenida. Conversamos sobre como eles recomeçam a cada projeto, sua preocupação com o futuro e por que os edifícios deveriam tentar se transformar em algo mais.
Gravado em 31 de agosto de 2011 no escritório de Nova York do/a arquiteto/a
Conheci Daniel Libeskind em 18 de dezembro de 2002, quando ele apresentou sua visão para o New World Trade Center no recém-restaurado Winter Garden do World Financial Center. Vejo aquela manhã como o nascimento do fenômeno dos “starchitects” e ele como o primeiríssimo expoente dessa tendência. Pela forma como se apresentou diante da grande mídia global e pela maneira como o fez, ficou claro: ali estava o vencedor. Algo despertou em mim e pensei: preciso entrevistar este/a grande arquiteto/a, mesmo sem nunca ter entrevistado ninguém antes. No entanto, assim que ele deixou o palco, foi cercado pela imprensa. Dezenas de perguntas superficiais surgiam de todos os lados... Olhei para o outro lado do grande átrio e vi a esposa de Libeskind, Nina, de pé, orgulhosa, mas sozinha. Conversamos rapidamente e agendamos minha primeiríssima entrevista para o dia seguinte!
Os/as arquitetos/as chineses/as contemporâneos/as podem ser divididos/as em duas categorias principais. De um lado, há uma enorme rede de institutos de projeto governamentais e universitários; de outro, escritórios de arquitetura independentes e privados — um fenômeno iniciado pelo arquiteto Yung Ho Chang quando ele abriu a primeira prática desse tipo em 1993. Embora tenham sido esses/as arquitetos/as independentes os/as responsáveis por produzir muitas obras originais, em sua maioria de pequena escala, que coletivamente estabeleceram uma nova identidade arquitetônica inconfundivelmente chinesa, são os institutos de projeto que produzem a maior parte do ambiente construído no país. Por essa razão, quis conversar com Weiping Shao, arquiteto-chefe executivo do Beijing Institute of Architectural Design (BIAD). De certa forma, Shao é o arquiteto-chefe da capital chinesa. Ele também atua como diretor executivo da Architectural Society of China. Shao formou-se na Universidade de Tongji, em Xangai, em 1984, com mestrado. Além de liderar as frentes de projeto do BIAD, o arquiteto é o diretor e principal projetista de seu escritório de 30 arquitetos/as, chamado UFo, fundado em 2003. Encontramo-nos no escritório de Shao, repleto de revistas internacionais e com uma ampla vista do centro de Pequim, e conversamos com o auxílio do/a tradutor/a e arquiteto/a Zewo Zhou, que trabalha no escritório.
Fundado em 1973 por Simeon Bruner e Leland (Lee) Cott, o escritório Bruner/Cott Architects é liderado hoje por três diretores/as de segunda geração, Jason Forney, Jason Jewhurst e Dana Kelly, que assumiram a prática em 2016. Com uma atuação que abrange um amplo espectro de projetos em nível regional e nacional, o escritório é amplamente reconhecido por seus projetos de reuso adaptativo de edifícios históricos, industriais e de meados do século XX, incluindo o MASS MoCA em North Adams, Massachusetts, bem como por projetos voltados para o futuro com consumo de energia líquido zero, como o R.W. Kern Center no Hampshire College em Amherst, Massachusetts.
No ano passado, recebi um convite para lecionar no ateliê de projeto pela primeira vez na Universidade de Tsinghua, em Pequim, sede da melhor faculdade de arquitetura da China e uma das mais prestigiadas do mundo, segundo as classificações internacionais mais recentes. Lá, conheci Qing Fei e Frank Fu, casal de arquitetos e docentes. Assim que presenciei sua abordagem pouco convencional de ensino, desafiando os estudantes com questionamentos rigorosos, quis entrevistá-los. Sua metodologia inovadora não correspondia à minha impressão sobre como a arquitetura é tratada na China. Graduados pela Tsinghua, Fei e Fu mudaram-se para os Estados Unidos no final da década de 1980, onde estudaram, trabalharam e pesquisaram arte e arquitetura por quase duas décadas.
University of Massachusetts Amherst John W. Olver Design Building. Foto: Albert Vecerka / Esto
Sediado em Boston, o escritório Leers Weinzapfel Associates foi fundado por duas mulheres, Andrea Leers e Jane Weinzapfel, em 1982, às quais se juntou mais tarde uma nova geração de sócios, Josiah Stevenson e Tom Chung. A maior parte de seu trabalho é realizada em campi universitários nos Estados Unidos, mas isso dificilmente pode ser apontado como o foco exclusivo do escritório, já que os campi são, na verdade, cidades em miniatura que abrigam quase todos os tipos de programas imagináveis. O grande diferencial, no entanto, é que os edifícios universitários são geralmente projetados com mais idealismo do que os projetos em nossas cidades caóticas e subúrbios mundanos.
Oscar Ko nasceu em Harbin, na China, e mudou-se com os pais para Hong Kong aos cinco anos de idade. Obteve seu Bacharelado em Arquitetura pela Universidade de Michigan e o título de mestre pela Columbia University em 2006. Após passar sete anos nos Estados Unidos, mudou-se para a Europa, onde seu plano original era permanecer por quatro ou cinco anos — ou mais. No entanto, ao conversar com amigos mais velhos que atuavam na China, percebeu rapidamente que havia mais oportunidades em seu país natal. Depois de trabalhar por menos de dois anos em escritórios de prestígio — Josep Lluis Mateo Architects em Barcelona, David Chipperfield Architects em Berlim e Space Group Architects em Oslo, na Noruega —, regressou à China, onde trabalhou por alguns anos em duas importantes práticas sediadas em Pequim: Studio Zhu-Pei e Chiasmus Partners.
Centro Cultural Stavros Niarchos, 2008-16, Atenas, Grécia
A seguir, apresentamos um trecho de nossa conversa de uma hora e meia no movimentado Renzo Piano Building Workshop em Nova York, bem em frente ao Whitney Museum de 2015, também de autoria de Piano. Embora possa não ser tão inventivo quanto seus projetos anteriores, ainda assim, esse edifício-couraçado atrai o público repetidamente, revelando algo novo a cada visita, tanto em seu interior quanto na cidade ao redor, vista de seus terraços abertos e escadarias de conexão. Discutimos alguns dos projetos atuais e passados do/a arquiteto/a, enquanto ele refletia sobre beleza, intuição, imaginação e, naturalmente, a necessidade do protesto.
É fim de maio de 2016, a Bienal "Reporting from the Front", de Alejandro Aravena, está prestes a começar no dia seguinte e acabo de pousar no aeroporto de Veneza. Os vaporettos já não circulam a esta hora da noite, por isso sigo em direção a um táxi aquático, pensando que me custará uma fortuna chegar à cidade. Ou talvez não! Vejo uma figura solitária: "Você está indo para Veneza? Gostaria de compartilhar um táxi?" Uma jovem chinesa aceita sem hesitar. Assim que o barco parte, continuo testando a minha sorte: "Por acaso você é arquiteta?" Sim! A hora seguinte passou sem que percebêssemos, enquanto discutíamos nossa disciplina e amigos em comum. Dois anos se passaram e estou de volta à Bienal de Veneza. Na abertura do Pavilhão da China, vou pulando de conversa em conversa até ser apresentado a Xu Tiantian, "a arquiteta mais promissora da China". Olhamos um para o outro e dissemos em uníssono: "A garota/o cara do táxi!" Finalmente trocamos contatos e, na minha viagem seguinte a Pequim, nos encontramos no escritório de Xu, o DnA Design and Architecture. O que se segue, após uma breve introdução, é um trecho dessa conversa.
De onde vêm a originalidade e o pensamento independente? A resposta é prosaicamente direta: de um indivíduo questionador — e um ambiente experimental certamente ajuda a estimulá-la. Atribui-se a Rem Koolhaas o fomento de tal ambiente, tanto por meio da consolidação de seu escritório, o Office for Metropolitan Architecture (OMA) — uma rede de sete filiais globais que reúne cerca de 300 arquitetos/as —, quanto por sua atuação docente na GSD de Harvard e palestras pelo mundo. Koolhaas conta hoje com oito sócios/as. Um/a deles/as, desde 2008, é Shohei Shigematsu, que lidera o OMA New York desde 2006. O estúdio, que inicialmente contava com apenas um punhado de pessoas, cresceu ao longo dos anos para se tornar uma grande equipe de 75 arquitetos/as com foco em projetos na América do Norte.
Encontrar-me com muitos/as dos/as principais arquitetos/as independentes chineses/as e visitar suas obras construídas por toda a China nos últimos anos moldou minha compreensão de suas contribuições como regionalmente sensíveis, poéticas, fotogênicas e até mesmo sedutoras. No entanto, muitos desses projetos podem ser confundidos como se tivessem sido produzidos por um único escritório de atuação limitada. Essas obras costumam ter escala reduzida e são construídas longe dos centros urbanos, onde as pessoas comuns poderiam se beneficiar mais delas. Há uma falta de diversidade e de disposição para correr riscos. O trecho a seguir da minha entrevista com o arquiteto Li Hu, radicado em Pequim, durante sua recente visita a Nova York, dissipou minhas dúvidas e me trouxe grande esperança para o futuro urbano da China.
O arquiteto estadunidense Kevin Roche faleceu na última sexta-feira, 1º de março, aos 96 anos. Nascido em 1922 em Dublin, Irlanda, ele se formou no University College Dublin (1945) e no Illinois Institute of Technology (1948). Em 1966, fundou o escritório Kevin Roche John Dinkeloo and Associates (KRJDA). Ele projetou mais de 200 edifícios, incluindo a reforma da Ala Americana do Metropolitan Museum of Art (2012), o Convention Centre em Dublin (2010), a Lafayette Tower em Washington DC (2009), a sede do J.P. Morgan em Manhattan (1992), o Central Park Zoo em Manhattan (1988), a sede do Knights of Columbus Building em New Haven (1969), a Fundação Ford em Manhattan (1968) e o Oakland Museum of California (1966). Em 1982, tornou-se o quarto laureado com o Prêmio Pritzker e, em 1993, recebeu a Medalha de Ouro do AIA. O trecho a seguir é de nossa entrevista de 2011, realizada no escritório do arquiteto em Hamden, Connecticut.
O trecho a seguir de minha recente entrevista com o arquiteto Zhang Hua, sediado em Tianjin, dá continuidade a uma série de entrevistas que venho realizando durante minhas frequentes viagens à China. Zhang Hua lidera seu estúdio de projeto, o Zhanghua Architects, que faz parte do Instituto de Pesquisa da Universidade de Tianjin. O trabalho do professor Zhang Hua segue sua intransigente teoria de geração de formas, baseada no desejo de capturar a progressão dos processos de transformação. Em seus muitos projetos construídos, o arquiteto examina e expressa transformações formais, como a transição do básico ao complexo ou do monolítico ao disperso. O foco está no próprio estado de transformação, em como uma forma se altera e se modifica de um estado para outro. Conversamos com Zhang Hua por meio de um/a intérprete no instituto, com meia dúvida de jovens arquitetos/as e pesquisadores/as de seu estúdio sentados/as ao redor, tomando notas.
Junya Ishigami's works at the 2008 Venice Biennale. Image Courtesy of junya.ishigami+associates
Em minha recente visita ao Japão tive a oportunidade de encontrar-me com uma das principais figuras do momento no cenário arquitetônico japonês. Junya Ishigami recebeu-me em seu estúdio pra lá de experimental (além de muito internacional) em Tóquio, uma das experiências mais memoráveis pelas quais passei ao longo dos últimos anos. Seu entusiasmo incontido é arrebatador, principalmente quando ele fala à respeito de sua própria arquitetura ou aquilo que pensa em relação à nossa querida profissão. Junya acredita que a arquitetura contemporânea “ainda não é suficientemente livre”. E é exatamente aí que ele começa a se posicionar. Junya tem buscado libertá-la, desvencilhar-se desta inércia determinante que define e limita a arquitetura nos dias de hoje. Ele procura desenvolver uma arquitetura que seja leve e liberta, projetos inspirados em metáforas improváveis como as nuvens ou a tranqüilidade da superfície da água. “Precisamos introduzir mais diversidade na arquitetura contemporânea, é preciso dar novas respostas aos sonhos das pessoas ... Eu quero levar a arquitetura para o futuro, criar novas condições que nunca foram pensadas antes”, diz Ishigami. O arquiteto japonês inaugurou recentemente duas exposições em forma de manifesto na cidade de Paris, questionando a natureza e o propósito da arquitetura nos dias de hoje. Junya é um visionário que parece um pouco fora de moda naquela que talvez seja a mais incerta das profissões.
Minsheng Museum of Modern Art / Studio Zhu Pei. Imagem cortesia de Studio Zhu Pei
Desde o início dos anos 2000, a China vem surpreendendo o mundo como o cenário ideal para as criações mais ousadas de arquitetos e arquitetas de prestígio internacional. Isso ainda acontece, mas o elemento surpresa desapareceu e, com a crescente preocupação em construir de forma mais pragmática, eficiente e, acima de tudo, responsável, tornamo-nos muito mais críticos em relação a esses edifícios espetaculares. O cenário mudou: hoje em dia, é a arquitetura produzida localmente, com humildade e relevância social, que atrai as atenções. Em nenhum outro lugar esse processo é tão evidente quanto na China, onde os projetos liderados por talentos locais representam, de longe, a arquitetura mais relevante e significativa sendo construída no país atualmente.
Nestle Application Group / Rojkind Arquitectos . Imagem
Nascido em 1969 na Cidade do México, Michel Rojkind formou-se nos anos 1990 pela Universidad Iberoamericana, época em que também atuava como baterista na popular banda de rock de Aleks Syntek, la Gente Normal. Fundou seu escritório, Rojkind Arquitectos, em 2002. Entre suas obras construídas mais representativas estão o Foro Boca para a Orquestra Filarmônica de Boca del Río em Veracruz, a recém-ampliada Cineteca Nacional na Cidade do México, duas ampliações de fábricas para a Nestlé em Querétaro e o Museu do Chocolate Nestlé em Toluca, todos no México. Conversamos sobre como sua arquitetura se conecta com as pessoas, por que arquitetos/as devem assumir papéis que vão além da arquitetura e a importância da generosidade e de não se preocupar em projetar tudo 100%.