A Cosmogonia do Capitalismo (Racial). Imagem cortesia de Dele Adeyemo
Tendo atirado uma pedra hoje, Exu mata um pássaro de ontem. O provérbio iorubá conta tanto uma história de reparação quanto de ancestralidade ao dobrar alegremente as convenções de espaço-tempo e acessar sujeitos do passado com ações do presente. O ditado oferece um ponto de entrada poético para tradições mais amplas da África Ocidental e para a prática do artista e arquiteto escocês-nigeriano Dele Adeyemo. Nomeado um dos vencedores do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, o trabalho de Adeyemo reúne ecologia, espiritualidade, dança e território, examinando como as práticas culturais incorporadas podem gerar possibilidades espaciais alternativas dentro e contra a arquitetura do capitalismo racial.
Nascido na Nigéria e criado no Reino Unido, Adeyemo visita Lagos há muitos anos. A partir desse envolvimento, ele desenvolveu um extenso corpo de pesquisa sobre práticas de movimento coletivo que precedem o capitalismo e oferecem inteligências espaciais distintas e frequentemente imaginativas, operando em paralelo aos sistemas dominantes. O ArchDaily conversou com Dele sobre suas práticas artísticas e pedagógicas, e sobre como ele identifica sofisticação de projeto onde os/as arquitetos/as frequentemente enxergam apenas precariedade.
A indústria da construção civil enfrenta hoje um paradoxo inevitável: a necessidade urgente de soluções sustentáveis para o futuro das cidades colide com o esgotamento do próprio termo "sustentabilidade", muitas vezes reduzido a um selo comercial vazio. Nesse cenário, a Arquivo – uma das iniciativas vencedoras do ArchDaily's 2025 Next Practices Award – surge como uma facilitadora e mediadora entre diferentes agentes da construção civil por meio do desmonte – ou melhor, da desconstrução – e do reuso de componentes construtivos. Etimologicamente, se "construção" deriva do latim construere (amontoar, reunir), o prefixo "des-" impõe uma inversão conceitual: não se trata de destruir, mas de desmontar com inteligência para compreender a lógica das partes.
Enquanto as práticas convencionais de demolição geram um enorme volume de resíduos e alto consumo energético, a Arquivo propõe o reuso como uma alternativa viável para a economia circular. A empresa atua na lacuna entre o descarte e a nova construção, guiada por uma premissa clara: "O reuso só se realiza plenamente quando o material ganha uma nova vida."
O anúncio do Prêmio Obra do Ano 2026 está próximo, com apenas dois dias restantes para o encerramento da etapa final de seleção. Os três vencedores serão divulgados no dia 16 de abril, após três semanas de votação pública. Os 15 finalistas compõem um retrato do estado atual da arquitetura segundo a opinião do público, que tem votado em suas obras favoritas.
Veja os 15 finalistas e faça parte de uma rede imparcial de jurados responsável por eleger os projetos mais relevantes do último ano construídos em países de língua portuguesa. Nesta etapa final, cada pessoa pode votar em um projeto por dia até o dia 15 de abril às 19h00 (horário de Brasília).
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Ao longo das últimas duas semanas, a comunidade do ArchDaily Brasil nomeou mais de 14 mil projetos, resultando em 15 finalistas que representam algumas das obras arquitetônicas mais emblemáticas publicadas no último ano. Em sua 10ª edição, o Prêmio Obra do Ano existe para reconhecer o melhor da arquitetura nos países de língua portuguesa, a partir da escolha dos próprios leitores. Os finalistas compõem um retrato do estado atual da arquitetura, seja em projetos residenciais, urbanos, culturais e outros programas.
Representando Brasil e Portugal, os 15 projetos refletem as necessidades de seus contextos específicos por meio de soluções criativas propostas por arquitetos locais. De reformas de interiores a intervenções urbanas de grande escala, passando por residências unifamiliares e projetos comunitários, a seleção é heterogênea, mas unida por um traço comum: o reconhecimento do público, que busca ver suas próprias aspirações representadas.
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Construir sobre a água significa abrir mão de uma parte da construção que é, literalmente, a base da maior parte do nosso ambiente construído: a própria fundação. Em um ambiente cercado por água, as correntes e a oscilação do nível da superfície são variáveis que simplesmente não podem ser ignoradas, e justamente por isso a característica mais emblemática comum a esses projetos é a sua adaptabilidade.
A arquitetura tem sido tradicionalmente descrita como uma disciplina preocupada com o espaço, a forma e a presença material. No entanto, essa compreensão se mostra cada vez mais limitada diante das condições que moldam a construção contemporânea. Os edifícios já não surgem de uma relação estável entre lote, programa e material. Em vez disso, são produzidos no interior de uma densa teia de sistemas tecnológicos que operam em escalas territoriais, ecológicas e temporais. Redes de energia, infraestruturas de dados, processos de extração e a logística global moldam a arquitetura de forma tão decisiva quanto o clima ou o contexto urbano.
Sob essa perspectiva, a arquitetura é menos um objeto isolado e mais um momento dentro de um campo técnico ampliado. Cadeias de suprimentos, sistemas de dados, manutenção automatizada e redes de energia não funcionam "por trás" do ambiente construído. De certo modo, esses sistemas determinam o que pode ser construído, o que é economicamente viável, como os edifícios se comportam ao longo do tempo e que tipo de resíduos produzem. Quando a arquitetura é avaliada primordialmente por meio da forma, corre-se o risco de ignorar os sistemas que condicionam sua produção e sua sobrevida.
Com apenas cinco dias até o anúncio dos finalistas, ainda há tempo para escolher seus projetos favoritos ao Prêmio Obra do Ano 2026. Maior premiação arquitetônica do mundo lusófono, decidida por voto popular, o Obra do Ano existe para reconhecer os melhores projetos arquitetônicos publicados todo ano no ArchDaily Brasil.
No dia 8 de abril, serão revelados os 15 finalistas, escolhidos pela comunidade ArchDaily ao longo dessas duas semanas de nomeações. Ao nomear projetos, cada leitor passa a fazer parte de uma rede imparcial de jurados, dando visibilidade ao que há de melhor na arquitetura dos países de língua portuguesa.
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Em novembro de 2025, o ArchDaily lançou a primeira edição do seu Student Project Awards. A decisão de criar esta nova premiação surgiu de um sentimento de esperança; esperança nas próximas gerações de arquitetos/as, em seu talento e visão, e na importância de lhes dar visibilidade e reconhecimento. Afinal, o futuro da arquitetura está sendo moldado agora mesmo, em salas de aula, estúdios e oficinas por todo o mundo, e é fundamental apoiar quem o está moldando. A resposta foi extraordinária, com projetos enviados por estudantes de todos os continentes, demonstrando uma riqueza e amplitude de pontos de vista, soluções e visões.
Cinco meses após o lançamento da convocatória — e após o anúncio de uma lista longa de 104 projetos e de uma lista final de 20 semifinalistas —, nosso júri externo de arquitetos/as e profissionais do setor revisou cuidadosamente as propostas para selecionar os/as três vencedores/as e as quatro menções honrosas do ArchDaily Student Project Awards. Analisando cada proposta com cuidado, o júri olhou além dos resultados finais, concentrando-se nas ideias, questionamentos e posicionamentos que guiaram o trabalho. O resultado é uma seleção de projetos premiados que reflete tanto o espírito do prêmio quanto a mudança de prioridades que molda a arquitetura contemporânea.
Durante a maior parte da história humana, a noite chegava como uma certeza planetária. A escuridão se espalhava pelas paisagens e o céu revelava milhares de estrelas. Hoje, esse céu está desaparecendo. A luz artificial se propaga para o alto a partir das cidades, dispersando-se pela atmosfera e transformando a noite em uma névoa permanente. Pesquisas que mapeiam o brilho global do céu mostram que mais de 80% da humanidade vive hoje sob céus com poluição luminosa, e a Via Láctea desapareceu da vista de mais de um terço da população mundial. O desaparecimento dos céus escuros costuma ser debatido no âmbito da astronomia, mas as origens dessa mudança estão profundamente arraigadas no ambiente construído. Os edifícios emitem luz, refletem-na através de fachadas de vidro e estendem a iluminação muito além de suas paredes. Na tecnosfera — o vasto sistema de infraestruturas e materiais construído pelos seres humanos —, a arquitetura agora molda tanto o espaço físico quanto as condições sensoriais ao seu redor.
À medida que a inteligência artificial continua a desestabilizar setores da economia e a remodelar indústrias inteiras, tanto instituições quanto indivíduos se preparam — e se adaptam rapidamente — às transformações que as máquinas parecem projetar sobre nosso futuro. Contudo, a pressão mais latente não decorre simplesmente do fato de a IA alterar a forma como as pessoas trabalham e vivem, mas sim dos modelos de negócios e das lógicas de investimento das empresas que desenvolvem esses sistemas: a concentração de capital, as novas demandas por capacidade de processamento, a corrida por talentos altamente especializados e a pegada de infraestrutura necessária para sustentá-la. Na Grande Área da Baía — ancorada por Guangzhou, Shenzhen e Hong Kong —, essa dinâmica é especialmente pronunciada. Iniciativas governamentais estão acelerando ativamente o crescimento do setor, com mecanismos de políticas públicas e planejamento começando a traduzir um campo aparentemente intangível em forma física: atualizações de zoneamento, destinação de terrenos e o surgimento de tipologias edilícias orientadas à IA, de laboratórios de pesquisa a centros de processamento de dados (data centers) em grande escala.
Dez anos atrás, o ArchDaily Brasil lançou a primeira edição do Prêmio Obra do Ano. Durante esta última década, centenas de projetos arquitetônicos têm sido reconhecidos como os melhores do mundo lusófono, graças à inteligência coletiva dos leitores do ArchDaily Brasil.
Hoje começa o Prêmio Obra do Ano 2026, e mais uma vez contamos com a comunidade do ArchDaily Brasil para escolher as melhores obras construídas em território de língua portuguesa. Durante as próximas três semanas, vocês serão os responsáveis por escolher os 15 finalistas e os 3 vencedores desta edição.
Participam todas as obras publicadas durante 2025, dos seguintes países: Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Macau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Nesta primeira fase, os leitores podem nomear uma obra por día para passar à etapa dos finalistas, que serão anunciados no dia 8 de abril.
Fundado em 2015 em Ahmedabad por Anand Sonecha, o SEAlab é um escritório moldado por um envolvimento lento e contemplativo com o lugar, a proporção e a participação. Reconhecido como um dos vencedores do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, o estúdio constrói com materiais simples e técnicas locais, buscando criar ambientes que são tanto vivenciados quanto vistos. Esse ethos tornou-se particularmente tangível em Gandhinagar, onde a Escola para Crianças Cegas e com Deficiência Visual não começou como uma instituição projetada sob medida para esse fim. A escola funcionava em um edifício escolar de ensino fundamental já existente, com salas de aula posicionadas acima dos dormitórios e doze crianças compartilhando um único quarto. O espaço era limitado, assim como as oportunidades de crescimento. O novo edifício acadêmico era necessário para expandir a capacidade, melhorar as condições de vida e apoiar uma maior independência dos/as estudantes.
Smiljan Radić Clarke, vencedor do Prêmio Pritzker 2026, é um arquiteto chileno contemporâneo conhecido por sua abordagem projetual experimental, com uma prática que equilibra o elementar e o íntimo, o monumental e o frágil. Ao longo de mais de três décadas, Radić desenvolveu uma arquitetura que resiste à repetição e às categorizações estilísticas convencionais, priorizando intervenções profundamente site-specific, atentas à materialidade e culturalmente reflexivas.
Sua obra articula a relação entre permanência e impermanência, memória e imaginação, criando edifícios que tratam tanto da experiência e da emoção humanas quanto de estrutura e forma. Em residências, instituições culturais e instalações temporárias, a arquitetura de Radić coloca em primeiro plano a interação entre contexto, materiais e os gestos sutis que moldam a maneira como os espaços são habitados e percebidos.
Cortesia de Tom Welsh para o Prêmio Pritzker de Arquitetura
O arquiteto chileno Smiljan Radić Clarke foi anunciado como o laureado do Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026, considerado uma das maiores honrarias no campo da arquitetura. A premiação reconhece Radić por um conjunto de obras que explora a arquitetura por meio da experimentação material, da percepção espacial e de um diálogo atento com a paisagem e o contexto. Nascido em Santiago, no Chile, onde continua a viver e trabalhar, Radić lidera o escritório Smiljan Radić Clarke, fundado em 1995. Como o segundo chileno a receber o prêmio — sucedendo a Alejandro Aravena em 2016 —, ele se junta a uma ilustre lista de laureados anteriores, que inclui Liu Jiakun em 2025, Riken Yamamoto em 2024, David Chipperfield em 2023 e Diébédo Francis Kéré em 2022.
A arquitetura de Radić opera em um território onde a experiência fenomenológica do espaço precede a explicação. Suas obras costumam se apresentar de forma silenciosa, elementar e avessa a interpretações verbais fáceis, convidando os visitantes a experimentá-las por meio do movimento, da atmosfera e da percepção, em vez de uma simples expressão formal.
O Prêmio Pritzker de 2026 foi concedido este ano ao arquiteto chileno de ascendência croata, Smiljan Radić Clarke. Nascido em Santiago, Chile, em 1965, sua prática evoca uma geografia de extremos, moldada pela tensão tectônica entre o peso monumental dos Andes e a instabilidade sísmica do território. Após se graduar na Pontifícia Universidade Católica do Chile e prosseguir seus estudos em estética em Veneza, Smiljan Radić Clarke estabeleceu sua base em Santiago. A partir dali, desenvolveu uma das visões mais singulares da arquitetura contemporânea. Sua obra privilegia a intensidade do momento por meio de uma arquitetura frágil. Nela, o edifício opera como um refúgio temporário e tátil que coloca o espectador em um estado de incerteza estética, oscilando entre a ruína ancestral e o artefato de vanguarda.
A arquitetura é frequentemente avaliada por suas formas finais, no entanto, algumas práticas operam em um registro diferente, no qual o projeto se desenvolve por meio de relações, tempo e uso, e não por um resultado único. Para a CatalyticAction, a participação não é uma atividade social paralela, mas sim o meio pelo qual os espaços são concebidos, construídos e mantidos ao longo do tempo.
Com sedes em Beirute e Londres, o escritório trabalha no Oriente Médio e na Europa, desenvolvendo espaços públicos, escolas, parquinhos e infraestruturas urbanas cotidianas por meio da colaboração de longo prazo com comunidades locais. Baseada em pesquisa participativa e tomadas de decisão coletivas, essa abordagem foi reconhecida pelo prêmio ArchDaily's 2025 Next Practices Awards, destacando um modo de atuação no qual a arquitetura é compreendida como um processo compartilhado e em evolução, e não como um objeto estático. Nesse contexto, o valor arquitetônico é mensurado pela continuidade, pelo uso e pela apropriação coletiva, e não apenas pela forma.
Um edifício ainda em fase de ajuste, reparo e debate é declarado Patrimônio Mundial. Outro, de igual influência, precisa sobreviver a cinco séculos antes que alguém cogite sua preservação. Isso não é uma anomalia no sistema de patrimônio; é o próprio sistema. Em todo o mundo, a arquitetura não envelhece no mesmo ritmo porque o próprio tempo não é neutro. Ele é cultural, político e profundamente desigual. O que chamamos de "patrimônio" não é apenas arquitetura antiga; é a arquitetura que alcançou o momento certo em um determinado lugar.
Tadao Ando uniu forças com a Cauny para desenhar o mais recente relógio da série The Architects of Time. Trata-se de uma coleção de relógios desenhada por alguns dos principais nomes da arquitetura de nosso tempo—uma iniciativa que a marca quase centenária lançou em 2019 com ninguém menos que Álvaro Siza. De lá para cá, a coleção provou ser uma verdadeira consagração de laureados pelo Prêmio Pritzker: Siza, Rafael Moneo, Eduardo Souto de Moura e, este ano, Tadao Ando.
Durante décadas, o patrimônio foi mais facilmente reconhecido a partir da rua. Protegemos fachadas, silhuetas urbanas e monumentos porque são visíveis, estáveis e legíveis como bens culturais. No entanto, a maior parte do que lembramos sobre o habitar diz respeito a como comemos juntos, nos recolhemos, discutimos, cuidamos uns dos outros e descansamos — ações que acontecem longe dos olhos do público. Acontecem dentro dos cômodos. À medida que as plantas livres dão lugar silenciosamente a limiares, corredores e fechamentos, surge uma questão mais profunda: e se a memória cultural sobreviver não naquilo que a arquitetura exibe, mas na forma como é vivida?
O patrimônio arquitetônico é frequentemente descrito como aquilo que sobrevive ao tempo. No entanto, a sobrevivência não explica por que certos edifícios são preservados enquanto outros desaparecem. Muitas obras hoje protegidas como patrimônio cultural já foram criticadas, contestadas ou abertamente rejeitadas; foram acusadas de serem socialmente equivocadas, materialmente falhas ou simbolicamente excessivas. Com o tempo, contudo, essas mesmas deficiências tornaram-se fundamentais para o seu significado, à medida que o patrimônio se revela como um processo lento e instável de interpretação.
A arquitetura contemporânea opera sob intenso escrutínio, pressionada pela responsabilidade ambiental, equidade social, volatilidade econômica e aceleração das mudanças tecnológicas. Espera-se que os edifícios tenham um desempenho ético, eficiente e simbólico, muitas vezes de forma simultânea. Diante disso, o fracasso arquitetônico deixa de ser uma exceção para se tornar uma condição cada vez mais comum. Os projetos envelhecem mais rápido, os materiais revelam limitações mais cedo e as estratégias urbanas perdem rapidamente a sintonia com as mutáveis realidades políticas, sociais e ambientais.
Geralmente, são os profissionais especialistas aqueles que tem o poder da decisão, sejam eles historiadores, museólogos, arquitetos, geógrafos. Mas com base em que essas decisões são tomadas? Caberia a complexidade da história em um checklist? Ou, ainda mais elementar, em qual versão da história estariam sendo baseadas essas decisões?
Pode a arquitetura ser construída a partir da comida? Entre o fogo que aquece, os cheiros que se espalham e os corpos que se reúnem em torno da mesa, a aparente banalidade dos atos de cozinhar e comer revela-se como uma dança coreografada de apropriação e pertencimento espacial. São gestos que organizam rotinas, produzem vínculos e transformam o ambiente construído em lugar vivido. A cozinha — doméstica, comunitária ou urbana — deixa, assim, de ser apenas um espaço funcional para afirmar-se como território de encontro.
Os cantos de café da manhã surgiram no início do século XX em resposta ao aumento da densidade doméstica e às mudanças nas concepções sobre a vida cotidiana. Com raízes no movimento Arts and Crafts americano e popularizados pelas casas tipo bangalô das décadas de 1910 e 1920, eles evoluíram da mais formal sala de café da manhã vitoriana para espaços compactos e integrados, embutidos na cozinha. À medida que as casas se tornavam menores e mais econômicas, arquitetos/as e marcenarias utilizaram bancos e mesas fixos para ocupar cantos, alcovas e janelas de bay window que, de outro modo, seriam ineficientes. Esses nichos iluminados ofereciam uma maneira acessível de concentrar as atividades diárias, preservando o conforto e a clareza espacial.