NASA/METI/AIST/Japan Space Systems e U.S./Japan ASTER Science Team. Imagem via Wikipedia sob Domínio Público
Quando os ostrogodos cercaram Roma em 537 d.C., seu primeiro ato militar foi cortar os aquedutos. Onze canais alimentados por gravidade abasteciam a cidade com até um milhão de metros cúbicos de água por dia — volume mais do que suficiente para sustentar uma população de mais de um milhão de habitantes, abastecer as termas públicas e limpar os esgotos. Sem os aquedutos, Roma tornou-se um recinto fortificado em torno de um rio poluído, provando que a água era essencial para a própria existência da cidade.
Ao contrário da terra, que pode ser cercada, ou do petróleo, que pode ser armazenado, a água é um recurso que ninguém consegue possuir por completo, mas do qual todos dependem. Ela se move por aquíferos, atravessa fronteiras e corre pelos rios. Os romanos tinham consciência disso: como os aquedutos constituíam uma infraestrutura pública, a água que vertia nas fontes era acessível a todos. Frontino, o administrador que supervisionou o sistema de águas de Roma no século I d.C., documentou cada alocação, cada ligação clandestina e cada abuso do sistema com o rigor de quem compreendia que a gestão da água era um ato cívico. A arquitetura, sob essa ótica, sempre teve a capacidade de tornar a água um bem comum e, na mesma medida e pelos mesmos meios, um privilégio.
O contato direto com um material permite apreciar texturas, comparar acabamentos e observar como sua aparência se transforma sob diferentes condições de luz. Em uma exposição, essas possibilidades são complementadas pela troca de experiências com fabricantes e profissionais, o que ajuda a compreender suas aplicações e a esclarecer dúvidas sobre seu uso. Essa relação entre exploração material e prática arquitetônica foi um dos eixos da sétima edição da Obra Blanca, que reuniu mais de 23.000 profissionais na Expo Santa Fe, na Cidade do México.
Atelier Aveta / Ben-Avid. Imagem cortesia de Bienal Internacional de Arquitectura de Buenos Aires
Habitar um espaço envolve múltiplos fatores econômicos, sociais, culturais, geográficos, políticos e ambientais. Para além dessas considerações, no entanto, o habitar dialoga com processos, limites e possibilidades que têm sido constantemente objeto de investigação arquitetônica. “Somos construtores de uma sociedade”, declarou Solano Benítez durante sua palestra intitulada O Lugar da Arquitetura na Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires. Por meio de uma série de conferências internacionais, exposições distribuídas por diferentes pontos da cidade e atividades abertas a todas as gerações, a 20ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires examinou o valor do habitar, reconhecendo a arquitetura como a disciplina que confere sentido a como e onde vivemos e, consequentemente, a como existimos em sociedade.
Em suas seis sedes principais e nas inúmeras instituições parceiras, emerge um tema comum: a existência humana explorada a partir de diferentes modos de habitar, do compartilhamento de saberes, do contraste de experiências e do debate sobre os desafios contemporâneos enfrentados pela arquitetura.
Um cânion é um espaço que ninguém projetou. Suas paredes expõem camadas de rocha depositadas ao longo de milhões de anos, e a passagem entre elas existe porque a água lentamente desgastou essa rocha. Geleiras moldaram vales de maneira semelhante, deixando encostas para trás à medida que o gelo recuava. Muito antes de arquitetos e arquitetas começarem a moldar espaços, a Terra já os produzia.
Há muito tempo, arquitetos e arquitetas buscam no solo sua geometria. Um penhasco pode sugerir um corte; uma cavidade, um cômodo; e a rocha estratificada, uma forma de empilhar materiais. Alguns profissionais constroem diretamente em uma formação existente, ocupando uma encosta ou cavidade no próprio local. Outros estudam uma formação e reproduzem algumas de suas características em outro lugar, desde dados geológicos precisos até a experiência geral de uma paisagem.
A madeira é utilizada na construção civil há milhares de anos. Natural, renovável e versátil, sua resposta à umidade exige atenção cuidadosa no projeto e na especificação. Variações nas condições de umidade podem fazer com que ela se expanda e contraia, enquanto a exposição prolongada à água pode criar condições propícias para o apodrecimento por fungos. Historicamente, o uso de madeira em áreas externas exigia a escolha de espécies naturalmente duráveis, a aplicação de barreiras físicas de proteção ou soluções de projeto adaptadas ao comportamento natural do material. A modificação da madeira oferece uma abordagem alternativa: alterar as próprias propriedades da matéria-prima.
A barragem principal. "Inauguration of the Grand Ethiopian Renaissance Dam (September 9, 2025)". Imagem cortesia de PMO Barbados via Flickr (Domínio Público).
Inaugurada em setembro de 2025, a Grande Barragem do Renascimento Etíope, ou GERD (na sigla em inglês), é uma imponente estrutura de concreto no Nilo Azul, no oeste da Etiópia, na região de Benishangul-Gumuz, a apenas 30 quilômetros rio acima e a leste da fronteira com o Sudão. Construída para ser uma das maiores fontes de energia hidrelétrica do mundo, figurando consistentemente entre as 30 maiores globalmente, a usina simboliza a soberania nacional da Etiópia, sua ascensão rumo ao desenvolvimento econômico exponencial e sua autodeterminação tecnológica. Por que, então, ela se tornou o centro de uma longa disputa sobre segurança hídrica regional e direito internacional envolvendo Etiópia, Sudão e Egito?
No Bishan–Ang Mo Kio Park, em Singapura, o rio não ocupa um limite fixo. Em condições normais, a água corre por um canal naturalizado ladeado por gramados, vegetação e caminhos que aproximam os/as visitantes do rio. Durante chuvas intensas, a água se espalha pelo parque ao redor, projetado para acomodar fluxos que excedem a capacidade do canal mais estreito. O que parece ser uma paisagem pública funciona também como infraestrutura ativa. A abordagem de Singapura mantém a engenharia de drenagem, ao mesmo tempo em que atribui um papel mais amplo ao território circundante.
Durante décadas, a rede de canais de concreto de Singapura foi fundamental para a gestão de águas pluviais em uma cidade densamente desenvolvida e exposta a intensas chuvas tropicais. Suas superfícies rígidas e canais definidos foram projetados para escoar a água de forma eficiente. Embora esses canais movessem as águas pluviais com eficácia, ofereciam espaço limitado para acesso público, vegetação ou outros usos ao longo das margens. Por meio de seu Programa Águas Ativas, Belas e Limpas (ABC Waters), lançado em 2006, Singapura começou a integrar as vias navegáveis a parques, sistemas ecológicos e espaços públicos. O programa vincula a gestão de águas pluviais ao desenho de parques, canais e espaços públicos.
Ao longo da história, as pessoas têm buscado formas de ver o mundo. Na pintura renascentista, a perspectiva linear tornou esse impulso explícito ao transformar a tela em uma janela, organizando a profundidade a partir de um ponto de vista fixo.Em seu tratado De Pictura (1435), Leon Battista Alberti descreveu a pintura como uma janela aberta para aquilo que se deseja representar. A paisagem, nesse sentido, deixou de ser meramente o que estava diante dos olhos e passou a ser uma construção visual, uma realidade selecionada e organizada pelo olhar.
A arquitetura opera de maneira muito semelhante. Uma janela determina o que pode ser visto, de onde é visto e, consequentemente, o que passa a fazer parte da experiência cotidiana. Essa questão foi central para a arquitetura moderna e encontrou um de seus debates mais emblemáticos na década de 1920.
A ampliação vertical de um edifício histórico apresenta um desafio que vai além da criação de espaço adicional: como uma intervenção contemporânea pode dialogar com o caráter de uma estrutura existente? A escolha dos materiais desempenha um papel fundamental no estabelecimento de uma relação entre diferentes períodos construtivos, seja com o objetivo de complementar o edifício existente ou de criar uma expressão arquitetônica mais distinta. A Residência LH em Varna, na Bulgária, projetada pelo escritório STARH, exemplifica como o fibrocimento pode articular a relação entre uma ampliação contemporânea e uma preexistência histórica. Por ser um material composto por cimento, água, fibras de reforço e outros aditivos, o fibrocimento alia uma relativa leveza a altos índices de resistência e durabilidade. Sua variedade de cores, texturas, dimensões de painéis e métodos de instalação oferece a profissionais de arquitetura diversas possibilidades para o desenvolvimento de envoltórias de edifícios contemporâneos que dialoguem com seu contexto histórico. Soluções como os painéis de fibrocimento da Swisspearl oferecem variações de acabamento superficial que viabilizam essa abordagem.
O conceito de "olhos da rua" talvez seja o mais famoso dentro da literatura arquitetônica e urbanística quando o assunto é segurança urbana. Jane Jacobs utiliza essa expressão para se referir às pessoas que – de forma consciente ou inconsciente – utilizam os espaços públicos ou os contemplam desde suas casas, gerando uma vigilância natural. Um movimento que, no âmbito da nossa disciplina, é fomentando tanto por meio de espaços públicos de qualidade quanto pela potente relação entre o público e o privado criada através das fachadas das edificações. Defendendo esse controle cotidiano, Jacobs acredita em um modo de fazer arquitetura e cidades que condena a verticalização em excesso, reforçada por edifícios isolados e de uso único os quais negam o contato com rua.
O andaime é, talvez, uma das estruturas temporárias mais familiares da arquitetura. Ele acompanha os edifícios durante as etapas de construção, manutenção e reforma, apenas para desaparecer assim que seu trabalho é concluído. No entanto, sua aparente impermanência esconde um tipo diferente de longevidade. Os sistemas de andaimes são projetados para serem montados, desmontados, transportados e reutilizados, com componentes padronizados robustos o suficiente para suportar o manuseio repetido e as condições variáveis do canteiro de obras. Seu caráter temporário reside menos no material em si do que na duração de cada montagem.
Essa lógica não é estranha ao design de mobiliário. O Sistema de Prateleiras Universal 606 de Dieter Rams, projetado para a Vitsœ em 1960, estabeleceu uma abordagem modular na qual prateleiras, armários e outros componentes podiam ser rearranjados, expandidos ou transportados conforme as circunstâncias mudavam. De maneira semelhante, os sistemas de armazenamento modulares da IKEA popularizaram e demonstraram como o mobiliário pode ser compreendido como uma coleção de peças intercambiáveis, em vez de um objeto único e acabado. Embora difiram em termos de material e vida útil pretendida, esses sistemas compartilham um princípio importante: a longevidade pode ser alcançada por meio da adaptabilidade, e não da permanência do arranjo.
Em um cenário no qual as cidades enfrentam dificuldades para oferecer moradia adequada e acessível, a análise de exemplos construídos de habitação coletiva pode ajudar a embasar decisões sobre o que construir e de que forma. Esses projetos proporcionam a oportunidade de avaliar soluções, compreender suas limitações e considerar o que pode ser aplicado em outros contextos. Em Paris, dois exemplos recentes combinam apartamentos de diferentes tamanhos com acesso a jardins, pátios e outros espaços ao ar livre, aproveitando estruturas preexistentes.
Projeto do pavilhão modular Dowonjeong em Jongno-gu, Seul, Coreia do Sul. Imagem cortesia de Studio SMA
Na arquitetura, a palavra "pavilhão" pode descrever uma variedade infinita de estruturas. Pode ser definido como um princípio e uma tipologia, uma estrutura autônoma, uma intervenção temporária, um ponto de encontro na cidade ou um espaço de experimentação. É essa última qualidade que une os seis projetos não construídos apresentados aqui, todos concebidos e enviados por leitores e leitoras do ArchDaily. Nesses trabalhos, a definição reside em suas qualidades escultóricas e na exploração formal, enquanto sua permanência e localização variam de acordo com o propósito de cada estrutura. As propostas também demonstram outra qualidade inerente ao pavilhão: a intenção de representar simbolicamente um posicionamento. Assim, a investigação de formas e materiais reflete uma busca por noções de limite, deslumbramento ou por um futuro compartilhado.
A cerca de uma hora de carro de Nova York, a Corwin House localiza-se em uma região de floresta montanhosa acima do rio Saugatuck. Concluída por Richard Neutra em 1956, é uma das apenas três casas que o arquiteto projetou em Connecticut. O designer de arquitetura Aziz Osko atualizou a residência, revisitando detalhes do projeto original de Neutra que nunca haviam sido executados.
A encomenda do projeto começou quando Betty e Henry Corwin perguntaram a Neutra se ele poderia recomendar um/a arquiteto/a da Costa Leste que trabalhasse em um estilo semelhante. Neutra ficou tão encantado com o terreno arborizado acima do rio que acabou assumindo o projeto ele mesmo.
Seaside House / Koistinen Hellborg Architects. Imagem cortesia de Randers Tegl
O tijolo e a madeira podem estabelecer um diálogo entre a permanência arquitetônica e as texturas das paisagens litorâneas. Em Höllviken, na costa sul da Suécia, a Seaside House, projetada pelo escritório Koistinen Hellborg Architects, explora como a materialidade, a luz e a organização espacial podem moldar uma residência em estreita relação com seu entorno natural. Situada em meio a um terreno arenoso, arbustos, musgo e pinheiros, a poucos passos do mar, a casa responde a uma paisagem marcada por variações cromáticas sutis, mudanças sazonais e uma forte conexão com o exterior.
No Uruguai, projetos residenciais de pequena escala ocupam cada vez mais as paisagens rurais e costeiras, das colinas de Villa Serrana às florestas marítimas ao longo da costa atlântica. Construir nessas áreas costuma exigir materiais estruturais que equilibrem durabilidade, eficiência térmica e viabilidade de transporte. Diante disso, os projetos nesses ambientes dependem significativamente de materiais como estrutura de madeira engenheirada, perfis estruturais de aço, revestimento externo de madeira ou fabricação offsite. Essas escolhas de projeto não apenas ajudam a reduzir o peso das matérias-primas que devem ser transportadas por vias de acesso não pavimentadas, mas também tornam a construção mais viável em locais remotos. Além disso, o contexto dos projetos desta seleção parece ter desempenhado um papel limitador em relação às áreas construídas, mantidas em 60 m² ou menos para reduzir a demanda por materiais estruturais e o impacto no terreno.
O bem-estar não está mais restrito a resorts exclusivos, spas ou ambientes de hotelaria. Hoje, tornou-se parte essencial do viver contemporâneo, inspirando moradores/as a criarem espaços privados dedicados ao relaxamento e ao autocuidado. Coleções como a Home Spa Collection da LEMI exploram esse crescente interesse pelo bem-estar residencial por meio de uma seleção de macas de massagem e espreguiçadeiras de relaxamento.
Restaurante Conceito The Social Playful. Imagem cortesia de Livit Design
De 17 a 19 de novembro de 2026, o interihotel MAD26 reunirá arquitetos/as, designers de interiores, operadores/as de hotelaria e marcas especializadas no IFEMA Madrid. Organizado pelo AMBIT Living Spaces Cluster, o evento deve receber mais de 14.000 profissionais, 350 marcas expositoras e mais de 200 palestrantes internacionais. Sob o tema Creative Rebellion, a programação combinará palestras, workshops, cinco fóruns especializados e espaços experimentais em escala real para explorar novas abordagens no design de hotéis e restaurantes.
Após uma pausa de sete anos, a Amman Design Week retornou à Jordânia com uma premissa intimamente ligada à própria cidade: a de que nada é totalmente novo. Sob o tema "Acúmulos" (Accumulations), a quarta edição do evento bienal reuniu mais de 220 designers, criadores/as, arquitetos/as e coletivos em exposições, intervenções públicas, palestras, oficinas e performances de 2 a 17 de outubro. Essa premissa mostrou-se particularmente relevante para Amã, uma cidade cuja arquitetura foi moldada por ondas de construção, migração, adaptação e reutilização — onde o acúmulo não é mera metáfora.
Quando o principal sistema de drenagem de Londres foi concluído ao norte do Tâmisa em 1868, o Metropolitan Board of Works celebrou a ocasião com um banquete realizado no interior de uma estação de bombeamento de esgoto. A estação de Abbey Mills havia sido construída nos três anos anteriores pelo engenheiro Joseph Bazalgette, em colaboração com o arquiteto Charles Driver, organizada sob uma planta cruciforme com oito motores de viga, dois em cada braço. Seu estilo já foi interpretado como bizantino, medieval italiano, russo, gótico ruskiniano e mourisco, e suas chaminés de ventilação gêmeas, ricamente ornamentadas, erguiam-se a mais de sessenta metros de altura. O construtor a definiu como uma estrutura elegante em meio a um pântano e considerou que ela poderia facilmente passar por uma mesquita ou um templo.
Praticamente todas as outras obras de Bazalgette foram enterradas, e essa exceção não durou mais que um século. O vapor deu lugar a motores elétricos em Abbey Mills em 1933 e as chaminés, tornadas obsoletas desde então, foram demolidas em 1941 por temor de que um bombardeio as derrubasse sobre a estação. A engenharia sanitária consolidou-se em torno de critérios mensuráveis — tais como capacidade de vazão, qualidade do efluente e gradiente hidráulico —, e a aparência estética não figurava em nenhum deles. O tratamento de resíduos migrou para as planícies aluviais, estuários e periferias urbanas, locais onde a terra era barata e a gravidade exercia um papel funcional útil.
"A arquitetura precisa retornar à sua essência." Com esta afirmação, Wang Shu e Lu Wenyu estabelecem a premissa central de sua visão curatorial para a 20ª Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza, que ocorrerá de 8 de maio a 21 de novembro de 2027, no Giardini, no Arsenale e por toda a cidade de Veneza. Intitulada "Do Architecture – For the Possibility of Coexistence Facing a Real Reality", a exposição convoca um retorno ao ato físico de fazer arquitetura, em um momento no qual, segundo a curadoria, a disciplina tem se distanciado cada vez mais da realidade vivida devido ao excesso de abstração, mercantilização e digitalização.
Em vez de focar no que a arquitetura pode vir a ser, os curadores propõem um engajamento renovado com o presente, questionando o que significa praticar a arquitetura hoje por meio de materiais, construção, saberes locais e experiência direta. Essa abordagem se baseia em ideias que há muito fundamentam o trabalho do Amateur Architecture Studio, fundado por Wang Shu e Lu Wenyu em 1997, sobretudo na exploração de técnicas tradicionais de construção, no reuso de materiais e na relação entre a arquitetura e o lugar. A exposição também coloca a questão da coexistência no centro dos debates, explorando como a arquitetura pode conciliar condições aparentemente opostas, da tecnologia ao artesanato, de modos de construir urbanos a rurais, mantendo-se fundamentada nas realidades específicas de cada lugar.
A atividade industrial pode cessar muito antes de seus efeitos desaparecerem do território. Fábricas fecham, edifícios são demolidos e antigos distritos industriais tornam-se, gradualmente, parte de novos empreendimentos residenciais. No entanto, o solo sob eles ainda pode conter vestígios de seu uso anterior, exigindo, por vezes, intervenções complexas antes que a construção possa ser iniciada.
A requalificação dessas áreas levanta um questionamento sobre quanto do solo original pode ser mantido e o que é necessário para construir habitações sobre ele. A extensão da contaminação determina as ações necessárias antes do início das obras, ao passo que o custo de preparação do terreno pode influenciar o próprio empreendimento. Grande parte desse trabalho acaba desaparecendo sob as edificações concluídas, deixando poucos indícios da condição anterior do local.
Modelo IFC / KUBUS360. Imagem cortesia da Vectorworks
O BIM (Building Information Modeling) tornou possível associar uma enorme quantidade de informações a cada elemento de um projeto. Uma parede pode conter sua classe de resistência ao fogo e seu grupo de custos e, mais tarde, até mesmo as informações de manutenção de que o/a gestor/a predial precisará. Essa possibilidade gera uma tentação: se o modelo pode conter mais dados, ele deve conter. Nesse processo, uma questão importante de eficiência pode se perder: o projeto realmente precisa dessas informações, e precisa delas agora?
Para arquitetos/as, o BIM é frequentemente descrito como uma "única fonte de verdade". No entanto, cada propriedade adicional gera mais trabalho, coordenação e manutenção, e as informações inseridas precocemente ou sem um propósito claro podem se tornar obsoletas rapidamente. O que importa é ter a informação certa para as decisões que estão sendo tomadas em cada etapa do projeto. O escritório KUBUS360, sediado em Stuttgart, colocou essa questão no centro de seu trabalho em um complexo administrativo em Baden-Württemberg (Alemanha).