À medida que as exigências técnicas das envoltórias dos edifícios evoluíram, o desempenho frente ao fogo tornou-se um critério fundamental no projeto de fachadas ventiladas. Diante desse cenário, as análises não se concentram mais apenas na reação individual dos materiais, mas também na resposta conjunta de toda a envoltória sob possíveis cenários de propagação externa do fogo.
Tell the Water What the Clay Kept Secret. Imagem cortesia de Ola Hassanain
Ola Hassanain é uma arquiteta e artista sudanesa atuante nos Países Baixos, que participará da Bienal de Arquitetura Pan-Africana em Nairóbi, Quênia, no final de 2026. Essas três localidades narram histórias sobre a relação do ambiente construído com a água. Elas ilustram os embates contínuos entre as forças amorfas da natureza — personificadas por rios e mares — e as tentativas humanas de moldá-las e controlá-las. Na maioria dos casos, trata-se de esforços de extração. As catástrofes ocorrem como resultado do excesso dessas tentativas, de sua má gestão, ou de ambos os fatores combinados.
San Diego, Califórnia. Foto por Samuel Ramos no Unsplash
Muito próxima à fronteira mexicana, no extremo sudoeste dos Estados Unidos, fica a cidade de San Diego. Sua história urbana teve início em 1769 com a chegada de uma expedição militar espanhola comandada por Gaspar de Portolá, marco do primeiro assentamento permanente no território então conhecido como Alta Califórnia. No entanto, diferentemente das capitais administrativas e vilas mais formalmente urbanizadas do México e da América Central, San Diego foi concebida como um posto avançado de fronteira. Hoje, tornou-se a segunda maior cidade da Califórnia, atrás apenas de Los Angeles, e sua malha urbana conta a história de uma herança hispânica que se entrelaça com o cenário cultural contemporâneo dos Estados Unidos.
"Café ou chá?" é uma daquelas frases que nos acompanham em diversos contextos: ouvida em aviões, após as refeições, em lounges de hotéis e em salas de reunião. Soa como uma pergunta simples — mera preferência, uma rápida ramificação no roteiro de atendimento. No entanto, ela também carrega uma sutil herança cultural. O chá traz consigo a longa história do ritual e do ritmo doméstico, ligada a antigas geografias de comércio e à etiqueta cotidiana. Já o café surge de uma linhagem diferente de circulação, posteriormente industrializada no café moderno e em seus rituais públicos. Em ambos os casos, a bebida nunca é apenas uma bebida; trata-se de uma relação praticada com o tempo e o espaço.
No Leste Asiático contemporâneo, no entanto, "café ou chá" assume cada vez mais outro significado: imperceptível ou inconscientemente, a frase torna-se uma escolha sobre onde se deseja estar. Cada bebida agora carrega uma expectativa espacial. O café pressupõe um ambiente que se pode ocupar — frequentemente um lugar para pausar, trabalhar, encontrar pessoas ou refrescar-se. O chá, apesar de culturalmente onipresente, manifesta-se de forma mais difusa pela cidade — ora como um destino dedicado, ora como um quiosque de alta rotatividade e, muitas vezes, como uma opção padrão integrada a tipologias gastronômicas. O resultado é que uma pergunta formulada em termos de paladar passa a funcionar como um indicador sutil de preferência espacial: se o que se busca é permanência ou velocidade, confinamento ou fluxo, um terceiro lugar ou um nó rápido na rua.
Na época em que este texto foi escrito, um artigo de Martyn Evans perguntava "A arquitetura está em crise?". No mesmo ano, Reinier de Graaf publicou o livro "Architecture Against Architecture", no qual expôs quatorze problemas da profissão e da disciplina. A questão de uma crise na arquitetura é perene. No que se refere à arquitetura como profissão, esse debate costuma vir à tona especialmente quando crises econômicas são previstas ou já estão em pleno curso. Paralelamente, persistem questionamentos sobre a eficácia da arquitetura em lidar com os problemas mais urgentes do planeta e da sociedade — habitação, mudanças climáticas e desenvolvimento humano. Uma iniciativa que busca enfrentar essas questões é o MASS, fundado em Ruanda pouco tempo após a crise financeira de 2008. A pista está no próprio nome, uma sigla para Model of Architecture Serving Society (Modelo de Arquitetura a Serviço da Sociedade). O MASS foi criado como uma forma diferente de praticar a arquitetura.
O que a arquitetura deixa no solo dura mais do que aquilo que ela eleva no ar. Um edifício demolido desaparece da linha do horizonte em questão de dias, mas suas fundações permanecem cravadas na terra por gerações. A contaminação causada por um complexo industrial não se dissipa quando o complexo é posto abaixo. As fronteiras legais inscritas em um território colonial não se dissolvem com o fim da administração colonial. O solo guarda o que a arquitetura rapidamente esquece.
É isso que torna o solo um tema tão desconfortável. A disciplina tende a se orientar para cima, em direção à forma, à fachada, à experiência espacial do habitar. O chão é onde a arquitetura começa e, em certo sentido, onde termina: o ponto em que a edificação se torna geologia, o título de propriedade se torna reivindicação territorial e a construção se torna extração. Tratar o solo como um meio, e não apenas como um referencial abstrato, significa reconhecer que o ato de construir traz consequências que vão mais fundo do que o objeto visível acima do nível do solo.
Escola de Design e Meio Ambiente da NUS / Serie Architects + Multiply Architects + Surbana Jurong. Imagem cortesia de Serie Architects + Multiply Architects + Surbana Jurong
Este artigo faz parte da nossa nova seção de Opinião, um espaço para ensaios argumentativos sobre questões críticas que moldam o nosso campo de atuação.
Antes de se tornarem autores e autoras do espaço, estudantes de arquitetura são primeiramente submetidos a ele. Durante anos, trabalham dentro de um edifício que ensina sem se anunciar como um educador. Ele organiza seu esgotamento, sua ambição, sua visibilidade, sua solidão, suas amizades, sua noção de escala e sua relação com o julgamento alheio. Muito antes de um/a estudante conseguir articular uma posição teórica sobre a arquitetura, a escola já lhe ofereceu uma em seu ambiente construído implícito.
Isso não significa sugerir que os edifícios determinem a atuação de arquitetos e arquitetas. A influência é mais lenta e menos direta que isso. O edifício de uma escola de arquitetura opera mais como um currículo oculto: uma disciplina espacial que atua em conjunto com o corpo docente, as ementas, a cultura institucional e a vida estudantil. Ensina por meio do acesso e da obstrução, das adjacências programáticas, da exposição à luz natural e da escala. Produz hábitos de atenção antes mesmo de gerar crenças explícitas.
Uma das qualidades definidoras dos interiores contemporâneos é a flexibilidade. Escritórios, instituições de ensino, hotéis e espaços culturais precisam ser adaptáveis. Eles exigem espaços que possam se expandir, dividir, abrir e fechar de acordo com diferentes atividades, sem sacrificar o conforto ou a acústica. A forma como um espaço é subdividido, portanto, não é mais uma decisão secundária, mas sim um componente central do desempenho arquitetônico.
Muito antes de se tornar uma questão de desempenho, conforto ou eficiência energética, a luz natural é uma forma de dar presença à arquitetura. Ela revela a textura de uma parede, la profundidade de uma abertura e a passagem silenciosa do tempo em um espaço. Em obras tão distintas quanto as de Tadao Ando e Alvar Aalto, a luz do dia surge como um material essencial de projeto: em alguns casos, guiando o olhar em direção à contemplação; em outros, tornando os espaços mais humanos, acolhedores e conectados à vida cotidiana.
Na imagem: F128 PA Black Ambiance Granite, U590 PM/TM Deep Blue, U705 PM/TM Angora Grey, U755 PM/TM Havanna Grey, H1708 ST17 Brighton Chestnut. Imagem cortesia de EGGER
Projetar um espaço interno é, de muitas maneiras, um exercício de orquestração. Assim como um/a maestro/a coordena instrumentos, timbres, ritmos e intensidades para compor uma peça coerente, o/a arquiteto/a reúne materiais, cores, luz, textura e proporção para definir a qualidade espacial e a atmosfera de um ambiente. Nenhuma dessas decisões funciona isoladamente: a escolha de uma superfície influencia o modo como a luz é refletida; um determinado material pode moldar o envelhecimento do espaço ao longo do tempo; a cor, por sua vez, afeta diretamente a percepção de escala.
Materiais derivados de madeira, tais como painéis de partículas de madeira (MDP) decorativos, painéis de MDF ou laminados, podem, portanto, ser compreendidos como mais do que simples acabamentos. Produzidos industrialmente, eles combinam a seleção de padrões decorativos, textura superficial e substrato técnico, definindo tanto sua aparência quanto a maneira como o espaço responde ao uso, à luz e ao tempo. Fatores como estabilidade dimensional, facilidade de manutenção e resistência ao desgaste tornam-se parte integrante das decisões projetuais, sobretudo em interiores sujeitos a uso intensivo.
A arquitetura educacional continua sendo um terreno fértil para a exploração de propostas não construídas, oferecendo uma perspectiva de como os ambientes de aprendizagem podem evoluir em sintonia com as transformações nos valores sociais, ecológicos e pedagógicos. Nesta seleção de projetos não construídos, enviados pela comunidade do ArchDaily, as propostas reunidas examinam escolas, bibliotecas, creches e centros acadêmicos como estruturas espaciais voltadas para o cuidado, o conhecimento e o crescimento coletivo. Em vez de tratar a educação como um programa estático abrigado em edifícios isolados, estes projetos abordam os espaços de aprendizagem como ambientes adaptáveis, moldados pela paisagem, pelo clima e pelas interações humanas.
Em diferentes geografias — de encostas mediterrâneas e pátios da Europa Central a cidades tropicais e modelos de campus distribuídos —, as propostas exploram diversas respostas arquitetônicas para a educação contemporânea. Elas variam desde jardins de infância em escala infantil, organizados em torno de árvores e claustros, até bibliotecas concebidas como paisagens cívicas, edifícios acadêmicos focados na biodiversidade e escolas pensadas como sistemas urbanos caminháveis.
Em toda a América do Sul, o conforto ambiental é compreendido não como uma condição interna estática, mas como algo moldado através do espaço. Em regiões marcadas pelo calor, umidade, luz solar intensa e variações sazonais, a arquitetura há muito tempo se apoia em decisões espaciais para amenizar o clima e acolher a vida cotidiana. O conforto surge da maneira como os interiores são abertos, sombreados, ventilados e habitados ao longo do tempo.
Em vez de isolar os espaços internos de seu entorno, muitos projetos contemporâneos na região cultivam o conforto por meio da profundidade, da porosidade e de zonas intermediárias. A luz é filtrada, e não maximizada; o ar é direcionado por aberturas alinhadas e vazios; e os limiares se transformam em espaços ativos de uso, em vez de bordas residuais. Tais estratégias não buscam um controle ambiental uniforme, mas produzem interiores que permanecem amenos, adaptáveis e intimamente sintonizados com as mudanças nas condições climáticas. Nesse contexto, o conforto ambiental torna-se indissociável da experiência espacial.
Cada vez mais, demanda-se da arquitetura que faça menos, e não mais. Em ambientes moldados pelo movimento constante, pelo ruído e pelas expectativas, os espaços que permitem às pessoas permanecer, pausar e estar presentes tornaram-se simultaneamente mais raros e mais necessários. Muitos espaços públicos e semipúblicos são projetados para manter as pessoas em movimento, consumindo ou reagindo, deixando pouco espaço para a permanência, a observação ou o simples existir sem um propósito.
Diante disso, um conjunto crescente de obras vem desviando o foco da ativação em direção à presença. Em vez de exigir que as pessoas usuárias interajam ou participem, esses espaços criam condições que favorecem a permanência. O conforto, a continuidade e a abertura permitem que as pessoas permaneçam sem pressão ou obrigação, transformando a presença em uma qualidade espacial, e não em uma atividade.
Ao operar com apenas cinco notas, a escala pentatônica estabelece um sistema musical estável e intuitivo, no qual a clareza estrutural permite variações sem o risco de dissonâncias excessivas. A partir dessa estrutura consolidada, que serve de base para inúmeros estilos musicais — especialmente a música popular —, o blues introduziu uma inflexão decisiva ao incorporar notas adicionais à escala. Sem entrar em tecnicismos excessivos, trata-se de sutis desvios tonais, pequenas dissonâncias frequentemente associadas a uma sonoridade mais melancólica, conhecidas como blue notes. Executadas de forma passageira, e não como acentos enfáticos, elas tensionam brevemente o sistema, agregando expressividade e profundidade ao mesmo tempo que mantêm intacta a estrutura subjacente.
Se na música a escala de blues opera por meio de um desvio sutil que "tempera" a estrutura subjacente, um princípio semelhante pode ser identificado na arquitetura. Embora comparações entre diferentes linguagens artísticas sejam sempre delicadas, é possível reconhecer projetos que encontram sua força expressiva não na ruptura, mas em inflexões localizadas introduzidas em sistemas claros — sejam eles de modulação, subtração, materialidade ou tipologia. Deslocamentos e assimetrias localizados funcionam como tensões internas que não comprometem a coerência do conjunto, revelando como a expressividade pode emergir do desvio controlado, e não da exceção permanente.
Nicolás Valencia conversa com a arquiteta hondurenha Ángela Stassano, autora do Museu da Escultura de Copán e uma das principais arquitetas da América Central. Gravado na cidade hondurenha de San Pedro Sula, Stassano apresenta suas publicações sobre arquitetura bioclimática, histórias de motoneta e a história de Honduras.
https://www.archdaily.com.br/pt/1093978/angela-stassano-cresci-em-uma-casa-que-ja-tinha-respostas-climaticas-sem-ser-chamada-de-arquitetura-bioclimaticaArchDaily Team
Fundado por Oliver Thomas, o ATN Summit é a primeira grande conferência da Archi-Tech Network, marcando cinco anos desde que a plataforma começou como uma iniciativa comunitária voltada ao compartilhamento de conhecimento prático de arquitetura. O ATN Summit, que ocorrerá nos dias 18 e 19 de março de 2026, em Londres, reúne profissionais de arquitetura, tecnologia e inovação do setor para explorar como as tecnologias emergentes estão redefinindo a prática profissional. Concebido como um evento de alta produção e focado em ideias, o Summit reflete a evolução da ATN de uma conversa informal on-line para uma plataforma global ativamente engajada com o futuro do ambiente construído.
Wonder Cabinet / AAU ANASTAS. Imagem cortesia de AAU ANASTAS
Entre os vencedores do Prêmio Aga Khan de 2025 está o escritório AAU Anastas com o seu projeto Wonder Cabinet, na Palestina, cujo objetivo central é servir como um refúgio para a cultura e a criatividade e como uma ponte entre o design e a produção. Para além deste projeto expressivo, o AAU Anastas — que opera a partir de escritórios em Belém, na Palestina, e em Paris, na França — construiu um amplo portfólio desde 2015. Entre suas obras notáveis estão o Dar Al Majous, uma restauração em Belém que desafia as fronteiras entre as esferas doméstica e pública; o Tribunal de Tulkarm (2015), um de seus primeiros projetos, que redefiniu o caráter cívico e o convívio social em um terreno de esquina proeminente em Tulkarm; e The Flat Vault, uma intervenção comercial que adiciona uma abóbada de pedra justaposta a uma loja monástica existente, vinculada a uma igreja construída no século XII pelos Cruzados.
Em meio a essas obras de forte impacto, o Wonder Cabinet provavelmente atraiu a atenção do júri não apenas por sua execução refinada e complexidade espacial em camadas, mas também por sua operação como uma plataforma socialmente geradora — dissolvendo a fronteira entre infraestrutura social e arquitetura. Concebido para apoiar a cultura, a criatividade, o design e a produção, o edifício aspira acolher profissionais da arquitetura, do design, da gastronomia, do artesanato e das artes visuais e sonoras, entre outras áreas. De maneira significativa, o projeto impulsiona o espírito articulado pelo júri de 2025, que caracterizou este ciclo como um ano de fomento à resiliência e ao otimismo por meio do design, demonstrando como a arquitetura pode atuar, simultaneamente, como catalisadora de comunidades e de iniciativas empreendedoras.
Os ambientes de trabalho contemporâneos prometem colaboração, mas enfrentam cada vez mais dificuldades para oferecer espaços de privacidade. Em uma era dominada por layouts em plano aberto, pequenos espaços acústicos, como cabines telefônicas e nichos de foco, tornaram-se essenciais para manter a produtividade e a privacidade. Contudo, o paradoxo dos "conflitos de reserva" somado a "espaços subutilizados" transformou essas áreas em desafios operacionais. Diante disso, a questão é como os ambientes de trabalho podem equilibrar eficiência, produtividade e experiências de uso individualizadas dentro de contextos cada vez mais complexos.
A inteligência artificial inseriu-se em praticamente todas as etapas dos fluxos de trabalho profissionais, levando o setor de arquitetura a repensar sua forma de atuar. Para se adaptarem a essa mudança, os escritórios agora enfrentam os limites de um modelo que pouco mudou nas últimas décadas.
O que mudou, e de forma notória, foi a pressão por produtividade. Espera-se que os escritórios atuais entreguem mais trabalho de forma mais rápida e com maior precisão, ao mesmo tempo em que gerenciam orçamentos mais enxutos, regulamentações complexas e expectativas crescentes por parte dos clientes. Na prática, isso se traduz em cronogramas reduzidos e em uma demanda constante por precisão que deixa pouco espaço para erros. Frequentemente, grande parte dessa pressão recai sobre um pequeno grupo de pessoas que detém o conhecimento crítico do projeto.
O Sudeste Asiático é frequentemente descrito como uma espécie de playground arquitetônico—uma arena onde os ideais modernos e contemporâneos foram testados em escala real por meio de edifícios singulares e icônicos. É fácil traçar uma linhagem por meio de nomes que ajudaram a moldar o imaginário das silhuetas urbanas da região: o Lippo Centre de Paul Rudolph em Hong Kong e o The Concourse em Cingapura; o OCBC Centre de I.M. Pei e a Bank of China Tower em Hong Kong; a Suprema Corte de Cingapura de Norman Foster e o HSBC Main Building em Hong Kong; a Prefeitura de Hong Kong de Ron Phillips; e o Marina Bay Sands de Moshe Safdie. Contudo, essa história familiar—contada por meio de objetos, colonialismo, autoria e formas de assinatura—corre o risco de ignorar uma camada de influência mais profunda e consequente: as lógicas de planejamento e as estruturas de infraestrutura que silenciosamente organizaram a maneira como essas cidades se expandem, se adensam e distribuem a vida cotidiana.
"Não há espaço sem acontecimento, não há arquitetura sem ação." Ao escrever essas palavras, Bernard Tschumi articulava um princípio fundamental da prática da arquitetura. A arquitetura trata de comportamento. Cada traço de caneta em uma planta baixa é uma proposição sobre como os/as ocupantes se moverão ou quais ações se tornarão possíveis.
Desenhar é arquitetar uma realidade. Contudo, apesar desse poder, a arquitetura não comanda. Ela não emite instruções nem impõe conformidade; em vez disso, opera por meio de um controle sutil — um modo de influência que molda o comportamento ao estruturar a percepção e guiar a atenção.
Em 2012, Cities Without Ground: A Hong Kong Guidebook ofereceu uma das documentações mais claras de uma condição que muitos/as moradores/as vivenciam intuitivamente, mas raramente nomeiam: a dependência de Hong Kong de um urbanismo elevado, ao nível do segundo pavimento. Através de desenhos e de um mapeamento minucioso, o livro capturou como as redes de pedestres da cidade são rotineiramente elevadas acima do nível da rua — separando as pessoas do tráfego, estendendo as fachadas comerciais para além do térreo e negociando uma topografia montanhosa onde a circulação "plana" costuma ser uma façanha da engenharia. Desde sua publicação, esses sistemas ganharam ainda mais destaque — não apenas pela sua complexidade espacial em si, mas pela maneira como redefinem o espaço público como algo contínuo, porém seletivo, conectivo, porém curado.
Esse fascínio, no entanto, sempre carregou um desconforto paralelo. Passagens elevadas podem ser generosas e eficazes, oferecendo deslocamentos protegidos e conectividade confiável. Contudo, elas também levantam questões persistentes: para onde levam essas rotas, quem consegue se conectar e que tipos de programas são convidados — ou excluídos — por esse nível "privilegiado" de circulação? A cidade no nível superior não se limita a evitar os veículos; ela também pode contornar a rua como palco cívico. Com tempo, corre-se o risco de desviar a atenção arquitetônica da vida pública ao nível do chão, desobrigando projetistas de negociar a escala de pedestres, a interface das fachadas e a complexa reciprocidade da rua. Em seus piores momentos, o resultado é uma paisagem de aglomerados de pódios e megaestruturas herméticas — edifícios que simulam conectividade no Nível 2, enquanto permanecem indiferentes ao bairro no Nível 0.
A arquitetura residencial continua a oferecer um terreno fértil para a exploração de projetos não construídos, revelando como arquitetos e arquitetas respondem ao contexto, ao clima e às restrições na escala doméstica. Nesta edição de Não Construídos, enviada pela comunidade do ArchDaily, os projetos selecionados reúnem uma série de propostas que reconsideram a casa não como um objeto isolado, mas como um sistema espacial moldado por seu entorno. Essas obras posicionam a arquitetura como uma estrutura que faz a mediação entre terreno, material e habitabilidade, muitas vezes surgindo diretamente das condições do próprio local.
Em geografias variadas, de Kerala e Cartagena a Amã, Tromsø e Zwolle, os projetos demonstram respostas diversas à arquitetura doméstica. Eles incluem moradias urbanas compactas organizadas por meio de estratificação vertical, casas com pátio parcialmente inseridas no terreno, residências adaptadas a topografias em declive e transformações tipológicas moldadas por restrições regulatórias. Alguns projetos exploram sequências espaciais lineares enraizadas em proporções tradicionais, ao passo que outros organizam a vida doméstica em torno de átrios ou vazios escavados que medeiam luz, ventilação e privacidade. Juntas, essas propostas examinam como a casa pode ser estruturada através do corte, do material e do desempenho ambiental, em vez de se limitar à expressão formal.
Nicolás Valencia conversa com o arquiteto chileno Sebastián Irarrázaval por ocasião do lançamento deEscritos y arquitectura, a primeira monografia sobre sua trajetória, com curadoria de Fernanda de Maio, publicada pela Lettera Ventidue Edizioni em uma edição bilíngue em espanhol e italiano e financiada pelo Fondo Nacional de las Artes y la Cultura 2023.
Quem é Sebastián Irarrázaval? É arquiteto pela Pontificia Universidad Católica de Chile. Fundou o escritório Sebastián Irarrázaval Arquitectos, a partir do qual desenvolveu projetos residenciais, de arquitetura pública e equipamentos culturais no Chile e no exterior. Foi professor da Escuela de Arquitectura UC, onde lecionou em ateliês e disciplinas de projeto. Sua obra tem sido amplamente publicada e exposta, recebendo diversos reconhecimentos nacionais e internacionais, destacando-se por uma abordagem experimental no uso de materiais, sistemas construtivos e reutilização de estruturas existentes.
https://www.archdaily.com.br/pt/1093773/sebastian-irarrazaval-o-arquiteto-como-tradutorArchDaily Team