Em casas compactas, a cozinha raramente é apenas um espaço para cozinhar. Ela costuma funcionar como um limite: uma parede de serviços ou uma fronteira entre o trabalho doméstico e a vida social. Sua importância reside não apenas na preparação de alimentos, mas na maneira como organiza o restante da casa, sobretudo devido às limitações das instalações hidráulicas e às exigências de ventilação. Antes que uma sala de estar possa parecer aberta, a cozinha geralmente precisa absorver a intensidade prática do dia a dia: água, calor, odores, eletrodomésticos, mantimentos e armazenamento.
Isso é especialmente visível nos densos interiores do Leste Asiático, onde o espaço doméstico é frequentemente moldado por áreas limitadas, novas estruturas familiares, trabalho híbrido e pela especificidade cultural do ato de cozinhar. A cozinha aberta pode ser apresentada como um atrativo de estilo de vida, mas em muitos apartamentos ela representa, na verdade, um desafio de planejamento. Ela precisa conciliar o trabalho doméstico, apoiar encontros informais e, às vezes, como estratégia de otimização de espaço, substituir o hall de entrada ou o corredor. Mais do que um mero gesto de design, o limite da cozinha é, portanto, um acordo espacial entre o serviço e o convívio.
O rápido crescimento urbano do México nas últimas décadas deixou muitas cidades enfrentando problemas como bairros fragmentados, altos índices de criminalidade e uma grave escassez de espaços públicos de qualidade. Em muitas áreas urbanas de baixa renda, o desenvolvimento informal ocorreu de forma paralela a infraestruturas básicas, como canais de drenagem, linhas ferroviárias e ravinas íngremes, dividindo comunidades e criando áreas vazias perigosas. Para mitigar essa segregação espacial e a falta de equipamentos urbanos, órgãos públicos e profissionais da arquitetura em todo o México estão intervindo nessas zonas de amortecimento abandonadas para construir parques públicos. Ao converter antigas barreiras físicas em corredores de pedestres acessíveis, esses projetos reconectam bairros segregados, restabelecem linhas de visão seguras e oferecem espaços para convivência comunitária e recreação diária.
Devido à grande procura, estamos reabrindo temporariamente as inscrições para o ArchDaily Student Ambassador Program 2026/2027.
O ArchDaily nasceu dentro de uma universidade, com dois estudantes de arquitetura que acreditavam que o conhecimento arquitetônico deveria circular mais. Dezoito anos depois, essa convicção não mudou — mas os insights, as ferramentas e as oportunidades cresceram. Lançamos o Student Ambassador Program para dar à próxima geração de arquitetos um papel direto na conexão entre suas universidades e a conversa arquitetônica global.
Em um momento em que arquitetos e arquitetas de todo o mundo revisitam a construção com terra, reavaliam tecnologias vernaculares e estabelecem conexões viscerais entre as comunidades e a terra sob seus pés, outros profissionais esboçam habitats para a Lua e projetam os ambientes construídos de uma colônia marciana. Escritórios de arquitetura, engenheiros/as e agências espaciais estão investindo um esforço intelectual sério em estruturas que precisariam ser erguidas do zero em outro mundo. Dois impulsos — um de retorno ao solo, outro que busca as estrelas — desdobram-se simultaneamente dentro da mesma disciplina. E a tensão entre ambos levanta uma questão desconfortável: do que, exatamente, estamos tentando escapar?
A gestão da água, a qualidade do ar e a mitigação do calor costumam ser planejadas por meio de sistemas muito maiores do que os espaços onde as pessoas realmente as vivenciam. As redes de drenagem ficam sob as ruas. A poluição do ar é medida em cidades inteiras. No entanto, essas condições são sentidas muito mais perto do corpo: ao esperar um ônibus sob o sol, ao caminhar por uma rua alagada, ao atravessar uma praça exposta ou ao procurar um lugar para sentar quando o próprio ar parece difícil de respirar.
O calor torna essa questão especialmente urgente. À medida que as cidades esquentam, ruas, parques, áreas de circulação e outros espaços públicos tornam-se, cada vez mais, locais onde o design pode reduzir a exposição por meio de sombra, vegetação, fluxo de ar e água. Para a arquitetura, isso traz parte da adaptação climática para os espaços que as pessoas utilizam no dia a dia.
Que narrativas os materiais carregam e como os "rastros" visíveis dos/as artesãos/ãs podem dialogar com os processos de fabricação e com a industrialização?Entre a concepção e a construção, o ato de pensar através do fazer pode se tornar o princípio norteador de uma filosofia de projeto. Combinando madeira, materiais industriais e objetos reaproveitados, a abordagem do Atelier CRAFT está enraizada na arquitetura reversível, guiada por seu manifesto: "Transformar o projeto através do fazer". Sediado em Saint-Ouen, Paris, o escritório explora as relações entre o ser humano e a matéria, o ato de fazer e os processos de fabricação.
Elia Zenghelis. Foto: Harvard Graduate School of Design
Elia Zenghelis, arquiteto grego, cofundador do Office for Metropolitan Architecture (OMA) e um dos mais influentes educadores de arquitetura do final do século XX, faleceu ontem, 30 de agosto de 2026, aos 89 anos. Sua morte marca a partida de uma figura cuja influência no pensamento arquitetônico foi muito além dos edifícios que projetou, moldando a formação intelectual de várias gerações de arquitetos/as ao longo de décadas de docência na Europa e nos Estados Unidos.
Nascido em Atenas em 1937, Zenghelis estudou arquitetura na Architectural Association School of Architecture (AA) em Londres, concluindo seus estudos em 1961. Integrou o escritório Douglas Stephen and Partners, onde trabalhou até 1971, ao mesmo tempo em que iniciava sua trajetória docente na AA, em 1963. Na instituição, tornou-se uma voz proeminente em defesa de um discurso arquitetônico mais radical e de vanguarda, contribuindo para transformar a AA em um terreno fértil para ideias radicais.
O ArchDaily está à procura de colaboradores/as de mídias sociais para integrar nossa equipe de conteúdo. Nossas equipes de mídias sociais transformam o conteúdo do ArchDaily em formatos digitais atraentes e de alto desempenho para diversos canais de redes sociais.
Sua função envolve a criação e a adaptação prática de conteúdo, bem como um alto nível de colaboração e criatividade para amplificar ideias de arquitetura para um público global.
Diante da transformação das cidades do Uzbequistão, o escritório ARC Architects desenvolve uma arquitetura que busca conectar o passado ao presente. Fundado em 2017 por Bobir Klichev, o estúdio surgiu da comunidade de arquitetura de Bucara e permanece estreitamente conectado às particularidades culturais e climáticas do país. Com escritórios em Tashkent e Bucara, o ARC combina minimalismo e referências étnicas para desenvolver uma linguagem contemporânea enraizada em seu contexto.
Em vez de reproduzir uma imagem tradicional da arquitetura uzbeque, o estúdio busca compreender como essa herança pode ser reinterpretada hoje — um exercício que dialoga necessariamente com as camadas históricas sobrepostas que atravessam o país. Durante séculos, cidades como Samarcanda e Bucara foram importantes centros comerciais e culturais da Ásia Central. Sua arquitetura desenvolveu-se em torno de pátios internos e ruelas estreitas, conformando tecidos urbanos nos quais as edificações e os espaços coletivos são indissociáveis.
Em uma era em que a fabricação digital e a automação se fazem cada vez mais presentes na prática arquitetônica, o ofício manual é frequentemente visto como um artigo de luxo — restrito a projetos de alto padrão, cujos clientes podem arcar com prazos estendidos e processos colaborativos que exigem diálogos constantes com artesãos. Esse cenário poderia soar contraditório há algumas décadas, quando Lina Bo Bardi denunciava que um processo de "desculturação" estava em curso e que se fazia urgente um balanço da civilização brasileira "popular" para enfrentar universalismos totalizantes e o folklore — este último visto por ela como um instrumento de alienação do Estado para neutralizar o caráter subversivo e transformador da cultura popular:
A pesquisa é um processo estruturado e ativo de análise, teste, interpretação e resolução que, em última análise, leva a um conhecimento que pode ser considerado disruptivo. O processo criativo por trás da pesquisa é um convite à imaginação: buscar respostas, soluções e alternativas para a realidade que conhecemos. Para ir além da teoria, essa prática afasta-se dos livros e computadores para adentrar espaços projetados especificamente para fomentar a experimentação. Nestes seis projetos não construídos, laboratórios, oficinas, observatórios, jardins, auditórios e espaços de exposição articulam-se como terrenos férteis para a imaginação. Trata-se de espaços que devem apoiar o trabalho colaborativo e a criatividade, permitindo que mentes curiosas e céticas encontrem caminhos para futuros alternativos.
O pátio interno de Rozzol Melara mede duzentos metros de cada lado, o que o torna maior do que qualquer praça em Trieste. Dois blocos em L de concreto aparente o circundam, sendo um deles com o dobro da altura do outro, subindo de sete a quinze pavimentos à medida que a encosta desce em direção ao golfo, quatro quilômetros abaixo. Pilares de concreto, espaçados a cada quinze metros, sustentam os blocos sobre um declive que eles nunca chegam a tocar de fato, abrindo pórticos profundos o suficiente para a circulação de pedestres, enquanto acima deles as fachadas se resolvem em loggias na escala de um único cômodo. Visto da estrada costeira, nada disso é legível; percebe-se apenas uma linha cinza traçada sobre as colinas.
No interior do complexo, o Istituto Autonomo Case Popolari de Trieste construiu o equivalente a uma cidade. Os 648 apartamentos ocupam uma parcela menor do projeto do que as escolas, a agência de correios, o centro de saúde, o salão paroquial, as cerca de vinte lojas e a garagem de dois níveis, todos acessados por ruas cobertas que percorrem toda a extensão dos blocos e cruzam o pátio em uma passarela elevada, de forma que o trajeto diário entre a porta de entrada e uma mercearia ou sala de aula passa pelo espaço coletivo sem que seja preciso sair ao ar livre. Uma equipe de vinte e nove arquitetos/as trabalhou no projeto sob a coordenação de Carlo Celli, baseando-se em estudos sociológicos encomendados antes do início do projeto.
Congresso Nacional em construção, visto do STF (Supremo Tribunal Federal), 1958. Imagem do Fundo Agência Nacional, Arquivo Nacional, Domínio Público
Construir uma cidade do zero não é tarefa fácil. Nunca foi e nunca será. A própria ideia de criar de forma planejada o que de outro modo se desenvolveria e cresceria gradualmente exige recursos, organização e, acima de tudo, mão de obra. Foi o que aconteceu em 1958, quando o Planalto Central do Brasil se transformou em um dos maiores canteiros de obras do século XX para a construção de Brasília. Dezenas de milhares de candangos (migrantes vindos predominantemente do Nordeste, muitos sem formação técnica prévia) chegaram para erguer uma capital inteira em pouco mais de três anos, sob o lema do então presidente Juscelino Kubitschek de realizar "cinquenta anos de progresso em cinco". A arquitetura de Oscar Niemeyer e o plano de Lúcio Costa não teriam sido possíveis sem a premissa de que haveria mão de obra suficiente e disposta a suportar baixos salários e condições extremamente severas para transformar concreto e curvas em um símbolo nacional.
À medida que as cidades da Arábia Saudita se expandem por meio de projetos culturais cada vez mais ambiciosos, o escritório Syn Architects tem dedicado grande parte de sua prática a olhar para o que precede essa transformação. A participação do escritório na Bienal de Arquitetura de Veneza de 2025 surgiu de anos de documentação da arquitetura Najdi, de um tecido urbano em desaparecimento, de materiais locais e de formas herdadas de conhecimento. Para o Syn, o patrimônio se torna útil quando pode ser documentado, testado e reincorporado ao uso.
Na década de 1970, Cuba enfrentou um grave déficit habitacional em todo o país, decorrente do crescimento populacional, da migração campo-cidade e da deterioração do parque habitacional existente. A resposta do governo foi um sistema que afastava trabalhadores comuns de seus empregos habituais para direcioná-los aos canteiros de obras. Esse programa, conhecido como as Microbrigadas, reformulou distritos inteiros de Havana ao combinar a autoconstrução coletiva com o conhecimento técnico apoiado pelo Estado, deixando uma marca na malha urbana de sua capital que persiste até hoje.
Profissionais de arquitetura recebem treinamento para escolher materiais, comparar suas propriedades e decidir como devem ser usados. No entanto, alguns escritórios estão assumindo uma tarefa diferente: desenvolver o próprio material.
Para o Material Cultures, o BC architects e o Studio Ossidiana, esse processo pode começar com o cultivo de cânhamo para a construção civil, terra escavada de canteiros de obras ou misturas de concreto, pigmentos, pedras e conchas. Seu trabalho conecta a pesquisa de materiais com o processamento, a fabricação e a construção.
Exterior of the Cinema Studio Namibe, Angola. Photo credit: Walter Fernandes
O que sustenta o propósito de uma arquitetura que nunca foi ocupada? Durante décadas, essa foi a pergunta que rondou o Cinema-Estúdio de Namibe, construído na costa da Angola, em 1973. Concebido para ser um espaço de exibição cinematográfica, o edifício permaneceu fechado e abandonado sem nunca exercer o papel para o qual foi criado. Ainda assim, sobreviveu ao tempo, tornando-se um ícone da paisagem e da arquitetura angolana, até finalmente exibir seu primeiro filme quase cinquenta anos depois.
Mas o que manteve esse edifício vivo no imaginário coletivo durante tanto tempo? Teria sido justamente sua arquitetura ousada e singular capaz de atribuir significado a uma obra que nunca teve um uso?
O tijolo é um dos materiais mais utilizados na Colômbia e um dos responsáveis por projetar a arquitetura local em escala global. Isso se deve à excelente qualidade da argila encontrada em algumas regiões do país. Além de revestir a maioria dos edifícios que caracterizam a paisagem urbana de Bogotá, este material é utilizado em todas as suas formas, desde o adobe até placas de piso em habitações rurais.
Relativamente próximas à capital encontram-se as icônicas olarias artesanais que abasteceram as construções que definem o cenário arquitetônico colombiano, como costumava fazer o arquiteto Herbert Baresch, para quem se desenhavam até mesmo as fôrmas de suas colunas de concreto com tijolos sob medida, e cujos adobes eram fabricados por artesãos locais nos próprios canteiros de obras. Este material parece imune à obsolescência; pelo contrário, com o avanço tecnológico, novas formas de aplicação continuam sendo descobertas. A seguir, apresentamos 12 exemplos de casas que o utilizam como superfície aparente.
Quando os países africanos conquistaram sua independência do domínio colonial europeu em meados do século XX, a construção nacional envolveu muito mais do que estabelecer novos governos e instituições políticas. Os novos Estados soberanos também precisavam estabelecer uma identidade edificada que os diferenciasse de seu passado colonial, e a arquitetura tornou-se uma ferramenta crucial nesse processo. Em todo o continente, edifícios cívicos monumentais, universidades, centros de convenções e instituições culturais foram encomendados para personificar o progresso e a unidade nacional. No entanto, isso criou uma contradição fundamental: muitos desses edifícios adotaram linguagens arquitetônicas modernistas e brutalistas de origem europeia, sendo que alguns foram inclusive projetados por profissionais de arquitetura das antigas potências coloniais. A Maison du Peuple em Ouagadougou, Burkina Faso, oferece um exemplo particularmente revelador de como uma linguagem arquitetônica associada à Europa pôde ser apropriada e transformada em uma expressão de independência pós-colonial.
In many Asian cities, eating has never belonged entirely to the private home. It spills into markets, hawker centers, street stalls, and wholesale districts embedded within larger buildings or areas. These are places where the city exchanges information and watches other people pass through. They are not restaurants in the conventional sense, nor are they simply markets. In some way, their vibrancy and usage reflect the society's conditions at that moment. They are public kitchens: shared infrastructures where domestic routines are partially transferred into collective space.
Hong Kong's Municipal Services Buildings and curbside dining are where food is understood not only as culture, but as urban organization. The cooked-food center in the city folds eating into a larger civic machine of wet markets, libraries, and sports halls. The dai pai dong and street-side table, meanwhile, transform the curb into a temporary dining room. Looking beyond Hong Kong, similar questions emerge across the region. How do cities make room for social eating? Where does cooking happen when domestic space is limited? What kind of architecture supports the mess and heat of everyday food?
A Pirâmide de Tirana foi inaugurada como um museu dedicado a Enver Hoxha em outubro de 1988, três anos após sua morte e três anos antes do colapso do regime. Nas décadas seguintes, o espaço funcionou como estação de rádio, centro de convenções, boate e base da OTAN durante a Guerra do Kosovo. Em 2023, o escritório MVRDV a reabriu como um parque e escola de tecnologia, adicionando degraus às fachadas para que as pessoas pudessem caminhar sobre o edifício. A inauguração coincidiu com a Cúpula dos Balcãs Ocidentais em 16 de outubro, data que, como apontaram alguns críticos, correspondia ao aniversário de Hoxha. Dois projetos de autodefinição nacional, separados por trinta e cinco anos e concebidos sob premissas políticas opostas, utilizaram a mesma estrutura.