Situado em meio à profusão de pavilhões nacionais grandiosos e cuidadosamente projetados no Giardini della Biennale, na cidade italiana de Veneza, encontra-se uma estrutura projetada por aquele que talvez seja o arquiteto moderno mais conhecido da região. Localizado entre os pavilhões da Rússia e da Suíça, o Pavilhão da Venezuela é de autoria de Carlo Scarpa. Em muitos aspectos, o edifício sintetiza a abordagem projetual de seu arquiteto, embora apresente idiossincrasias próprias. Construído para a mais importante exposição bienal de arte da Europa, o pavilhão integra um conjunto de estruturas modernistas que sucederam as primeiras edificações, de caráter mais classicista. Esta é a sua história.
O campo — historicamente subestimado — tem emergido como um território fértil de possibilidades. Mais do que um "espaço marginalizado", o rural latino-americano se afirma hoje como um verdadeiro laboratório de experimentação arquitetônica, social e ecológica. De comunidades agroecológicas a tecnologias de baixo impacto, das relações entre humanos, máquinas e outros seres vivos às soluções locais para desafios globais como a crise climática, a segurança alimentar e a migração — o campo está redesenhando, com autonomia e inventividade, seu próprio futuro.
Um bom design deve se adaptar às necessidades de quem o utiliza, e o design participativo busca reduzir a distância entre os/as arquitetos/as e as pessoas para as quais o projeto é concebido. Nesse sentido, projetos para crianças que as acolhem como protagonistas no processo de desenvolvimento demonstram como o potencial da escuta ativa e do codesign se reflete em espaços adaptados a uma escala menor e a um público em fase de aprendizado intenso.
Sejam jardins de infância, escolas, centros comunitários ou espaços públicos, os projetos participativos com crianças mostram como o processo de projeto pode ser uma troca enriquecedora para ambos os lados. Por um lado, as crianças aprendem sobre materiais, escalas, tomada de decisões e desenvolvem a consciência espacial. Por outro lado, os/as profissionais de arquitetura responsáveis por concretizar os desejos e necessidades desse público jovem podem exercitar a sensibilidade e a imaginação, reconhecendo uma visão de mundo diferente, focada na descoberta. Tudo isso se torna possível por meio da escuta e do diálogo aberto entre diferentes faixas etárias.
Esta seleção de projetos da Bienal de Arquitetura de Veneza 2025 explora a regeneração como um processo deliberado e inteligente, enraizado nas condições específicas de cada lugar. Há décadas a Bienal funciona como um campo de testes para as ideias mais urgentes da arquitetura, permitindo que designers, pesquisadores/as e instituições apresentem visões que respondem a desafios ambientais, culturais e sociais em constante evolução. Os projetos deste ano revelam que a regeneração — seja de uma cidade costeira inteira, de uma área industrial desativada ou de um espaço público negligenciado — exige mais do que simplesmente substituir o antigo pelo novo. Ela demanda uma leitura precisa dos contextos existentes, a preservação do conhecimento incorporado e a integração cuidadosa das necessidades contemporâneas.
As oito obras selecionadas mostram que a regeneração pode surgir de múltiplos pontos de partida: a reativação do patrimônio por meio do reuso adaptativo, a restauração de sistemas ecológicos como parte do planejamento urbano, o desenvolvimento de estratégias abertas e modulares para a renovação de habitações de interesse social ou a sobreposição de inovações tecnológicas a práticas historicamente enraizadas. Embora a escala da intervenção varie, cada projeto demonstra sensibilidade em relação ao que já existe no local — sejam recursos materiais, padrões urbanos ou a memória cultural — e a disposição de trabalhar com esses ativos como catalisadores de transformação. Juntos, eles sugerem que a regeneração precisa começar em algum lugar, e que seu sucesso reside no equilíbrio entre a inovação e a inteligência do que já existe.
O meio rural sempre exerceu um papel fundamental no desenvolvimento social e econômico dos países. Até o século XVIII, era o principal espaço de produção e de organização da vida. Com a Revolução Industrial, no entanto, ocorreram profundas transformações estruturais que redefiniram essa dinâmica. A indústria passou a ocupar uma posição central, vinculando-se ao meio urbano e dando origem a uma visão dicotômica e hierarquizada entre rural e urbano, agricultura e indústria. Nesse contexto, duas visões opostas ganharam destaque: uma previa o desaparecimento do rural diante da urbanização e do avanço econômico; a outra apostava na sua permanência e renascimento. Hoje sabemos claramente qual das hipóteses se tornou verdadeira.
A arquitetura de mercados contemporânea no México frequentemente se inspira em seus precedentes pré-hispânicos. O Mercado de Tlatelolco na antiga Tenochtitlan, por exemplo, caracterizava-se por uma grande praça aberta pavimentada com pedras e "ruas" demarcadas, divididas em seções para mercadorias específicas, servindo como um importante ponto de encontro para o intercâmbio social e econômico. De modo semelhante, a tradição dos Tianguis, uma tipologia de mercado efêmero integrada à ampla tradição mesoamericana, também organizava barracas em corredores dentro de uma praça pública, refletindo os princípios de organização observados em Tlatelolco. Esses modelos históricos estabeleceram as bases para a tradição dos mercados públicos no México e em países da América Central, onde o espaço público se funde ao arranjo estruturado do comércio. Hoje, embora muitos dos espaços comerciais do México — com destaque para a Central de Abasto na Cidade do México e outros mercados tradicionais como Jamaica, Merced e San Juan — tenham adotado um caráter permanente no atendimento às suas comunidades, os tianguis mantêm sua forte presença na sociedade mexicana.
Um projeto pode ser desenhado em linhas gerais, mas é construído nos detalhes. Por mais simples que pareça, uma escada envolve um nível significativo de engenharia. Algumas são visivelmente mais cansativas ou difíceis de subir e descer. Para solucionar isso, no século XVII, o arquiteto François Blondel propôs uma fórmula para garantir a proporção ideal entre espelho e piso — uma equação que, quando respeitada, proporciona um percurso confortável. No entanto, há outro fator igualmente decisivo: todos os degraus devem ser idênticos. Isso pode soar trivial e lógico, mas executar qualquer coisa com precisão é sempre um desafio construtivo. Nosso corpo se adapta rapidamente às dimensões dos degraus, e qualquer variação (mesmo mínima) pode causar tropeços sucessivos ou passos em falso. Um detalhe aparentemente insignificante, quando mal resolvido, pode comprometer o bem-estar e a segurança de um edifício inteiro.
Apontado como a nova era da construção, o Building Information Modeling (BIM) conquistou a atenção global com sua promessa de coordenação fluida, orçamentos reduzidos e novos patamares de eficiência. No entanto, no cenário da construção civil na Índia, a adoção dessa tecnologia revela uma história mais complexa, marcada por barreiras culturais e limitações técnicas.
"A maior barreira não é a tecnologia, mas sim a cultura de planejamento", explica Rahul Bahl, Diretor Executivo da Krishna Buildestates Pvt Ltd, destacando o que talvez seja o desafio mais fundamental do BIM na Índia. "O BIM exige que cada detalhe seja definido antes do início da construção, desde a localização dos interruptores elétricos até os acabamentos finais. Na Índia, costumamos iniciar as obras apenas com a estrutura bruta resolvida e passamos os meses seguintes aplicando engenharia de valor ao longo do processo."
A 19ª Exposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza conta com uma presença marcante da comunidade da SCI-Arc, incluindo estudantes, ex-alunos/as e docentes. Seus trabalhos estão presentes em diversos contextos—desde pavilhões nacionais até instalações independentes e projetos de pesquisa—, dialogando criticamente com o tema deste ano, Intelligens. A mostra se consolida como uma plataforma instigante para explorar questões fundamentais da pedagogia da SCI-Arc: o futuro do design, o papel da tecnologia e as possibilidades da experimentação arquitetônica.
Quando pensamos em cidades e vida urbana, costumamos focar em infraestrutura, cultura, comércio, vida noturna e densidade. Em metrópoles que parecem oferecer uma infinidade de atividades — especialmente para adultos —, o brincar raramente entra em pauta. No entanto, o ato de brincar deve ser considerado parte vital da vida urbana. O brincar influencia diretamente a maneira como moldamos nossas futuras cidades, a começar pela forma como as crianças interagem com seus ambientes. A experiência lúdica e, mais especificamente, o desenho e a presença de parquinhos infantis deixam marcas duradouras no desenvolvimento dos jovens nas cidades. Esses espaços constituem a primeira conexão física da criança com a paisagem urbana. Sendo assim, o brincar merece muito mais atenção nos debates sobre bem-estar urbano, habitabilidade e projeto do espaço público.
O Memorial de Sardarapat e o esboço original do arquiteto. Imagem via risraelyan.com/en/, cortesia de Aram Ghanalanyan
Em uma época na qual grande parte da arquitetura global parece desconectada da identidade local, a obra de Rafayel Israelyan se destaca por estar profundamente enraizada no lugar, na cultura e na memória. Atuando na Armênia de meados do século XX, Israelyan criou uma arquitetura que vai além do funcional ou do monumental; trata-se de uma obra culturalmente resiliente. O uso de motivos, materiais e formas simbólicas tradicionais da Armênia deu aos seus projetos uma segunda vida após a queda da União Soviética, momento em que muitos edifícios nos Estados pós-soviéticos foram abandonados ou demolidos. A Armênia, por outro lado, preservou muitas de suas obras, provavelmente porque sua abordagem de projeto não apenas atendia a um momento histórico específico, mas também narrava uma história mais ampla. Muito antes de conceitos como sustentabilidade ou regionalismo crítico se popularizarem, Israelyan já compreendia que as edificações ganham significado e durabilidade quando refletem a identidade e as características específicas de seu lugar.
No discurso arquitetônico contemporâneo, o planejamento urbano é cada vez mais reconhecido como um meio de conciliar o crescimento com prioridades sociais, culturais e ambientais de longo prazo. Para além de organizar edifícios e infraestrutura, essas propostas de grande escala visam regenerar o tecido urbano, adaptar áreas históricas ou subutilizadas e estabelecer diretrizes para comunidades inclusivas e resilientes. Enviados pela comunidade do ArchDaily, os projetos apresentados nesta edição de Arquitetura Não Construída destacam como os planos diretores podem responder aos desafios contemporâneos enquanto preparam as cidades para um futuro incerto.
Abrangendo diversas geografias, da Europa ao Oriente Médio e às Américas, os projetos selecionados reinterpretam complexos industriais, sítios culturais e bairros residenciais por meio de estratégias que priorizam a sustentabilidade, a mobilidade e a identidade coletiva. Muitos compartilham o foco no design regenerativo: a reabertura de canais históricos, a criação de espaços públicos adaptados ao clima e a introdução de corredores verdes e centros comunitários para reconectar as pessoas com seus ambientes. Juntos, eles demonstram como o planejamento urbano vem se consolidando como uma ferramenta fundamental para repensar a maneira como as cidades crescem, se adaptam e sustentam a vida cívica.
O concreto é frequentemente visto como o material da modernidade, definido por sua resistência estrutural, acabamento bruto e inconfundível tom cinza. Tornou-se a paleta padrão da arquitetura do século XX, um símbolo de funcionalidade e permanência. No entanto, o concreto não está limitado a essa identidade cromática. Sua cor é subproduto do cimento, dos agregados e da composição química utilizados em sua mistura, podendo ser intencionalmente alterada por meio da pigmentação. Entre as muitas tonalidades exploradas, o vermelho se destaca — não apenas por sua intensidade visual, mas por sua capacidade de enraizar os edifícios em seu lugar, evocar referências culturais e imbuir a arquitetura de uma presença material ao mesmo tempo elemental e expressiva.
A pigmentação do concreto envolve a adição de corantes de base mineral — geralmente óxidos de ferro — durante o processo de mistura. Diferentemente de tintas ou revestimentos aplicados à superfície, esses pigmentos são integrados diretamente à massa do concreto, garantindo que a cor permeie o material e permaneça estável ao longo do tempo. Os pigmentos vermelhos, em particular, são frequentemente derivados do óxido de ferro (Fe₂O₃), um composto natural encontrado na argila, na hematita e em outros minerais ricos em ferro. Sua tonalidade terrosa e profunda conecta a construção contemporânea a técnicas ancestrais — das argamassas pozolânicas romanas às construções de terra vermelha da África Ocidental e da América do Sul.
Nascida e sediada na região da Transilvânia, na Romênia, Maria-Cristina aborda a arquitetura sob uma perspectiva rica e multifacetada, moldada por uma trajetória acadêmica e profissional diversa. Mestre pela UTCN e pela KU Leuven, ela concilia uma formação arquitetônica rigorosa com uma ampla curiosidade que abrange tanto os aspectos criativos quanto analíticos da disciplina. No início de sua carreira, trabalhou em escritórios de arquitetura de pequeno e médio porte, adquirindo uma valiosa experiência prática antes de migrar para o trabalho editorial no ArchDaily em 2022. Desde então, assumiu o cargo de Editora-Chefe, ao mesmo tempo em que cursa o doutorado em estudos arquitetônicos e atua como professora assistente, refletindo seu profundo compromisso tanto com a prática quanto com a pesquisa acadêmica.
A abordagem de Maria-Cristina em relação à arquitetura fundamenta-se na compreensão de sua complexidade e diversidade. Ela vê a arquitetura não como uma definição estática, mas como um campo em constante evolução, no qual estruturas, física, materiais, estética, filosofia e a experiência humana se entrelaçam. Seu interesse pelo trabalho editorial surgiu dessa visão de mundo, ao descobrir que a escrita e o projeto compartilham paralelos: ambos envolvem a construção de ideias que se conectam e se apoiam mutuamente, de forma muito semelhante aos elementos de um edifício. Sob essa ótica, ela encontra satisfação em elaborar ensaios que comunicam ideias complexas de forma clara e simples, enfatizando a singularidade dos conceitos em detrimento das palavras.
Do design de interiores de estabelecimentos voltados à prática esportiva a espaços de bem-estar, a arquitetura contemporânea continua experimentando a incorporação de diferentes usos, instalações e materialidades que permitem a expansão para públicos amplios, a criação de novas espacialidades e o incentivo ao desenvolvimento de diferentes atividades simultâneas. Embora cada esporte demande seu próprio tipo de arquitetura — como, por exemplo, o treino de escalada —, da Austrália aos Países Baixos, profissionais de arquitetura e design apostam na criação de atmosferas onde o exercício se torna não apenas uma experiência física, mas também psicológica, conectando corpo e mente a um estado de renovação física, relaxamento e sociabilidade.
A arquitetura não se improvisa. Pensar muito não é o mesmo que pensar bem. Afinal, uma ideia brilhante, sem clareza e propósito, reduz-se a nada. Projetar sem convicção resulta em mais do mesmo: formas vazias, sem discurso nem alma. O Mestrado em Projeto Arquitetônico (MDA) da Universidad Panamericana não é uma simples pós-graduação: é um convite para retornar à origem do ofício. Aqui, o espaço é pensado como um ato crítico, sensível e vital. Você não vem para impressionar: vem para projetar o que realmente importa. Cada decisão projetual fala sobre você, e aqui você aprenderá a sustentá-la e a transformá-la em arquitetura com propósito.
A maneira como percebemos um espaço não depende unicamente de sua escala ou de sua forma, mas de uma série de decisões que, a partir do interior, moldam a nossa experiência. Alguns gestos são determinantes: o pé-direito livre, a organização dos planos verticais ou o tamanho da cama. Outros atuam com maior sutileza, como a incidência da luz, a tonalidade dos materiais ou o uso da cor. Todas essas variáveis influenciam na forma como o espaço se manifesta — se o sentimos aberto ou contido, seccionado ou contínuo. Nessa mesma linha, o uso de pisos em grandes formatos torna-se uma operação fundamental: reduz a fragmentação visual e reforça a continuidade das superfícies.
https://www.archdaily.com.br/pt/1142642/espacos-sem-juntas-como-os-grandes-formatos-transformam-a-linguagem-arquitetonicaEnrique Tovar
O que significa construir com cuidado, utilizando aquilo que os outros deixam para trás? Essa pergunta molda o trabalho do Matter Matters Lab, uma iniciativa fundada pela arquiteta e pesquisadora Catherine Söderberg Esper durante o isolamento da pandemia. A partir de experiências multiculturais e motivada por uma transformação pessoal durante a maternidade, Catherine começou a investigar resíduos cotidianos como matéria-prima para sistemas construtivos regenerativos. Seu primeiro experimento consistiu em colar seus próprios cabelos cortados usando cola branca, dando início a uma abordagem radicalmente íntima e artesanal. Desde então, o laboratório tem se concentrado em transformar resíduos orgânicos em materiais arquitetônicos de baixo impacto, inspirando-se em sistemas de conhecimento indígenas e buscando romper com modelos extrativistas na construção civil. Projetos como os Avocado Bricks, feitos a partir de caroços de abacate descartados, exemplificam essa abordagem local, circular e enraizada na ideia de reciprocidade entre matéria, lugar e cuidado, oferecendo uma nova maneira de construir com resíduos.
O Museum of Emotions é um concurso internacional de projetos anual que desafia os/as participantes a explorar até que ponto a arquitetura pode ser utilizada como ferramenta para evocar emoções. O edital propõe o projeto de um museu conceitual com duas salas de exposição: uma projetada para induzir emoções negativas; a outra, para evocar sentimentos positivos. Os/As participantes têm total liberdade para escolher qualquer terreno, real ou imaginário, bem como definir a escala do projeto. O significado de "positivo" e "negativo" fica aberto à interpretação: quais duas emoções um/a designer consideraria opostas? Como um/a arquiteto/a poderia conceber espaços que despertem medo, raiva, ansiedade, amor ou felicidade?
O Museum of Emotions é um concurso "silencioso": ou seja, os/as participantes devem comunicar suas ideias sem o uso de textos, utilizando apenas imagens. Nenhuma forma de texto é permitida — sejam memoriais descritivos, anotações ou mesmo legendas de diagramas.
Narrar uma obra de arquitetura é sempre um desafio. As imagens de um projeto, por mais precisas ou espetaculares que sejam, muitas vezes deixam de fora todo o processo que as tornou possíveis. O registro desses processos — os bastidores da arquitetura — é, sem dúvida, parte fundamental de qualquer obra. E torna-se ainda mais essencial quando tanto o projeto quanto sua metodologia de execução se afastam dos caminhos convencionais. Este é o caso da obra realizada por Susana, responsável por uma propriedade rural sem nenhuma experiência prévia em construção, que assumiu o desafio e o executou por conta própria, guiada unicamente pelas instruções que o arquiteto do projeto, Manuel Ocaña, lhe enviava pelo WhatsApp.
Preservação do patrimônio e viabilidade econômica há muito são tratadas como prioridades conflitantes no desenvolvimento urbano. Profissionais de arquitetura geralmente enfrentam uma escolha drástica: projetar para a continuidade da comunidade ou projetar para o retorno financeiro. Projetos contemporâneos em Mumbai mostram que essa oposição é falsa. Por meio de programação estratégica, escolhas de materiais e organização espacial, esses projetos viabilizam edifícios que geram receita sustentável ao mesmo tempo em que fortalecem, em vez de desestruturar, as comunidades existentes.
A Mongólia, o segundo maior país do mundo sem saída para o mar, estende-se por 1,5 milhão de quilômetros quadrados. No entanto, mais de 50% de sua população — cerca de 1,7 milhão de pessoas — reside em Ulaanbaatar, uma cidade que ocupa apenas 0,3% da área territorial total do país. Essa concentração demográfica desproporcional resultou em graves desequilíbrios no desenvolvimento regional e em crescentes desafios urbanos na capital.
Diante desse cenário, Ulaanbaatar tem passado por uma série de iniciativas abrangentes de desenvolvimento urbano. Desde a introdução do primeiro plano diretor, em 1954, já foram elaborados seis planos desse tipo. O mais recente deles, o Plano Diretor Ulaanbaatar 2040, inclui uma visão estratégica para descentralizar o crescimento urbano por meio do desenvolvimento de duas novas cidades-satélite — uma das quais é o projeto Hunnu City.
Telhas de argila vermelha estão presentes em diversas tradições arquitetônicas ao redor do mundo, mesmo em culturas geográfica ou historicamente distantes. No entanto, isso não chega a ser uma surpresa. A argila é um material de construção abundante e acessível em todo o mundo, com alguns estudos e outras fontes sugerindo que ela compõe aproximadamente de 10% a 13% dos solos do planeta. As telhas vermelhas, em especial, costumam ser o resultado da composição mineral do solo local e do processo de queima. Seu uso disseminado em regiões sem conexão direta deve-se menos a uma influência cultural compartilhada e mais a uma lógica material: a argila é barata, durável e fácil de trabalhar com ferramentas e técnicas simples. No Vietnã, por exemplo, há uma tradição singular e marcante no uso de telhas de argila que remonta a séculos. Regiões como Vinh Long, apelidada de "reino da cerâmica vermelha", dispõem de uma abundância desse material, o que sustenta uma longa história de fabricação de telhas. Em algumas partes do Vietnã, essas peças são conhecidas como telhas Yin-Yang, devido ao formato côncavo e convexo que assumem durante a produção.