Sunlight House / HEIN-TROY Architects. Imagem cortesia de VELUX
A arquitetura pode moldar o conforto antes mesmo que os sistemas mecânicos entrem em cena? Em um cenário no qual os edifícios respondem por quase 40% do consumo global de energia e as pessoas passam cerca de 90% do tempo em espaços internos, o conforto térmico tornou-se uma das preocupações mais urgentes da arquitetura. No entanto, embora seja frequentemente associado a índices de isolamento, classificações energéticas ou sistemas mecânicos, o desempenho térmico começa com decisões espaciais tomadas muito antes da introdução de equipamentos técnicos. Orientação, fluxo de ar, luz natural e a implantação de aberturas influenciam diretamente como um edifício absorve, retém e dissipa calor ao longo do dia.
O desempenho térmico não se resume a reduzir a demanda de energia, mas também a manter condições internas confortáveis em resposta ao clima. Estritamente ligado ao conforto térmico — a maneira como os/as ocupantes vivenciam a temperatura, o fluxo de ar, a umidade e o calor radiante —, ele influencia a saúde, o bem-estar e a produtividade na mesma medida em que afeta a eficiência operacional. Pesquisas sugerem que ambientes internos saudáveis podem melhorar a capacidade de aprendizado e a produtividade em até 15%, reforçando a relação cada vez mais evidente entre desempenho ambiental, resiliência e qualidade espacial.
A arquitetura é frequentemente apresentada como a expressão visível de seu tempo, de seus desejos, de sua fé no progresso, de sua ideia de ordem. No entanto, essa leitura tende a achatar as condições sob as quais as edificações são produzidas. Ela sugere que a arquitetura simplesmente acompanha a história quando, em muitos casos, participa ativamente dela. Poucos períodos tornam isso tão evidente quanto o século XX, quando a arquitetura se viu profundamente imbricada com programas políticos, sistemas econômicos e visões conflitantes sobre como a vida coletiva deveria ser organizada.
O que costuma ser agrupado sob o rótulo de Modernismo é frequentemente descrito como um projeto coerente, definido pela clareza formal, pelo otimismo tecnológico e pela ruptura com os estilos históricos. Contudo, essa aparente coerência se dissolve quando olhamos para além de seus centros canônicos. Os mesmos princípios espaciais (padronização, zoneamento funcional, produção industrial) foram adotados em contextos políticos e econômicos que diferiam significativamente em suas estruturas e objetivos. Um movimento aparentemente estático desdobrou-se em um sistema flexível, continuamente reorientado de acordo com as prioridades de cada regime. O que parecia uma linguagem compartilhada era, na prática, um conjunto de ferramentas aplicadas a agendas distintas.
A visualização de arquitetura há muito desempenha um papel fundamental na comunicação e na formatação de ideias de projeto. Hoje, essa atribuição está se expandindo. Com o avanço da inteligência artificial, a visualização passa a se integrar de maneira mais profunda a todo o fluxo de trabalho de projeto, viabilizando iterações mais rápidas e tomadas de decisão mais fundamentadas.
A arquitetura há muito se sente atraída pela ideia de leveza. Desde os primeiros experimentos modernistas que buscavam preservar as paisagens, elevar as edificações tem sido compreendido como uma forma de poupar o solo e manter a continuidade do terreno. Volumes são erguidos sobre pilares, infraestruturas descolam a circulação da superfície e programas inteiros são suspensos acima do chão.
Isso foi formalizado no início do século XX por meio do conceito de pilotis de Le Corbusier, que propunha a liberação do pavimento térreo de qualquer fechamento. Ao elevar as edificações sobre pilares, buscava-se manter a continuidade com o terreno, permitindo que o movimento, a vegetação e o uso coletivo se desenvolvessem sob os volumes construídos. O edifício ocuparia o ar, enquanto o chão permaneceria aberto, acessível e compartilhado.
Nicolás Valencia conversa em Santiago com o arquiteto chileno Cristián Izquierdo, autor do livroComposición centralizada, uma seleção de oito ensaios sobre oito casas projetadas e construídas por Izquierdo no Chile, entrelaçando teoria e prática.
Quem é Cristián Izquierdo? É arquiteto pela Pontifícia Universidade Católica do Chile e mestre (MSc) pela Columbia University. É sócio da Izquierdo Lehmann Arquitectos e fundador do Taller Tecton, onde desenvolve projetos cívicos de baixas emissões. É autor de Composición Centralizada e El material de lo construido. Recebeu reconhecimentos como o Architectural Record Design Vanguard e a Medalha AOA de Arquiteto Jovem Destacado. É professor na Pontifícia Universidade Católica do Chile.
https://www.archdaily.com.br/pt/1093954/oito-casas-de-madeira-no-chile-com-cristian-izquierdoArchDaily Team
Atendendo a pedidos, estamos reabrindo brevemente as inscrições para o Programa de Embaixadores/as Estudantis do ArchDaily 2026/2027.
O ArchDaily começou dentro de uma universidade, por iniciativa de dois/duas estudantes de arquitetura que acreditavam que o conhecimento arquitetônico deveria ir mais longe. Dezoito anos depois, essa convicção permanece a mesma — mas as perspectivas, as ferramentas e as oportunidades cresceram. Estamos lançando o Programa de Embaixadores/as Estudantis para dar à próxima geração de arquitetos/as um papel direto na conexão entre suas universidades e o debate global sobre arquitetura.
Devido à grande procura, estamos reabrindo brevemente as inscrições para o ArchDaily Student Ambassador Program 2026/2027.
O ArchDaily nasceu dentro de uma universidade, por iniciativa de dois estudantes de arquitetura que acreditavam que o conhecimento arquitetônico deveria ir mais longe do que ia naquele momento. Dezoito anos depois, essa convicção permanece inalterada — mas as perspectivas, as ferramentas e as oportunidades cresceram. Lançamos o Student Ambassador Programpara dar à próxima geração de arquitetos/as um papel direto na conexão entre suas universidades e o debate arquitetônico global.
Programas voltados à hospitalidade, especificamente cafeterias e centros sociais, são definidos em parte por seu papel como "terceiros lugares": âncoras sociais que fazem a ponte entre a vida privada e a pública. Ao contrário de programas residenciais ou comerciais de escritórios, que exigem divisões rígidas para privacidade e funcionalidade, esses espaços dependem de ambientes amplos e em plano aberto. Isso viabiliza uma estratégia arquitetônica de intervenção mínima, permitindo que o envelope estrutural permaneça intacto. Ao evitar a subdivisão do espaço, a equipe de projeto mantém linhas de visão desimpedidas para a alvenaria original, as estruturas de madeira ou os tetos decorativos, garantindo que a narrativa histórica do edifício permaneça como protagonista. Simultaneamente, a atividade comercial proporciona a manutenção necessária e o engajamento público indispensáveis para garantir a existência contínua do local.
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Villa Tai. Imagem cortesia de ARK Architects
A residência unifamiliar continua sendo um dos territórios mais complexos da arquitetura contemporânea. Ao mesmo tempo íntima e técnica, cotidiana e simbólica, ela concentra debates sobre conforto, sustentabilidade, paisagem e modos de vida, além de servir como um instrumento para projetar a identidade de quem ali habita. É nesse campo que atua o escritório ARK Architects. Sediado em Marbella e Sotogrande, o trabalho do estúdio, sob a direção criativa do cofundador Manuel Ruiz Moriche, desenvolve-se a partir de uma relação direta entre arquitetura, luz natural e contexto ambiental.
Restauração de Bir Ettin / Bled El Abar Collective. Imagem cortesia de Bled El Abar Collective
Em alguns idiomas, a própria palavra para edifício (como *immeuble*, em francês) refere-se à sua imobilidade. A disciplina de engenharia relacionada às edificações é denominada *estática*. Assim, a arquitetura está intimamente associada ao que é fixo e imóvel. No entanto, para milhões de pessoas nômades em todo o mundo, os abrigos devem ter uma estrutura leve e essencialmente móvel, enquanto o lar é a vasta paisagem onde residem. Esses estilos de vida, que carregam séculos de tradição, são constantemente ameaçados pela atração exercida pela vida sedentária em vilas e cidades. Na Tunísia, um projeto reconhece o risco de perda desse patrimônio e busca melhorar as condições de vida de pastores/as nômades.
Vencedor do Primeiro Prêmio: A Thread Through Time. Imagem cortesia de Buildner
Buildner anunciou os resultados do Dubai Urban Elements Challenge, um marco entre os concursos internacionais de design, organizado em colaboração estratégica com a Autoridade de Estradas e Transportes de Dubai (RTA). Com um prêmio total de 2.000,000 AED (aproximadamente €500.000), a iniciativa representa uma das mais expressivas competições globais de design financiadas por recursos públicos com foco em transformação urbana.
O concurso foi concebido como uma plataforma prospectiva de inovação e contratação para um dos ambientes metropolitanos de evolução mais rápida do mundo. Os/as participantes foram convidados/as a propor elementos urbanos modulares e responsivos ao clima — sistemas de assentos, dispositivos de sombreamento, infraestrutura de iluminação, componentes de sinalização (wayfinding), áreas de descanso e estruturas de microcomércio — projetados para valorizar a vida de pedestres e fortalecer a identidade do espaço público de Dubai.
A revitalização de centros históricos tem se tornado uma estratégia recorrente nas cidades centro-americanas que buscam reafirmar a relevância simbólica, econômica e funcional de seus núcleos tradicionais. Esses processos frequentemente combinam reabilitação física, investimento institucional e um controle mais rígido sobre o espaço público. San Salvador oferece um caso recente e instrutivo, que permite compreender como as intervenções em espaços cívicos herdados equilibram a melhoria da infraestrutura com a conservação do patrimônio e a regulação social. Além disso, possibilita avaliar como essas escolhas ecoam em debates mais amplos sobre a transformação urbana na região.
Em toda a América do Sul, a arquitetura resiste através dos materiais que utiliza, aqueles que persistem ao longo do tempo. O bambu, o tijolo, a madeira e o concreto surgem em diferentes regiões, conectando clima, trabalho e cultura de maneiras que garantem sua permanência através das gerações. Sua continuidade não depende exclusivamente de preservação ou tombamento. Depende do uso.
Sob essa perspectiva, a memória cultural não reside primordialmente em monumentos ou imagens, mas sim na prática. Ela sobrevive em gestos repetidos: no assentamento de tijolos, na amarração de nós de guadua, na montagem de estruturas de madeira, na concretagem de lajes que antecipam um novo pavimento. Essas ações são transmitidas menos por manuais do que pela participação direta. Com o tempo, formam sistemas de conhecimento integrados ao hábito e à necessidade. Os materiais perduram não por simbolizarem o passado, mas porque continuam cumprindo sua função.
Não faz muito tempo, em um período recente o suficiente para parecer atual, a arquitetura entrou em um momento no qual os edifícios passaram a ser interpretados como produtos. Essa abordagem trouxe disciplina e uma perspectiva renovada para uma indústria que, frequentemente, valoriza a novidade mais do que a clareza operacional. Ao direcionar os exercícios formais em direção à repetibilidade, experiência do usuário, desempenho e escalabilidade, preparou-se o terreno para que as edificações fossem avaliadas como "produtos". A arquitetura passou a responder de forma mais direta sobre o seu funcionamento, a clareza com que comunica seu uso e a consistência com que entrega a experiência pretendida.
A disciplina do design de produto renova a perspectiva dos profissionais de arquitetura que projetam para um futuro em constante transformação. Além de oferecer um novo vocabulário e parâmetros de projeto, a área traz consigo a responsabilidade: um produto deve funcionar de maneira confiável ao longo do tempo e em diferentes contextos. Ele deve se estruturar como um sistema de decisões, e não como uma mera coleção de partes. Desse modo, a qualidade já não é medida apenas pela singularidade, mas sim pela consistência e pela capacidade de gerar uma experiência previsível para quem o ocupa.
Selecionado como um dos vencedores do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, o escritório NAAW representa uma nova geração de estúdios de arquitetura que estão remodelando a prática contemporânea na Ásia Central. Fundado em 2019 por Elvira Bakubayeva e Aisulu Uali, o estúdio atua na interseção entre pesquisa, colaboração interdisciplinar e experimentação espacial, posicionando a arquitetura como uma ferramenta de reflexão e um agente ativo na construção da identidade cazaque contemporânea.
In a história arquitetônica do território mexicano, o ambiente construído funcionou não apenas como um palco humano, mas como uma infraestrutura biológica projetada para organizar a proximidade entre as espécies. A lógica espacial resultante não é uma performance solo, mas uma coexistência negociada entre corpos humanos e animais. Examinar essa herança hoje significa desviar o foco analítico da autoria estilística em direção a um fenômeno mais fundamental: a persistência de práticas espaciais que surgiram para sustentar formas de vida compartilhadas.
Muitas das características arquitetônicas hoje interpretadas como marcadores culturais ou estéticos — portais monumentais, pátios amplos e superfícies duráveis — podem ser compreendidas, na verdade, como vestígios materiais de um contrato entre espécies. Durante séculos, cavalos, mulas e o gado não foram elementos externos à arquitetura, mas habitantes essenciais cuja presença física moldou a escala, a circulação e as escolhas materiais. Seus corpos deixaram marcas mensuráveis no espaço, desde a altura das entradas que acomodavam cavaleiros e amazonas até sistemas de pavimentação projetados para resistir aos cascos, ao atrito e ao desgaste biológico. Em nenhum lugar esse contrato era mais visível do que no térreo da casa colonial.
O contexto da guerra em andamento marca o lugar da Ucrânia na consciência internacional. A arquitetura, no entanto, frequentemente transcende a duração de uma vida humana e, por isso, pode ser uma ferramenta para imaginar o futuro. A prática do projeto de arquitetura, seja ela especulativa, conceitual ou prática, funciona como um meio de dar vida a formas de viver e interagir que vão além das nossas realidades atuais. Nesta seleção de projetos conceituais enviados por leitores e leitoras do ArchDaily, vemos estratégias materiais, espaciais e simbólicas que buscam responder a contextos contemporâneos nos setores residencial, educacional e comercial.
Como a linha de conflito tem se mantido relativamente estática desde o final de 2023, as cidades ucranianas continuam a receber novos projetos de desenvolvimento arquitetônico e urbano. Neste artigo, compilamos uma seleção de propostas não construídas nas cidades de Vinnytsia, Lviv e Kyiv. A seleção inclui projetos residenciais, comerciais e de uso misto, além de um complexo educacional. Dois projetos residenciais também foram concebidos como protótipos sem uma localização específica, funcionando como uma resposta potencial à perda de infraestrutura e às condições de instabilidade na região.
Fachada de correntes de alumínio na loja Disney Glamour Store / SRA Architectes – Etienne Jacquin. Imagem Cortesia de Kriskadecor
Em ambientes altamente curados como a Disneyland Paris, a arquitetura opera sob um conjunto diferente de expectativas. Não se exige dos edifícios apenas desempenho técnico; eles também precisam se comunicar, muitas vezes instantaneamente. Nesse contexto, a fachada se torna um marco visual que funciona como um limiar, mediando a luz, o ar e a percepção. Uma estratégia que tem ganhado força nesse cenário é o uso de sistemas de envoltórias semiopacas. Sem serem totalmente transparentes nem completamente fechados, esses sistemas de fachada introduzem profundidade e variabilidade.
Pico House, parte do Distrito Histórico de Los Angeles Plaza. Imagem por Daniel L. Lu - Trabalho próprio, CC BY-SA 4.0
Hoje, a forma urbana de Los Angeles é caracterizada pela dispersão urbana do século XX e por uma extensa infraestrutura rodoviária. No entanto, a realidade física do núcleo original da cidade revela uma história mais complexa, profundamente enraizada na herança hispânica. De fato, Los Angeles não se originou do sistema de divisão de terras padronizado estadunidense que define a maior parte do território dos Estados Unidos. Em vez disso, é produto da tradição urbana espanhola nas Américas, que seguiu uma estrutura repetida em grandes cidades do continente. A intersecção desses sistemas criou uma história e uma geometria urbana em camadas, que permanecem visíveis no traçado viário contemporâneo da cidade.
Quando Los Angeles foi fundada em 1781 como um pueblo por Felipe de Neve, tratava-se de um posto avançado do Vice-Reino da Nova Espanha. Os vice-reinos eram divisões políticas dos territórios espanhóis na América e, no final do século XVIII, a Nova Espanha era vasta. Estendia-se desde o sul da Costa Rica até o extremo norte na Alta Califórnia, limitando-se a leste com o Rio Mississippi e os recém-independentes Estados Unidos da América. Naquela época, a Cidade do México funcionava como o principal centro administrativo e econômico, fazendo com que regiões de fronteira como a Alta Califórnia dependessem de uma tríade específica de assentamentos: missões (religiosas), presídios (militares) e pueblos (civis).
A arquitetura começa como um encontro com a gravidade. Trata-se do antigo ato de assentar o peso sobre a terra, de persuadir a matéria a se erguer, sustentar e abrigar. Sob essa condição fundamental de peso, no entanto, reside uma possibilidade mais silenciosa: a de que a própria densidade pode gerar uma sensação de leveza — uma condição perceptual na qual o corpo, plenamente convencido da gravidade da matéria, passa a vivenciar o espaço como suspensão.
Grande parte da arquitetura contemporânea tem buscado a leveza por meio da redução: estruturas mais esbeltas, superfícies mais lisas e transições cada vez mais fluidas entre interior e exterior. Aqui, a leveza é equiparada ao desaparecimento, como se a gravidade pudesse ser superada ao se retirar a presença material. Contudo, existe outro registro no qual a leveza não resulta da ausência, mas sim da intensificação. Ela emerge quando a presença material se torna tão precisa, tão plenamente afirmada, que passa a alterar a própria percepção — quando a massa permanece pesada, mas deixa de se comportar de forma meramente inerte.
Profissionais de arquitetura estão acostumados a receber o crédito por suas obras muito tempo após o término da construção. Seus nomes permanecem vinculados aos projetos por meio de fotografias, publicações e registros históricos, muitas vezes décadas após a elaboração dos desenhos originais. Os edifícios, por sua vez, raramente permanecem fiéis a essa narrativa por muito tempo. As famílias crescem, as tecnologias mudam, novos negócios surgem e a vida cotidiana impõe demandas que nenhum plano é capaz de prever por completo. Com o passar do tempo, a arquitetura acumula modificações, reparos, acréscimos e improvisações que gradualmente a distanciam de sua forma original.
A tradição filosófica ocidental há muito coloca a cultura em oposição à natureza. Esse pensamento dualista moldou os cânones das ciências e das humanidades, e a arquitetura não ficou de fora. Sob essa lógica, tudo o que não é humano existe para ser explorado e recebe o nome de "recurso natural". Essa mentalidade extrativista moldou o desenvolvimento de muitas partes do mundo nos últimos séculos, deixando marcas profundas — às vezes irreparáveis — no planeta. No entanto, outras formas de viver sempre existiram. Das práticas religiosas da África Ocidental baseadas no animismo aos saberes herbais de mestres e mestras da Jurema Sagrada no Brasil; das comunidades indígenas na Índia, cujo ritmo de vida reflete as monções, aos Inuit do Ártico, capazes de enxergar dezenas de tons de branco: entre seres humanos e natureza não há distinção; o que existe é a vida.
Autores e autoras contemporâneos trazem essa discussão para os campos da filosofia e, mais especificamente, da arquitetura. Donna Haraway, Antônio Bispo dos Santos, Achille Mbembe e Beatriz Colomina são apenas alguns dos nomes cujas obras ajudam a expandir a estreita perspectiva ocidental, lançando luz sobre formas alternativas de coabitação — com outros humanos e mais-que-humanos — neste planeta.