A Pirâmide de Tirana foi inaugurada como um museu dedicado a Enver Hoxha em outubro de 1988, três anos após sua morte e três anos antes do colapso do regime. Nas décadas seguintes, o espaço funcionou como estação de rádio, centro de convenções, boate e base da OTAN durante a Guerra do Kosovo. Em 2023, o escritório MVRDV a reabriu como um parque e escola de tecnologia, adicionando degraus às fachadas para que as pessoas pudessem caminhar sobre o edifício. A inauguração coincidiu com a Cúpula dos Balcãs Ocidentais em 16 de outubro, data que, como apontaram alguns críticos, correspondia ao aniversário de Hoxha. Dois projetos de autodefinição nacional, separados por trinta e cinco anos e concebidos sob premissas políticas opostas, utilizaram a mesma estrutura.
Nesta semana, a relação da arquitetura com a cultura ganhou destaque por meio de exposições, projetos públicos e novas infraestruturas que expandem o discurso arquitetônico para além do edifício em si. Ao mesmo tempo que grandes exposições na Austrália, em Xangai, Barcelona e Copenhague investigaram temas como habitação, paisagem e lugar por meio de pesquisa e projeto, obras recém-reveladas na China e na Itália demonstram como museus, espaços de performance e complexos de uso misto são cada vez mais concebidos como paisagens públicas abertas, e não como instituições isoladas. Paralelamente, novas mostras e marcos de construção refletem a experimentação contínua em reuso adaptativo, projetos responsivos ao contexto e ambientes urbanos flexíveis.
Vila de Arte Bihailou por MVRDV. Imagem cortesia de MVRDV
Projetado pelo escritório MVRDV, o Bihailou Art Village é um centro cultural e comercial de uso misto atualmente em construção em Shenzhen, na China. Localizado no bairro de Shatoujiao, próximo à fronteira com Hong Kong, o empreendimento de uso misto combina programas culturais, comerciais e públicos em uma composição empilhada verticalmente, derivada do conceito "Vertical Village" desenvolvido pelo escritório. Concebido para abrigar espaços de funcionamento independente ao mesmo tempo que mantém a circulação de acesso público, o complexo reinterpreta a escala e o caráter espacial da malha urbana do entorno por meio de uma série de volumes distintos.
Nesta semana na arquitetura, debates sobre a vida útil dos edifícios, a evolução das instituições culturais e o projeto responsivo ao clima destacaram como a prática contemporânea se estende cada vez mais para além do momento da construção. De discussões sobre demolição e reuso adaptativo a novos museus que integram paisagem e desempenho ambiental, os acontecimentos da semana refletem a mudança de prioridades em torno da permanência, da transformação e do valor público. Paralelamente a esses projetos, importantes anúncios institucionais, desde os finalistas do Prêmio RIBA Stirling até a eleição da nova liderança da UIA, oferecem um panorama das agendas arquitetônicas que moldam a profissão em diferentes escalas e geografias.
O escritório MVRDV venceu o concurso internacional de projeto organizado pela empresa social Shift para projetar a Shift Embassy, um novo destino cultural planejado para o distrito em desenvolvimento de Waterkant, em Roterdã. Concebida como um híbrido entre arquitetura e paisagem, a proposta, intitulada "Rotterdam ROCKS!", combina espaços expositivos, hotelaria, educação, equipamentos públicos e infraestrutura ecológica em um edifício de acesso público, cujo objetivo é apoiar a missão da Shift de engajar visitantes em desafios ambientais e sociais. O projeto fará parte do Waterkant, um desenvolvimento urbano de grande escala na margem sul do rio Mosa, planejado para incluir 3.750 moradias, além de escolas, locais de trabalho, espaços culturais e áreas públicas.
Revestimento BIPV com substrato de colmeia de alumínio de borda fechada desenvolvido para o Complexo de Ciências da Saúde Myron e Berna Garron (SAMIH), na Universidade de Toronto Scarborough, demonstrando como a leveza permite uma instalação rápida e sem complicações. Imagem cortesia de Mitrex
O Complexo de Ciências da Saúde Myron e Berna Garron (SAMIH), na Universidade de Toronto Scarborough, foi moldado por uma diretriz clara e inegociável: pelo menos 20% do consumo de energia do edifício deveria ser gerado a partir de fontes renováveis instaladas no local. Para atender a essa exigência ambiciosa, a equipe de projeto investigou como a tecnologia solar poderia ir além da cobertura e se integrar à própria arquitetura, posicionando a obra em um movimento mais amplo em direção a uma arquitetura sustentável de alto desempenho. A instalação de aproximadamente 5.850 metros quadrados (63.000 pés quadrados) abriga programas de ensino, pesquisa e treinamento clínico dedicados à formação de futuros/as profissionais de saúde. Projetado por Diamond Schmitt Architects e MVRDV, o projeto inicialmente seguiu um caminho convencional, combinando uma fachada sóbria com painéis fotovoltaicos na cobertura.
A Universidade de Toronto revelou o projeto do Temerty Building, uma nova instalação voltada para a pesquisa e o ensino na área da saúde, localizada no coração do campus universitário. O projeto foi desenvolvido pelos escritórios MVRDV e Diamond Schmitt Architects em colaboração com o Two Row Architect. A proposta dá continuidade a uma parceria anterior entre os dois primeiros escritórios no campus de Scarborough da Universidade de Toronto, cuja conclusão está prevista para o final de 2026. Apresentado originalmente no Plano Estratégico Acadêmico 2018-2023 da Temerty Medicine, o projeto prevê uma ampliação de 36.000 metros quadrados do Medical Sciences Building da universidade, incluindo laboratórios de ensino superior, salas de aula e espaços compartilhados. As obras no local devem começar no segundo semestre de 2026, com os trabalhos preparatórios previstos para julho.
MVRDV e OODA revelaram um novo plano diretor para a regeneração de uma área vaga de 28 hectares entre Marvila e Beato, na frente ribeirinha de Lisboa. Recentemente aprovado pela Câmara Municipal de Lisboa, o projeto foi desenvolvido em colaboração com o escritório LOLA Landscape Architects e a empresa de engenharia Thornton Tomasetti para transformar a área em um distrito urbano pautado pelo paisagismo. Sob o título *The Marvila Masterplan*, a proposta estabelece diretrizes para a implantação de 1.400 moradias, além de equipamentos públicos, espaços comerciais e de serviços, em um território fragmentado e majoritariamente abandonado. O projeto é uma iniciativa privada liderada pelo/a principal proprietário/a do terreno e desenvolvida em coordenação com a Câmara Municipal de Lisboa e a Infraestruturas de Portugal.
O escritório MVRDV anunciou um novo marco no desenvolvimento de suas torres Tour & Taxis, um projeto de uso misto em Bruxelas, Bélgica. O projeto foi encomendado pela incorporadora e investidora imobiliária Nextensa em 2021, no âmbito de um plano diretor de zoneamento específico também desenvolvido pelo MVRDV. O empreendimento de duas torres combina escritórios, habitação e comodidades públicas em uma área de 58.000 m², consolidando-se como um marco no bairro e alcançando 126 metros de altura em seu ponto mais alto. Com a licença de construção recém-aprovada, o projeto foi concebido para reduzir o carbono incorporado por meio de uma estrutura híbrida e elementos de fachada leves, com o objetivo de minimizar o uso de concreto tanto na estrutura quanto nas fundações. Desde as etapas iniciais, o escritório utilizou seu software CarbonSpace para orientar essas decisões.
Chilean Atacama Desert. Image by European Southern Observatory with known IDsCC-BY-4.0European Southern Observatory Images ESO files uploaded by OptimusPrimeBot licensed under the Creative Commons Attribution 4.0 International license
A arquitetura já não pode ser pensada como um objeto isolado, alheia às redes técnicas que sustentam a vida contemporânea, — um cenário que exige diferentes leituras e abordagens. É nesse contexto que em março, o tema mensal do ArchDaily recaiu sobre A Tecnosfera: Arquitetura na Intersecção da Tecnologia, Ecologia e Sistemas Planetários, tópico amplo e inevitavelmente complexo. A partir do conceito de tecnosfera, cunhado pelo geólogo Peter Haff para descrever o conjunto de artefatos produzidos pela humanidade, delineia-se um panorama em que a vida contemporânea se mostra profundamente entrelaçada a máquinas, dados e redes de energia.
Espaços de lazer costumam ser locais onde diferentes gerações se cruzam. Sem programas formais ou papéis predefinidos, eles permitem que as pessoas se movimentem, façam pausas e permaneçam juntas, cada uma interagindo com o espaço à sua maneira. Em um ambiente construído cada vez mais moldado pela especialização e pela fragmentação, essas bases espaciais compartilhadas tornaram-se menos comuns, conferindo à arquitetura voltada para o lazer uma relevância renovada.
Os debates em torno do espaço público têm apontado repetidamente para o valor da abertura e da flexibilidade no apoio à vida coletiva. Ao refletir sobre como as pessoas interpretam, habitam e adaptam o espaço, o arquiteto Herman Hertzberger fala da arquitetura não como um conjunto de instruções, mas como uma estrutura de possibilidades — algo que convida à interpretação em vez de prescrever comportamentos. Como ele mesmo define, "o que devemos produzir na arquitetura é algo como competência, possibilidade – algo com o qual as pessoas possam lidar livremente, à sua própria maneira." Em vez de tentar criar a interação diretamente, a arquitetura molda as condições que tornam a convivência possível.
Cortesia de ATCHAIN | Chengdu Tianfu Software Park
O MVRDV venceu o concurso para projetar dois edifícios no Tianfu Software Park, em Chengdu, China. Uma das estruturas é uma torre de 150 metros de altura que funciona como peça central de todo o campus. A outra é um centro cultural de quatro andares, incluindo um museu de arte, uma sala de conferências, uma biblioteca e um espaço de exposições. Apresentando um design inclinado facetado, o projeto convida os visitantes a explorar seu interior.
Os escritórios MVRDV e LOLA Ladscape Architecture divulgaram o projeto para um novo empreendimento, o "Grüne Mitte" em Düsseldorf, Alemanha. Centrado na comunicação aberta, negociação e compromisso, o projeto tem como objetivo introduzir 500 novos apartamentos e espaços comunitários para melhorar o bairro. Aproximadamente 50% do plano é designado como moradias sociais ou acessíveis, que foram projetadas a partir de processos participativos com os moradores.
A MVRDV divulgou recentemente o projeto para o masterplan WärtZ, que transforma um antigo parque empresarial próximo à estação ferroviária de Zwolle, Países Baixos, em um dinâmico hub de inovação. Desenvolvido pela AM e projetado por uma equipe que inclui também a Orange Architects e a LOLA Landscape Architect, o projeto propõe residências, espaços de trabalho criativos, restaurantes e diversas comodidades para a comunidade. O destaque é o recém-renovado Wärtsilä Hall, uma antiga fábrica redesenhada com uma cobertura ondulada coroada por um edifício de apartamentos.
Ao refletirmos sobre o tumultuado ano de 2023 e seus eventos, é evidente que os desafios impostos pelas condições ambientais em constante mudança deixaram uma marca indelével em todo o mundo. Em resposta, arquitetos e urbanistas passaram a procurar maneiras nas quais suas ações possam contribuir para a criação de ambientes mais seguros para as comunidades, com arquiteturas de emergência de implantação rápida e estratégias de longo prazo para construir resiliência e mitigar riscos.
Além de simplesmente responder a eventos, como os devastadores terremotos na Turquia, Síria e Marrocos, ou as enchentes generalizadas na Líbia ou no Paquistão, arquitetos estão tentando adotar abordagens proativas. Eles desenvolvem estratégias que vão desde a modelagem preditiva até a aplicação de técnicas de renaturalização, passando pela pesquisa contínua na física de estruturas mais seguras e resilientes.
Sun Tower / OPEN Architecture. Imagem cortesia de OPEN Architecture
Ao nos aproximarmos do final de 2023, analisamos a evolução do campo da arquitetura, mas também antecipamos os projetos mais aguardados de 2024. Enquanto Paris se prepara para sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2024, diversos projetos e atualizações de infraestrutura foram planejados para apoiar o evento. Outro marco para Paris será a reabertura da Catedral de Notre-Dame. As obras de reconstrução do monumento do século XII danificado pelo fogo se aproximam da conclusão.
A seleção de projetos abrange diversas escalas e programas, desde obras de restauração e expansão, como o plano da OMA para o Museo Egizio em Turim, ou o Grand Residential Building de David Chipperfield na Bélgica, até arquitetura desenvolvida em colaboração com povos indígenas, como o Čoarvemátta da Snøhetta no Norte da Noruega, instalações culturais na Ásia e na Europa, e edifícios ambientalmente conscientes, como o Hotel da Studio Gang nos Estados Unidos.
À medida que 2023 chega ao fim, o futuro de nossas cidades está repleto de ideias visionárias, resultados de um ano de concursos de projeto que resultaram em propostas instigantes para o futuro. Desde a requalificação de tesouros históricos até o projeto de novos edifícios, essas competições globais impulsionaram a inovação na indústria da arquitetura. Com efeito, a cada novo concurso, os limites de nossa profissão são desafiados e novas ideias para o futuro são esboçadas.
Este último ano tem sido uma vitrine de inovação arquitetônica, com concursos ultrapassando os limites da indústria tradicional. Os projetos vencedores apresentam uma profunda incorporação do patrimônio cultural, aspirações comunitárias e preservação ambiental. Na verdade, as três categorias de competições em que escritórios estabelecidos participaram foram marcos culturais, torres de uso misto e masterplans. Em cada categoria, o projeto vencedor reimagina o que esses conceitos representam em 2023 e além, projetando não apenas novos edifícios, mas novas formas de viver.
O MVRDV e a Orange Architects estão colaborando no projeto NUVO, um novo complexo de uso misto que será construído na capital da Ucrânia. A equipe de arquitetos revelou o design de três dos edifícios que farão parte do projeto. Comissionado pela Kovalska, o projeto está sendo retomado após ser interrompido devido à guerra na Ucrânia. As duas empresas estão trabalhando juntas para aprimorar o plano diretor que foi iniciado pela APA Wojcehowski Architects.