Nas regiões montanhosas do Vietnã, nas áreas de fronteira da Tailândia e nos relevos acidentados dos Gates Ocidentais da Índia, a construção de escolas continua sendo um desafio essencialmente logístico. Em áreas onde a infraestrutura e as cadeias de suprimentos industriais são escassas ou distantes, o transporte de cada quilograma de material pode inflacionar significativamente os custos e a complexidade logística. Ao longo de 2025, diversos projetos de escolas em contextos rurais na Ásia demonstraram como o papel do/a arquiteto/a frequentemente mudou de designer de formas para estrategista de suprimentos. O principal desafio não era meramente estético, mas sim uma questão de durabilidade: utilizar materiais disponíveis localmente e protegê-los das chuvas de monção, ventos de alta velocidade e, por vezes, da instabilidade sísmica.
Detalhe da Rede de Quiosques Garifuna. Imagem cortesia de 24 Grados Arquitectura
Como a arquitetura pode devolver a relevância a lugares esquecidos? Que diálogos podem surgir quando edifícios e paisagens são tratados não como telas em branco, mas como camadas de memória, identidade e potencial? Para o escritório de arquitetura hondurenho 24 Grados, essas perguntas moldam uma abordagem enraizada na adaptação, no reuso e no desenho contextual. Seus projetos variam desde a restauração de antigas praças espanholas e centros culturais até intervenções em parques naturais e vilas costeiras em Honduras. Cada projeto se apoia na crença de que o desenho pode tecer novamente as relações entre as pessoas, o lugar e o patrimônio.
O restauro do patrimônio histórico sempre foi um processo complexo que exige um equilíbrio delicado entre a preservação da integridade dos materiais históricos e a integração de técnicas contemporâneas que possam aumentar a precisão, a eficiência e a resiliência. Com o processo de restauração da Parliament Hill em Ottawa, capital do Canadá, essa interseção entre tradição e tecnologia está agora em plena evidência. O East Block (Bloco Leste), construído em 1865, oferece um exemplo contundente de como as ferramentas digitais podem apoiar os esforços de preservação patrimonial e contribuir para um ofício secular como o entalhe em pedra.
La Sagrada Família, de Antoni Gaudí. Imagem de Maksim Sokolov, via Wikimedia Commons, Licença CC BY-SA 4.0
À medida que 2025 se aproxima do fim, aguardamos ansiosamente por 2026, um ano que promete a entrega de uma série diversa de projetos arquitetônicos de grande relevância ao redor do mundo. O período se destaca especialmente pela conclusão de importantes obras de infraestrutura e equipamentos culturais, incluindo projetos de longa duração que finalmente chegam à etapa final. A Europa estará em evidência com os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão–Cortina 2026. O evento contará com projetos como a Vila Olímpica, assinada por SOM, e a Arena Olímpica de Inverno, projetada por David Chipperfield Architects. Ainda em Milão, BIG deve concluir o City Wave, parte de um novo distrito de negócios da cidade. Paralelamente, após mais de 140 anos desde o início de sua construção, arquitetos do mundo todo acompanham com expectativa a tão aguardada conclusão da Sagrada Família, de Antoni Gaudí, em Barcelona, prevista para 2026.
No Vietnã, a casa-tubo tornou-se praticamente uma tipologia vernacular em cidades densamente povoadas como Hanói e Ho Chi Minh. Essa tipologia originou-se de antigos impostos sobre fachadas e surgiu como uma resposta estratégica à escassez de solo urbano e à otimização da testada do lote para o comércio. Sua estrutura tradicional costuma depender da fachada frontal para obter iluminação natural e ventilação. Quem habita essas residências frequentemente enfrenta o desafio de projetar em espaços delimitados por lotes profundos, testadas estreitas e vizinhos muito próximos, o que restringe a luz natural e a circulação de ar. Para mitigar essa falta crônica de exposição perimetral, os/as arquitetos/as vietnamitas costumam empregar estratégias voltadas à manipulação ambiental interna. Esta seleção de projetos explora casas-tubo com menos de 100 m², onde a escala reduzida impõe uma economia espacial rigorosa e a verticalização das funções, influenciando diretamente as decisões de projeto em cada caso.
O ornamento arquitetônico tem sido um tema recorrente de debate no setor há décadas. Essa prática, amplamente abandonada durante o movimento modernista, pode agora estar diante de uma plataforma que viabilize seu ressurgimento, graças à convergência atual entre robótica, inteligência artificial (IA) e fabricação digital. A tecnologia parece ter eliminado o principal obstáculo ao detalhamento decorativo: o alto custo da mão de obra manual qualificada. No entanto, essa nova capacidade técnica exige um exame crítico: o que a ornamentação realmente representa e o que ganhamos ou perdemos ao ressuscitá-la por meio do design algorítmico?
Fundado em Winnipeg, Manitoba, em 2007 por Johanna Hurme e Sasa Radulovic, e logo em seguida integrado por seu terceiro sócio, Colin Neufeld, o 5468796 Architecture estabeleceu-se como um escritório de arquitetura cujos primeiros trabalhos exploraram o estado atual da habitação na América do Norte. O estúdio canadense funciona como um coletivo de cerca de 20 designers que priorizam o valor coletivo das ideias em detrimento da autoria individual.
A história dos Jogos Olímpicos, embora celebrada pelos feitos esportivos, é constantemente marcada por desafios de infraestrutura. Em diversas cidades-sede, de Atenas a Rio e Pequim, repetem-se os mesmos problemas: grandes estouros de orçamento e a complexa questão do legado. Surge, então, a grande pergunta: qual é o melhor uso de longo prazo para instalações construídas especificamente para o evento? Os Jogos de Montreal, em 1976, não fugiram a esse padrão após a construção de um Parque Olímpico criticado pelos custos excessivos e pela dívida gerada por obras especializadas. No pós-Jogos, estruturas como o Velódromo de Montreal corriam o risco de se tornar um peso financeiro. No entanto, a cidade reagiu de forma proativa ao propor a transformação do edifício em um ativo cívico dinâmico, hoje reconhecido internacionalmente como um exemplo bem-sucedido de reutilização de instalações olímpicas.
Poucas encomendas de projeto permitem que profissionais de arquitetura foquem em usuários não humanos, e menos ainda envolvem cavalos. Embora animais de estimação como cães e gatos sejam inspirações frequentes, as necessidades específicas dos cavalos apresentam um desafio único no projeto de estábulos. Como os cavalos — os habitantes principais das instalações — não conseguem expressar suas necessidades, o projeto depende dos requisitos rigorosos determinados pelo manejo humano, exigindo um equilíbrio entre a eficiência operacional e o máximo de conforto e segurança para os animais. As equipes de projeto costumam abordar essa questão por meio de três princípios fundamentais: Conforto e Bem-Estar Equino, Materialidade Contextual e Eficiência Operacional. Dessa forma, os layouts resultantes são caracterizados por um zoneamento rigoroso que separa claramente os programas em áreas residenciais (baías), de serviço (selaria, depósitos, lavagem e alimentação) e de treinamento (pistas e andadores). Os projetos também consideram o bem-estar visual: sendo os cavalos animais sociais, as cocheiras são posicionadas de forma estratégica para promover linhas de visão entre os animais e para o exterior, frequentemente empregando sistemas de venezianas ou fechamentos vazados. Além disso, busca-se uma iluminação difusa através de materiais como painéis translúcidos, evitando sombras nítidas que possam gerar estresse nas pistas de treinamento. Do mesmo modo, os fluxos de circulação são desenhados para garantir o movimento seguro e eficiente tanto de pessoas quanto dos animais.
A Ilha de Ormuz, localizada no Irã, era um porto de grande importância estratégica no Golfo Pérsico, caracterizado por sua paisagem de montanhas coloridas. Apesar de seu apelo turístico, a ilha enfrenta sérios problemas socioeconômicos, com a população local historicamente submetida a dificuldades financeiras. Em resposta a isso, o Complexo Majara, projetado pelo escritório ZAV Architects, foi concebido não apenas como uma edificação, mas como uma intervenção arquitetônica deliberada, planejada para transferir controle, oportunidades e benefícios econômicos diretamente para a comunidade local. Para tanto, o projeto canalizou investimentos nos recursos humanos locais e priorizou técnicas construtivas acessíveis, abrindo caminho para a geração de riqueza na própria região. Esse posicionamento permitiu ao Complexo Majara consagrar-se como um dos vencedores do Prêmio Aga Khan de Arquitetura em 2025.
Montreal, a segunda maior cidade do Canadá, abriga um vasto acervo de arquitetura residencial histórica, em sua maioria datada do século XIX e início do século XX. Esses exemplares são particularmente abundantes em alguns de seus bairros centrais, como o Plateau Mont-Royal. Curiosamente, sua preservação não é por acaso; é o resultado de décadas de defesa ativa por parte de figuras influentes que reconheceram o valor do ambiente construído da cidade, como Phyllis Lambert e Blanche Lemco Van Ginkel. Esforços como os delas foram fundamentais em batalhas históricas de preservação que ajudaram a garantir o atual apoio municipal. Hoje, a cidade conta com um conjunto de leis abrangentes de proteção ao patrimônio histórico, concebidas para salvaguardar a integridade de seus bairros históricos.
Ciudad Cayalá, uma comunidade de uso misto de iniciativa privada na periferia da Cidade da Guatemala, costuma ser descrita como um "parque temático" de paredes caiadas de branco, telhas vermelhas e praças de paralelepípedos. Contudo, uma análise mais detalhada revela uma narrativa urbana bem mais complexa. Sua verdadeira importância reside na capacidade de criar um espaço público seguro e bem gerido, propondo uma releitura contemporânea dos princípios urbanísticos históricos que marcam o patrimônio arquitetônico e urbano da região. Por trás das fachadas ao estilo de Antigua esconde-se um experimento urbano: um resgate moderno de elementos arquitetônicos como arcadas, pátios internos e praças abertas, que propõem um espaço público de gestão privada como resposta aos desafios urbanos da região.
A ilha de Taiwan apresenta um contexto natural e topográfico variado, caracterizado por uma área territorial de 36.197 quilômetros quadrados e uma alta densidade populacional de 644 habitantes por quilômetro quadrado. Sua localização geológica, situada na divisa entre as placas tectônicas da Eurásia e do Mar das Filipinas, resulta em uma topografia predominantemente montanhosa e acidentada. Embora essa condição force a maioria dos 23 milhões de habitantes a residir em grandes centros urbanos nas planícies costeiras ocidentais, a ilha mantém um setor agrícola ativo, com cerca de 22% de suas terras destinadas ao cultivo.
Em toda a China, um legado de imensas estruturas industriais encontra-se desativado, como resultado direto da transição econômica do país para novas formas de indústria. Esses edifícios caracterizam-se por sua altura colossal e robusta capacidade estrutural. Atualmente, representam um desafio arquitetônico para a renovação urbana contemporânea e um novo campo de debate para a preservação do patrimônio. À medida que são absorvidos pelo crescimento das cidades, arquitetos e arquitetas têm o desafio de transformá-los em ativos funcionais de uso público. Diante disso, intervenções recentes vêm tirando proveito de elementos marcantes, como fornos e chaminés, para reposicionar esses complexos monumentais como marcos urbanos fundamentais.
O Portão Norte de Taipé, também conhecido como Beimen, ergue-se não apenas como um lembrete da complexa história da cidade, mas também como testemunha das transformações da paisagem urbana ao seu redor e das mudanças de postura em relação aos espaços urbanos adjacentes a edifícios históricos. Inicialmente um posto de fronteira imperial chinês, poupado da demolição durante o domínio colonial japonês e sufocado por viadutos e rodovias nos esforços de modernização do pós-guerra, o portão recuperou recentemente seu status de destaque graças à criação da praça que hoje o emoldura. A resiliência do monumento frente às oscilações das prioridades urbanas e das políticas arquitetônicas revela uma trajetória de preservação patrimonial que se manifesta não apenas na forma construída, mas também nos espaços abertos que o circundam.
Transcendendo o papel de mera infraestrutura, as pontes há muito servem como potentes manifestações arquitetônicas. Esse potencial expressivo está sendo explorado agora com vigor renovado em todo o Sudeste Asiático, onde um número crescente de arquitetos e arquitetas está reavaliando os materiais tradicionais. Ao priorizar a madeira e o bambu, esses/as profissionais criam estruturas singulares que integram o artesanato local às demandas contemporâneas, resultando em marcos urbanos que são, ao mesmo tempo, funcionais e profundamente enraizados em suas paisagens.
Comayagua é uma cidade no centro de Honduras situada em um vale de mesmo nome. A cidade ocupa um lugar central na história do país, tendo servido como sua capital colonial e do início do período republicano por mais de 300 anos. No entanto, quando a capital foi transferida para Tegucigalpa em 1880, a expansão urbana de Comayagua estagnou, o que acabou por preservar, involuntariamente, um rico e vasto patrimônio. No início da década de 1990, grande parte do legado arquitetônico da cidade encontrava-se em estado de deterioração. Diante da necessidade urgente de protegê-lo, os governos de Honduras e da Espanha iniciaram um esforço conjunto com o objetivo de lançar um programa de restauração de longo prazo, criando uma estrutura de diretrizes políticas que garantisse a preservação do centro histórico da cidade para as gerações futuras.
A rica história da Itália, evidente em seus monumentos e cidades, criou um contexto único para a renovação arquitetônica. Os/as arquitetos/as italianos/as frequentemente abraçam esse patrimônio ao estabelecer um diálogo entre o antigo e o novo, em vez de buscar uma transformação completa. Essa abordagem evita deliberadamente um estilo imitativo. Em vez disso, utilizam materiais contemporâneos como aço, vidro e novas madeiras para emoldurar e destacar a cantaria de pedra e a alvenaria de tijolos históricas preexistentes. Essa justaposição transforma os materiais originais de simples elementos estruturais em protagonistas decorativos e narrativos. O resultado é uma experiência em camadas na qual a história do espaço permanece visível, garantindo que ela seja preservada, e não apagada pela reforma.