Entre Florestas em Chamas e Cidades Utópicas: Projetando a Transição Climática

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Não faltam formas de imaginar como será o mundo após uma catástrofe climática. Gêneros inteiros de filmes e romances foram construídos em torno da pergunta sobre o que acontece quando as salvaguardas contemporâneas falham, desde a ficção distópica e a literatura pós-apocalíptica até filmes de desastre, histórias em quadrinhos e videogames. Florestas em chamas, cidades submersas, infraestrutura abandonada, escassez de recursos e deslocamentos em massa constituem um vocabulário visual e narrativo familiar. Tornamo-nos extraordinariamente fluentes em imaginar as consequências de um mundo que falha em responder às mudanças climáticas.

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Paralelamente, surgiu um vocabulário cada vez mais sofisticado para imaginar o mundo após uma transformação tecnológica total. As cidades inteligentes prometem otimizar energia, mobilidade e recursos por meio da computação ubíqua, e a inteligência artificial é posicionada como uma ferramenta para gerenciar sistemas complexos que superam a capacidade de coordenação humana. A geoengenharia atua diretamente na atmosfera, enquanto assentamentos flutuantes, habitats subaquáticos e colônias extraterrestres estendem a possibilidade de habitação humana para novos ambientes. Essas ideias partem de uma história mais longa de futurismo tecnológico, habitada por cidades eficientes, máquinas inteligentes e formas cada vez mais espetaculares de infraestrutura. Suas narrativas frequentemente se ambientam em um momento no qual os conflitos já foram resolvidos e um novo equilíbrio foi estabelecido.

Muito menos desenvolvido, contudo, é o nosso vocabulário para o que acontece no intervalo entre essas consequências extremas e o mundo como o conhecemos hoje. O negacionismo climático evita a ação ao rejeitar a necessidade de transição, ao passo que o fatalismo climático a inviabiliza ao tratar a transformação como um resultado impossível. A salvação tecnológica oferece uma terceira rota de fuga — particularmente sedutora para o campo do design —, na qual uma inovação suficientemente poderosa permite que a sociedade salte da crise diretamente para a resolução, sem se deter na transição entre as duas. A transição climática dependerá justamente desse meio-termo subestimado e desvalorizado, construído ao longo de décadas de decisões sobre reparação, adaptação e restauração. Se profissionais de design possuem as ferramentas para imaginar catástrofes e mundos futuristas já salvos, seremos capazes de conceber a transição em si?

O apelo de pular para o final

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THE LINE, Parceiros Estratégicos da Fase Um. Imagem © NEOM

A transformação é mais fácil de ser imaginada quando existe um momento decisivo. Uma tecnologia disruptiva ou uma nova forma de infraestrutura estabelece uma distância entre o presente e o futuro, criando um cenário nítido de "antes" e "depois". A transição climática, no entanto, não pode depender de cenários estáticos de antes e depois; em vez disso, será composta por décadas de frentes de trabalho paralelas. Edifícios passarão por reformas de modernização energética enquanto outros serão demolidos; sistemas de energia mudarão em diferentes ritmos; paisagens serão restauradas enquanto continuam a abrigar atividades ou produção; e novas tecnologias operarão lado a lado com infraestruturas mais antigas. A adaptação, a manutenção e a resiliência acontecem de forma gradual e desigual.

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Leyja. Imagem © NEOM | Sob Uso Aceitável

Isso faz da transição uma história difícil de contar. Sua capacidade de ação está distribuída entre governos, comunidades, profissionais de design, engenharia, concessionárias de serviços públicos, indústrias, setores comerciais e diferentes gerações, em vez de se concentrar em uma única invenção ou agente. Suas conquistas estarão inseridas em decisões cotidianas e, frequentemente, lentas. Tais processos contêm suas próprias formas de conflito, invenção, inovação e ambição, mas nem sempre proporcionam a resolução imediata típica de uma ruptura tecnológica. O desafio para profissionais de design e da narrativa é de ordem imaginativa. Serão a adaptação, a manutenção, a reparação e a resiliência capazes de se tornarem a matéria-prima de futuros de fato instigantes?

A atração pelo resgate tecnológico

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Cidade no Ar (City in the Air). Imagem cortesia de The Pritzker Architecture Prize

A tecnologia será indispensável para qualquer transição climática viável. Fontes de energia renovável, eletrificação, novos materiais, captura de carbono, computação e outras formas de inovação moldarão a maneira como as sociedades reduzem emissões e se adaptam ou mitigam os impactos do aquecimento global. O resgate tecnológico, contudo, baseia-se na fantasia de que um nível suficiente de inovação pode resolver as restrições ambientais ao mesmo tempo em que mantém intactos os sistemas e as expectativas da vida contemporânea. Trata-se, evidentemente, de uma vertente atraente de otimismo climático, pois oferece um futuro que é radicalmente transformado, seguro e confortavelmente familiar.

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THE LINE, Parceiros Estratégicos da Fase Um. Imagem © NEOM

A cidade inteligente oferece uma versão dessa promessa. Há décadas, profissionais de planejamento urbano e empresas de tecnologia investigam como sensores, dados, automação e infraestrutura interconectada podem tornar as cidades mais eficientes e responsivas, com aplicações significativas na gestão de energia, transporte, água e recursos. Ao mesmo tempo, a cidade inteligente produziu uma imagem influente de sustentabilidade urbana na qual os problemas ambientais se tornam cada vez mais gerenciáveis por meio da informação e da otimização. Esse enquadramento, no entanto, tende a deixar de fora questões mais complexas sobre consumo, mobilidade, uso do solo, construção e a própria malha urbana existente. A eficiência pode transformar o funcionamento de uma cidade, mas não determina o que ela consome, preserva, substitui ou descarta em prol de visões de longo prazo.

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THE LINE, Parceiros Estratégicos da Fase Um. Imagem © NEOM

A construção em andamento de The Line, no projeto NEOM, leva essa proposta ainda mais longe ao partir de uma condição urbana inteiramente nova. Suas representações oferecem uma cidade organizada em torno da densidade, energia renovável, mobilidade automatizada e uma vasta infraestrutura tecnológica, amplamente livre dos padrões espaciais e das limitações físicas das cidades existentes. Como imagem de um futuro climático, começar do zero é uma ideia sedutora. Ela viabiliza uma mudança urbana radical ao eliminar quaisquer resquícios herdados de cidades tradicionais ou interesses conflitantes.

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Epicon. Imagem © NEOM | Sob Uso Aceitável

Narrativas semelhantes aparecem em diversas escalas, desde ambientes autônomos e vastos sistemas de remoção de carbono até geoengenharia, assentamentos flutuantes e habitações extraterrestres. Cada uma delas expande o território no qual a tecnologia poderia superar os limites ambientais ou as ansiedades climáticas. O valor especulativo dessas propostas reside na sua capacidade de tornar atraentes situações desconhecidas; contudo, o destaque que recebem nos convida a indagar que futuros poderiam surgir se o mesmo esforço criativo fosse direcionado à transição. Profissionais de design são plenamente capazes de visualizar o novo e o inédito; a questão contemporânea é como inserir narrativas e representações visuais de adaptação, reuso, restauração e resiliência no imaginário coletivo.

O trabalho cotidiano

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Parque Memorial Dr. Ibrahim Rugova e Biblioteca Presidencial por Maden Architects. Imagem © Maden Architects

Grande parte da transição climática ocorrerá dentro do mundo físico que já existe. Edifícios precisarão ser adaptados, reparados, reutilizados e mantidos, e os bairros responderão a condições ambientais em constante mudança. A relevância dessa abordagem surge do efeito cumulativo, e não de um único momento ou da execução de um grande projeto, à medida que milhares de intervenções alteram a forma como os recursos são utilizados, a vida útil de materiais e edifícios e a maneira como os lugares respondem às mudanças no clima. Tal transformação pode ser difícil de capturar em uma única imagem do futuro, mas seu caráter incremental não a torna menos ambiciosa. Ela valoriza o progresso como uma série cumulativa, construída de maneira contínua sobre as cidades e locais existentes.

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Pátio de armazenamento de materiais de construção reciclados aguardando reutilização. Imagem via NY Engineers

Em escalas maiores, essas intervenções individuais passam a integrar sistemas que se estendem muito além de qualquer projeto isolado. Cidades, regiões, estados e países precisam coordenar mudanças que envolvem energia, transporte, materiais, água, uso do solo, regulamentação, finanças e governança, frequentemente atravessando diferentes cronogramas e fronteiras políticas. A transição climática depende da compreensão de como as decisões individuais interagem, reforçam-se mutuamente e, por fim, produzem uma mudança sistêmica. Diante dessa condição de interdependência, de que maneira profissionais de design podem visualizar um futuro definido por relações, dependências, sequências e décadas de mudanças coordenadas?

Ferramentas para imaginar a transição

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A cidade de Boston em The Last of Us, HBO. Imagem via Captura de tela de "The Last of Us" (2023), HBO

Profissionais de arquitetura e design já possuem ferramentas sofisticadas para projetar futuros por meio de desenhos, maquetes, simulações, cenários, renderizações, filmes, jogos e, cada vez mais, inteligência artificial. Ao passo que imagens de ambientes concluídos conseguem estabelecer destinos atraentes, a transição exige que lidemos com o tempo, a sequência, a incerteza e a adaptação. Essa mesma capacidade criativa poderia ser direcionada para imaginar como os lugares mudam ao longo de cinco, vinte ou cinquenta anos, o que permanece e o que se torna obsoleto, e de que forma múltiplas intervenções se acumulam para gerar um modo de vida diferente. A transição pode se tornar objeto de especulação, em vez de ser tratada apenas como um intervalo superdimensionado entre o presente e um futuro imaginado.

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Materiais para reutilização. Imagem cortesia de RUINA

Para além da representação, ferramentas como o pensamento de ciclo de vida, inventários de materiais, pesquisas pós-ocupação, conhecimento ecológico, práticas de manutenção, precedentes históricos, planejamento de cenários e o pensamento sistêmico embasarão melhor a capacidade de mudança nos ambientes construídos existentes. Esses acervos de conhecimento permitem que profissionais de design identifiquem caminhos de ação no presente, revelando onde a transformação já é viável. Oferecem, assim, formas de conceber um otimismo climático fundamentado nas condições físicas, ecológicas e sociais das quais qualquer futuro inevitavelmente terá de emergir.

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Jardim Florestal / Estudio Ome. Imagem © Estudio Ome

Profissionais da escrita, do cinema, do design de jogos, das artes, do jornalismo e de outras áreas de criação de mundos influenciam quais futuros se tornam familiares o suficiente para serem debatidos ou desejados. Há um vasto território criativo nos processos que recebem menos atenção na mídia contemporânea. Essas histórias subestimadas têm a capacidade de coexistir com a especulação tecnológica e visões ambiciosas do amanhã, dedicando igual atenção aos longos processos de transformação urbana e ambiental.

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Escola de Arte Eco-Cultural Tree as Teacher por MD JISAN RIZVI. Imagem © Md Jisan Rizvi

Se o negacionismo climático elimina a necessidade de agir, e o fatalismo climático estreita as possibilidades de uma ação significativa, a salvação tecnológica, por sua vez, adia a capacidade de decisão real à espera de uma inovação futura. O otimismo climático deve estar fundamentado na capacidade de agir dentro do mundo que herdamos e de projetar seus processos em direção à mudança. Profissionais de design e da narrativa não precisam diminuir a ambição em relação aos futuros que vislumbram, mas sim direcionar essa mesma ambição e criatividade para a transição em si. Se somos capazes de imaginar o fim do mundo, bem como o mundo depois de salvo, não poderíamos ser igualmente ambiciosos ao conceber o trabalho necessário que existe entre ambos?

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Escola de Arte Eco-Cultural Tree as Teacher por MD JISAN RIZVI. Imagem © Md Jisan Rizvi

Este artigo é parte do Tema do ArchDaily: A Atração do Escapismo na Arquitetura e Mundos Alternativos. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a saber mais sobre os Temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossa comunidade de leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato conosco.

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Sobre este autor
Cita: Poston, Olivia. "Entre Florestas em Chamas e Cidades Utópicas: Projetando a Transição Climática" [Between Burning Forests and Utopian Cities: Designing the Climate Transition] 26 Set 2026. ArchDaily em Português. (Trad. Romullo Baratto) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1185607/entre-florestas-em-chamas-e-cidades-utopicas-projetando-a-transicao-climatica> ISSN 0719-8906

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