O bambu é frequentemente elogiado antes mesmo de ser compreendido. De crescimento rápido, ele carrega uma longa história de culturas construtivas e parece oferecer à arquitetura uma linguagem ecológica imediata. Em fotografias, sua lógica parece quase autoexplicativa: leve, natural, renovável e já alinhado a um futuro mais sustentável. No entanto, essa aparente clareza é justamente o que torna o bambu difícil de discutir com precisão. Uma vez transformado em símbolo de responsabilidade ambiental, o material em si corre o risco de desaparecer por trás da imagem que projeta.
Este é o risco do renascimento contemporâneo do bambu. Ele pode ser facilmente idealizado como um substituto ecológico para materiais industriais, uma atmosfera regional ou uma alternativa mais suave às linguagens rígidas do aço e do concreto. Em cada um desses casos, o bambu é admirado antes que suas condições reais sejam compreendidas. A questão fundamental não é se o bambu é sustentável em um sentido genérico, mas sim que tipo de cultura arquitetônica ele exige: quais formas de conhecimento, manutenção, regulamentação, mão de obra e tempo são necessárias para que sua sustentabilidade se concretize.
Uma rebelião experiencial ganha destaque no quarto episódio do podcast Room For Dreams, tocando diretamente no cerne da cultura de design contemporânea, obcecada por imagens e pela superficialidade das telas. Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026 em parceria com a INDX|GLOBAL, a apresentadora Claire Broadka conversa com quatro profissionais da arquitetura indiana — Indrajit Kembhavi, Manish Gulati, Sanjay Singh e Sidhartha Talwar — para discutir uma questão crucial: teríamos sacrificado a alma da arquitetura em prol de um post perfeito no Instagram?
Vencedor do Primeiro Prêmio: Seeds in Forgotten Soil. Imagem cortesia de Buildner
A Buildner anunciou os resultados da segunda edição do concurso Re-Form: New Life for Old Spaces, uma premiação internacional de ideias que investiga o reuso adaptativo de edifícios existentes de pequena escala. O concurso convidou profissionais de arquitetura e design a proporem transformações de estruturas usadas, abandonadas ou negligenciadas com uma área de projeção aproximada de 250 metros quadrados, localizadas em qualquer lugar do mundo. Sem terreno ou programa definidos, incentivou-se a exploração de alternativas à demolição e à construção nova, por meio de estratégias de reuso fundamentadas em questões sociais e ambientais contemporâneas.
A maior parte das futuras habitações da Europa já existe; no entanto, a renovação continua ocorrendo de forma muito lenta para responder aos desafios climáticos, habitacionais, de saúde e de recursos na escala necessária. O Re:Living explora como a renovação pode deixar de ser uma série de projetos isolados para se tornar uma abordagem escalável de transformação de edifícios existentes. No cerne da iniciativa está um novo projeto de pesquisa, The Housing We Need for the Future We Want, que examina como o melhor aproveitamento do parque imobiliário existente pode abrir novas oportunidades para profissionais de arquitetura, cidades e comunidades.
Arquitetura e água pertencem a naturezas opostas. Enquanto uma delimita e contém, a outra insiste em se espalhar, e é dessa tensão entre o sólido e o líquido que surgem os centros aquáticos. Nesses edifícios, a presença da água transforma tudo ao seu redor. A luz se fragmenta em reflexos instáveis, os sons adquirem uma reverberação particular, a temperatura e a umidade passam a definir a atmosfera dos espaços, enquanto materiais e sistemas construtivos são permanentemente postos à prova. Mas sua singularidade não é apenas técnica.
A ascensão acelerada de uma estética homogeneizada e globalizada está forçando criadores e criadoras a confrontar uma realidade crítica: as tendências de design transcendem a geografia sem esforço, mas a identidade local acaba pagando o preço. O quinto episódio do podcast Room For Dreams investiga diretamente se um mercado sem fronteiras está apagando silenciosamente a diversidade do design. Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026, em parceria com a INDX|GLOBAL, a apresentadora Claire Broadka, do designboom, conversa com Sachi Gupta, Shilpi Sonar, Krithika Subrahmanian e Sumit Dhawan para mapear a realidade dos/as profissionais criativos/as sem fronteiras.
Como um material concebido para pontes, fábricas e grandes estruturas chegou ao banco da sala, à estante do apartamento, à mesa do café? O metal atravessou séculos associado ao esforço, à máquina e à monumentalidade — das estruturas expostas das Exposições Universais do século XIX à lógica produtiva da indústria moderna. Sua presença no interior doméstico não é um dado óbvio, mas uma conquista cultural: a transformação de um material fabril em elemento de uso cotidiano, íntimo e próximo do corpo.
Estabelece-se, portanto, uma hierarquia visual que orienta o olhar, determinando o que deve ser visto, de que maneira e com qual intensidade emocional, sendo capaz de definir como o usuário interpreta o entorno. Nesse contexto, a estratégia projetual ultrapassa o campo da decisão estética para atuar como uma manipulação da experiência fenomenológica do espaço. Ao selecionar um fragmento específico do horizonte por meio de uma abertura controlada, ou dissolver os limites entre interior e exterior com amplos planos envidraçados, a arquitetura passa a operar como uma lente. Ela pode enfatizar a pequenez da escala humana diante da vastidão do território ou, em sentido oposto, domesticar a natureza, incorporando-a como parte da vida cotidiana.
Símbolos do desenvolvimento tecnológico e da densidade urbana, os edifícios em altura, tal qual conhecemos hoje, surgiram no final do século XIX, principalmente nos Estados Unidos, como resposta ao crescimento acelerado do comércio urbano e à necessidade de expandir as cidades sem ocupar mais território. O termo arranha-céu, por exemplo, foi cunhado na década de 1880 e originalmente se referia a edifícios com cerca de 10 a 20 pavimentos — uma altura impressionante para a época.
No entanto, a ideia de construir verticalmente é bem mais antiga do que os arranha-céus de aço e vidro sugerem. Muito antes da revolução industrial, algumas sociedades já experimentavam formas de urbanização vertical como solução para limitações de espaço, defesa territorial ou adaptação ambiental.
Sob a superfície do solo encontra-se um material que moldou silenciosamente a arquitetura do mundo moderno. O petróleo raramente é discutido no discurso arquitetônico, mas sua extração, circulação e consumo reorganizaram profundamente a lógica espacial dos territórios. Oleodutos, refinarias, plataformas de perfuração, portos, rodovias e complexos petroquímicos compõem uma vasta paisagem infraestrutural que sustenta a vida contemporânea, formando uma arquitetura dispersa da energia.
Ao longo dos séculos XX e XXI, o petróleo consolidou-se como a base material da sociedade industrial. Ele impulsionou o transporte, alimentou fábricas e sustentou o crescimento de cidades cuja organização espacial depende de fluxos contínuos de energia. Ainda assim, as infraestruturas que viabilizam esses fluxos raramente se tornam objeto de investigação arquitetônica. A atenção permanece, em grande parte, voltada à forma, à tipologia ou à densidade urbana, enquanto os sistemas materiais que sustentam esses ambientes tendem a permanecer deslocados do campo disciplinar.
Os mirantes são estruturas destinadas à observação da paisagem a partir de pontos elevados. Implantados em meio à natureza ou no cenário urbano, funcionam como dispositivos que organizam o olhar e estabelecem uma relação direta entre o corpo e o território. Nessa fronteira entre o observador e a paisagem, os mirantes podem assumir diferentes configurações, desde pequenos gestos até estruturas monumentais, sempre em resposta ao contexto em que se inserem. Independente da escala, são – em certa medida -, tentativas de domesticar a vastidão, recortes precisos que tornam legível aquilo que, sem mediação, poderia se apresentar como excesso.
Uma superfície perfurada costuma ser tratada como um elemento secundário: algo aplicado para suavizar a luz, decorar uma fachada ou acrescentar textura onde uma parede poderia parecer excessivamente plana. Ela é fotografada como superfície, desenhada como padrão e discutida como artesanato. Mas, em muitos edifícios do subcontinente indiano e do mundo islâmico, esse anteparo nunca foi um acréscimo. Ele era a própria parede. Removê-lo não altera apenas a aparência da construção; significa comprometer sua capacidade de regular o calor, conduzir o ar e mediar a relação entre interior e exterior.
Essa leitura equivocada revela mais sobre hábitos contemporâneos do que sobre o próprio elemento. O pensamento arquitetônico há muito separa estrutura de envoltória, desempenho de expressão. Dentro dessa lógica, componentes como o jaali ou a mashrabiya são facilmente classificados como ornamentais — visualmente ricos, porém tecnicamente secundários. No entanto, esses elementos foram concebidos como sistemas integrados, nos quais geometria, material e clima atuam em conjunto. Sua inteligência reside justamente naquilo que são capazes de fazer.
Há um gesto ancestral em dar forma à terra. Muito antes da arquitetura se constituir como disciplina, o barro já era moldado pelas mãos e transformado pelo fogo, convertendo matéria bruta em utensílio doméstico e objeto cultural. Na história desse ofício, as fábricas de cerâmicamarcam a transição do saber manual para a produção em série, ampliando sua escala sem romper completamente com a origem material. Dispersas por diferentes territórios, essas estruturas registram a relação entre técnica, paisagem e tempo. Com o passar das décadas, no entanto, muitas delas acabaram perdendo sua função original, sendo substituídas por processos mais tecnológicos ou fagocitadas pelo desenvolvimento urbano ao seu redor, passando a ocupar um estado intermediário, entre permanência e obsolescência.
Mesmo o transeunte mais distraído é capturado pela presença monumental dessa estrutura situada no consolidado bairro valenciano de Benimaclet. Diante dela, qualquer tentativa de apreensão racional se desfaz. A lógica construtiva parece escapar enquanto o espaço se desdobra em tensões e desvios onde nada se oferece de imediato. Entre massas de concreto e a insurgência da vegetação, emerge um jogo quase coreográfico de planos, ângulos e rotações. Na vertigem desse encontro, percebe-se que o edifício não foi feito para ser compreendido, mas para ser experimentado.
A arquitetura costuma ser compreendida como uma questão de fechamento. As paredes definem o espaço, separam interior e exterior e estabelecem limites claros. Em muitos projetos latino-americanos, porém, essa distinção se torna menos precisa. Em vez de operarem como objetos fechados, os edifícios frequentemente permanecem abertos, permitindo que ar, luz e movimento atravessem sua constituição.
Essa condição está ligada a algo que vai além da forma. Em toda a região, a arquitetura responde historicamente a climas marcados por calor, umidade, forte incidência solar e chuvas sazonais, mas também a culturas construtivas moldadas pela adaptação, pelo trabalho coletivo e pelo contato direto com o ambiente. Nesses contextos, interiores totalmente vedados nem sempre representam a resposta mais eficiente. O espaço costuma ser organizado por meio de sombra, ventilação e zonas intermediárias que regulam, em vez de isolar.
Diferente de muitos programas industriais tradicionalmente ocultos atrás de fachadas neutras e espaços herméticos, as destilarias contemporâneas frequentemente expõem seus processos produtivos como parte essencial da experiência arquitetônica. O calor dos alambiques, os vapores da destilação ou os percursos da matéria-prima deixam de ser apenas operações técnicas para assumir protagonismo espacial.
Embora produzam bebidas distintas, os projetos selecionados a seguir compartilham desafios arquitetônicos semelhantes. Todos precisam organizar fluxos industriais, controlar condições específicas de temperatura, ventilação e armazenamento, além de compatibilizar áreas técnicas com percursos de visitação pública. Ao mesmo tempo, cada destilaria estabelece respostas particulares ao território em que se insere, revelando diferentes maneiras de relacionar produção e paisagem.
Cidades modernas funcionam com base em indicadores de desempenho. Elas movem milhões de pessoas a cada dia, concentram capital, separam usos do solo e sustentam complexos sistemas logísticos e de consumo. Nesse sentido, a cidade funciona como um sistema a ser continuamente ajustado e otimizado.
As métricas dominantes de hoje são familiares e amplamente visíveis: veículos por hora, tempos médios de deslocamento, índices de aproveitamento de área, rotatividade de vagas de estacionamento, lançamentos habitacionais e receita tributária por parcela de terreno. Esses números descrevem uma cidade legível pela eficiência. Eles são herdados de uma lógica industrial, em que o espaço urbano é tratado mais como um mecanismo de produção do que como um ambiente vivido. Sob essa ótica, as cidades começam a imitar as necessidades e os indicadores de uma máquina.
A arquitetura contemporânea aprendeu a celebrar a matéria viva. Painéis de micélio, sistemas de algas, paredes vivas: a vida agora é acolhida nos edifícios e apresentada como inovação. No entanto, a mesma disciplina que celebra esses organismos trata o mofo como contaminação. Ambos são biológicos. Ambos respondem à umidade, à temperatura e às condições materiais. A diferença não é científica. Ela está relacionada às formas de vida que a arquitetura está disposta a aceitar e àquelas que prefere eliminar.
O mofo não está restrito a edifícios abandonados ou interiores mal conservados. Ele aparece em residências, escolas, escritórios, construções históricas e edifícios novos, em diferentes climas e contextos. Isso torna mais difícil tratá-lo como um problema menor ou isolado. Se o mofo continua reaparecendo, o que ele está nos dizendo sobre os ambientes que os edifícios produzem?
Existe uma maneira consagrada de contar a história da arquitetura e da alimentação. Ela começa com a decisão humana de cultivar, armazenar, distribuir e consumir alimentos, e termina com os edifícios produzidos por essa decisão. Nessa narrativa, a comida é a causa e a arquitetura é a resposta.
Mas e se a história for diferente? E se o tomate tiver construído Almería? E se o bacalhau tiver redesenhado o Atlântico Norte? E se a soja estiver, neste exato momento, construindo um porto em Santos e destruindo uma floresta no Cerrado ao mesmo tempo, enquanto os arquitetos simplesmente não foram informados? Essas não são hipóteses, mas descrições de processos já concluídos — ou em pleno curso — que produziram algumas das paisagens contemporâneas mais transformadoras do ponto de vista espacial. Grande parte do ambiente construído é moldada pelas pressões, pelos metabolismos e pelas ambições territoriais daquilo que comemos. Nesse contexto, a arquitetura frequentemente é menos um projeto do que uma consequência, e a disciplina tem contado sua própria história a partir da perspectiva errada.
No campo da arquitetura, entretanto, essa pergunta ainda permanece relativamente marginal. Muitas vezes sabemos quem projetou um edifício, conhecemos seus acabamentos, o fabricante de suas esquadrias, a marca de seus revestimentos e até mesmo seu desempenho energético mas, quase nunca, nos perguntamos de onde vieram as toneladas de matéria que tornaram sua existência possível.
Nas décadas seguintes à independência, alguns dos experimentos arquitetônicos mais ambiciosos do mundo não surgiram por meio de museus, monumentos ou palácios governamentais. Eles emergiram das universidades. Em toda a Ásia e a África, países recém-formados transformaram os campi em campos de teste para novas formas de imaginar a vida coletiva. Esses campi funcionavam como muito mais do que instituições educacionais. Tornaram-se territórios onde os Estados ensaiavam como a modernidade poderia ser organizada — como cidadãos poderiam se reunir, instituições poderiam operar, o clima poderia moldar a arquitetura e ideias importadas poderiam transformar realidades locais.