A crise habitacional atual é um fenômeno global que pode ser amplamente dividido em dois grandes problemas: a escassez de edifícios residenciais e as barreiras de acesso aos que já existem. O déficit é real e concreto no que diz respeito ao que a ONU chama de "moradia adequada para todas as pessoas". Segundo o ONU-Habitat, estima-se que 96.000 novas unidades habitacionais precisariam ser construídas por dia para atender às necessidades da população até 2030. As mudanças climáticas e as migrações forçadas estão ampliando essa lacuna. No entanto, 2,8 bilhões de pessoas em todo o mundo — o que representa quase 40% da população global — não têm acesso a um abrigo estável, terra segura e serviços básicos de saneamento, não apenas pela subprodução, mas também devido a uma barreira econômica: uma crise de acessibilidade financeira. À medida que a demanda cresce e os preços sobem, a moradia, que hoje funciona cada vez mais como uma forma de seguridade social, torna-se alvo de renda de aluguel e especulação imobiliária. Sendo a moradia adequada um direito humano, cresce em todo o mundo a pressão sobre governos e entidades privadas para limitar a especulação e garantir o acesso justo às habitações existentes. A seguir, apresentamos quatro exemplos de iniciativas na Espanha, Austrália, França e Estados Unidos que buscam ampliar com urgência o acesso à moradia e, ao mesmo tempo, conter a especulação.
Entre 23 de junho e 30 de agosto de 1988, o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York realizou uma exposição intitulada Deconstructivist Architecture, como parte de um programa "concebido para examinar os desenvolvimentos atuais na arquitetura". Com curadoria de Philip Johnson e Mark Wigley, a mostra focou no trabalho contemporâneo de sete profissionais da arquitetura internacional: Coop Himmelblau, Peter Eisenman, Frank Gehry, Rem Koolhaas, Daniel Libeskind, Bernard Tschumi e uma jovem Zaha M. Hadid. Aos 37 anos, seu trabalho foi apresentado ao mundo como um exemplo do "surgimento de uma nova sensibilidade na arquitetura". O material exposto não era uma maquete ou uma planta, mas sim uma pintura, intitulada The Peak, enviada para um concurso de arquitetura em Hong Kong em 1983. A partir desse ponto de partida, sua contribuição para a arquitetura se aprofundou nas mesmas linhas reconhecidas na época de sua inclusão na mostra: o desenvolvimento de uma linguagem arquitetônica distinta, matemática e, em suas próprias palavras, "fluida", além de sua emergência como uma figura feminina de liderança em um campo historicamente dominado por homens.
Algumas cidades crescem pela continuidade; outras se constroem em momentos de aceleração. Baku, no Azerbaijão, parece situar-se em algum ponto intermediário. Seu núcleo histórico, o Icherisheher, ainda mantém uma lógica espacial que resiste à expansão: denso, fechado, definido pela proximidade e pela repetição. No entanto, logo além de suas muralhas, a cidade começa a se transformar. A escala aumenta, as distâncias se ampliam e a relação entre os edifícios passa a se basear menos na continuidade e mais na visibilidade.
Nas últimas duas décadas, Baku tem sido palco de um esforço deliberado para construir uma imagem de si mesma. A riqueza do petróleo forneceu os meios, mas a arquitetura tornou-se uma de suas principais ferramentas. Projetos como o Centro Heydar Aliyev, do escritório Zaha Hadid Architects, ou as Flame Towers são símbolos dessa transformação, com formas projetadas para circular tanto nos meios de comunicação quanto na própria cidade. Trata-se de objetos precisos, controlados e extremamente bem resolvidos. Contudo, eles também introduzem uma lógica urbana distinta, que privilegia a singularidade em detrimento da continuidade e posiciona a arquitetura como um agente de representação.
A intenção original dos edifícios sempre foi resolver um problema simples: o abrigo. Por meio da forma e da materialidade, eles protegiam seus ocupantes das intempéries e organizavam a atividade humana. A arquitetura moderna, acompanhando a evolução dos estilos de vida, acrescentou novas prioridades — eficiência, densidade, inovação estrutural e estética. Hoje, as pessoas exigem mais dos edifícios. Os/as ocupantes desejam, cada vez mais, ambientes que apoiem ativamente a maneira como vivem, trabalham e se sentem.
O bem-estar tornou-se uma preocupação central na contemporaneidade. Décadas de pesquisa em psicologia ambiental e ciência da construção revelam que as condições internas podem afetar profundamente a saúde e o comportamento humano. A iluminação influencia os ritmos circadianos e os padrões de sono. A qualidade do ar afeta o desempenho cognitivo e a saúde respiratória. A temperatura e a acústica moldam o conforto e a concentração.
Tempos difíceis unem as pessoas. Nos últimos anos, vimos como o trabalho coletivo pode ser uma força motriz para ajudar as pessoas afetadas por desastres naturais ou causados pela ação humana. Após uma catástrofe ou deslocamento forçado, um ambiente físico seguro costuma ser essencial. Diante disso, a coordenação de esforços torna-se um fator crucial para prestar assistência em momentos de necessidade.
Arquitetos e arquitetas, como especialistas em abrigos, desempenham um papel fundamental na criação de ambientes seguros e adequados, sejam habitações individuais, edifícios públicos, escolas ou acampamentos temporários de emergência. No entanto, como afirma o arquiteto Diébédo Francis Kéré: "Quando você não tem nada e quer convencer a sua comunidade a acreditar em uma ideia, pode acontecer de todos começarem a trabalhar com você, mas é preciso continuar lutando para convencê-los".
As Nações Unidas estimam que a população mundial alcançará 10,4 bilhões de pessoas até 2100. Já em 2050, duas em cada três pessoas viverão em cidades, atraídas pelas oportunidades, serviços e comodidades oferecidos. Esse cenário exerce ainda mais pressão sobre as áreas urbanas, já que essa população demandará acesso a água, alimentação, espaços públicos, infraestrutura de qualidade e, sobretudo, habitação. De fato, estimativas sugerem que mais de dois bilhões de lares precisarão ser construídos até o final do século XXI para acomodar essa explosão demográfica. À medida que as cidades crescem, expande-se também a dispersão urbana, trazendo consigo uma série de desafios socioambientais. Diante das mudanças climáticas, o desenvolvimento urbano sustentável deve garantir que as futuras soluções habitacionais — novas ou reformadas — sejam construídas para apoiar comunidades saudáveis, priorizando o bem-estar tanto humano quanto ambiental. Por sua vez, as cidades precisarão ser construídas de forma mais densa e rápida, porém sem abrir mão de uma longa lista de critérios rigorosos. Só assim será possível evitar os efeitos negativos e frequentemente negligenciados do hiperadensamento descontrolado, que costumam comprometer a reputação do desenvolvimento urbano.
A Dinamarca lidera consistentemente o ranking dos países mais felizes do mundo, de acordo com o World Happiness Report. Para urbanistas, Copenhague, a capital da Dinamarca, tornou-se um dos estudos de caso mais citados em termos de infraestrutura de carbono neutro, mobilidade para pedestres e ciclistas, e a excelente qualidade de seu espaço público. Segundo o Dansk Arkitektur Center, espera-se que mais de 10 mil profissionais da arquitetura visitem Copenhague ao longo do ano para participar de visitas guiadas, exposições, debates e eventos culturais que colocam o design e a arquitetura em destaque.
Profissionais de arquitetura assumem uma responsabilidade significativa ao conceber projetos que devem ser bem-sucedidos não apenas para seus clientes, mas para qualquer pessoa que habite ou seja impactada por seus espaços. Temas como sustentabilidade, inclusão social, oportunidades econômicas e equidade urbana global têm estado constantemente em pauta nos últimos anos, resultando em uma nova abordagem holística de projeto para um futuro melhor, que muitos vêm chamando de métricas Ambientais, Sociais e de Governança, mais conhecidas como ESG.
Projetar um ambiente educacional é uma tarefa específica e delicada. Unir as demandas de segurança infantil e otimização do aprendizado a um apelo estético e a um conceito sólido pode dar origem a alguns dos projetos mais belos e singulares da arquitetura. Uma configuração comum é a escola elíptica ou circular. Um ambiente educacional circular, mais especificamente em forma de anel, pode sugerir uma sensação de proteção e segurança por meio de uma envoltória acolhedora. Trata-se também de uma configuração prática que envolve e conecta múltiplas funções, permitindo, assim, momentos de interação através do pátio central.
A fachada de um edifício costuma funcionar como um reflexo tanto da malha urbana na qual está inserida quanto do que se encontra por trás dela. Para além da estética, as fachadas possuem um papel funcional, cultural e sustentável de grande importância, sobretudo em relação ao design de interiores. Embora a luz natural, as vistas e a organização espacial sejam influenciadas pela fachada, os/as arquitetos/as vêm priorizando a relação entre o envelope da edificação e a qualidade do interior, tendo em vista as transformações culturais, econômicas e ambientais contemporâneas que afetam a maneira como as pessoas projetam seus espaços de vida. Assim, para responder a essas necessidades e hábitos em constante mudança, somados ao foco no bem-estar geral, os/as profissionais recuam a fachada e o teto — e, em alguns casos específicos, os pisos — para criar interiores dentro de interiores: envelopes secundários que protegem o espaço interno do ambiente externo.
Diller Scofidio + Renfro (DS+R) revelou sua proposta para a expansão do The Broad, museu de arte contemporânea fundado em 2015 pelos filantropos Eli e Edythe Broad na Grand Avenue, no centro de Los Angeles. O projeto adaptará o museu existente, também projetado pelo escritório Diller Scofidio + Renfro, às crescentes expectativas do público, já que a instituição superou amplamente suas projeções, atraindo hoje, regularmente, quase quatro vezes mais visitantes do que o originalmente previsto. A intervenção visa aumentar a acessibilidade do público e oferecer a oportunidade de sediar apresentações e eventos ao vivo, além de acomodar o acervo em expansão da instituição. A inauguração da expansão está prevista para antes dos Jogos Olímpicos de Verão de 2028.
Não sou de forma alguma especialista em parcerias público-privadas. No entanto, por cerca de 10 anos, como planejador/a de campus da University of California Berkeley e, posteriormente, arquiteto/a do campus, acompanhei o desenrolar desses empreendimentos no ensino superior — às vezes da primeira fileira, às vezes como participante. Durante esse período, essa estratégia, promovida com grande entusiasmo e otimismo, era apontada como a resposta para qualquer problema que surgisse. Ainda assim, a definição de parceria público-privada era imprecisa. O próprio conceito parecia servir a múltiplos propósitos para as pessoas, dependendo do que era necessário, de quem o recomendava e de quais equivalentes (se houvesse) existiam fora da universidade. Essa tendência continua forte hoje, tornando ainda mais crucial mapear os prós e contras dessa estratégia de desenvolvimento, não apenas para faculdades e universidades, mas para todas as decisões públicas.
https://www.archdaily.com.br/pt/1140616/empreendimentos-com-fins-lucrativos-sao-coerentes-com-os-valores-de-uma-universidade-publicaEmily B. Marthinsen
Em uma nação que enfrenta uma grave escassez de moradia para suas parcelas economicamente mais vulneráveis, o conceito de "habitação de baixo custo" curiosamente desapareceu da consciência pública e dos debates políticos. Como uma crise que afeta milhões de pessoas entre as mais pobres do país, a necessidade de moradias acessíveis tornou-se ainda mais urgente à medida que a população da Índia ultrapassa a da China, tornando-se a nação mais populosa do mundo. Se não for resolvida, a crise habitacional poderá resultar em desabrigo em massa e em condições de vida indignas para os cidadãos e cidadãs.
Na busca por promover uma construção mais sustentável, na qual o uso de materiais naturais contribua para a transmissão de tradições e culturas locais, cada vez mais projetos de arquitetura exploram diferentes recursos e técnicas para enfrentar preocupações ambientais, econômicas ou sociais. Conhecer os benefícios e qualidades dos materiais, tais como sua cor ou textura, influencia a experiência final de quem habita, percorre ou visita os espaços. Portanto, compreender suas propriedades técnicas, construtivas, estéticas e funcionais deve fazer parte do processo de projeto desde o início de sua concepção.
Um arranha-terra (ou groundscraper) é essencialmente o oposto de um arranha-céu — uma grande edificação que se estende horizontalmente em vez de se erguer verticalmente em direção ao céu. Embora não exista uma definição rígida, os arranha-terras são geralmente descritos como edifícios de baixa altura, mas extremamente extensos, com áreas que superam os 90 mil metros quadrados, às vezes chamados de sidescrapers ou landscrapers. O termo ganhou destaque com os planos do Google para sua massiva sede em Londres, orçada em 1,3 bilhão de dólares. Projetado para ter apenas 11 andares, mas mais de 300 metros de comprimento, esse imenso bloco de escritórios sintetiza o uso da expansão horizontal para criar um espaço monumental para milhares de funcionários/as.
Fundado pelos arquitetos Felipe Mesa e Federico Mesa, o escritório Plan:b arquitectos está sediado na cidade de Medellín, Colômbia, e reúne o projeto de edifícios, a participação em atividades acadêmicas e a construção de conceitos capazes de conectar a arquitetura com as realidades urgentes do cotidiano. Compreendendo o projeto arquitetônico como um pacto provisório, uma configuração permeável e uma expressão positiva dos condicionantes ecossociais, o escritório construiu, desde o ano 2000, uma grande quantidade de edifícios em diversas escalas e programas, abrangendo desde espaços públicos, educativos e esportivos até residências, escritórios, hotéis e instalações.
Ao ser convidado para projetar o 21º Serpentine Pavilion no Kensington Gardens, em Londres, o artista de Chicago Theaster Gates idealizou um espaço sereno que oferecesse refúgio e uma sutil exploração sobre o poder do som e da música na arquitetura. Construída em madeira tingida leve, a “Black Chapel” demonstra mais do que apenas sensibilidade artística e arquitetônica. Além do uso de materiais sustentáveis, o projeto também dedica atenção minuciosa à origem dos materiais de construção, trazendo visibilidade para o problema da escravidão moderna na cadeia de suprimentos da construção civil.
O/A arquiteto/a franco-libanês/esa Lina Ghotmeh, que lidera o escritório Lina Ghotmeh – Architecture, sediado em Paris, revelou as primeiras fotografias do Pavilhão Nacional do Reino do Bahrein para a Expo Osaka 2025. O projeto se inspira nos tradicionais barcos dhow barenitas, utilizando as tecnologias históricas de construção naval do país para destacar o patrimônio artesanal e manufatureiro do Bahrein. O pavilhão também presta uma homenagem ao país anfitrião da Expo Mundial, estabelecendo paralelos com a arte japonesa em madeira. Comissionado e organizado pela Autoridade de Cultura e Antiguidades do Bahrein, este projeto marca a quarta participação do país na Expo Mundial. O pavilhão está localizado na zona "Empoderando Vidas" (Empowering Lives), cobrindo uma área de 995 metros quadrados e convidando visitantes a se engajarem por meio de uma experiência expográfica sensorial.