Exposição At the Table with Nature, ambiente 2026. Crédito da foto: Jürgen Baumhauer
A célebre frase "o homem é o que come" (Der Mensch ist, was er isst), de Ludwig Feuerbach, afirma que a constituição física, mental e até mesmo moral dos seres humanos está diretamente ligada ao que consomem. Hoje, essa ideia está amplamente internalizada, acompanhada de uma crescente conscientização sobre alimentação, nutrição e o impacto do que ingerimos em nosso organismo. No entanto, essa mesma consciência não se estende aos ambientes que habitamos, onde os materiais continuam sendo tratados como decisões técnicas em vez de agentes ativos na relação entre corpo e espaço. Tendo em vista que grande parte da população global passa cerca de 90% do seu tempo em espaços fechados, raramente se discute o que realmente compõe esses espaços em seu nível mais fundamental: os materiais. Paredes, pisos e acabamentos são frequentemente abordados como escolhas técnicas ou estéticas quando, na realidade, podem funcionar como fontes contínuas de exposição a substâncias potencialmente nocivas.
Se as redes elevadas revelam uma cidade que caminha cada vez mais acima da rua, o pódio-torre é a tipologia que frequentemente faz com que essa condição pareça inevitável. Em todo o Sudeste Asiático, os projetos de pódio-torre tornaram-se uma das linguagens dominantes do crescimento metropolitano: um sistema que concentra habitação, postos de trabalho, comércio e conexões de transporte público em lotes altamente legíveis e administrados. Sob a perspectiva do planejamento urbano, o modelo pode ser incrivelmente eficaz — absorvendo o congestionamento, formalizando a circulação e gerando densidade rapidamente. No entanto, à medida que se dissemina, a tipologia também levanta uma questão mais sutil: o que ela otimiza e o que ela corrói — especialmente no nível da rua, onde a vida urbana deveria ser negociada, e não curada?
Em termos simples, o pódio-torre é uma estrutura híbrida composta por um pódio de baixa altura e alta taxa de ocupação, que serve de apoio a uma ou mais esbeltas torres verticais. O pódio geralmente carrega o peso logístico e comercial do empreendimento — lojas, estacionamento, carga e descarga, áreas de embarque e desembarque, serviços de apoio e, muitas vezes, terraços de lazer —, enquanto a torre sobrepõe os programas privados acima, sejam eles residenciais, corporativos, hoteleiros ou de uso misto. A promessa é dupla: maximizar a densidade urbana mantendo uma fachada ativa em escala humana, e separar a logística complexa da vida urbana do domínio mais reservado do morar e do trabalhar.
Bolete Lounge BIO® por Andreu World x Patricia Urquiola. Imagem cortesia de Andreu World
Ao entrar em um grande espaço de estar, no lobby de um hotel ou em um ambiente de trabalho em planta livre, a primeira coisa que se nota não é o que divide o espaço, mas o que o mantém unido. Raramente há limites claros, cômodos evidentes ou divisórias rígidas; ainda assim, o espaço parece organizado. Algumas áreas convidam à pausa; outras ditam o movimento; outras fomentam a comunidade. As transições são sutis, mas legíveis.
Ao mesmo tempo, espera-se que esses interiores ofereçam mais. Eles devem se adaptar a mudanças constantes, resistir ao uso intenso e responder às pressões ambientais reduzindo o desperdício, prolongando a vida útil dos materiais e evitando substituições frequentes. A questão não é apenas a aparência de um espaço, mas como ele se comporta ao longo do tempo. O que está, de fato, assumindo essa carga?
Para o DB Studios, a arquitetura não se limita ao ato de construir; trata-se de pertencimento. Trata-se de consolidar uma prática situada, capaz de responder ao seu contexto, ao seu público e à sua identidade local, expressando-se por meio de materiais, cores e decisões espaciais. Sob essa ótica, o projeto torna-se um meio de articular uma linguagem enraizada em seu território e moldada pelas pessoas a quem atende.
Esse posicionamento fica evidente no projeto Vision Pakistan, desenvolvido pelo DB Studios e recentemente laureado com o Prêmio Aga Khan de Arquitetura de 2025. Mais do que reconhecer os atributos arquitetônicos da obra, a premiação destaca um compromisso mais amplo: a criação de um ambiente de acolhimento para jovens em situação de vulnerabilidade social, no qual a educação, a capacitação profissional e o desenho do espaço convergem para promover a autonomia e a mobilidade social. Por meio de sua volumetria, de sua fachada e de sua organização interna, o edifício estabelece uma relação de proximidade com o entorno, fortalecendo o sentimento de apropriação por parte de seus usuários e usuárias, além de despertar o orgulho da comunidade local e de profissionais emergentes da região.
A arquitetura costuma tratar o design ecológico como se fosse uma descoberta recente. Corredores de biodiversidade, paisagens regenerativas, cidades-esponja e o urbanismo mais-que-humano são apresentados como respostas emergentes às crises ambientais contemporâneas. No entanto, na Índia e na região SWANA (Sudoeste Asiático e Norte da África), paisagens moldadas por práticas religiosas há muito tempo estruturam as relações entre pessoas, água, vegetação e animais. Muito antes de o desempenho ecológico se tornar uma métrica de projeto, os reservatórios dos templos armazenavam as águas das monções, os bosques sagrados protegiam a biodiversidade e os assentamentos em oásis sustentavam a vida em alguns dos ambientes mais áridos do mundo. Poucos desses lugares surgiram de agendas ambientais explícitas; pelo contrário, formaram-se a partir de práticas culturais e espirituais. Ainda assim, sua lógica ambiental continua extremamente relevante hoje. Diversas condições que hoje são discutidas sob o conceito do design mais-que-humano já existiam há séculos em paisagens que arquitetos e arquitetas raramente estudam como infraestrutura ecológica.
Na tradução da realidade tridimensional para um plano bidimensional, a axonometria se consolida como um dos sistemas gráficos de representação que fundamentam a linguagem utilizada por profissionais de arquitetura e design. Ao lado de plantas, cortes e elevações, suas vistas explodidas frequentemente se destacam pela capacidade de estudar as múltiplas camadas que compõem um projeto. Embora a axonometria também seja empregada em outras disciplinas, como a engenharia e o planejamento urbano, ela demonstra constantemente sua capacidade de funcionar como algo que vai além de uma mera ferramenta de representação. Com isso, ela não apenas reforça a compreensão dos processos construtivos, materiais e sistemas estruturais de uma obra, mas também amplia a comunicação das ideias e processos de projeto que a moldam.
Lu Wenyu—cofundadora do Amateur Architecture Studio com o laureado com o Pritzker Wang Shu—moldou muitas das obras mais emblemáticas do escritório na China, incluindo o Museu de História de Ningbo e o Campus Xiangshan da Academia de Arte da China em Hangzhou. Trabalhando frequentemente fora dos holofotes, sua liderança é inequívoca na disciplina da execução e nas funções que assumiu: em 2003, junto com Wang Shu, fundou o Departamento de Arquitetura da Academia de Arte da China, onde também atua como diretora do Centro de Construção Sustentável. Sua prática e ensino formam um ciclo de reciprocidade: as pesquisas realizadas nos estúdios da Academia de Arte da China alimentam continuamente as estratégias de construção no canteiro de obras, ao passo que as lições aprendidas em campo retornam à sala de aula como inteligência material, e não como teoria abstrata.
A ergonomia no ambiente de trabalho há muito tempo é definida pela estabilidade: posturas fixas, suporte lombar, ângulos cuidadosamente calculados e a busca incessante pela maneira "correta" de sentar. O conforto era amplamente associado à manutenção de uma postura apoiada em cadeiras projetadas para reduzir o movimento, alinhar a coluna e sustentar o corpo durante longos períodos sentado. Hoje, à medida que os espaços de trabalho contemporâneos se tornam cada vez mais flexíveis e híbridos, surgem questionamentos sobre se o conforto está realmente atrelado à permanência estática ou, pelo contrário, à própria possibilidade de movimento.
Embora as cadeiras ergonômicas tenham evoluído significativamente, muitas ainda operam sob uma lógica "corretiva", gerenciando o desconforto por meio de mecanismos e regulagens sem de fato reconsiderar a relação fundamental entre o corpo e o movimento. Pesquisas recentes sobre comportamento sedentário e ergonomia ativa têm desafiado a ideia da imobilidade como a condição ideal para o conforto. Em vez disso, transições posturais sutis e micro-movimentos contínuos são hoje entendidos como importantes aliados da circulação, da saúde musculoesquelética e do bem-estar geral. Nesse cenário, a ergonomia contemporânea começa gradualmente a se afastar de modelos baseados na contenção, direcionando-se a abordagens focadas na adaptabilidade, no equilíbrio e no movimento fluido.
Ruídos altos, o zumbido contínuo de equipamentos, mudanças abruptas de luz ou reflexos intensos costumam passar despercebidos. Para pessoas neurodivergentes, esses estímulos podem provocar desconforto significativo ou mesmo reações físicas e cognitivas intensas. O termo "neurodivergente" refere-se a pessoas cujo funcionamento neurológico difere do que é considerado típico, abrangendo condições como autismo, TDAH e dislexia, uma vez que seus cérebros processam informações de maneira diferente, particularmente em relação aos estímulos sensoriais, à atenção e à regulação emocional.
No entanto, a luz não é apenas visual; ela é neurológica. A forma como ela entra em um espaço, move-se pelas superfícies e muda ao longo do tempo pode afetar profundamente o conforto cognitivo. Contrastes extremos, ofuscamento, penetração direta de raios solares e variações rápidas de brilho exigem um ajuste constante do sistema visual e, para pessoas com maior sensibilidade sensorial, esse esforço pode se traduzir em fadiga, distração ou desconforto.
Qbiss Notch, uma nova edição de design desenvolvida pela Pininfarina para o sistema de fachadas Qbiss da Trimo, recebeu o Red Dot Design Award. Baseado na tecnologia de fachadas Qbiss da Trimo, o projeto introduz painéis modulares Qbiss instalados verticalmente, um alfabeto de curvas gravadas (Glyphs) e elementos Notch com iluminação integrada. Juntos, esses elementos permitem a projetistas criar composições de fachadas exclusivas. Apesar de sua flexibilidade visual, o sistema foi projetado com foco na eficiência e na precisão da construção pré-fabricada.
A maioria das pessoas raramente se lembra de uma passagem. Elas se lembram da sala de aula, do apartamento, da galeria ou da praça ao final dela. As passagens costumam ser projetadas para desaparecer em segundo plano, guiando o movimento de um destino ao outro. No entanto, algumas das experiências mais memoráveis da arquitetura acontecem justamente durante o deslocamento por um lugar, e não ao chegar a ele.
A circulação costuma ser tratada como um dos elementos mais práticos da arquitetura. Corredores conectam salas, galerias oferecem acesso e passarelas organizam o movimento pelo edifício. Seu propósito parece simples: ajudar as pessoas a irem de um ponto a outro. Por conta disso, os espaços de circulação há muito tempo são considerados secundários em relação aos programas que atendem. A atenção tende a se concentrar nos destinos, enquanto os espaços intermediários passam, em grande parte, despercebidos.
O pátio é frequentemente lembrado como uma figura do passado, um espaço voltado para o interior, permeado de nostalgia, cultura e rituais domésticos. No entanto, essa abordagem ignora seu papel primordial. Antes de ser simbólico, o pátio era operacional. Ele organizava o fluxo de ar, controlava a luz e absorvia o calor. Não se tratava de um elemento decorativo, mas sim do que tornava a arquitetura habitável. Na habitação contemporânea, tais funções são normalmente delegadas a sistemas mecânicos instalados após a definição da forma. Nas casas com pátio, ao contrário, essas questões são resolvidas espacialmente, antes mesmo de se erguer qualquer parede.
O que aparenta ser uma tipologia recorrente em várias regiões é, na verdade, um conjunto de respostas altamente específicas ao clima. O pátio no Egito não se comporta como o pátio no Marrocos, tampouco como o da Índia. Cada um deles é calibrado para responder a um desafio ambiental distinto, utilizando o mesmo dispositivo espacial. Interpretá-los como um tipo único significa reduzir sua inteligência. Compará-los, por outro lado, permite compreender como o clima pode ser incorporado diretamente à forma arquitetônica.
Situado na paisagem montanhosa de Zabbougha, no Líbano, o Capsule Retreat, do EAST Architecture Studio, é moldado pelo próprio processo de sua construção. O projeto se desenvolve por meio de decisões materiais, ajustes no canteiro de obras e condições em constante evolução, permitindo que a própria construção guie sua lógica espacial.
O processo de construção desempenhou um papel central na definição do projeto. Erguida durante um período marcado pelo colapso econômico, pela escassez de materiais e por instabilidades contínuas no Líbano, a casa se desenvolveu por meio de uma adaptação constante. Sem uma empreiteira geral, os/as arquitetos/as assumiram um papel ampliado, coordenando artesãos e artesãs, testando ideias diretamente no canteiro e respondendo às constantes mudanças de restrições. Nesse contexto, as condições sociopolíticas tornaram-se não apenas um desafio, mas um catalisador para repensar o projeto. "Estávamos constantemente testando ideias no local", afirmam os/as arquitetos/as e fundadores/as do EAST Architecture Studio, Charles Kettaneh e Nicolas Fayad, "adaptando essas decisões do ponto de vista econômico e, ao mesmo tempo, explorando o que o artesanato local poderia oferecer."
Sentados em bancos baixos, conversando informalmente, vestindo roupas confortáveis e cercados por livros, objetos de design e obras de arte, Charles e Ray Eames aparecem em uma das imagens mais emblemáticas da domesticidade moderna do pós-guerra nos Estados Unidos. A casa não se apresenta como um manifesto arquitetônico explícito, mas sim como um espaço habitado, apropriado, cotidiano. Ainda assim, quase tudo nessa cena funciona como a síntese de um ideal cuidadosamente construído: a informalidade moderna, a integração entre arquitetura e vida cotidiana aliada à coexistência da produção industrial. Mais do que representar uma residência, a fotografia projeta um modo de vida. E talvez essa tenha sido, desde o início, a ambição central por trás das Case Study Houses.
A inteligência artificial deixou de ser um conceito distante na prática profissional da arquitetura. Ela vem se tornando, de forma rápida, uma ferramenta prática adotada por escritórios em todo o mundo para acelerar fluxos de trabalho de projeto, gerar visualizações e explorar novas possibilidades criativas.
De acordo com uma nova pesquisa do setor realizada pela Chaos em colaboração com o Architizer, profissionais de arquitetura já estão integrando a IA em seu cotidiano de trabalho. Quase 800 arquitetos/as e designers de todo o mundo participaram do estudo, compartilhando suas visões sobre como utilizam ferramentas de IA, quanta economia de tempo a tecnologia proporciona e de que maneira acreditam que a inteligência artificial moldará o futuro da arquitetura.
Em climas temperados e frios, a arquitetura geralmente começa com um gesto defensivo. A envoltória do edifício é um limite vedado, projetado para resistir ao ambiente externo por meio de isolamento, barreiras de vapor e controle mecânico.
A arquitetura há muito tempo é atraída para cima. Em O Ar e os Sonhos, Gaston Bachelard escreve sobre uma imaginação moldada pelo movimento; pelo desejo de subir, flutuar, escapar da atração do solo. O ar, para ele, convida a imaginação a distorcer, inventar e ir além do que é dado, em vez de simplesmente reproduzi-lo. Nesse sentido, a leveza não é apenas uma condição física, mas um sentimento: o desejo de transcender o peso da terra e avançar em direção a algo menos tangível. Esse impulso pode ser rastreado nas contínuas tentativas da arquitetura de se erguer, desde os pilotis e grandes vãos até sistemas suspensos e membranas tensionadas. Construir de forma leve, portanto, não é apenas uma ambição técnica, mas também cultural — uma maneira de alcançar o céu.
Hoje, essa busca pela leveza ganha uma urgência renovada. À medida que as preocupações ambientais, os riscos climáticos e os avanços tecnológicos remodelam o ambiente construído, construir de forma leve deixa de ser apenas uma ambição estética ou estrutural; passa a ser cada vez mais visto como um imperativo ecológico e ético.
Produzido em escala industrial desde o século XIX, o aço transformou profundamente a maneira como construímos. O ferro, refinado por meio de processos metalúrgicos controlados, deu origem a um material capaz de aliar resistência mecânica, leveza relativa e precisão construtiva, viabilizando algumas das maiores conquistas da engenharia e da arquitetura modernas. De arranha-céus e pontes a fachadas, coberturas e sistemas industrializados, poucos materiais tiveram um impacto tão significativo na configuração do ambiente construído.
Contudo, a qualidade de um material não pode ser medida apenas por seu desempenho estrutural inicial ou por sua aparência no momento da entrega. Embora os edifícios sejam frequentemente avaliados logo após a conclusão das obras, seu verdadeiro desempenho só se revela com o passar do tempo. Fotografias registram fachadas impecáveis, superfícies recém-instaladas e espaços prontos para o uso. As décadas seguintes, no entanto, expõem essas construções à radiação solar, chuva, umidade, salinidade, poluição atmosférica e variações térmicas. É nesse contato contínuo com o meio ambiente que as escolhas materiais são efetivamente colocadas à prova.
Em um momento de emergência ecológica, a arquitetura não pode ser separada dos sistemas extrativos dos quais depende. À medida que a tecnosfera se expande, interligando fluxos de materiais, consumo de energia e infraestruturas digitais, o design torna-se cada vez mais emaranhado nesses processos. Como a prática do design pode intervir em sistemas antropocêntricos e transformar o processo e a estética da arquitetura por meio da investigação da inteligência dos materiais? De forma mais ampla, como a arquitetura se engaja com a agência e a inteligência de entidades não humanas para reequilibrar o ônus ambiental?
Jardim Botânico Guangzhou Yunxi / AECOM + Architectural Design & Research Institute of SCUT + Guangzhou Landscape Architectural Design & Research Institute. Imagem cortesia de Yunxi Botanical Garden
Embora a vida humana dependa fortemente das plantas para medicamentos, materiais de construção e combustíveis, elas também desempenham um papel vital em diversos processos ecológicos. Da regulação climática por meio da absorção de dióxido de carbono à fertilidade do solo e purificação do ar e da água, a diversidade vegetal oferece oportunidades para enfrentar alguns dos desafios mais urgentes deste século, incluindo a segurança alimentar, a disponibilidade de energia, as mudanças climáticas e a degradação de habitats. Nesse contexto, os jardins botânicos atuam como refúgios vivos que fomentam a inovação, a adaptação e a resiliência humana. Mas o que a prática arquitetônica pode aprender com a botânica e seus métodos?
"Minha única preocupação é que meu trabalho cause um impacto positivo nas comunidades nas quais está inserido", afirma Francis Kéré em seu livro Francis Kéré: Building Stories. Sua própria trajetória de vida, o contexto em que cresceu e as experiências pelas quais passou moldam sua abordagem da arquitetura. Trata-se de um compromisso que se estende às pessoas e aos lugares que chamam de lar — valorizando a materialidade, o aprendizado coletivo e a troca de conhecimentos. Descobrir as histórias por trás de projetos como a Escola Primária de Gando e a Escola Secundária Naaba Belem Goumma inspira uma reflexão sobre como projetar espaços que realmente sirvam à humanidade.
A história de Francis Kéré começa em uma aldeia na África Subsaariana e se estende por muitos lugares. Gando foi o cenário de seus primeiros anos de formação, onde ele absorveu a essência e os princípios que mais tarde moldaram os valores fundamentais de sua carreira, juntamente com influências de outras culturas. A estrutura de Gando é formada por diferentes famílias que se organizam, segundo costumes estabelecidos, em pátios espalhados pela savana. Crescer nessa aldeia remota na savana de Burkina Faso estimula um forte senso de comunidade, tornado tangível pela compreensão de que cada morador de cada pátio faz parte da vida do todo.
Revestimento BIPV com painel de suporte de alumínio tipo colmeia de borda fechada desenvolvido para o Complexo de Ciências da Saúde Myron e Berna Garron (SAMIH), na Universidade de Toronto Scarborough, demonstrando como a leveza permite uma instalação rápida e sem complicações. Imagem cortesia de Mitrex
O Myron and Berna Garron Health Sciences Complex (SAMIH), na Universidade de Toronto Scarborough, foi moldado por uma diretriz clara e inegociável: pelo menos 20% do consumo de energia do edifício deveria ser gerado a partir de fontes renováveis instaladas no próprio local. Para atender a essa exigência ambiciosa, a universidade firmou uma parceria inicial com a Mitrex, fabricante especializada em sistemas fotovoltaicos integrados à construção (BIPV), para explorar como a tecnologia solar poderia ir além da cobertura e se incorporar à própria arquitetura — posicionando o projeto em uma transição mais ampla em direção a uma arquitetura sustentável orientada pelo desempenho. O edifício de cerca de 5.850 metros quadrados (63.000 pés quadrados) abriga programas de ensino, pesquisa e treinamento clínico dedicados à formação de futuros/as profissionais de saúde. Projetado pelo escritório MVRDV em colaboração com o Diamond Schmitt Architects, o projeto inicialmente seguiu um caminho convencional, combinando uma fachada sóbria com painéis fotovoltaicos na cobertura.
Diante do crescente reconhecimento da responsabilidade da arquitetura em relação às ecologias ambiental e planetária, a prática contemporânea se orienta cada vez mais para o trabalho com o que já existe—suas condições materiais, espaciais e históricas. Nesse cenário de mudança, a estética da arquitetura e do design concentra-se, progressivamente, na reformulação de ambientes herdados. Essa abordagem fundamenta o trabalho do SSdH, um escritório de arquitetura sediado em Melbourne, fundado em 2020 por Todd de Hoog, Harrison Smart e Jean-Marie Spencer. Atuando em diversas escalas de reforma, ampliação e inserção adaptativa, o estúdio dialoga constantemente com as edificações existentes, tratando-as como agentes ativos. Vencedor do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, o escritório australiano prioriza a responsabilidade ambiental, a economia de materiais e processos colaborativos fundamentados nas condições específicas de cada local.