O ornamento arquitetônico tem sido um tema recorrente de debate no setor há décadas. Essa prática, amplamente abandonada durante o movimento modernista, pode agora estar diante de uma plataforma que viabilize seu ressurgimento, graças à convergência atual entre robótica, inteligência artificial (IA) e fabricação digital. A tecnologia parece ter eliminado o principal obstáculo ao detalhamento decorativo: o alto custo da mão de obra manual qualificada. No entanto, essa nova capacidade técnica exige um exame crítico: o que a ornamentação realmente representa e o que ganhamos ou perdemos ao ressuscitá-la por meio do design algorítmico?
Entre as ruas tradicionais de Antuérpia, onde sobrados centenários resistem como remanescentes de uma histórica cidade europeia, um volume branco e austero afirma discretamente sua presença. A Maison Guiette, projetada por Le Corbusier em 1926, é uma anomalia em seu entorno — uma afirmação ousada de modernidade em um contexto que ainda não a havia abraçado.
Embora hoje seja ofuscada pelas obras mais famosas do/a arquiteto/a, esta casa ocupa um lugar único na história: foi o primeiro projeto construído de Le Corbusier fora da França, um precursor de seus experimentos arquitetônicos posteriores e uma manifestação de seus princípios modernistas emergentes. Apesar de sua escala modesta, tratava-se de um manifesto em forma construída — uma casa que encapsulava a essência de uma revolução arquitetônica.
Antes restritos às indústrias aeroespacial e automotiva, os materiais compósitos passaram a desempenhar um papel cada vez mais central na arquitetura contemporânea. Ao associar dois ou mais componentes, como fibras e polímeros, eles oferecem leveza e resistência, alta durabilidade, liberdade formal e um melhor desempenho ambiental. Sua incorporação à prática arquitetônica marca uma profunda transformação na maneira como projetamos, fabricamos e habitamos o espaço.
A Escandinávia é moldada por condições ambientais que testam tanto a resistência humana quanto a engenhosidade arquitetônica, com invernos longos definidos pela luz do dia limitada, baixos ângulos solares, neve profunda e ventos gelados que transformam o movimento cotidiano, o encontro e o habitar em atos deliberados. Nesse contexto, a arquitetura nunca é neutra, e a hospitalidade nunca é incidental. Edifícios que acolhem visitantes em cidades, florestas e litorais devem responder diretamente à escuridão e ao frio, não ao negá-los, mas ao criar mundos interiores que oferecem orientação, calor e alívio psicológico. O ato de acolher na Escandinávia é, portanto, indissociável do clima, fundamentado na compreensão de que o abrigo, a luz e a presença humana são recursos fundamentais em ambientes árticos.
Winston Churchill declarou sabiamente uma vez: "Nós moldamos nossos edifícios e, por sua vez, eles nos moldam", uma reflexão que destaca como a arquitetura, em sua natureza dinâmica, responde às necessidades funcionais e molda as experiências das pessoas que utilizam os espaços. Os ambientes de trabalho não são exceção, evoluindo junto às transformações sociais e tecnológicas que redefiniram nossa compreensão das interações organizacionais. Quase em um piscar de olhos, os antigos e restritivos cubículos e escritórios fechados deram lugar a layouts abertos, enquanto modelos híbridos transformaram os escritórios em espaços de destino. Elementos de mobiliário, como as cabines acústicas (pods), estão na vanguarda dessa mudança — equilibrando colaboração e privacidade. Projetadas para se adaptar, elas evoluem continuamente junto às demandas dinâmicas dos espaços de trabalho modernos e de quem os habita.
https://www.archdaily.com.br/pt/1143188/um-eden-no-ambiente-de-trabalho-modulos-flexiveis-com-design-biofilico-e-centrado-no-ser-humanoEnrique Tovar
A nova sede da Cybernet Systems foi projetada com base no conceito arquitetônico japonês de flexibilidade, promovendo bem-estar, colaboração e produtividade. Como líder global em Engenharia Auxiliada por Computador, que apoia a produção industrial por meio de soluções digitais avançadas, a empresa materializa na sede — localizada no edifício Fuji Soft Akihabara, em Tóquio — seu compromisso de criar uma comunidade dinâmica e voltada para a tecnologia.
Desenvolvido pelo escritório MB-AA (Matteo Belfiore Architect & Associates) e pela Shukoh, em colaboração com a Cybernet Systems, o projeto traduz os valores corporativos em design espacial. Minimalismo, iluminação natural e amplitude definem o ambiente. Divisórias transparentes e layouts adaptáveis estimulam a comunicação, ao mesmo tempo que permitem a cada colaborador/a personalizar seu espaço de trabalho. Bem-estar, criatividade, flexibilidade e tecnologia constituem o cerne do projeto.
Uma casa ancestral no vilarejo rural de Willendorf in der Wachau parece vigiar um pomar de árvores frutíferas. As árvores resistem há gerações e, até hoje, fornecem os frutos que servem de base para o negócio da família. Delimitados de um lado pelo rio Danúbio e do outro pela encosta do vale, tanto a casa quanto o pomar testemunharam juntos a passagem de inúmeras estações. A cada transição entre a escuridão e a luz, do inverno ao verão, surge a inevitabilidade da mudança.
Os/as arquitetos/as de Nova York Marion Weiss e Michael Manfredi fundaram seu escritório, Weiss/Manfredi, em 1989, após vencerem dois importantes concursos — para o Military Women's Memorial no Arlington National Cemetery e para o Olympia Fields and Community Center, perto de Chicago —, ambos construídos na década de 1990. Entre suas obras construídas mais representativas estão o Centro de Visitantes do Brooklyn Botanic Garden, o Hunter's Point South Waterfront Park e o Barnard College Diana Center, todos na cidade de Nova York. O Olympic Sculpture Park do Seattle Museum of Art, projetado pela dupla, que venceu um concurso internacional e foi construído em 2007, foi aclamado pela crítica como um dos maiores parques de esculturas do mundo e um dos melhores exemplos de urbanismo de paisagem.
Nicolás Valencia conversa com a arquiteta espanhola Marina Otero Verzier, vencedora do Wheelwright Prize 2022, sobre sua pesquisa a respeito do custo material e extrativo da nuvem digital, tema desenvolvido em seu livro En las profundidades de la nube, publicado em 2024 pela Ediciones Asimétricas.
https://www.archdaily.com.br/pt/1143097/data-centers-caixas-cegas-e-nuvens-digitais-segundo-marina-otero-verzierArchDaily Team
A arquitetura passa por tempos de profunda transformação, assim como as plataformas que moldam a maneira como a compreendemos.
No início deste ano, dirigi-me diretamente a vocês para compartilhar nossa visão para 2025: um compromisso em reafirmar a missão do ArchDaily, elevar nossa voz editorial e fortalecer nosso papel como uma fonte confiável e crítica para arquitetos e arquitetas de todo o mundo. Aquela mensagem marcou o início de um novo capítulo, fundamentado em relevância, clareza e ação intencional.
Serpentine Gallery Pavilion 2011, projetado por Peter Zumthor. Foto por Walter Herfst
Em 1902, o físico Philipp Lenard descobriu que a fragmentação das gotículas de água em ondas, cachoeiras, chuva ou névoa libera íons negativos no ar. Isso ocorre porque, ao se romperem, as gotículas separam suas cargas elétricas: os elétrons, menores e mais leves, aderem às partículas suspensas no ar, enquanto as cargas positivas permanecem na água ou se dissipam rapidamente. Esse fenômeno aumenta a concentração de íons negativos no ambiente, o que pode influenciar diretamente nosso corpo e mente, interagindo com neurotransmissores e funções celulares essenciais. Não é por acaso que muitas pessoas relatam sensações de bem-estar, energia e clareza mental após passarem algum tempo em praias, cachoeiras ou florestas. No Japão, essa conexão com a natureza é explorada na prática do Shinrin-Yoku, ou "banho de floresta", que promove relaxamento e revitalização simplesmente através do contato com o ambiente natural.
À medida que a arquitetura navega por um mundo em rápida mudança, moldado pela urgência ecológica, pela transformação social e pela aceleração tecnológica, a noção de inteligência se transforma. Não mais restrita à cognição individual ou à computação artificial, a inteligência pode emergir da memória cultural, de práticas coletivas e de sistemas adaptativos. Nesse sentido mais amplo, a arquitetura torna-se um campo de convergência onde as inteligências natural, artificial e social se cruzam para oferecer novas formas de projetar e construir.
As tradições vernáculas incorporam gerações de conhecimento ambiental, frequentemente transmitidas por meio de materiais, técnicas de construção e lógicas espaciais finamente sintonizadas com as condições locais; as plataformas participativas expandem a tomada de decisões para comunidades mais amplas para que participem da modelagem de seus ambientes, redistribuindo a agência no processo de projeto; e os processos computacionais simulam e respondem a dados complexos em tempo real, trazendo a capacidade de analisar, simular e responder a variáveis complexas — sejam ambientais, sociais ou comportamentais — oferecendo novas formas de adaptabilidade.
Nos Estados Unidos, quase 1 em cada 10 crianças é afetada pela asma, uma condição com taxas significativamente mais altas nas áreas urbanas do país. No entanto, em uma comunidade nos arredores de Atlanta com uma população de mais de 300 crianças, não foi registrado um único caso da doença. Isso é intencional. A maioria das cidades e bairros do país não é projetada levando em consideração a biologia humana — uma negligência que contribui para a prevalência crescente de doenças cardiovasculares e problemas de saúde mental. Estaríamos tratando condições crônicas como questões puramente médicas quando, na verdade, elas podem ser sintomas de um planejamento urbano deficiente?
À medida que a inteligência artificial (IA) se torna cada vez mais integrada à sociedade, torna-se essencial pausar e refletir sobre os fundamentos que a sustentam — e as dimensões até as quais ela se estende. No cerne do aprendizado da IA estão os conjuntos de dados (datasets), cuja estrutura e conteúdo moldam a maneira como esses sistemas interpretam e respondem ao mundo. Essa dependência cria uma profunda interdependência — que não apenas informa as capacidades da IA, mas também define seus potenciais pontos cegos. Diante disso, cabe perguntar: quais formas de compreensão esse processo pode excluir, especialmente aquelas difíceis de serem capturadas em formato digital?
A intersecção entre arquitetura e medicina moldou profundamente o design modernista, campo no qual a transparência, a luz e o ar se tornaram ferramentas essenciais na busca pela saúde. Surgidos a partir da crise de tuberculose do final do século XIX e início do século XX, os sanatórios evoluíram de instalações médicas para campos de testes de inovação arquitetônica. A necessidade de ar fresco, luz solar e esterilidade transformou esses espaços em protótipos para os princípios modernistas, influenciando a organização espacial, as escolhas de materiais e as filosofias de projeto que se estenderam muito além dos cuidados de saúde.
Mais do que locais de tratamento, os sanatórios materializavam as teorias médicas contemporâneas na forma construída. Numa época em que a tuberculose — frequentemente chamada de peste branca — devastava populações em todo o mundo, profissionais da medicina prescreviam a exposição ao ambiente como a principal terapia. A arquitetura adaptou-se a essa demanda, produzindo edifícios com terraços amplos, grandes janelas e interiores de linhas depuradas projetados para otimizar a ventilação e maximizar a luz natural.
A arquitetura educacional em todo o mundo passa por uma transformação significativa, distanciando-se de projetos estáticos e rígidos em direção a ambientes integrados à natureza, mais dinâmicos e interativos. Com o aumento da densidade nas cidades e a consequente redução de terrenos disponíveis, as equipes de arquitetura reimaginam as escolas não apenas como locais de aprendizado, mas como ecossistemas onde as crianças podem se desenvolver de forma holística. Um elemento fundamental nessa mudança é a integração do paisagismo e do desenho topográfico, permitindo que as escolas transcendam as fronteiras tradicionais ao combinarem educação, lazer, exploração e conexão com a natureza. Esses projetos buscam criar espaços envolventes que desafiam as crianças a interagir com o ambiente física e emocionalmente, estimulando a criatividade, a independência e o bem-estar. Ao sobrepor elementos naturais — como taludes, jardins, terraços e estruturas lúdicas — aos planos arquitetônicos, os espaços educacionais são reconfigurados em paisagens vibrantes e multidimensionais que incentivam o movimento, a imaginação e a descoberta.
O diagrama esquemático para desenvolver uma seção de parede baseada em tectônica eco-resiliente.
É consenso que o surgimento de musgo ou vegetação na superfície de um edifício é sinal de negligência, deterioração ou falta de manutenção. E essa premissa não é totalmente infundada: pequenas fissuras em materiais tradicionais podem levar a infiltrações de água, pontes térmicas ou até mesmo patologias estruturais. Mas e se essa presença orgânica não fosse uma falha, mas sim o resultado de uma coevolução entre a arquitetura e o ambiente? Essa inversão de perspectiva foi magistralmente antecipada por Lina Bo Bardi na Casa Cirell, em São Paulo, onde musgos, orquídeas e vegetação espontânea faziam parte da intenção arquitetônica desde os primeiros esboços. O uso de revestimento de pedra bruta e superfícies expostas permitiu que a casa se integrasse ao terreno. Projetos mais recentes aprofundaram ainda mais essa relação entre a matéria construída e a vida vegetal, como os jardins verticais de Patrick Blanc e o Bosco Verticale de Stefano Boeri, que transformam fachadas em ecossistemas verticais, redefinindo o envelope arquitetônico como uma infraestrutura viva capaz de filtrar poluentes, absorver calor e promover a biodiversidade.
O Delta do Nilo, em azul a subida do nível médio do mar com um aumento de 2°C acima dos níveis pré-industriais, dados do Sentinel. Territorial Agency: Oceans in Transformation, 2020
Quanto pesa uma cidade, e o que esse peso significa para o nosso futuro coletivo? Essa questão provocativa norteia a 7ª edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa, que propõe uma investigação sobre as transformações da vida urbana e as consequências materiais, sociais e ambientais de habitar o planeta hoje. De 2 de outubro a 8 de dezembro, Lisboa voltará a sediar um dos eventos de arquitetura mais importantes da Europa.
Com curadoria de Ann-Sofi Rönnskog e John Palmesino, fundadores do escritório Territorial Agency, a Trienal investiga a magnitude das cidades contemporâneas e seu impacto planetário. Compostas por quase 30 trilhões de toneladas de materiais, as cidades globais formam uma rede densa e intrincada de estruturas em constante evolução. Para destrinchar essas complexidades, a Trienal se apresenta como um espaço de aprendizado, curiosidade, imaginação e debate — um ponto de encontro para arquitetos/as, pesquisadores/as, artistas e o público em geral.
https://www.archdaily.com.br/pt/1143055/quao-pesada-e-uma-cidade-explorando-a-trienal-de-arquitetura-de-lisboa-2025ArchDaily Team
"Steven Holl – Drawing as Thought", uma ampla exposição das aquarelas originais do arquiteto norte-americano, está em cartaz no Tchoban Foundation Museum for Architectural Drawing em Berlim. A mostra revela os bastidores de alguns dos principais projetos de Holl e sua metodologia de projeto. Os desenhos selecionados vão desde propostas vencedoras de concursos do início de sua carreira que não foram construídas até visões mais recentes atualmente em construção na Europa e nos Estados Unidos. Ocupando os dois níveis do museu, a mostra foi inaugurada em 6 de fevereiro com uma conversa entre Holl e o/a fundador/a do museu e arquiteto/a Sergei Tchoban, além de discursos de Kristin Feireiss, curador/a da exposição e diretor/a fundador/a do vizinho Aedes Architecture Forum, e de Diana Carta, arquiteto/a e pesquisador/a de Roma. A exposição, que pode ser visitada até 4 de maio, é acompanhada por um catálogo que afirma: "A obra do internacionalmente renomado arquiteto norte-americano Steven Holl destaca-se não apenas por seus edifícios extraordinários, com foco em estruturas públicas e culturais, como museus, centros de arte, salas de concerto, bibliotecas e universidades em todo o mundo, mas também por sua produção artística, que hoje compreende mais de 50.000 croquis, desenhos em preto e branco e aquarelas. […] Embora os/as visitantes da exposição encontrem apenas uma pequena fração de seu vasto corpo de trabalho, cada desenho deve ser explorado e estudado individualmente, em consonância com a intenção de Holl."
No design de interiores contemporâneo, a acústica evoluiu de um mero detalhe secundário para uma linguagem de design definidora. Profissionais de arquitetura e especificação buscam cada vez mais materiais com alto desempenho tanto visual quanto funcional – nos quais a textura da superfície, o jogo de luz e a absorção sonora convergem para moldar a experiência humana. À medida que espaços de trabalho integrados, interiores de hospitalidade e centros educacionais adotam acabamentos mais táteis e sustentáveis, o mercado de materiais acústicos de alto desempenho experimenta uma forte expansão. Nesse cenário, a Woven Image surge como uma líder global, expandindo continuamente os limites do que as superfícies acústicas podem alcançar.
Buildner divulgou os resultados de seu concurso Pape Info Point, organizado em parceria com a divisão letã do World Wide Fund for Nature (WWF Letônia), que se concentra na conservação ambiental, na proteção da biodiversidade e na gestão sustentável de recursos na Letônia.
Este concurso internacional convidou profissionais de arquitetura e design a propor um novo ponto de informação aos visitantes para o Parque Natural de Pape, uma área protegida na costa báltica da Letônia. Os/as participantes foram desafiados/as a projetar uma estrutura que reforçasse o papel do parque na conservação e no ecoturismo, integrando-se harmonicamente com a paisagem circundante. O objetivo era criar um espaço envolvente e educativo que informasse o público visitante sobre a rica biodiversidade do parque, as populações de aves migratórias e seus ecossistemas únicos, mantendo uma pegada ecológica mínima.