Do óculo à órbita: o simbolismo do círculo na arquitetura

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Ao longo da história da arquitetura, o círculo esteve associado a múltiplos significados — desde a geometria cósmica dos templos antigos e o óculo dos edifícios clássicos até as rosáceas das catedrais góticas e as escotilhas dos navios. No entanto, no século XX, o círculo adquiriu um novo significado cultural. À medida que a aviação, a exploração espacial e a inovação tecnológica transformavam a maneira como a sociedade imaginava o futuro, as formas circulares passaram a evocar máquinas, naves espaciais, cápsulas e até mesmo novas formas de habitação.

O uso da geometria circular perdurou ao longo dos séculos, adquirindo novos significados e simbolizando novos códigos. Para começar, basta olhar para o Panteão Romano, admirado e estudado há mais de dois milênios pela escala monumental de sua cúpula e por sua geometria celestial. Originalmente encomendado por Marco Agripa, o templo foi inaugurado em 27 a.C. No entanto, após um incêndio em 80 d.C., sua reconstrução foi assumida pelo imperador Domiciano. O edifício voltaria a pegar fogo em 110 d.C., e desta vez seu novo projeto foi encomendado pelo imperador Adriano.

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Panteão Romano / Imperador Adriano. Imagem cortesia do usuário do Flickr lysander07 (licenciada sob CC BY-NC-ND 2.0)

Concebido como um enorme tambor coroado por uma cúpula, seu interior cria um espaço banhado pela luz natural que entra por um óculo de 9 metros de largura, iluminando altares triangulares e arredondados alternados que definem o perímetro do recinto. A esfera estabelecia uma analogia com os céus, contida dentro das paredes de concreto do Panteão. As implicações cósmicas dessa geometria homenageavam os deuses e os céus por meio de seu desenho simbólico, ao mesmo tempo em que glorificavam o próprio Império Romano.

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O interior do Panteão contém um volume perfeitamente esférico – um símbolo cósmico que afirmava triunfantemente a autoridade e o poder do Império Romano. Imagem © Desenho de Francesco Piraneni. Via usuário do Wikimedia Bkmd sob Domínio Público

Diferentemente do óculo romano, a rosácea na arquitetura medieval surgiu por volta de 1135, quando o Abade Suger decidiu iniciar a construção da nova entrada monumental da Igreja da Abadia de Saint-Denis. Como explica o Metropolitan Museum of Art em "The Royal Abbey of Saint-Denis in the Time of Abbot Suger (1122–1151)", a rosácea ficava posicionada abaixo das ameias e foi o primeiro exemplo conhecido de integração desse elemento ao desenho da fachada oeste de uma igreja, embora ela tenha se tornado, com o tempo, uma característica marcante da arquitetura gótica. Em Saint-Denis, a rosácea abria-se para uma capela central superior no lado oeste da estrutura, sendo visível também a partir do coro leste. Um disco solar circular desse tipo foi incorporado à parede do ábside oeste de Worms, outra das basílicas imperiais renanas. Lá, a abertura emoldurava o imperador quando este se sentava em seu trono, na extremidade oeste da nave.

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Usuário do Flickr: matias.dutto. Usada sob Creative Commons. Imagem: Hospital Naval de Buenos Aires / Clorindo Testa

Mas como o círculo na arquitetura acabou associado à navegação, ao maquinário, à engenharia e à mobilidade? Como explica Colin Bisset, no século XVI, o rei Henrique VIII da Inglaterra ordenou a instalação de novos canhões em seus navios de guerra. Como eram grandes demais para serem posicionados na proa ou na popa, foi necessário abrir vãos nas laterais das embarcações para acomodá-los. A palavra francesa porte, que significa porta ou abertura, era usada para descrever essas aberturas até que eventualmente passassem a ser chamadas de portholes (escotilhas).

Como aberturas circulares recortadas nas paredes externas de navios, câmaras industriais, aeronaves, edifícios e até de algumas naves espaciais, as escotilhas são comumente associadas à construção naval, fornecendo iluminação e ventilação aos espaços internos ao mesmo tempo em que são projetadas para suportar ambientes marítimos rigorosos. Na arquitetura, contudo, o termo refere-se de maneira mais ampla a janelas circulares.

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Reforma de 5 X 7 / Greater Dog Architects. Imagem © Metaviz Studio

Diferentemente das aberturas quadradas, os vãos circulares oferecem maior integridade estrutural, razão pela qual navios de passageiros podem ser equipados com escotilhas sem comprometer sua estabilidade estrutural ou flutuabilidade. Isso também as torna ideais para aplicações expostas a pressões externas extremas, sendo frequentemente encontradas em submarinos e estações espaciais. Nesses casos, o vidro convencional pode ser substituído por materiais de alta tecnologia resistentes à pressão, como o acrílico ou o quartzo.

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Maison Tropicale de Jean Prouvé exposta no Tate Modern em Londres. Imagem © Steve Cadman licenciada sob a licença (CC BY-SA 2.0)

As escotilhas ganharam maior popularidade durante o período Art Déco, e a obra de Le Corbusier de 1923, Por uma arquitetura, incentivou profissionais da área a buscarem inspiração de projeto nas embarcações. Nele, o arquiteto desenvolveu o conceito da casa como uma "máquina de morar" e introduziu o Modulor. Entre os nomes da arquitetura francesa que adotaram as janelas redondas estavam Georges-Henri Pingusson, que as utilizou durante a década de 1920, e Jean Prouvé, que as incorporou ao projeto de sua "Casa Tropical" pré-fabricada.

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Biblioteca Nacional Mariano Moreno / Clorindo Testa + Francisco Bullrich + Alicia Cazzaniga. Imagem via © Usuário do Wikipedia: Ryky91 Licenciada sob CC BY-SA 3.0

Clorindo Testa, por sua vez, construía maquetes de barcos desde muito jovem, e sua paixão por eles se refletiria mais tarde no projeto do Hospital Naval de Buenos Aires. Projetado por volta de 1970 em colaboração com Héctor Lacarra e Juan Genoud, a aparência formal do edifício remete a um navio de guerra, com janelas redondas dispostas como as escotilhas de uma embarcação e até mesmo um reservatório de água na cobertura que se assemelha à torre de comando de um navio. No entanto, esta não é a única de suas obras a apresentar escotilhas. A Biblioteca Nacional Mariano Moreno, por exemplo, combina grandes aberturas envidraçadas com janelas menores — incluindo escotilhas e aberturas quadradas e retangulares —, criando diferentes vistas emolduradas do exterior.

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Parte da série La Città Nuova (1914) Publicado em Antonio Sant'Elia "L'architettura futurista: manifesto". Imagem © Antonio Sant'Elia [Wikimedia] sob domínio público

Desse modo, o início do século XX viu o círculo adquirir um novo significado cultural à medida que profissionais da arquitetura futurista começaram a conceber edifícios como ambientes dinâmicos e tecnológicos, em vez de composições estáticas. Em 1914, o arquiteto e urbanista italiano Antonio Sant'Elia escreveu o Manifesto da Arquitetura Futurista, enfatizando os princípios gerais do movimento e, entre outras ideias, proclamando:

"Que a arquitetura futurista é a arquitetura do cálculo, da audácia temerária e da simplicidade; a arquitetura do concreto armado, do ferro, do vidro, do papelão, da fibra têxtil e de todos os substitutos da madeira, da pedra e do tijolo, que tornam possível alcançar o máximo de elasticidade e leveza..."

De fato, filmes como Meu Tio, de Jacques Tati, satirizavam as janelas fazendo-as parecer olhos, ao mesmo tempo em que destacavam os contrastes entre dois mundos, dois modos de vida e duas maneiras distintas de compreender a cidade e a arquitetura no final dos anos 1950. Enquanto um mundo refletia uma forma de modernidade alimentada pelo otimismo futurista, o outro representava a cidade tradicional. À medida que as janelas circulares se associavam a máquinas e espaços tecnológicos, adquiriram gradualmente um significado futurista. Sua estética evoluiu ao longo das décadas de 1920 e 1940, atingindo o auge durante a Era Espacial, entre os anos 1950 e 1970.

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A Casa Dymaxion / Buckminster Fuller. Imagem © Espólio de R. Buckminster Fuller, via myipamm.net

Como um renomado futurista comprometido em desenvolver soluções inovadoras para os problemas da humanidade, Buckminster Fuller tornou-se pioneiro do design sustentável e da energia renovável, e mais tarde participou da Habitat I, a primeira conferência das Nações Unidas sobre assentamentos humanos. Por volta de 1920, Fuller buscou criar uma residência unifamiliar autossuficiente e sustentável — a máquina de morar do futuro. Embora a Dymaxion House nunca tenha sido construída, seu projeto demonstrou inovações pioneiras e influentes em pré-fabricação e sustentabilidade. A casa não apenas teria sido exemplar em termos de autossuficiência, mas também poderia ter sido produzida em massa, distribuída em embalagens planas e enviada para todo o mundo. Seu potencial poderia ter ajudado a mitigar a escassez de moradias no pós-guerra por meio da incorporação de novos materiais, tecnologias sustentáveis e processos simplificados de montagem e produção em massa.

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foto por Daderot. Imagem via Library of Congress: U.S. Farm Security Administration

Contudo, em uma era de rápidos avanços tecnológicos e conquistas sem precedentes, a estética da Era Espacial transformou a visão de mundo moderna, deixando uma marca indelével na arquitetura e no design de interiores. O círculo tornou-se cada vez mais associado a naves espaciais, submarinos, aeronaves e cápsulas e, à medida que as viagens além da atmosfera terrestre começaram a ser imaginadas, a arquitetura respondeu propondo novas formas de habitação. Coletivos e profissionais de arquitetura experimental, como o Archigram, desafiaram as noções convencionais de edifício, casa e cidade, buscando conectar a tecnologia à vida humana e incentivar novas perspectivas sobre a prática profissional.

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Bolwoning / Dries Kreijkamp. Imagem © Gili Merin
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Bolwoning / Dries Kreijkamp. Imagem © Gili Merin

Por exemplo, o conjunto residencial Bolwoningen, na cidade holandesa de Den Bosch, surgiu de um experimento arquitetônico relativamente desconhecido liderado por Dries Kreijkamp, que buscava introduzir uma nova solução morfológica para habitação e estabelecer uma nova tipologia residencial. Construído em 1984, esse grupo de casas esféricas com janelas redondas desafiou os paradigmas existentes ao experimentar novas maneiras de habitar o espaço. Além das vantagens sustentáveis oferecidas pelas estruturas esféricas em termos de montagem e pré-fabricação, bem como do baixo consumo de energia e da facilidade de manutenção, Kreijkamp argumentava que as formas redondas representam a maneira mais orgânica de viver: "Vivemos em uma esfera, nascemos de uma esfera... por que não viver em uma esfera?"

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Walking City, Archigram. Imagem © Deutsches Architekturmuseum

Assim como o Archigram acreditava que a vida estava mudando em um ritmo tão acelerado que era necessário repensar novas e diversas formas de habitar o espaço, profissionais da arquitetura contemporânea agora reconsideram como concebem e projetam em resposta ao contexto atual e às necessidades do público usuário. Do sagrado e cósmico ao tecnológico e futurista, o significado simbólico do círculo evoluiu continuamente ao longo da história, integrando-se à linguagem visual do futurismo e da arquitetura especulativa por meio de suas associações com máquinas, veículos e com a exploração de novos mundos.

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Museu de Ciências de Binhai / Bernard Tschumi Architects. Imagem © Kris Provoost

Profissionais da arquitetura, do design e das artes reinterpretaram progressivamente essa antiga forma geométrica como um símbolo de progresso tecnológico e de vida além das fronteiras arquitetônicas convencionais. Mas será que ela ainda carrega as mesmas conotações futuristas hoje? A arquitetura contemporânea continua a incorporar janelas circulares, volumes cilíndricos, cúpulas e espaços semelhantes a cápsulas, mas seu simbolismo evoluiu. O que antes estava associado ao otimismo tecnológico e à exploração espacial agora evoca ideias de resiliência, sistemas ecológicos, economias circulares, formas alternativas de habitação e até mesmo uma relação renovada com o meio ambiente.

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Reforma de 5 X 7 / Greater Dog Architects. Imagem © Metaviz Studio

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Sobre este autor
Cita: Iñiguez, Agustina. "Do óculo à órbita: o simbolismo do círculo na arquitetura" [From Oculus to Orbit: The Symbolism of the Circle in Architecture] 09 Set 2026. ArchDaily em Português. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1184782/do-oculo-a-orbita-o-simbolismo-do-circulo-na-arquitetura> ISSN 0719-8906

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