Romullo Baratto é arquiteto, doutor em arquitetura pela FAUUSP e Gerente Editorial do ArchDaily Global. Coordenou a equipe editorial da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo em 2017 e atuou como Gerente Editorial do ArchDaily Brasil entre 2019 e 2024, período em que a plataforma conquistou o Prêmio FNA, tornando-se o primeiro veículo de mídia a receber a honraria. Colaborou na edição do livro "Concrete Jungle", publicado pela gestalten, e foi responsável pela curadoria de exposições de arquitetura no Brasil, Chile, Dinamarca e Itália, além de ter realizado palestras e moderações de debates na Espanha, Estados Unidos e Portugal. Sua tese de doutorado, intitulada "Comoções", investiga as paisagens urbanas de São Paulo a partir do cinema. Seu trabalho articula pesquisa acadêmica e prática editorial, comunicando a arquitetura por meio de textos, entrevistas, curadoria e fotografia. Siga no Instagram @romullobf.
O Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi anunciou que o Guggenheim Abu Dhabi será aberto ao público em 11 de dezembro de 2026, na Ilha Saadiyat. O museu, projetado pelo falecido Frank Gehry, torna-se a quarta instituição na rede global do Guggenheim, juntando-se às filiais de Nova York, Veneza e Bilbao.
O projeto foi anunciado pela primeira vez em 2006. As obras começaram em 2011, foram suspensas por vários anos devido a dificuldades econômicas e alterações contratuais, e acabaram retomadas em 2019. A data de conclusão prevista para 2025, estabelecida em 2021, acabou sendo adiada para dezembro de 2026.
Em uma época tão obcecada por estética e aparências, poucos arquitetos e arquitetas se interessam verdadeiramente pelos "intestinos" de nossos edifícios. Com uma prática enraizada na consciência contextual e no pragmatismo técnico, sensível às necessidades das pessoas que atende e às limitações de recursos, a arquiteta marroquina Aziza Chaouni foca nos sistemas ocultos que viabilizam a própria existência da arquitetura. Ao longo das últimas duas décadas, ela tem trabalhado em projetos em diferentes geografias, particularmente na região do Saara, envolvendo-se ativamente com suas comunidades e seu patrimônio.
Atualmente liderando o South–North (SoNo) Lab for Sustainable Construction and Conservation na EPFL em Lausanne, Suíça, Chaouni leva para o meio acadêmico sua experiência prática em atuar sob restrições severas, defendendo uma colaboração recíproca entre o Sul e o Norte Globais. O ArchDaily teve a oportunidade de conversar com Aziza sobre sua experiência na África e como ela pode fomentar abordagens mais sustentáveis no projeto de edifícios para o futuro das nossas cidades.
A arquitetura há muito tempo é atraída para cima. Em O Ar e os Sonhos, Gaston Bachelard escreve sobre uma imaginação moldada pelo movimento; pelo desejo de subir, flutuar, escapar da atração do solo. O ar, para ele, convida a imaginação a distorcer, inventar e ir além do que é dado, em vez de simplesmente reproduzi-lo. Nesse sentido, a leveza não é apenas uma condição física, mas um sentimento: o desejo de transcender o peso da terra e avançar em direção a algo menos tangível. Esse impulso pode ser rastreado nas contínuas tentativas da arquitetura de se erguer, desde os pilotis e grandes vãos até sistemas suspensos e membranas tensionadas. Construir de forma leve, portanto, não é apenas uma ambição técnica, mas também cultural — uma maneira de alcançar o céu.
Hoje, essa busca pela leveza ganha uma urgência renovada. À medida que as preocupações ambientais, os riscos climáticos e os avanços tecnológicos remodelam o ambiente construído, construir de forma leve deixa de ser apenas uma ambição estética ou estrutural; passa a ser cada vez mais visto como um imperativo ecológico e ético.
A cada doze anos, as margens do Ganges em Prayagraj tornam-se uma das maiores cidades da Terra — e depois desaparecem. O Maha Kumbh Mela atrai mais de 400 milhões de pessoas em peregrinação ao longo de seis semanas, exigindo a construção de uma infraestrutura urbana completa: pontes flutuantes, hospitais de campanha, quilômetros de vias temporárias e uma malha de cidades de tendas visível do espaço. Ao final do festival, tudo é inteiramente desmontado. Nenhum encontro na história da humanidade produz uma arquitetura do movimento tão completa; construída para a chegada, projetada para a transitoriedade e concebida para não deixar vestígios permanentes. O Kumbh Mela é excepcional em escala, mas não em condição: o movimento se tornou um desafio espacial definidor deste século.
Este mês, o ArchDaily explora Arquiteturas do Movimento: Território, Fronteiras e a Política de Pertencimento, um tema que examina como a mobilidade reformula a relação da arquitetura com o território, a propriedade e a identidade. O assunto não aborda o movimento como uma crise a ser gerida, mas como uma lente fundamental para reconsiderar o papel de edifícios, cidades e fronteiras na prática: quem acolhem, quem excluem e o que tornam permanente.
"A história da arquitetura não está errada", argumentou Lesley Lokko em sua introdução para a Bienal de Arquitetura de Veneza 2023, "mas está incompleta." Durante a maior parte do século XX, a história da arquitetura falou uma única língua: uma narrativa singular e dominante, centrada em um punhado de movimentos, nomes e cidades, cujo alcance e influência pareciam universais justamente porque as vozes alternativas eram silenciadas. Os movimentos de design, contudo, raramente cruzavam fronteiras intactos. Eram frequentemente absorvidos, resistidos, reinterpretados e transformados a depender da geografia, da política, da economia, do clima e dos materiais disponíveis. O que chegava a um lugar como doutrina tornava-se, em outro, algo inteiramente diferente.
Este mês, o ArchDaily explora Design do Século XX em Fluxo: Uma Reinterpretação Global da História da Arquitetura, um tema que mapeia as linguagens projetuais do século não como um cânone único, mas como uma constelação de trajetórias em evolução, cruzamento e contínua reinvenção. O tema desafia a premissa de que as arquiteturas regionais e não ocidentais eram meramente derivadas — posicionando-as, em vez disso, como locais de reinterpretação ativa, onde ideias globais eram filtradas por materiais, climas, mão de obra e práticas culturais locais para produzir algo inteiramente singular.
"Sabemos que não nascemos para morrer", dizia frequentemente o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha. "Nascemos para continuar." Na arquitetura, essa ideia de continuidade está no cerne do patrimônio — não como uma herança estática, mas como algo que resiste, se transforma e é constantemente reinterpretado. No entanto, o que continua e o que se permite desaparecer nunca é algo neutro. As decisões sobre preservação são moldadas pelo poder, pela memória e pelo valor, levantando uma questão fundamental para a prática contemporânea: quem define o que vale a pena ser levado adiante, e para quem?
Cortesia de [applied] Foreign Affairs, Institute of Architecture, University of Applied Arts Vienna
Muito antes de a arquitetura assumir a forma de paredes, coberturas ou cidades, ela reunia as pessoas em torno do fogo. A simples fogueira foi um dos primeiros dispositivos espaciais da humanidade: um lugar de calor, alimento, contação de histórias e rituais. Ao seu redor, o espaço tomava forma pela proximidade, e não pelo fechamento; pela presença compartilhada, e não pelo uso prescrito. O fogo organizava os corpos em círculo, promovia alianças e transformava a sobrevivência em vida coletiva. Hoje, essa lógica ancestral persiste: a arquitetura tem o potencial de aproximar as pessoas não ao ditar como devem se reunir, mas ao criar as condições que tornam possível o estar junto.
Este mês, o ArchDaily explora Estar Junto e a Criação do Lugar, um tema que examina a arquitetura como um suporte para a inclusão, o cuidado e o pertencimento. O tema se alinha à primeira edição do ArchDaily Student Project Awards, prêmio que aborda o cuidado sob uma perspectiva coletiva, concentrando-se em espaços que estimulam melhores formas de convivência. Olhando além dos espaços de encontro icônicos, a cobertura editorial considera ambientes do cotidiano — de mercados públicos e mesas coletivas a praças de bairro, terceiros lugares, contextos domésticos e ambientes digitais ou híbridos de convivência remota. Em vez de tratar o estar junto como um programa rígido, o especial questiona como o desenho do espaço pode apoiar a abertura, a diversidade e a vida coletiva sem impor formas homogêneas de encontro.
Barcelona é a primeira cidade na história do Congresso Mundial de Arquitetura da UIA a sediar o evento duas vezes. A edição de 1996, Present and Futures: Architecture in Cities, ocorreu em um momento de transição, quando a cidade pós-olímpica consolidava um modelo urbano que se tornaria um dos mais estudados e contestados no urbanismo contemporâneo, e quando a arquitetura aprendia a pensar a grande metrópole como seu principal campo de investigação. Trinta anos depois, a mesma cidade retoma a questão sob outra perspectiva: uma em que o ambiente construído não pode mais ser compreendido como um objeto autônomo, mas sim a partir dos amplos sistemas ecológicos, materiais e políticos que o sustentam. O tema do Congresso de 2026 — Becoming. Arquiteturas para um planeta em transição — não abandona as preocupações urbanas de 1996, mas as reapresenta a partir de uma escala planetária.
A equipe de curadoria desta edição, formada por Pau Bajet, Maria Giramé, Mariona Benedito, Tomeu Ramis, Pau Sarquella e Carmen Torres, aborda a arquitetura como uma ferramenta crítica e transformadora enraizada no território, atuando na intersecção entre prática profissional, pesquisa acadêmica e ensino. Seu programa estrutura o Congresso em torno de seis linhas temáticas interconectadas (Devir Mais-que-humano, Devir Circular, Devir Incorporado, Devir Interdependente, Devir Hiperconsciente e Devir Sintonizado) e o distribui por três sedes de caráteres muito distintos — Les Tres Xemeneies del Besòs, o Disseny Hub em Glòries e o CCIB —, cada uma escolhida tanto pelo que representa quanto pelo que pode abrigar.
A tradição filosófica ocidental há muito coloca a cultura em oposição à natureza. Esse pensamento dualista moldou os cânones das ciências e das humanidades, e a arquitetura não ficou de fora. Sob essa lógica, tudo o que não é humano existe para ser explorado e recebe o nome de "recurso natural". Essa mentalidade extrativista moldou o desenvolvimento de muitas partes do mundo nos últimos séculos, deixando marcas profundas — às vezes irreparáveis — no planeta. No entanto, outras formas de viver sempre existiram. Das práticas religiosas da África Ocidental baseadas no animismo aos saberes herbais de mestres e mestras da Jurema Sagrada no Brasil; das comunidades indígenas na Índia, cujo ritmo de vida reflete as monções, aos Inuit do Ártico, capazes de enxergar dezenas de tons de branco: entre seres humanos e natureza não há distinção; o que existe é a vida.
Autores e autoras contemporâneos trazem essa discussão para os campos da filosofia e, mais especificamente, da arquitetura. Donna Haraway, Antônio Bispo dos Santos, Achille Mbembe e Beatriz Colomina são apenas alguns dos nomes cujas obras ajudam a expandir a estreita perspectiva ocidental, lançando luz sobre formas alternativas de coabitação — com outros humanos e mais-que-humanos — neste planeta.
O ArchDaily nasceu dentro de uma universidade, fundado por uma dupla de estudantes de arquitetura que acreditavam que o conhecimento arquitetônico deveria ir mais longe do que ia naquele momento. Dezoito anos depois, essa convicção não mudou — mas as perspectivas, as ferramentas e as oportunidades cresceram. Lançamos o Student Ambassador Programpara dar à próxima geração de arquitetos/as um papel direto na conexão entre suas universidades e o debate global sobre arquitetura.
Quanto pesa uma casa? Em seu ensaio de 1965, A Home Is Not a House, Reyner Banham observou que as habitações americanas modernas estavam se tornando estruturalmente mais leves, ao mesmo tempo em que ficavam mais complexas em suas instalações prediais, como encanamento, fiação, aquecimento e resfriamento. O verdadeiro peso da arquitetura, argumentava ele, não estava mais nas paredes e telhados, mas nos sistemas de alto consumo de energia que garantiam o conforto.
Décadas mais tarde, a questão foi atualizada na 7ª Trienal de Arquitetura de Lisboa. A curadoria de Ann-Sofi Rönnskog e John Palmesino perguntou: quanto pesa uma cidade? A escala mudou do interior doméstico para o território. A tecnosfera, materializada nas estimadas 30 trilhões de toneladas de matéria produzida por seres humanos na Terra, reformula inteiramente a discussão. Cidades, data centers, campos de petróleo, polos logísticos, satélites, cabos e fluxos de resíduos formam um sistema planetário no qual a arquitetura não é objeto nem pano de fundo, mas participante.
“A invenção humana por excelência.” Foi assim que o sociólogo francês Claude Lévi-Strauss descreveu a cidade na primeira metade do século XX. Embora sua ideia possa ser vista como ultrapassada por narrativas mais recentes, não se pode negar que as cidades existem devido à ação humana na paisagem. Nesse sentido, Tóquio é talvez a expressão “mais humana” que se pode encontrar, já que sua população metropolitana de 37 milhões de pessoas lhe garante o topo do ranking entre as maiores cidades do mundo.
"Toda vez que descrevo uma cidade, digo algo sobre Veneza”, disse Marco Polo a Kublai Khan no livro seminal de Italo Calvino, As Cidades Invisíveis. Outrora o coração de uma poderosa república marítima, Veneza de fato abriga muitas cidades em sua intrincada rede de canais, becos, pontes e praças. Reconhecida por sua beleza arquitetônica única, história renascentista e relevância cultural — e, naturalmente, por ter sido erguida no meio da água —, nas últimas décadas Veneza tornou-se uma das vítimas mais emblemáticas do turismo excessivo, recebendo cerca de 30 milhões de visitantes por ano.
Os números são impressionantes, superando de longe os 50 mil habitantes que fazem de Veneza seu lar — 120 mil a menos do que sua população no início da década de 1950, quando a população local começou a se afastar, incomodada pelo barulho constante e pelas vias superlotadas.
Há dezesseis anos, lançamos o ArchDaily Building of the Year Awards com uma ideia simples, mas poderosa: permitir que nosso público leitor escolha seus edifícios favoritos em nossa biblioteca de projetos em constante crescimento. Graças ao seu engajamento, este prêmio se tornou um dos reconhecimentos mais democráticos e influentes da arquitetura. Ano após ano, a visão coletiva de vocês tem destacado a excelência arquitetônica em diferentes culturas, economias e paisagens ao redor do mundo.
Este ano não foi exceção. Os 75 projetos finalistas já demonstraram uma gama notável de soluções espaciais, refletindo o poder da inteligência coletiva em traçar um retrato da arquitetura mais instigante da atualidade. Agora, é hora de revelar os projetos vencedores.
A arquitetura é, há muito tempo, enquadrada como o trabalho de mentes visionárias isoladas; no entanto, Beatriz Colomina, uma influente teórica, historiadora e curadora, desafia essa noção, defendendo que a arquitetura é, por natureza, um esforço colaborativo. Ela examina criticamente como o mito do gênio solitário — quase sempre representado como uma figura masculina — apagou as contribuições de inúmeras mulheres e de equipes inteiras envolvidas no processo de projeto. Para Colomina, repensar a arquitetura significa reconhecer as complexidades do trabalho coletivo e desmantelar os vieses históricos que moldaram as narrativas da disciplina.
Ao longo dos últimos anos, o discurso arquitetônico tem sido moldado pela emergência de novas vozes, territórios redescobertos e por um compromisso crescente com formas compartilhadas de conhecimento. Essas preocupações permanecem plenamente presentes em 2025 como debates contínuos que ganham cada vez mais densidade e nuance. Questões sobre quem produz arquitetura, a partir de quais contextos e sob quais condições continuam centrais, cada vez mais informadas por práticas que operam de forma coletiva, interdisciplinar e para além da autoria individual.
Essa continuidade se reflete em como a arquitetura é entendida menos como um objeto acabado e mais como um processo contínuo integrado a sistemas sociais, culturais e ambientais. Persistem as discussões sobre agência, participação e produção de conhecimento, acompanhadas de uma atenção contínua a contextos rurais, periféricos e historicamente marginalizados. Em vez de privilegiar uma única escala ou geografia, a arquitetura é abordada como uma prática que transita entre territórios, reconhecendo as condições desiguais que moldam como os espaços são projetados, construídos, mantidos e habitados.
Como defendia o falecido urbanista Jaime Lerner, o futuro da arquitetura não está em construir novas cidades, mas em atualizar as já existentes. Em um mundo no qual os recursos são finitos e o espaço urbano está cada vez mais saturado, sua afirmação parece mais urgente do que nunca. Ela convoca os/as arquitetos/as a olharem para dentro, a repensarem o que realmente precisa ser construído e a reconhecerem o potencial criativo do que já existe. Nas limitações das estruturas existentes reside a oportunidade de projetar de forma diferente: reparar, adaptar e reutilizar. Ou, como diria o poeta francês Louis Aragon, reinventar o passado para ver a beleza do futuro.
Este mês, o ArchDaily exploraConstruir Menos: Repensar, Reutilizar, Renovar, Readaptar, um tema que examina a crescente mudança na arquitetura em direção ao trabalho com o que já existe. À medida que os espaços urbanos se tornam mais densos e a terra se torna escassa, os/as arquitetos/as repensam o impulso de construir do zero. Em vez disso, prolongam a vida útil das estruturas existentes, adotando o retrofit e a reutilização adaptativa como estratégias de sustentabilidade e criatividade. A pergunta que orienta esta exploração é simples, porém urgente: como a arquitetura pode redefinir os futuros urbanos construindo menos?
O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do Brasil. Imagem via Shutterstock
O Rio de Janeiro, frequentemente chamado de "Cidade Maravilhosa", é uma tapeçaria vibrante tecida por diversos fios culturais, históricos e sociais. Sua história começa com os povos indígenas Tupi, Puri, Botocudo e Maxakalí, que originalmente habitavam a região. O nome da cidade deve-se aos exploradores portugueses que chegaram à Baía de Guanabara em 1º de janeiro de 1502 e, acreditando erroneamente que se tratava da foz de um rio, batizaram a região.