Camilla Ghisleni

Camilla Ghisleni é Arquiteta e Urbanista, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em Urbanismo, Cultura e História da Cidade pela mesma universidade. É sócia-fundadora do escritório Bloco B Arquitetura e colabora com o ArchDaily Brasil desde 2014.

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Entre Memória e Matéria: Por dentro da obra do escritório uzbeque ARC Architects

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Diante da transformação das cidades do Uzbequistão, o escritório ARC Architects desenvolve uma arquitetura que busca conectar o passado ao presente. Fundado em 2017 por Bobir Klichev, o estúdio surgiu da comunidade de arquitetura de Bucara e permanece estreitamente conectado às particularidades culturais e climáticas do país. Com escritórios em Tashkent e Bucara, o ARC combina minimalismo e referências étnicas para desenvolver uma linguagem contemporânea enraizada em seu contexto.

Em vez de reproduzir uma imagem tradicional da arquitetura uzbeque, o estúdio busca compreender como essa herança pode ser reinterpretada hoje — um exercício que dialoga necessariamente com as camadas históricas sobrepostas que atravessam o país. Durante séculos, cidades como Samarcanda e Bucara foram importantes centros comerciais e culturais da Ásia Central. Sua arquitetura desenvolveu-se em torno de pátios internos e ruelas estreitas, conformando tecidos urbanos nos quais as edificações e os espaços coletivos são indissociáveis.

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Cinema-Estúdio Namibe: A Reabilitação de um Ícone do Modernismo Tropical Angolano

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O que sustenta o propósito de uma arquitetura que nunca foi ocupada? Durante décadas, essa foi a pergunta que rondou o Cinema-Estúdio de Namibe, construído na costa da Angola, em 1973. Concebido para ser um espaço de exibição cinematográfica, o edifício permaneceu fechado e abandonado sem nunca exercer o papel para o qual foi criado. Ainda assim, sobreviveu ao tempo, tornando-se um ícone da paisagem e da arquitetura angolana, até finalmente exibir seu primeiro filme quase cinquenta anos depois.

Mas o que manteve esse edifício vivo no imaginário coletivo durante tanto tempo? Teria sido justamente sua arquitetura ousada e singular capaz de atribuir significado a uma obra que nunca teve um uso?

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Como uma cultura pode ser traduzida em espaço? Por dentro do Studio NEiDA

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"Uma arquitetura que abriga multidões." Essa é a frase que o Studio NEiDA usa para se apresentar, deixando clara sua postura diante do mundo: escutar e respeitar a pluralidade de existências que transitam por cada contexto. Mais do que uma declaração de princípios, a frase parece funcionar como um método. Afinal, o que significa projetar espaços capazes de acolher não apenas pessoas, mas também memórias, saberes e conflitos?

Sem dúvida, a abordagem plural do Studio NEiDA está, em parte, enraizada em sua própria inserção geográfica. Atuando entre o Togo e a Alemanha, o escritório opera em dois contextos aparentemente distintos, mas historicamente conectados. Em uma entrevista recente, Jeanne Autran-Edorh, arquiteta franco-togolesa e cofundadora do estúdio, ao lado da curadora e escritora Fabiola Büchele, relembra a história entre as duas nações, apontando que, como poucos sabem, antes de se tornar uma república independente, o Togo foi uma colônia alemã que posteriormente passou para o domínio francês.

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Arquitetura Comunitária no Brasil: 4 Projetos de Transformação Social

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Em 2021, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou um levantamento a respeito da quantidade de equipamentos culturais e sociais existentes nas cidades do Brasil. Os resultados eram alarmantes, apenas 29,6% dos municípios brasileiros possuíam equipamentos culturais e sociais como museus, enquanto teatros e casas de espetáculos estavam presentes em apenas 23,3% das cidades. Um recorte que diz muito em relação à carência de espaços desse gênero nas cidades brasileiras. Nesse contexto, quando uma cooperativa de mulheres no Maranhão ou um grupo de voluntários na Bahia decide construir seu próprio equipamento cultural e comunitário, o gesto não apenas supre uma carência material, mas reivindica, por iniciativa própria, um direito que deveria ser garantido como política pública.

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O modernismo soviético da Ásia Central e o dilema legal da preservação recente

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Durante a última década, o Uzbequistão fez algo que a maioria dos países pós-soviéticos ainda hesita em fazer, incluiu formalmente dezenas de edifícios modernistas construídos entre 1960 e 1980 em sua lista nacional de patrimônio cultural. Entre eles estavam o Panoramic Cinema, Tashkent Circus e Palace of Peoples' Friendship, obras que, até poucos anos atrás, eram vistas como uma arquitetura soviética recente e "rotineira", sem status patrimonial.

Essa decisão, no entanto, remete a um problema que atravessa praticamente todos os sistemas patrimoniais do mundo: como proteger legalmente uma arquitetura que ainda não completou o tempo mínimo - formal ou informal - para ser considerada "histórica"?

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Onde está a fronteira? O papel da arquitetura no controle da mobilidade

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Imagine um corredor. Paredes de concreto a dois metros de distância, teto baixo, iluminação artificial sem sombra nem gradação. Ao fundo, uma janela de vidro blindado e, do outro lado, um agente uniformizado. Você está em um posto de entrada. Pode ser em Calais, em El Paso, em Lampedusa. Um espaço anônimo, mas não neutro. Desenhado para que qualquer um entenda: a passagem não é um direito, é uma concessão.

Esse corredor, no entanto, não é uma exceção, mas a expressão de uma linguagem arquitetônica que se repete nas fronteiras contemporâneas. Os labirínticos aeroportos, as estações de triagem, os muros; arquiteturas que fazem da hostilidade um elemento constitutivo do espaço, demonstrando que ela transcende a expressão fechada de quem está do outro lado do vidro.

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Construir para ensinar: 15 escolas que exploram a madeira como elemento principal

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Ao longo das últimas décadas, a madeira tem ampliado sua presença na arquitetura contemporânea — impulsionada tanto pelo avanço de novas tecnologias construtivas quanto pela redescoberta de técnicas tradicionais, sempre com foco em soluções de menor impacto ambiental. As escolas estão entre os projetos que melhor traduzem esse movimento: é ali que as qualidades ambientais, construtivas e sensoriais do material encontram um terreno particularmente fértil.

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Aqui nós pertencemos: “Arquitetura” na Cosmovisão dos Povos Originários da América Latina

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Se engana quem imagina encontrar nas palavras que seguem um discurso sobre materialidade, técnicas construtivas sustentáveis, modos de talhar a madeira ou formas de trançar a palha. Este artigo se propõe justamente a deslocar o olhar para além dos aspectos que, com frequência, definem o debate sobre a cultura dos povos originários quando o assunto é "arquitetura".

Em um universo no qual o próprio termo "arquitetura" é estrangeiro, abordar suas construções — se é que essa palavra dá conta de nomeá-las — a partir de um viés exclusivamente material ou tecnológico não deixa de ser uma tentativa de enquadrar suas formas de produzir espaço em categorias ocidentais. Reduz-se, assim, uma cosmologia complexa a um conjunto de atributos mensuráveis, como se fosse possível transformá-la em um checklist aplicável a qualquer arquitetura, apagando justamente aquilo que a distingue: as relações entre território, corpo e memória.

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A Forma da Água: 20 Centros Aquáticos que Constroem Paisagens Coletivas

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Muito provavelmente, cada pessoa tem seu próprio ritual ao entrar em uma piscina. Há os que mergulham sem hesitar, os que começam pelas pontas dos pés, os que nadam por esporte e os que submergem por puro prazer. Individual ou compartilhada, intensa ou contemplativa, toda experiência com a água acontece dentro de um ambiente cuidadosamente construído para recebê-la.

Arquitetura e água pertencem a naturezas opostas. Enquanto uma delimita e contém, a outra insiste em se espalhar, e é dessa tensão entre o sólido e o líquido que surgem os centros aquáticos. Nesses edifícios, a presença da água transforma tudo ao seu redor. A luz se fragmenta em reflexos instáveis, os sons adquirem uma reverberação particular, a temperatura e a umidade passam a definir a atmosfera dos espaços, enquanto materiais e sistemas construtivos são permanentemente postos à prova. Mas sua singularidade não é apenas técnica.

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Costurando Margens: Marinas como Instrumentos de Reconexão entre Cidade e Água

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As áreas de interface entre terra e água sempre exerceram papel fundamental na formação e no desenvolvimento das cidades. Dos antigos portos comerciais até as atuais orlas multifuncionais, as frentes marítimas e fluviais representam espaços de grande potencial econômico e social. Diante deste contexto, os complexos náuticos contemporâneos cada vez mais assumem o papel de equipamentos urbanos estratégicos, capazes de integrar diferentes atividades, promovendo a reaproximação entre a cidade e a água e contribuindo para a valorização de paisagens frequentemente subutilizadas.

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Da Indústria à Sala de Estar: Mobiliários de Metal na Arquitetura de Interiores

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Como um material concebido para pontes, fábricas e grandes estruturas chegou ao banco da sala, à estante do apartamento, à mesa do café? O metal atravessou séculos associado ao esforço, à máquina e à monumentalidade — das estruturas expostas das Exposições Universais do século XIX à lógica produtiva da indústria moderna. Sua presença no interior doméstico não é um dado óbvio, mas uma conquista cultural: a transformação de um material fabril em elemento de uso cotidiano, íntimo e próximo do corpo.

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Como Enquadrar a Paisagem: Estratégias Projetuais Aplicadas em Residências

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No momento de implantar uma casa no terreno, um dos primeiros passos consiste no reconhecimento do território que a circunda, identificando suas potencialidades e tensões. Nesse processo, inevitavelmente selecionamos, recortamos, ocultamos ou potencializamos determinadas vistas, moldando a experiência arquitetônica de acordo com as sensações que se deseja fomentar.

Estabelece-se, portanto, uma hierarquia visual que orienta o olhar, determinando o que deve ser visto, de que maneira e com qual intensidade emocional, sendo capaz de definir como o usuário interpreta o entorno. Nesse contexto, a estratégia projetual ultrapassa o campo da decisão estética para atuar como uma manipulação da experiência fenomenológica do espaço. Ao selecionar um fragmento específico do horizonte por meio de uma abertura controlada, ou dissolver os limites entre interior e exterior com amplos planos envidraçados, a arquitetura passa a operar como uma lente. Ela pode enfatizar a pequenez da escala humana diante da vastidão do território ou, em sentido oposto, domesticar a natureza, incorporando-a como parte da vida cotidiana.

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Quando a escola se torna cidade: 6 projetos no Sul Global que fortalecem suas comunidades

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A educação e a cultura sempre se consolidaram como pilares estratégicos para promover transformações sociais profundas. Nesse sentido, a qualidade das infraestruturas físicas não é apenas uma questão funcional, mas um elemento estruturante para a efetivação de políticas públicas consistentes — especialmente em territórios marcados pela precariedade urbana, desigualdades históricas e fragilidade institucional. Diante desse cenário, a arquitetura escolar pode assumir um papel que vai muito além da sala de aula, tornando-se catalisadora da transformação social.

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Ingrediente arquitetônico: 15 restaurantes brasileiros que ampliam fronteiras

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A relação entre arquitetura e gastronomia transcende a simples funcionalidade de um espaço para comer. Trata-se de uma simbiose sensorial onde o ambiente prepara o paladar tanto quanto o tempero. A estética visual de um prato pode ser compreendida a partir de princípios de volumetria, equilíbrio, contraste e ritmo — conceitos igualmente caros ao desenho arquitetônico. Da mesma forma, a arquitetura do restaurante — suas cores, iluminação e escolha de materiais — atua como um ingrediente invisível que pode elevar a experiência gastronômica ou comprometer a percepção do sabor antes mesmo da primeira garfada. Ambas as disciplinas são dinâmicas e reflexos diretos de comportamentos sociais e tendências culturais que ditam a maneira como ocupamos o espaço e como alimentamos o corpo.

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As Torres de Terra de Shibam: Uma Cidade Vertical no Deserto do Iêmen

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Símbolos do desenvolvimento tecnológico e da densidade urbana, os edifícios em altura, tal qual conhecemos hoje, surgiram no final do século XIX, principalmente nos Estados Unidos, como resposta ao crescimento acelerado do comércio urbano e à necessidade de expandir as cidades sem ocupar mais território. O termo arranha-céu, por exemplo, foi cunhado na década de 1880 e originalmente se referia a edifícios com cerca de 10 a 20 pavimentos — uma altura impressionante para a época.

No entanto, a ideia de construir verticalmente é bem mais antiga do que os arranha-céus de aço e vidro sugerem. Muito antes da revolução industrial, algumas sociedades já experimentavam formas de urbanização vertical como solução para limitações de espaço, defesa territorial ou adaptação ambiental.

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Arquiteturas do olhar: 25 mirantes para experienciar a paisagem

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Os mirantes são estruturas destinadas à observação da paisagem a partir de pontos elevados. Implantados em meio à natureza ou no cenário urbano, funcionam como dispositivos que organizam o olhar e estabelecem uma relação direta entre o corpo e o território. Nessa fronteira entre o observador e a paisagem, os mirantes podem assumir diferentes configurações, desde pequenos gestos até estruturas monumentais, sempre em resposta ao contexto em que se inserem. Independente da escala, são – em certa medida -, tentativas de domesticar a vastidão, recortes precisos que tornam legível aquilo que, sem mediação, poderia se apresentar como excesso.

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Memória da Terra: 4 Exemplos que Reinventam as Antigas Fábricas de Cerâmica

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Há um gesto ancestral em dar forma à terra. Muito antes da arquitetura se constituir como disciplina, o barro já era moldado pelas mãos e transformado pelo fogo, convertendo matéria bruta em utensílio doméstico e objeto cultural. Na história desse ofício, as fábricas de cerâmica marcam a transição do saber manual para a produção em série, ampliando sua escala sem romper completamente com a origem material. Dispersas por diferentes territórios, essas estruturas registram a relação entre técnica, paisagem e tempo. Com o passar das décadas, no entanto, muitas delas acabaram perdendo sua função original, sendo substituídas por processos mais tecnológicos ou fagocitadas pelo desenvolvimento urbano ao seu redor, passando a ocupar um estado intermediário, entre permanência e obsolescência.

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Espai Verd: A Utopia Habitável da Catedral Verde de Valência

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Mesmo o transeunte mais distraído é capturado pela presença monumental dessa estrutura situada no consolidado bairro valenciano de Benimaclet. Diante dela, qualquer tentativa de apreensão racional se desfaz. A lógica construtiva parece escapar enquanto o espaço se desdobra em tensões e desvios onde nada se oferece de imediato. Entre massas de concreto e a insurgência da vegetação, emerge um jogo quase coreográfico de planos, ângulos e rotações. Na vertigem desse encontro, percebe-se que o edifício não foi feito para ser compreendido, mas para ser experimentado.

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