
A arquitetura já não pode ser pensada como um objeto isolado, alheia às redes técnicas que sustentam a vida contemporânea, — um cenário que exige diferentes leituras e abordagens. É nesse contexto que em março, o tema mensal do ArchDaily recaiu sobre A Tecnosfera: Arquitetura na Intersecção da Tecnologia, Ecologia e Sistemas Planetários, tópico amplo e inevitavelmente complexo. A partir do conceito de tecnosfera, cunhado pelo geólogo Peter Haff para descrever o conjunto de artefatos produzidos pela humanidade, delineia-se um panorama em que a vida contemporânea se mostra profundamente entrelaçada a máquinas, dados e redes de energia.
Como em outros meses, a produção editorial buscou investigar questões centrais ao tema, explorando o potencial da arquitetura não apenas como parte da tecnosfera, mas como mediadora entre sistemas tecnológicos e limites ecológicos. Ao longo do mês, discutiu-se também como a disciplina pode intervir nos sistemas planetários que ajuda a constituir, tensionar as lógicas extrativistas que sustentam essas redes e, sobretudo, imaginar novas formas de coexistência entre humanos, máquinas e o próprio sistema terrestre.
A partir dessas questões, os artigos publicados passaram a articular múltiplas perspectivas, refletindo uma diversidade de contextos culturais e geográficos. Essa pluralidade de abordagens não apenas evidencia a complexidade do tema, como também valoriza a riqueza de vozes que constituem o ArchDaily.
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Rethinking Architecture at the Scale of Planetary SystemsInfraestruturas planetárias: arquitetura como parte de um sistema global
Vista a partir da noção de tecnosfera, a arquitetura deixa de ser entendida como um objeto isolado e passa a ser percebida como parte de um campo técnico mais amplo. Cadeias de suprimento, sistemas de dados ou redes de energia são acomodados em infraestruturas de escala planetária, condicionando diretamente o que pode ser construído, o que é acessível, a performance dos edifícios ao longo do tempo e até os resíduos que produzem.

Nesse contexto, muitos artigos voltaram-se para a vasta rede de infraestruturas que sustenta a vida contemporânea, buscando não apenas compreender sua escala e seus impactos — das cidades ao espaço sideral —, mas também ensaiar formas de lidar com essas estruturas sob perspectivas arquitetônicas, ambientais e sensoriais.
Abordou-se, por exemplo, a enorme extensão ocupada pelos armazéns de logística no mundo, que hoje em dia ultrapassa dezenas de bilhões de metros quadrados de espaços criados para robôs autônomos com plantas profundas e sem acesso à luz natural. Uma pegada ambiental determinada pela grandiosidade construtiva que diminui a impermeabilização do solo e contribui para o efeito de ilha de calor, lançando luz sobre a importância de reconhecer a arquitetura não apenas nos espaços habitados, mas também naqueles que sustentam os fluxos dos quais a humanidade depende.

Do global ao local: como infraestruturas reconfiguram territórios
Discorrendo mais profundamente sobre esses fluxos, contextos regionais também foram abordados ao longo do mês, como as infraestruturas relacionadas à produção de energia na América Latina, e a forma como elas marcam o território. De usinas hidrelétricas a produção eólica, abordou-se como essas obras de engenharia – que parecem isoladas – têm a capacidade de remodelar territórios, como o caso do deserto do Atacama, no Chile. Conhecida por ter alguns dos mais altos níveis de radiação solar do mundo, a região agora abriga extensas infraestruturas solares distribuídas pela paisagem antes desértica, reestruturando não apenas a geografia como também criando novos fluxos de equipamentos e de pessoas.

Do contexto latino-americano para a realidade de Hong Kong, similaridades podem ser observadas, particularmente no caso da área de San Tin, historicamente utilizada para atividades agrícolas, mas que agora abriga estacionamentos, centros de logística ou espaços para indústrias, absorvendo a crescente – e mundial - demanda por infraestruturas de todos os gêneros. Uma integração entre tecnologia, infraestrutura e paisagem natural que mesmo forçada pode questionar como tais sistemas devem coexistir. Nesse sentido, o próprio artigo sugere: poderia o conhecimento ali gerado ser aplicado para a preservação, ou pelo menos, a diminuição do impacto dessas estruturas nas paisagens em que estão inseridas?

Entre procurar responder algumas questões e gerar muitas perguntas mais, os artigos endossam a complexidade do tema. No caso especifico acima, percebe-se, por exemplo, que não se trata de um mero movimento de destinação de áreas urbanas para construção de infraestruturas, mas parte de uma agenda institucional seguida por muitos países, que tem como objetivo "voltar-se para futuro". Nesse contexto, zonas para inovação e desenvolvimento da economia digital são formalizadas e inseridas nas cidades, como o caso da citada diretriz política de Guangdong, na China, a qual mostra que a IA não é apenas uma estratégia econômica, mas também uma nova forma de urbanização.
Diante dos impactos visíveis da tecnosfera na paisagem — natural ou construída —, a produção editorial também abordou suas implicações psicológicas nos habitantes das cidades. Essas infraestruturas, tão necessárias para a sobrevivência, passam a ser entendidas não apenas como estruturas espaciais, mas como sistemas que emitem luz, refletem som, exalam vibrações e moldam a experiência sensorial urbana. Intrínseca a autonomia da própria tecnosfera, essa dimensão projetual se faz cada vez mais presente e precisa ser analisada com responsabilidade. Um exemplo disso, é o parque elevado Seoullo 7017, projetado pelo escritório MVRDV e implantado sobre um viaduto em Seul, o qual demonstra como o paisagismo pode funcionar como infraestrutura sonora.

Frear, contrariar, coexistir: estratégias para uma nova realidade
Assim como o parque Seoullo, que mitiga o impacto psicológico da infraestrutura viária na cidade de Seul, outras estratégias também foram apresentadas ao longo do mês visando delinear novas relações entre arquitetura e tecnosfera, de linguagens projetuais a escolha de materiais - que particularmente desempenham um papel fundamental nessa história. Longe de serem neutros, eles participam de cadeias amplas que envolvem extração, processamento, transporte e descarte, como evidencia, por exemplo, a centralidade do petróleo na configuração das cidades modernas.

Sendo assim, explorou-se como a prática do design pode transformar o processo e a estética arquitetônicos através de uma investigação da inteligência material. Por meio de exemplos como os Pavilhões de Java e Geleia, por i/thee, que usaram borra de café usada e cascas de uva branca para sua construção ou o Pavilhão Growing Matter(s), por Henning Larsen Architects, que foi construído utilizando micélio, explorou-se na prática como os materiais naturais pode ajudar a contrariar essa cadeia de extração e criar arquiteturas mais responsivas.

Como estratégia, também foram apresentadas arquiteturas que aproximam as infraestruturas das cidades e seus habitantes, criando operações e sistemas logísticos mais amigáveis. Exemplos como o Edifício do Porto de Antuérpia, do escritório Zaha Hadid Architects, que concentra as operações da autoridade portuária em uma única estrutura, ou a CopenHill, do Bjarke Ingels Group, que integra uma usina de conversão de resíduos ao tecido urbano, incluindo uma pista de esqui e uma parede de escalada, ilustram como infraestruturas antes isoladas podem se tornar parte ativa da vida urbana.

No entanto, apesar de obras notáveis, é importante atentar-se para a possível obsolescência de tudo que é construído e esta seria outra estratégia importante a ser levada em consideração. Ao citar os centros de dados construídos nas décadas de 1990 que se tornaram completamente obsoletos em termos espaciais, demandas de energia, etc., enfatizou-se a importância de construir com flexibilidade estrutural em mente, com organização de infraestruturas acessíveis e em camadas e com fachadas entendidas como sistemas atualizáveis.
Um campo em expansão: o papel da arquitetura na era da tecnosfera
Diante desse conjunto de discussões, torna-se evidente que a arquitetura já não pode ser compreendida fora das dinâmicas da tecnosfera. As questões colocadas no início não se resolvem de forma isolada, mas se entrelaçam ao longo das diferentes perspectivas, escalas e contextos abordados. Mediar sistemas, intervir em processos planetários e tensionar lógicas extrativistas deixam de ser possibilidades e passam a constituir condições concretas da prática contemporânea. Nesse cenário, não há respostas únicas, mas um campo em expansão — no qual a arquitetura precisa assumir um papel ativo, consciente dos sistemas que ajuda a sustentar e dos impactos que produz.

Este artigo é parte dos Temas do ArchDaily: Tecnosfera. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade através de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossas leitoras e leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.















