As virtudes e limites da fotografia na representação da arquitetura - cinco fotógrafos discutem

As virtudes e limites da fotografia na representação da arquitetura - cinco fotógrafos discutem

Enquanto meio de representação da arquitetura, a fotografia apresenta qualidades indiscutíveis. Com ela, é possível apresentar a um público distante obras erguidas em qualquer lugar do mundo, de vistas gerais a espaços internos e pormenores construtivos - ampliando o alcance e, de certo modo, o acesso à arquitetura.

Entretanto, como qualquer outra forma de representação, não é infalível. Na medida que avanços tecnológicos permitem fazer imagens cada vez mais bem definidas e softwares de edição oferecem ferramentas para retocar e, por vezes, alterar aspectos substanciais do espaço construído, a fotografia, por sua própria natureza, carece de meios para transmitir aspectos sensoriais e táteis da arquitetura. Não é possível - ao menos não satisfatoriamente - experienciar as texturas, sons, temperatura e cheiros dos espaços através de imagens estáticas. 

Faculdade de Biologia Celular e Genética / Héctor Fernández Elorza. Madri, Espanha. Image © Montse ZamoranoSesc Pompeia / Lina Bo Bardi. São Paulo, Brasil.. Image © Manuel SáThe Sales Center in Wenzhou TOD New Town / NAN Architects. Wenzhou, China. Image © FangFang TianTate Modern Switch House / Herzog & de Meuron. Londres, Reino Unido. Image © Laurian Ghinitoiu+ 15

Como parte de nosso tema mensal de fevereiro - representação na arquitetura - conversamos com Lorena Darquea, Montze Zamorano, Manuel Sá, Laurian Ghinitoiu e FangFang Tian, fotógrafos de atuação internacional, para saber suas opiniões a respeito das virtudes e limites da fotografia na representação dos espaços. Leia suas respostas, a seguir.

Montse Zamorano

CEPSA Service Station / Saffron Brand Consultants + Malka+Portús arquitectos. Ávila, Espanha. Image © Montse Zamorano
CEPSA Service Station / Saffron Brand Consultants + Malka+Portús arquitectos. Ávila, Espanha. Image © Montse Zamorano

"Existem vários níveis de virtudes para a fotografia arquitetônica. Por exemplo, a fotografia desempenhou um papel importante ao aproximar a arquitetura de pessoas que nunca teriam sido capazes de visitar alguns edifícios pessoalmente. Também permite que o público tenha contato com várias narrativas e perspectivas no mesmo edifício, com base nos olhares e intenções de diferentes fotógrafos.

Venecia Park / Héctor Fernández Elorza + Manuel Fernández Ramírez. Zaragoza, Espanha. Image © Montse Zamorano
Venecia Park / Héctor Fernández Elorza + Manuel Fernández Ramírez. Zaragoza, Espanha. Image © Montse Zamorano

No entanto, nunca devemos esquecer que a fotografia é apenas um tipo de mídia, por isso nunca substituiria a experiência de visitar um edifício. Como o som se propaga em um espaço, a sensação de materialidade e textura, vidros e reflexos, etc., são interações físicas que não podem ser percebidas em uma foto. A fotografia é um meio muito importante para explicar a arquitetura, mas nunca devemos julgar a arquitetura com base apenas em uma fotografia."

Manuel Sá

Museu Paula Rego / Eduardo Souto de Moura. Cascais, Portugal. Image © Manuel Sá
Museu Paula Rego / Eduardo Souto de Moura. Cascais, Portugal. Image © Manuel Sá

"A fotografia de arquitetura, do final do século XIX até hoje, permanece essencial ao apresentar novidades para o mundo. Projetos que provavelmente nunca seriam conhecidos podem entrar num circuito de êxito arquitetônico mundial. O próprio Peter Eisenman brinca que, caso Corbusier não tivesse publicado seus livros no início do século XX, provavelmente nunca saberíamos da existência dessas obras icônicas espalhadas no interior da França. Enquanto técnica de representação, os limites da fotografia de arquitetura vivem em constante tensionamento.

MAC USP / Oscar Niemeyer. São Paulo, Brasil. Image © Manuel Sá
MAC USP / Oscar Niemeyer. São Paulo, Brasil. Image © Manuel Sá

Em especial, a transição da fotografia química para a digital, que ainda está sendo digerida enquanto possibilidade, aproxima a fotografia da pintura, pois, menos preocupada em registrar o momento, acaba muitas vezes se alinhando com a visão original do arquiteto, tanto através da manipulação da imagem quanto através dos recursos de exposição, cores, luzes, sombras e camadas fotográficas. No final do dia, a fotografia de arquitetura ainda é simplesmente fotografia, regida pelo que lentes e câmeras oferecem, mas sem dúvidas a manipulação digital possibilita novas fronteiras na percepção e entendimento do projeto ao passo que as vezes se afasta do instante decisivo e mergulha num mar de informações em camadas."

Lorena Darquea

RSF Ranch / AE Arquitectos. . Image © Lorena Darquea
RSF Ranch / AE Arquitectos. . Image © Lorena Darquea

"Uma das virtudes da fotografia arquitetônica é que ela funciona como um condutor para diferentes espaços e experiências arquitetônicas, o que permite que você conheça o comportamento do usuário com o projeto e seu contexto. É um meio que conecta projetos de um lugar do mundo para outro, permite vivê-lo, estudá-lo e compreendê-lo completamente. A estreita relação que este meio de representação tem com a luz é tão delicada e complexa que os resultados são magníficos, quando feitos corretamente.

Taleny School / Aro Estudio. Guadalajara, México. Image © Lorena Darquea
Taleny School / Aro Estudio. Guadalajara, México. Image © Lorena Darquea

Ironicamente, um dos limites é a própria tecnologia. É fácil e rápido tirar fotos, muitas fotos, por isso mesmo, é muito fácil abrir mão de parar e viver o espaço para fotografar - algo que não era possível antes porque você tinha poucas fotos."

Laurian Ghinitoiu

MahaNakhon Tower / Büro Ole Scheeren. Bangkok, Tailândia. Image © Laurian Ghinitoiu
MahaNakhon Tower / Büro Ole Scheeren. Bangkok, Tailândia. Image © Laurian Ghinitoiu

Photography has the power to capture a very specific state of architecture. Besides focusing on the architecture itself, it’s atmosphere, light, scale, and materiality, I’m trying trough my documentation to put architecture in time and context. Architects design spaces as a choreography, where the light movement is mostly predicted and people’s behavior it’s either part of the design or changed and directed in a specific way - and you can easily see from the pre-visualisation/renders. I’m very attracted by the unexpected, I always search for unique and random situations, a spontaneous synchronization of “decisive moments”, the daily life around designed architecture within the built environment. In my opinion, capturing the context with its informality is as valuable as the architecture itself, and photography is one of the tools to achieve that. 

Museo Internacional del Barroco / Toyo Ito & Associates. Puebla, México . Image © Laurian Ghinitoiu
Museo Internacional del Barroco / Toyo Ito & Associates. Puebla, México . Image © Laurian Ghinitoiu

Although we’re able to capture movement or time through our work, photography has its limitation. I often feel that photography is too rigid to represent space which pushed me to experiment with video. Together with Arata Mori (filmmaker & visual artist), we founded anothertwo (another:) as an approach to expand the field of view, which had never been perceived.

FangFang Tian

Jishou Art Museum / Atelier FCJZ. Image © FangFang Tian
Jishou Art Museum / Atelier FCJZ. Image © FangFang Tian

"Penso que a fotografia de arquitetura discutida aqui é uma fotografia relativamente limitada, que é justamente o tipo de fotografia de arquitetura a serviço dos arquitetos. Baseada no próprio projeto arquitetônico, é uma expressão objetiva e também uma recriação. As virtudes são óbvias, especialmente nesta era da informação: a fotografia, afinal, é um importante meio de comunicação. Após a construção do edifício, a fotografia permite refinar o foco do arquiteto e transformar suas ideias em uma linguagem imagética fácil de ler, ampla e rapidamente publicada em websites e várias mídias sociais.

Taizhou Art Museum / Atelier Deshaus. Image © FangFang Tian
Taizhou Art Museum / Atelier Deshaus. Image © FangFang Tian

O limite da fotografia de arquitetura está na desilusão da própria fotografia. Durante a sessão de fotos, diferentes composições e escolas de lentes podem trazer diferentes experiências espaciais. No estágio posterior, durante a etapa de edição das imagens, é possível encobrir muitas falhas, então é difícil confiar nas fotos. Conhecer um edifício é muito questionável. Em segundo lugar, a limitação da fotografia é que ela não pode substituir completamente a sensação do espaço, o toque do material, a intensidade da luz, a mudança do som, os sentidos...

Muitos jurados de prêmios insistem em visitar o projeto. Isso é importante. Como fotógrafos de arquiteturas, devemos explorar ativamente as fronteiras da fotografia, potencializar forças e evitar fraquezas, e usar este meio especial para servir à indústria e promover ativamente a disseminação e a troca da cultura arquitetônica."

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Cite: Baratto, Romullo. "As virtudes e limites da fotografia na representação da arquitetura - cinco fotógrafos discutem " [As virtudes e limites da fotografia na representação da arquitetura - cinco fotógrafos discutem ] 28 Feb 2019. ArchDaily. (Trans. Allen, Katherine) Accessed . <https://www.archdaily.com/912242/the-virtues-and-limits-of-photography-in-the-representation-of-architecture-five-photographers-share-their-perspectives> ISSN 0719-8884
Viviendas San Ignacio / IX2 Arquitectura. Jalisco, México. Image © Lorena Darquea

五位来自不同国家的建筑摄影师探讨“影像中的开放性和局限性”

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