Apesar de seu acervo deslumbrante de obras-primas, a National Gallery de Londres tem sido assombrada por uma série de intervenções arquitetônicas equivocadas ao longo de seus dois séculos de existência. Apenas uma vez sua liderança tomou uma decisão de fato inspirada e visionária: em meados da década de 1980, a galeria realizou um concurso, vencido pelo escritório Venturi, Rauch and Scott Brown (VRSB), da Filadélfia, para projetar um edifício voltado a coleções especiais.
O anexo foi construído de 1988 a 1991, viabilizado por fundos doados pela família Sainsbury como um presente para a nação, e foi imediatamente aclamado como um dos edifícios mais refinados de seu gênero erguidos no século XX. Desde então, permaneceu querido pelos londrinos e cumpriu exemplarmente o papel de expansão do pouco expressivo edifício clássico de William Wilkins. Especialistas na obra de Robert Venturi, John Rauch e Denise Scott Brown consideram-no uma de suas obras-primas. Pelo visto, a National Gallery tem uma opinião diferente.
https://www.archdaily.com.br/pt/1134651/em-londres-uma-obra-prima-de-venturi-e-scott-brown-esta-ameacadaMark Alan Hewitt
Recentemente visitei Pittsburgh para uma fascinante conferência de desenho à mão na soberba escola de arquitetura da Carnegie Mellon, que, até onde sei, não está entre as dez melhores no ranking da U.S. News and World Report. Por que será? O currículo é de vanguarda, o corpo docente é mundialmente renomado e os estudantes são talentosos e bem preparados. Há mais pessoas não brancas na comunidade de projeto da CMU do que em Princeton, SCI-Arc ou Harvard.
Christopher Alexander (1936–2022) e Joseph Rykwert (n. 1926) foram dois gigantes da teoria da arquitetura do século XX que iniciaram seus trabalhos na Inglaterra e, eventualmente, deixaram legados duradouros em duas grandes escolas de arquitetura estadunidenses: a Universidade da Califórnia em Berkeley (Alexander) e a Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia (Rykwert). Suas trajetórias não apenas coincidiram com um período crítico de pesquisa social e cultural entre designers e urbanistas, mas, de diversas formas, continuam a inspirar a atual geração de críticos/as engajados/as contra o desenvolvimento capitalista tardio em nosso planeta ameaçado. No entanto, para muitas pessoas, eles ainda são pouco conhecidos.
Nesta reedição, o autor Mark Alan Hewitt discute as maquetes e sua relevância. "Para quem teve a sorte de crescer nas décadas de 1950 e 1960, as maquetes eram a grande sensação — e não apenas as do tipo que essa expressão costuma sugerir", afirma ele. Recuperando a trajetória das maquetes realistas dos anos 1970, semelhantes às renderizações virtuais atuais, este ensaio reconstitui a sua história e a dos artistas que as produziram.
https://www.archdaily.com.br/pt/1130703/o-fascinio-e-a-importancia-das-maquetesMark Alan Hewitt
Pouco depois da virada do milênio, Vanity Fair, uma revista que se propõe a acompanhar todo tipo de marco cultural, pediu a um grupo selecionado de 52 "especialistas" que escolhesse os cinco melhores edifícios desde 1980. As escolhas foram bizarras; quase todas as obras eram de autoria dos próprios arquitetos e arquitetas selecionados, que constituíam a grande maioria dos consultados. Poucas indicações receberam mais de cinco votos.
https://www.archdaily.com.br/pt/1130558/onde-estao-as-obras-primas-da-arquiteturaMark Alan Hewitt
A escolha do autor para o melhor terminal de aeroporto internacional: o magnífico Aeroporto Dulles de Eero Saarinen. 1962 . Imagem cortesia de Wikimedia Commons
Recentemente, decidi que não me deixaria arrastar pelos debates vazios sobre como o ChatGPT roubaria o emprego de todo/a arquiteto/a experiente no mundo antes de 2030, mas um artigo inteligente publicado neste site por Geethanjali Raman e Mohik Acharya me fez mudar de ideia. O que não está sendo enfatizado é que os algoritmos que analisam informações na internet são tão bons quanto a qualidade dessas próprias informações. A história da arquitetura sugere que toda novidade tem prazo de validade, desaparecendo rapidamente de vista após o esgotamento do frisson inicial. Apenas o que há de melhor resiste após um longo período de avaliação e crítica. Qualquer nova arquitetura amplamente elogiada e difundida desde o surgimento da internet provavelmente ainda não foi testada pelo tempo e, portanto, não serve como parâmetro de referência. E sejamos francos: alguns dos piores edifícios já projetados por seres humanos estão espalhados pelo ciberespaço, soterrando obras muito melhores que ainda não foram digitalizadas.
https://www.archdaily.com.br/pt/1138619/arquitetos-e-arquitetas-devem-resistir-a-revolucao-da-iaMark Alan Hewitt
Este ano marca o centenário da primeira edição de Vers Une Architecture, o livro que marcou época de Le Corbusier. Embora uma nova tradução para o inglês tenha surgido em 2007 sob calorosos elogios, a maioria dos(as) arquitetos(as) em atividade leu a primeira edição em inglês, publicada em 1928 sob o título Towards a New Architecture. Comparar as três edições é instrutivo, em especial por um aspecto crucial: a inserção da palavra "novo" no título. O livro não tratava propriamente de uma nova arquitetura, uma vez que muito pouco de seu conteúdo exibia edifícios no Estilo Internacional. Em vez disso, era sob muitos aspectos uma diatribe astuta destinada a convencer os europeus de que não tinham outra escolha senão renunciar a qualquer tipo de arquitetura construída antes da Grande Guerra e recomeçar do zero. A obra foi extraordinariamente bem-sucedida em alcançar esse objetivo.
https://www.archdaily.com.br/pt/1138317/afastando-se-da-antiga-arquitetura-o-que-le-corbusier-realmente-quis-dizerMark Alan Hewitt
Os templos chineses resistem há séculos, açoitados por ventos e terremotos, sem uma rachadura ou peça de madeira fora do lugar. Eles utilizam uma técnica milenar conhecida como "construção por encaixe de suportes" (ou *dougong*), que dispensa pregos ou peças metálicas para conectar os elementos estruturais de madeira. As igrejas de aduelas escandinavas (*stave churches*) são quase tão duráveis. Sem surpresa, há abundância de árvores tanto na Suécia quanto em toda a China.
Afinal, a que se deve todo esse entusiasmo em torno da inovação na construção com "mass timber" (madeira engenheirada) nos últimos anos? Como argumenta Boyce Thompson em seu instigante novo livro, Innovations in Mass Timber: Sequestering Carbon with Style in Commercial Buildings (Schiffer Publishing), esta promete ser a próxima grande tendência da tecnologia "verde" para profissionais da arquitetura que se sentem culpados por suas caras fachadas de titânio e pegadas de carbono desmedidas. As fotos coloridas mostram edifícios impressionantes em regiões onde a indústria madeireira sempre foi forte, como o Noroeste Pacífico dos EUA e a Escandinávia. Já os japoneses constroem cabanas de toras com material importado que bem poderia valer ouro.
A Califórnia, assim como a maioria dos Estados norte-americanos, passa por uma crise habitacional. Mas, diferente do resto país, está de fato trabalhando para aprimorar a situação, com iniciativas públicas e privadas que, para os críticos, não podem deixar de ser consideradas inadequadas. A região da Baía de San Francisco tornou as unidades de moradia acessórias legais alterando leis de zoneamento, mas isso quase não rendeu um impacto. Algumas cidades estão agora impulsionando. Algumas cidades agora pressionam por zoneamentos adicionais, para oferecer às incorporadoras mais espaço para construir novas edificações para o mercado a preços mais baixos de locação. Há todo tipo de estudo, financiado por universidades ou conduzidos pelo setor, que recomendam soluções mais ou menos radicais para um problema para o qual aparentemente não há solução. Os ambientalistas são naturalmente retratados como vilões, já que não admitem novos empreendimentos. E os californianos são duros com suas autoridades eleitas, como o atual governador descobriu no ano passado.
https://www.archdaily.com.br/pt/976062/novas-construcoes-nem-sempre-sao-a-respostaMark Alan Hewitt
Quantos/as docentes de arquitetura nos Estados Unidos sabem que existe um tratado chinês equivalente aos Dez Livros de Arquitetura de Vitrúvio? Pouquíssimos, suspeito. Lecionei história da arquitetura por mais de 20 anos antes de descobrir o maravilhoso Yingsao Fashi, um livro da Dinastia Song escrito por um proeminente funcionário da corte que, até onde sabemos, não era arquiteto/a nem construtor/a. De fato, antes da Dinastia Ming, nenhum templo, palácio ou santuário de destaque na China era projetado por um/a arquiteto/a, pois o conceito de uma mente mestra única encarregada de um projeto de construção era alheio à maneira do Leste Asiático de conceber ambientes de qualquer tipo.
https://www.archdaily.com.br/pt/1126085/por-que-nao-ensinamos-arquitetura-chinesa-nos-estados-unidosMark Alan Hewitt
Monumentos, segundo Alois Riegl, são subsídios à memória. “In memoriam” são palavras que podemos encontrar em cada pedestal ou alicerce de um túmulo ou mausoléu em homenagem aos nossos heróis do passado. Embora seu caráter simbólico seja um refúgio de ideologias, preconceitos e — em muitos casos— intolerância, monumentos têm sido construídos pela humanidade à milênios e também podem ser considerados uma forma de arte e lugares de memória. Entretanto, não são raros os casos de monumentos associados à práticas ou eventos antiéticos, à descriminação, hostilidade e violência. Muitos dos templos da Grécia Antiga foram erguidos sobre altares utilizados para sacrificar animais — e, antes disso, seres humanos também —; as pirâmides foram levantadas pela força do trabalho escravo; praças públicas muitas vezes eram utilizadas como lugares de tortura e sentenças de morte. Isso significa que, na maioria dos casos, monumentos não são apenas simples estruturas inocentes construídas em memória de grandes personagens, mas a personificação de conflitos políticos, culturais, sociais e humanos.
https://www.archdaily.com.br/pt/944267/status-estatuas-e-estatutos-erguendo-monumentos-a-homens-falhosMark Alan Hewitt
Este artigo é um trecho extraído do capítulo final do livro Draw in Order to See: A Cognitive History of Architectural Design, no qual Mark Alan Hewitt esboça algumas recomendações para uma reforma integral da prática e do ensino da arquitetura. Ele parte da teoria da cognição corporificada — a ciência que estuda a importância dos nossos sentidos no processo de cognição humana, e como através deles, percebemos e nos relacionamos com o espaço — para ressaltar a urgente necessidade de renunciarmos ao legado alienante do racionalismo iluminista que se estende desde a revolução industrial até os dias de hoje e que, tanto nos afasta de uma arquitetura menos visual e consequentemente, mais sensível. Embora a importância da cognição estendida para a nossa compreensão do espaço e portanto, para o desenvolvimento da prática e do ensino da arquitetura já esteja sendo explorada há décadas por muitos arquitetos e algumas poucas instituições de ensino ao redor do mundo, tais conceitos permanecem ocultos em um território inexplorado pela grande maioria de nossos colegas arquitetos.
https://www.archdaily.com.br/pt/942060/12-conselhos-para-reinventar-o-ensino-da-arquiteturaMark Alan Hewitt
Profissionais de arquitetura em atividade têm sua prática profissional regida pelas regulamentações de zoneamento. Iniciamos projetos rotineiros lendo as leis locais e ligando para órgãos municipais para garantir aos clientes que seus objetivos serão viáveis sob as diretrizes vigentes de uso do solo. Com sorte, o projeto será construído sem a necessidade de compensações urbanísticas complexas ou audiências diante de conselhos de zoneamento impassíveis. Contudo, cada vez mais, o que parecia simples e responsável há 15 anos é hoje considerado controverso o suficiente para exigir uma audiência pública e, talvez, a contratação de serviços jurídicos de alto custo. Frequentemente, a questão em jogo é a proteção dos "direitos" de proprietários de imóveis vizinhos, que veem o valor de seu patrimônio ameaçado por qualquer novo empreendimento.
https://www.archdaily.com.br/pt/1071477/e-hora-de-por-fim-ao-reinado-do-zoneamento-unifamiliarMark Alan Hewitt
Certificados e prêmios de sustentabilidade são outorgados todos os dias à novos edifícios que prometem um futuro livre de carbono e impacto zero. Entretanto, a maioria dos esforços que empreendemos para construir edifícios cada vez mais "sustentáveis", acaba no dia de suas inaugurações. O custo energético global da arquitetura tem muito mais a ver com a vida útil de um edifício do que com a sua construção. Embora pareça não haver saída para este atual modelo de sucesso, cabe a nós arquitetos, repensar o significado de arquitetura sustentável nos dias de hoje. Talvez devemos parar de aplaudir e exaltar cegamente os novos edifícios e voltar a nossa atenção para os edifícios que já existem. Este artigo foi originalmente publicado no <em
Durante a primeira conferencia mundial do meio ambiente, realizada na cidade do Rio de Janeiro e chamada de Eco-1992, três alarmantes fatos vieram à tona: a temperatura da Terra está aumentando continuamente; a utilização de combustíveis fósseis é a principal causa deste fenômeno; precisamos, com urgência, adaptar o nosso ambiente construído considerando esta nova realidade. Naquele ano, publiquei um ensaio no Journal of Architectural Education intitulado “Architecture for a Contingent Environment”, sugerindo que arquitetos, naturalistas e preservacionistas deveriam se unir para discutir e enfrentar essa nova realidade.
https://www.archdaily.com.br/pt/910021/por-que-o-reuso-de-edificios-existentes-pode-e-deve-ser-o-principal-foco-dos-arquitetosMark Alan Hewitt
Lecionei história da arquitetura em duas escolas de arquitetura durante as décadas de 1980 e 1990. Naquela época, era comum que os/as estudantes tivessem uma disciplina completa de três semestres que começava na Antiguidade e terminava no modernismo, com uma breve menção à arquitetura do final do século XX. Meu livro-texto para a parte intermediária era a magistral obra de Spiro Kostof, History of Architecture: Settings and Rituals. Com tantos séculos para cobrir, ele dedicou muito pouco esforço ao século XX. No último terço do curso, os/as estudantes liam textos como Por uma arquitetura, de Le Corbusier, e Teoria e Projeto na Primeira Era da Máquina, de Reyner Banham . Meus/minhas colegas e eu sentíamos que oferecíamos aos/às estudantes um panorama plural e abrangente dos principais desdobramentos na história do ambiente construído.
Robert Venturi (1925-2018) foi um dos mais influentes arquitetos americanos do século passado, não apenas por sua obra construída, nem tampouco por seu trabalho como designer. Neste sentido, ele jamais alcançará o patamar de Wright, Kahn, ou até mesmo Gehry. Entre 1965 e 1985, ele e sua parceira, Denise Scott Brown, provocaram o nascimento de uma nova perspectiva no mundo da arquitetura, transformando a maneira com que percebemos nossas cidades e paisagens, assim como Marshall McLuhan, Bob Dylan e Andy Warhol foram responsáveis por profundas transformações no mundo da arte, da música e da cultura durante o mesmo período.
Trabalhei com Bob Venturi durante a minha formação como arquiteto durante os anos 70; Cresci lendo seus livros e visitando as suas obras. Para mim Bob foi como um pai. Meu pai era apenas um ano mais novo que ele, e Denise tem a mesma idade da minha mãe.
https://www.archdaily.com.br/pt/903399/robert-venturi-e-as-complexidades-e-contradicoes-que-transformaram-o-mundo-da-arquiteturaMark Alan Hewitt
No final de janeiro, participei de um comovente funeral na Capela de Battell, em Yale, para Vincent Scully, o homem que me mostrou a arquitetura como uma carreira, e que continua a me inspirar como escritor e historiador. Lá, aproveitei a oportunidade para fazer uma visita a Benjamin Franklin e Pauli Murray Colleges, as primeiras novas residências na universidade de Yale em meio século. Fui embora maravilhado com a qualidade da arquitetura e agradecendo minha alma mater pela visão e compromisso em melhorar a cidade e o campus.
https://www.archdaily.com.br/pt/902802/esqueca-os-criticos-a-arquitetura-tradicional-ainda-pode-criar-espacos-contemporaneosMark Alan Hewitt