Quando mais material não significa melhor desempenho

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Na história dos Três Porquinhos, a escolha do material determina o destino de cada casa. O sopro do lobo derruba as estruturas feitas de palha e madeira, enquanto a casa de tijolos permanece de pé. A moral é que, quanto mais sólida a construção, maior sua capacidade de resistência. Um edifício, no entanto, precisa responder a questões muito menos simples. Permanecer de pé continua sendo essencial, mas calor, luz, ar e som não são forças que necessariamente precisam ser bloqueadas. Às vezes, a luz solar deve ser evitada; em outras, a luz natural precisa entrar. Reter o calor pode ser desejável no inverno e contraproducente no verão. O ar precisa circular, o som pode precisar ser absorvido, e as condições que determinam essas respostas mudam ao longo do dia, das estações e da própria vida útil da edificação. Mais material não significa necessariamente um melhor desempenho. Em alguns casos, pode simplesmente adicionar complexidade sem melhorar a forma como o edifício responde.

Essa relação entre massa e desempenho esteve no centro do recente lançamento do 7º MATERIAL pela Serge Ferrari Architecture, uma categoria atualmente centrada em membranas técnicas. A categoria é estruturada a partir do que os materiais conseguem realizar: filtrar a luz, modular o ganho solar, direcionar o fluxo de ar, tratar o som ou combinar várias dessas funções em uma única superfície. As membranas não substituem o concreto, o metal, a pedra ou o vidro; elas os complementam ao desempenhar funções diferentes.

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Estação Chaka Salt Lake. Imagem Cortesia de Serge Ferrari
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Estação Ferroviária de Chongqing East. Imagem Cortesia de Serge Ferrari

Para Nic Goldsmith, diretor fundador do Lightweight Structures Group na TYLin e autor de Mass to Membrane, essa discussão faz parte de uma trajetória arquitetônica muito mais longa. Durante o lançamento, ele descreveu a história da arquitetura como "uma longa tentativa de fazer mais com menos", traçando uma transição de estruturas massivas para formas cada vez mais leves de delimitar o espaço. Ao longo dessa trajetória, novos sistemas de materiais expandiram o que arquitetos e arquitetas podem exigir de uma envoltória — um processo que, em sua visão, ainda está em andamento. Como ele define: "Podemos não saber a forma exata que as membranas futuras assumirão. Mas a direção está clara."

A estabilidade estrutural é apenas uma das medidas de desempenho de um edifício. Calor, luz, ar e som impõem diferentes demandas a um espaço, e o objetivo nem sempre é bloqueá-los, mas controlar como se movem pela edificação. Uma cobertura, por exemplo, pode ser avaliada pela sombra que proporciona, pela luz natural que deixa passar, pelo ar que circula sob ela e pelos recursos necessários para desempenhar essas funções ao longo do tempo. Sua espessura ou peso descrevem apenas parte da solução. Suas propriedades, geometria e relação com os demais elementos do edifício também são determinantes.

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Sede do BBVA - Madri. Imagem Cortesia de Serge Ferrari
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Estádio Wuwei. Imagem Cortesia de Serge Ferrari

No complexo The Camp, em Aix-en-Provence, essa lógica é visível na própria organização do conjunto. Projetado por Corinne Vezzoni & Associés, o campus de 11.000 metros quadrados é coberto por cerca de 7.000 metros quadrados de membrana, sob a qual algumas áreas de circulação permanecem abertas ao ar livre. A superfície filtra a luz natural, enquanto sua curvatura dupla contribui para a estabilidade da cobertura, a circulação de ar e a captação de água pluvial. Sob as condições específicas do projeto e a aprovação de segurança contra incêndio, essa configuração também elimina a necessidade de ventilação mecânica e extração de fumaça dentro desse volume. Suas propriedades e geometria atuam em conjunto para proporcionar sombreamento, luz natural, fluxo de ar, estabilidade estrutural e captação de água da chuva. 

O material ajuda a definir a forma

Outro exemplo pode ser encontrado no Estádio Hazza Bin Zayed, em Al Ain, onde o escritório BDP Pattern partiu das condições de um clima quente e seco para desenvolver a envoltória. Nesse caso, a trajetória do sol, e não a proteção contra a chuva, moldou sua geometria: um balanço de 40 metros no lado oeste sombreia o campo e as arquibancadas às 16h em dias de jogos, enquanto a fachada porosa estimula a circulação do ar através da envoltória. Antes de definir a solução final, a equipe construiu um protótipo em escala real no local utilizando três geometrias e, ao longo do desenvolvimento, reduziu o número de tipos de painéis de 320 para 86, viabilizando a produção por um fabricante local a um custo aceitável. Clima, comportamento dos materiais, geometria e fabricação contribuíram, conjuntamente, para definir a forma.

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Estação Ferroviária de Chongqing East. Imagem Cortesia de Serge Ferrari

O arquiteto e designer computacional Nick Tyrer descreve essa relação de forma mais direta: "Não especifique o material para se adequar a uma forma que você já decidiu. Deixe que o material e a geometria encontrem a forma juntos, em resposta às condições reais daquele local". Seja em projetos que respondem a ventos contrários, ao sol do deserto ou a uma linha costeira, Tyrer sempre retorna ao mesmo ponto: "Você não o especifica. Você projeta com ele".

Em Al Ain, a exposição solar, a ventilação, a geometria, o material e a fabricação foram, portanto, tratados como partes do mesmo problema, alterando o momento em que os materiais entram nas discussões de projeto. Uma ficha técnica pode descrever o desempenho de um produto sob condições específicas de teste, mas a equipe de projeto ainda precisa compreender como essas propriedades se comportam em uma configuração particular enquanto a geometria ainda pode ser ajustada.

O que entra na comparação

A Serge Ferrari utiliza a ideia de densidade de desempenho para descrever uma comparação que parte de funções equivalentes, em vez de quantidades equivalentes de material. Sombreamento, iluminação natural, tratamento acústico, requisitos estruturais, emissões de carbono e os sistemas adicionais necessários ao longo do tempo podem fazer parte da equação. A comparação também considera o que uma solução torna desnecessário, desde camadas adicionais até estruturas mais pesadas ou maior capacidade mecânica. Ainda não existe uma métrica padronizada única que combine todas essas variáveis. 

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Ginásio de Esportes de Nîmes. Imagem Cortesia de Serge Ferrari

Uma simulação para um escritório em Lyon ajuda a ilustrar a complexidade desse cálculo. Com vidros do Tipo D e sombreamento solar externo automatizado, a demanda de resfriamento caiu de 60,2 para 29,8 kWh/m²/ano, enquanto a demanda de aquecimento subiu de 11,4 para 13,4 kWh/m²/ano devido à redução dos ganhos solares no inverno. No balanço geral, a demanda combinada de aquecimento e resfriamento diminuiu 39,59%. O resultado aplica-se a essa configuração específica, reforçando a necessidade de interpretar os dados de desempenho em conjunto com as condições que os geraram.

Desempenho ao longo do tempo

Comparar apenas a quantidade de material instalado no "dia um" também deixa de fora considerações sobre manutenção, substituição e fim de vida útil. Na metodologia em desenvolvimento para o 7º MATERIAL, a avaliação contabiliza os materiais e o carbono mobilizados ao longo de todo o período analisado, incluindo substituições, bem como as camadas e sistemas adicionais que cada solução exige para oferecer funções equivalentes. O cálculo, portanto, vai além do material em si, abrangendo tudo o que é necessário para instalar, operar, manter e, eventualmente, substituí-lo. 

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Centro de Arte Wanning Coffee Town. Imagem Cortesia de Serge Ferrari

Para quem especifica materiais ou sistemas, isso significa analisar propriedades como peso, transmissão de luz e resistência dentro de um contexto. A relevância desses fatores depende de suportes, camadas adjacentes, clima, condições de uso e manutenção ao longo do tempo. O desempenho, em última análise, é moldado pela forma como o material interage com o restante do sistema arquitetônico.

A consequência prática é que as decisões sobre os materiais precisam ocorrer mais cedo no processo de projeto, enquanto a forma, a geometria e as relações de sistema ainda podem ser ajustadas. A solidez torna-se apenas uma parte da equação. Uma solução também precisa ser compreendida em termos das funções que consegue integrar, do que exige do edifício e do que pode tornar desnecessário. Resistir ao sopro do lobo continua sendo uma medida perfeitamente eficaz para um conto de fadas, mas, na arquitetura, o desempenho envolve um conjunto muito mais amplo de variáveis.

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Sobre este autor
Cita: Souza, Eduardo. "Quando mais material não significa melhor desempenho" [When More Material Does Not Mean Better Performance] 08 Out 2026. ArchDaily em Português. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1186516/quando-mais-material-nao-significa-melhor-desempenho> ISSN 0719-8906

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