Juiz da Suprema Corte Stephen Breyer: "Para entender um edifício, vá até lá, abra os olhos e olhe!"

Há seis anos, Susan Szenasy e eu tivemos a honra de entrevistar o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, Stephen Breyer, para a revista Metropolis . Durante sua atuação como juiz federal de apelações em Boston, Breyer desempenhou um papel fundamental na condução do projeto e da construção do John Joseph Moakley United States Courthouse, projetado pelo escritório Pei Cobb Freed & Partners. Em 2011, o juiz Breyer passou a integrar o júri do Prêmio Pritzker. Diante de seu longo envolvimento com a arquitetura, achei que seria interessante conversar com ele novamente. Assim, no último dia de sessão do tribunal antes do recesso de verão, conversei com o juiz Breyer sobre sua experiência como cliente de projeto, como criar bons edifícios governamentais e por que a arquitetura pública é importante.

Martin C Pedersen: Não podemos falar sobre sua participação atual no júri do Pritzker, mas gostaria de conversar sobre arquitetura em termos mais gerais. Seu envolvimento é antigo. Quando ele começou?

Stephen Breyer: Tudo começou no início dos anos 1990. Doug Woodlock era o juiz do tribunal distrital federal de Massachusetts (em Boston) e eu era o juiz-presidente do Tribunal de Apelações do Primeiro Circuito. Nós precisávamos de um novo tribunal. Queríamos um edifício atraente, mas que também fosse funcional. Era importante que bons/boas arquitetos/as se candidatassem, por isso Bill Lacey [então diretor executivo do Prêmio Pritzker] nos ajudou com isso. No fim das contas, encontramos um excelente arquiteto, Henry Cobb [junto a Ian Bader].

Contudo, levou bastante tempo. Quem já trabalhou com a GSA (General Services Administration) sabe que não é necessariamente um processo fluido e sem percalços. Levou cerca de dois anos de dedicação minha e de Doug, um dia por semana — não para construir o edifício, mas para entender o que queríamos, viajar para conhecer obras de Cesar Pelli , Moshe Safdie , Robert Venturi e de outros/as excelentes arquitetos/as, e para aprovar e desenhar os projetos.

Harry nos ensinou muito. Ele passava o tempo sentado nas salas de audiência, observando o trabalho dos juízes e juízas, e buscou criar um edifício que o público pudesse utilizar e sentir como seu. Não era um prédio privado; era um prédio governamental. Para mim, apenas observar, ouvir e tentar mediar a relação entre os/as arquitetos/as, a GSA, os juízes, as juízas e os demais envolvidos foi um grande aprendizado. Não me considero um especialista em arquitetura, mas talvez seja um especialista nas decisões necessárias para projetar um tribunal eficiente.

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Tribunal dos Estados Unidos, Salt Lake City / Thomas Phifer and Partners. Imagem © Scott Frances

Saí dessa experiência convencido de que, em grandes obras públicas governamentais, sempre precisa haver alguém interessado — que não seja o/a arquiteto/a, nem o/a diretor/a de segurança. Deve ser alguém de cargo elevado na organização que está planejando a obra, disposto/a a dedicar seu tempo. Não para dar total liberdade, mas para acompanhar de perto e buscar aproximar as pessoas, permitindo que o/a arquiteto/a possa de fato contribuir com sua competência técnica. Isso continua sendo fundamental para que tenhamos bons edifícios públicos.

MCP: O senhor volta ao tribunal Moakley todos os anos.

SB: Mais do que isso, porque minha esposa manteve seu trabalho no Dana Farber, o hospital de oncologia em Boston, e nós conservamos nossa casa lá. Viajamos de um lado para o outro com bastante frequência.

MCP: Como o edifício tem resistido ao tempo?

SB: De maneira excelente. Ele continua bonito e funciona muito bem como tribunal. As salas de audiência são atraentes, e o público visita e realiza eventos lá. A associação local de advogados/as patrocina visitas guiadas para milhares de estudantes todos os anos para que observem como funciona nosso sistema jurídico. Jurados/as vêm, aprendem sobre seu papel e, se selecionados/as, prestam o serviço de júri. O tribunal funciona tanto como um instrumento pedagógico quanto como um espaço que a população de Boston sente que pode usufruir. Ellsworth Kelly produziu uma série de pinturas para o edifício que valem muito mais do que o valor que ele recebeu. E essas obras funcionam perfeitamente no espaço. É um testemunho do que duas pessoas talentosas, Ellsworth Kelly e Harry [Henry] Cobb, conseguem realizar quando se dedicam e recebem permissão para trabalhar. Isso não significa ausência de intervenção ou dizer "faça o que quiser". Significa trabalhar em conjunto, auxiliando no processo. No fim das contas, a única maneira de compreender um edifício não é descrevê-lo, nem mesmo fotografá-lo, mas sim ir até lá, abrir os olhos e olhar.

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Palais de Justice, Bordeaux / Ivan Harbour, RSH+P. Imagem cortesia de Wikimedia

MCP: O processo de circular por um edifício e vivenciá-lo é o que diferencia construções banais, ou mesmo boas, daquelas verdadeiramente extraordinárias.

SB: Sim, concordo com você. Acredito que o edifício em Boston tenha sido um sucesso. E o que vemos hoje é uma nova geração de tribunais, no mundo todo, que não se parecem com fortalezas ou palácios. São edifícios verdadeiramente públicos. Há um projeto de Richard Rogers em Bordeaux. Há outro em Tel Aviv e mais um em Joanesburgo, na África do Sul. De certa forma, todos se assemelham no fato de serem imediatamente percebidos e vivenciados como edifícios públicos. São belos, sóbrios e fazem parte do processo democrático. Os/as arquitetos/as conseguem fazer isso? Sim, eles/as já provaram que sim.

MCP: O senhor chegou a ver algumas das novas embaixadas concluídas recentemente?

SB: Conheço a de Santiago, no Chile, que não é nova. Mas tenho um grande receio em relação a ela, pois se parece com o Fort Knox. E se você constrói um edifício com essa aparência, é exatamente assim que as pessoas o enxergarão. E será essa também a imagem que terão de seu governo.

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Embaixada dos EUA em Santiago. Imagem cortesia de Wikimedia

MCP: Como alguém envolvido, ao menos de forma periférica, com a arquitetura, tenho uma pergunta que costumo fazer a muitos/as arquitetos/as. A arquitetura é uma forma de arte onipresente — está ao nosso redor e, no entanto, a percepção que o público tem dela costuma ser fraca. A que o senhor atribui esse distanciamento?

SB: Em parte, veja bem, nós respiramos todos os dias, não é? Mas só compreendemos a necessidade de ar limpo quando ele nos falta. As pessoas estão cercadas por cores, luzes e ruídos. Essa mistura de cores, luzes e ruídos pode ser uma cacofonia, como o barulho de latas de lixo batendo, ou pode ser Louis Armstrong ou Duke Ellington. Os edifícios fazem parte dessa dinâmica humana. Eles podem trazer alegria e harmonia para a vida de quem os frequenta. E essas mesmas pessoas talvez não consigam se expressar nos termos técnicos que um/a grande crítico/a de arquitetura apreciaria, mas saberão quando sentirem falta disso. Elas percebem quando essa qualidade não está presente. Parece-me que é por isso que ela é uma parte essencial de nossas vidas.

MCP: Nos últimos cinco anos, houve uma mudança cultural na arquitetura, distanciando-se da celebração da figura do gênio solitário na arquitetura. Como o senhor vê essa mudança?

SB: Não sei. Mas sei que uma das palestras mais interessantes que ouvi recentemente foi de Alejandro Aravena, o arquiteto chileno. Ele citou uma estatística: até 2050, cerca de cinco bilhões de pessoas estarão morando em cidades. E a quantidade de pessoas que não podem pagar dez mil dólares por uma moradia é enorme. Portanto, teremos bilhões de pessoas a mais precisando de edifícios para trabalhar e morar. Gostemos ou não, essa é uma verdade inegável. Parece inevitável. E, quando isso acontecer, essas construções poderão, teoricamente, promover a harmonia. Elas podem funcionar, ter coerência e proporcionar certa beleza. Esse é o desafio. Como viabilizar isso? Podemos chamar de genialidade ou simplesmente de qualidade. Eu me daria por satisfeito com a qualidade. Mas como chegamos lá? O máximo que pude fazer, como cliente individual, foi ajudar a viabilizar a construção de um edifício. O máximo que posso fazer como integrante do júri do Pritzker é acompanhar de fora e dizer: "Continuem! Isso é importante".

MCP: Vivemos tempos polarizados. A arquitetura tem um papel "político"?

SB: Bem, o papel político é tentar criar espaços físicos onde as necessidades naturais das pessoas por harmonia, beleza e funcionalidade sejam atendidas. Diria que esse é o trabalho. Assim como minha função no direito é resolver disputas jurídicas e, por essa razão, temos um sistema legal. Tudo ao nosso redor — em especial na área de comunicação — parece querer gritar que "tudo é político!". Minha resposta é: "Não é bem assim que me sinto". Sou juiz e tento fazer o meu trabalho. Imagino que os/as arquitetos/as se sintam de maneira semelhante.

MCP: Há uma expressão em voga nos círculos de arquitetura atualmente: design democrático. Sendo alguém que lida principalmente com ideais democráticos e, em menor escala, com design, o que essa expressão significa para o senhor?

SB: Eu preferiria usar uma expressão jurídica que já foi muito popular. É um termo de Oliver Wendell Holmes chamado Jobsmanship [o ofício bem executado]. Traduzindo para o vocabulário da arquitetura, significaria que cada parte do edifício foi bem projetada. As escadas, os corrimãos, as áreas de alimentação, a aparência externa e interna. Não há áreas mortas. A circulação é intuitiva. A sinalização é clara. Qualquer que seja o ponto de vista, há uma perspectiva atraente. Quando estávamos procurando arquitetos/as, fazíamos uma série de perguntas às pessoas que trabalhavam em seus edifícios anteriores e que os frequentavam: O que vocês acham? Gostam do espaço? Ele eleva o espírito de vocês? Sentem-se bem aqui? Como ele continua funcionando dez ou quinze anos após a inauguração? Ele se integra ao bairro? Acrescenta algo à comunidade local? Todas essas são perguntas pertinentes a se fazer aos nossos edifícios.

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La Tourette / Le Corbusier. Imagem © Fernando Schapochnik

MCP: Qual foi o projeto mais inspirador que o senhor viu nos últimos anos?  

SB: Mais inspirador? Fizemos uma viagem e adorei o convento de Le Corbusier perto de Lyon. Essa foi uma das gratas surpresas. Mas posso lhe dizer uma cidade que amei: Barcelona, não apenas pela parte Art Nouveau e pelas obras de Gaudí, mas pelo centro histórico, que foi revitalizado de forma a evitar a gentrificação. Havia todo tipo de bairro e os mais diversos perfis de pessoas. À noite, ao visitar uma biblioteca, com um café ao lado repleto de jovens, era possível olhar pelas janelas da biblioteca e ver crianças, jovens e pessoas idosas lendo livros. Excelente. Elas estavam ali, usufruindo daquele espaço. Um edifício atraente, em um bairro agradável. Quando vi aquilo, lembrei-me daquele antigo e clichê slogan político: "Sim, nós conseguimos".

MCP: É possível.

SB: É possível! Claro.

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Sobre este autor
Cita: Pedersen, Martin . "Juiz da Suprema Corte Stephen Breyer: "Para entender um edifício, vá até lá, abra os olhos e olhe!"" [Supreme Court Justice Stephen Breyer: "To Understand a Building, Go There, Open your Eyes, and Look!" ] 08 Ago 2018. ArchDaily em Português. (Trad. Allen, Katherine) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1117556/juiz-da-suprema-corte-stephen-breyer-para-entender-um-edificio-va-ate-la-abra-os-olhos-e-olhe> ISSN 0719-8906

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