A ascensão acelerada de uma estética homogeneizada e globalizada está forçando criadores e criadoras a confrontar uma realidade crítica: as tendências de design transcendem a geografia sem esforço, mas a identidade local acaba pagando o preço. O quinto episódio do podcast Room For Dreams investiga diretamente se um mercado sem fronteiras está apagando silenciosamente a diversidade do design. Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026, em parceria com a INDX|GLOBAL, a apresentadora Claire Broadka, do designboom, conversa com Sachi Gupta, Shilpi Sonar, Krithika Subrahmanian e Sumit Dhawan para mapear a realidade dos/as profissionais criativos/as sem fronteiras.
O bambu é frequentemente elogiado antes mesmo de ser compreendido. De crescimento rápido, ele carrega uma longa história de culturas construtivas e parece oferecer à arquitetura uma linguagem ecológica imediata. Em fotografias, sua lógica parece quase autoexplicativa: leve, natural, renovável e já alinhado a um futuro mais sustentável. No entanto, essa aparente clareza é justamente o que torna o bambu difícil de discutir com precisão. Uma vez transformado em símbolo de responsabilidade ambiental, o material em si corre o risco de desaparecer por trás da imagem que projeta.
Este é o risco do renascimento contemporâneo do bambu. Ele pode ser facilmente idealizado como um substituto ecológico para materiais industriais, uma atmosfera regional ou uma alternativa mais suave às linguagens rígidas do aço e do concreto. Em cada um desses casos, o bambu é admirado antes que suas condições reais sejam compreendidas. A questão fundamental não é se o bambu é sustentável em um sentido genérico, mas sim que tipo de cultura arquitetônica ele exige: quais formas de conhecimento, manutenção, regulamentação, mão de obra e tempo são necessárias para que sua sustentabilidade se concretize.
Arquitetura e água pertencem a naturezas opostas. Enquanto uma delimita e contém, a outra insiste em se espalhar, e é dessa tensão entre o sólido e o líquido que surgem os centros aquáticos. Nesses edifícios, a presença da água transforma tudo ao seu redor. A luz se fragmenta em reflexos instáveis, os sons adquirem uma reverberação particular, a temperatura e a umidade passam a definir a atmosfera dos espaços, enquanto materiais e sistemas construtivos são permanentemente postos à prova. Mas sua singularidade não é apenas técnica.
Uma rebelião experiencial ganha destaque no quarto episódio do podcast Room For Dreams, tocando diretamente no cerne da cultura de design contemporânea, obcecada por imagens e pela superficialidade das telas. Gravado ao vivo na Milan Design Week 2026 em parceria com a INDX|GLOBAL, a apresentadora Claire Broadka conversa com quatro profissionais da arquitetura indiana — Indrajit Kembhavi, Manish Gulati, Sanjay Singh e Sidhartha Talwar — para discutir uma questão crucial: teríamos sacrificado a alma da arquitetura em prol de um post perfeito no Instagram?
Vencedor do Primeiro Prêmio: Seeds in Forgotten Soil. Imagem cortesia de Buildner
A Buildner anunciou os resultados da segunda edição do concurso Re-Form: New Life for Old Spaces, uma premiação internacional de ideias que investiga o reuso adaptativo de edifícios existentes de pequena escala. O concurso convidou profissionais de arquitetura e design a proporem transformações de estruturas usadas, abandonadas ou negligenciadas com uma área de projeção aproximada de 250 metros quadrados, localizadas em qualquer lugar do mundo. Sem terreno ou programa definidos, incentivou-se a exploração de alternativas à demolição e à construção nova, por meio de estratégias de reuso fundamentadas em questões sociais e ambientais contemporâneas.
A maior parte das futuras habitações da Europa já existe; no entanto, a renovação continua ocorrendo de forma muito lenta para responder aos desafios climáticos, habitacionais, de saúde e de recursos na escala necessária. O Re:Living explora como a renovação pode deixar de ser uma série de projetos isolados para se tornar uma abordagem escalável de transformação de edifícios existentes. No cerne da iniciativa está um novo projeto de pesquisa, The Housing We Need for the Future We Want, que examina como o melhor aproveitamento do parque imobiliário existente pode abrir novas oportunidades para profissionais de arquitetura, cidades e comunidades.
Espaços de refúgio continuam a oferecer um terreno fértil para explorações conceituais, revelando como a arquitetura pode promover o descanso, a reflexão e a imersão na natureza em meio a transformações ambientais e culturais. Nesta edição de projetos Não Construídos, enviados pela comunidade do ArchDaily, as propostas selecionadas reúnem um conjunto diversificado de abordagens que reconsideram a hospitalidade sob a ótica do acolhimento. Essas obras posicionam a acomodação não como espetáculo ou excesso, mas como estruturas espaciais moldadas pela paisagem, pelo clima, pela contenção material e pela experiência compartilhada.
Em diferentes geografias — das encostas do Sudeste Asiático e do litoral da Indonésia às savanas africanas, ao território alpino, às paisagens do Oriente Médio e às florestas norte-americanas —, as propostas demonstram variadas respostas arquitetônicas a locais sensíveis. Entre os projetos, destacam-se estruturas elevadas que pairam suavemente sobre terrenos íngremes, sistemas temporários de cabanas inseridos em ecologias remotas, abrigos de montanha reconstruídos com base na memória e no reuso, estadias comunitárias organizadas em torno de pátios centrais orientadas por estilos de vida, refúgios desérticos contemplativos e acampamentos florestais inclusivos projetados sob a ótica da acessibilidade e do equilíbrio ambiental.
No interior do oeste de Honduras, em um vale próximo à fronteira com a Guatemala, localiza-se a antiga cidade maia de Copán. Tendo florescido durante o período Clássico, entre os séculos V e IX d.C., a cidade desenvolveu-se como um epicentro regional por meio de redes comerciais, políticas dinásticas e uma arquitetura monumental. Hoje, o sítio é reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO devido aos seus extensos remanescentes arquitetônicos, que incluem pirâmides em degraus, estelas esculpidas e um núcleo cerimonial. Mais de um século de pesquisas arqueológicas sistemáticas documentou sua morfologia urbana, revelando distritos residenciais distintos, espaços cívicos e sistemas de circulação e visibilidade.
Esta análise examina a organização espacial de Copán sob a ótica do teórico urbano Kevin Lynch e sua obra "A Imagem da Cidade". Ao aplicar os cinco elementos estruturais de Lynch — limites, bairros, caminhos, nós e marcos — é possível analisar como Copán funcionava não apenas como um centro ritual, mas como uma paisagem urbana legível, projetada para reforçar a hierarquia política e regular o movimento coletivo. Os dados históricos para esta análise foram extraídos de livros e artigos hiperlinkados ao longo do texto, viabilizados pela colaboração do historiador Arnulfo Ramirez de la Costa, professor e coordenador do curso de História no Departamento de História da Universidade Nacional Autônoma de Honduras (UNAH) em Tegucigalpa.
Aprender algo novo é, biologicamente, uma transformação do cérebro. A cada experiência, as conexões neurais são reorganizadas, criando e fortalecendo sinapses. Muito mais do que simplesmente acumular informações, o aprendizado envolve reconfigurar estruturas internas — um processo capaz de remodelar tanto indivíduos quanto sociedades. O ambiente no qual isso ocorre pode cultivar a curiosidade, a adaptabilidade e a resiliência emocional, apoiando assim a nossa próxima geração de líderes, ou suprimir essas qualidades, levando ao retraimento e ao isolamento.
Com o surgimento da escolarização moderna durante a Revolução Industrial, emergiu um modelo padronizado, definido por fileiras de carteiras, instrução simultânea e supervisão visual. Frequentemente comparado a um sistema fabril, esse modelo ainda persiste em muitos lugares, apesar de profundas transformações tecnológicas. Esses ambientes rígidos permanecem mesmo quando o aprendizado contemporâneo exige experimentação e adaptabilidade.
Quando pensamos em fachadas, raramente as imaginamos como habitats. Nós as vemos como os elementos que separam o interior do exterior, regulam a temperatura, atenuam ruídos e protegem as edificações das condições externas. Elas conferem à arquitetura sua linguagem visual, mas delas também se espera que mantenham o mundo exterior à distância. Com isso, as fachadas frequentemente acabam sendo compreendidas como barreiras: superfícies que definem onde começa o conforto humano e onde o meio ambiente deve ser mantido do lado de fora.
No entanto, o lado de fora de um edifício nunca está vazio. Durante séculos, a arquitetura involuntariamente criou oportunidades para outras formas de vida. Aves faziam ninhos sob as telhas, insetos ocupavam frestas em paredes de alvenaria e musgos ou plantas criavam raízes em beirais, calhas e superfícies ásperas de pedra. Essas condições raramente eram projetadas pensando em outras espécies, mas abriam pequenas brechas para que a vida as habitasse.
O patrimônio arquitetônico não se limita ao que um edifício foi, mas abrange o que ele continua a se tornar: um longo processo de construção, reconstrução e reocupação ao longo do tempo. Onde há oportunidade, essa continuidade gera uma condição estratificada — na qual os/as visitantes podem testemunhar, vivenciar e sentir a transição gradual da estrutura física, da materialidade, da ordem espacial e dos padrões de uso da edificação e, ocasionalmente, até mesmo participar dessa transformação.
No entanto, muitos projetos — sobretudo aqueles impulsionados por imperativos comerciais — optam por não valorizar, ou sequer reconhecer, esse trabalho mais lento de reuso adaptativo e continuidade do patrimônio. Empreendimentos regidos por uma lógica estritamente financeira costumam preferir o caminho mais fácil da demolição e reconstrução: maximizar o coeficiente de aproveitamento, a área construída bruta e a área locável com a eficiência de uma folha em branco. Ainda assim, de tempos em tempos, surge uma oportunidade que nos permite testemunhar — e desfrutar — o processo de "patrimonialização" arquitetônica da cidade em tempo real.
Analisar com mais profundidade a interação entre luz e sombra na arquitetura parece ser um tema recorrente na agenda de muitos/as profissionais da área. Espaços de luz e escuridão são concebidos para potencializar a circulação e a direcionalidade espacial, bem como para destacar as cores, texturas e formas de elementos arquitetônicos específicos. Diante disso, o impacto da luz natural nas fachadas dos edifícios revela a necessidade de desenvolver estratégias que promovam a economia de energia, melhorem o conforto térmico e visual dos espaços internos e contribuam para a redução das emissões de carbono. Considerando a luz como mais um material na arquitetura, de que maneiras o seu poder poderia contribuir para a experiência arquitetônica?
Uma catedral gótica pode levar séculos para ser concluída. Um pavilhão de exposição mundial pode permanecer de pé por apenas seis meses. Uma estrutura ritualística em Calcutá surge e desaparece em cinco dias. Ainda assim, cada uma delas atrai peregrinações, molda a memória coletiva e reorganiza a vida urbana. Se o patrimônio há muito é definido por aquilo que perdura, a arquitetura demonstra repetidamente que a autoridade cultural também pode residir naquilo que reúne as pessoas.
Durante grande parte do século XX, os parâmetros de conservação privilegiaram a permanência. A Carta de Veneza, adotada pelo Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, concentrou-se na salvaguarda dos monumentos e de sua autenticidade material. O valor cultural estava atrelado à materialidade física, como a pedra, o tijolo e a madeira. Proteger o patrimônio significava preservar o que estava de pé. Uma lógica que parecia sólida, até mesmo evidente por si só.
Exposição At the Table with Nature, ambiente 2026. Crédito da foto: Jürgen Baumhauer
A célebre frase "o homem é o que come" (Der Mensch ist, was er isst), de Ludwig Feuerbach, afirma que a constituição física, mental e até mesmo moral dos seres humanos está diretamente ligada ao que consomem. Hoje, essa ideia está amplamente internalizada, acompanhada de uma crescente conscientização sobre alimentação, nutrição e o impacto do que ingerimos em nosso organismo. No entanto, essa mesma consciência não se estende aos ambientes que habitamos, onde os materiais continuam sendo tratados como decisões técnicas em vez de agentes ativos na relação entre corpo e espaço. Tendo em vista que grande parte da população global passa cerca de 90% do seu tempo em espaços fechados, raramente se discute o que realmente compõe esses espaços em seu nível mais fundamental: os materiais. Paredes, pisos e acabamentos são frequentemente abordados como escolhas técnicas ou estéticas quando, na realidade, podem funcionar como fontes contínuas de exposição a substâncias potencialmente nocivas.
No final de 2024, um evento foi realizado nos jardins do recém-reformado Palais de Lomé, de época colonial, na capital do Togo. Estudantes da faculdade de arquitetura de Lomé participaram dos primeiros Encontros de Arquitetura de Lomé (RAL #1), com curadoria do Studio NEiDA, escritório transdisciplinar, que incluiu palestras, exibições de filmes, oficinas e visitas a edifícios. Uma exposição paralela exibiu a produção arquitetônica mais significativa da história do país. O objetivo do evento era explorar o patrimônio arquitetônico do Togo, marcando o início de uma jornada que cruza fronteiras e levanta questões sobre a conservação do patrimônio moderno. Ao contrário de edifícios coloniais como o próprio Palais de Lomé, que costumam ser mais valorizados e prontamente restaurados, edifícios modernos negligenciados — como o Hôtel de la Paix — exigem abordagens criativas e de base (bottom-up) para recuperar sua antiga vitalidade.
Os desenhos de arquitetura operam por meio da abstração. Plantas, cortes e elevações condensam informações espaciais, construtivas e dimensionais em um conjunto de códigos que fazem sentido dentro da disciplina, mas que nem sempre são imediatamente legíveis para quem não está familiarizado com essa linguagem. Em alguns projetos, essa condição pode gerar uma tensão recorrente entre o que é projetado e o que pode ser compreendido. Isso se intensifica quando as ferramentas utilizadas não correspondem à escala e à complexidade do projeto. Em contextos como casas unifamiliares, reformas ou ampliações, softwares excessivamente complexos podem introduzir ruídos, atrasos e dependências desnecessárias, tornando as propostas mais difíceis de desenvolver e transmitir.
Situada ao longo da histórica Rota da Seda na Ásia Central, Tashkent é uma cidade com uma longa história que remonta a milhares de anos. Sua arquitetura histórica é conhecida pelos pátios, cúpulas e cerâmicas azuis, típicos do patrimônio timúrida. Hoje capital do Uzbequistão, a cidade foi incorporada ao Império Russo no século XIX, antes de se tornar uma república soviética. Durante o período em que integrou a União Soviética, a cidade transformou-se em um modelo de modernização, celebrando as conquistas socialistas na Ásia. Um terremoto devastador em 1966 acelerou esse processo à medida que a cidade era reconstruída, dando origem a muitos dos monumentos modernistas pelos quais Tashkent é conhecida hoje.
Os sítios de patrimônio constituem arquivos espaciais complexos nos quais a arquitetura, a história e a memória coletiva convergem. Eles abrangem um amplo espectro de contextos—de vestígios arqueológicos, paisagens urbanas antigas e históricas e paisagens tombadas pela UNESCO a estruturas cívicas do início da era moderna e infraestruturas industriais. Contudo, esses ambientes enfrentam desafios: as mudanças climáticas, a transformação urbana, desastres, as novas demandas sociais e a erosão gradual do tecido material. Projetos de revitalização e restauração respondem a essas condições ao posicionar a prática arquitetônica e espacial como uma mediadora ativa entre a preservação e as topologias contemporâneas.
A magia da arquitetura indiana reside em uma ordem invisível em meio ao caos visceral. Quando um futuro incerto bate à porta de profissionais locais, abre-se a possibilidade de olhar para dentro das próprias quatro paredes em busca de uma oportunidade de reinterpretação.
Mumbai, Déli, Bengaluru e outras grandes metrópoles são frequentemente descritas como carentes de soluções habitacionais massivas para milhões de pessoas. A resposta instintiva é previsível — planos diretores, torres densas e unidades padronizadas sobrepostas a um desenvolvimento desordenado. Esse léxico ignora uma verdade mais profunda sobre como as pessoas já vivem, trabalham e constroem na Índia. Os termos simplistas adotados em políticas públicas e no planejamento urbano — favela, assentamento informal, colônia irregular — sugerem um estado temporário a ser corrigido. O olhar do/a designer, contudo, enxerga esses lugares como histórias urbanas em camadas, moldadas pela necessidade.
Diante da rápida expansão dos centros de dados e das economias de IA na Grande Baía—e paralelamente à celebração da inteligência artificial como ferramenta e "autora", destaque da Bi-City Biennale de Urbanismo\Arquitetura de Hong Kong-Shenzhen de 2025 (Hong Kong)—uma questão paralela torna-se inevitável: como o planejamento e a construção da infraestrutura de IA começam, de fato, a moldar a vida cotidiana? Muitas das instalações já construídas permanecem intencionalmente distantes da experiência diária. A "nuvem" pode ser comercializada como algo imaterial, mas sua arquitetura é profundamente física: ambientes de alta potência, geração intensa de calor e forte demanda de serviços, frequentemente implantados em áreas remotas ou de baixa densidade para aproveitar os custos de terra mais baixos e minimizar atritos com as comunidades vizinhas. A segurança e a gestão de riscos reforçam ainda mais essa lógica. Os centros de dados abrigam informações confidenciais e privilegiadas—ativos corporativos, registros jurídicos, dados governamentais e institucionais—de modo que o isolamento geográfico passa a integrar seu modelo operacional, mantendo as infraestruturas de IA espacial e socialmente fora de vista.
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Soluções interativas de desenho vetorial. Imagem cortesia de D.TO
Esboços iniciais em cadernos e papel vegetal, diagramas conceituais, perspectivas, maquetes físicas e estudos de volumetria capturam a imaginação arquitetônica. No entanto, eles representam apenas o início da prática profissional. O verdadeiro desafio reside em traduzir ideias em sistemas construtivos. Cada parede, junção e montagem deve ser detalhada, com sistemas funcionando de forma integrada para que o projeto seja executado conforme o planejado. É aqui que se concentram a maior parte do esforço, da complexidade e dos riscos, e onde os projetos são finalmente viabilizados ou começam a falhar.
É nesse contexto que ocorrem o Desenvolvimento de Projeto (DD) e a Documentação Executiva (CD), momento em que o projeto deve absorver todo o peso da coordenação, dos componentes, do desempenho e da construtibilidade. Enquanto o estudo preliminar define as diretrizes espaciais e formais, o DD e o CD exigem respostas a um conjunto diferente de perguntas: como os sistemas se articulam? Como o desempenho é mantido nas transições? Quais produtos, tolerâncias e sequências permitirão que o projeto se sustente na transição do modelo para a obra?
Construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no Brasil. Imagem por burakyalcin, via Shutterstock
Algumas das transformações mais significativas das paisagens sul-americanas foram produzidas não pelas cidades, mas por grandes infraestruturas construídas para extrair e distribuir recursos naturais. Operações de mineração, sistemas de energia e redes de transporte conectaram paisagens remotas a estruturas econômicas mais amplas, ao mesmo tempo em que transformaram territórios rurais e assentamentos urbanos em todo o continente. Essas infraestruturas não apenas ocupam o espaço; elas o reorganizam. Além de apoiar o crescimento econômico, elas reconfiguraram territórios de maneiras que continuam a gerar debates políticos, ambientais e sociais em todo o continente. Sob essa perspectiva, os territórios podem ser compreendidos não como áreas geográficas fixas, mas como sistemas socioecológicos moldados por relações culturais, ambientais e políticas — ponto enfatizado pelo antropólogo Arturo Escobar em seu trabalho sobre o pensamento territorial na América Latina.
No centro do discurso arquitetônico sobre arquitetura sagrada, as atenções quase sempre se voltam para o monumento. Templos, mesquitas, monastérios e igrejas dominam tanto a história da arquitetura quanto a crítica de projeto e a fotografia, tornando-se os símbolos físicos através dos quais a fé é compreendida. Para milhões de pessoas em peregrinação em toda a Índia, a experiência arquitetônica mais impactante começa muito antes de o santuário surgir no horizonte. Ela se desenrola ao longo de estradas montanhosas, *ghats* (escadarias à beira-rio), ruas sombreadas, acampamentos temporários, sistemas de filas, pontes, postos de água, postos de atendimento médico e inúmeras outras estruturas cotidianas de infraestrutura através das quais a peregrinação de fato ocorre. O trabalho arquitetônico da peregrinação talvez resida menos no santuário em si do que nos ambientes que viabilizam o trajeto de milhões de pessoas até ele.