O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa

10:31
10:31

Todas as noites, ao voltarmos para casa, realizamos, sem cerimônia, um pequeno ritual. Nós chegamos a uma porta, a abrimos e cruzamos o limite em direção a um espaço que nos pertence de uma maneira que nenhum outro lugar consegue imitar. Trata-se de um ato tão cotidiano que raramente percebemos sua estrutura; e, no entanto, a filosofia e a antropologia dedicaram livros inteiros à descrição dessas estruturas psicológicas. Curiosamente, obras visuais como os mundos animados do Studio Ghibli parecem refletir essa dinâmica, criando cenários com arquiteturas e arranjos espaciais que oferecem uma via de escape ao evocar nossas memórias de forma legível e, ao mesmo tempo, encantada.

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 2 de 7O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 3 de 7O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 1 de 7O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 4 de 7O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Mais Imagens+ 2

Gaston Bachelard chamou de "topoanálise" a investigação psicológica do impacto que a casa de infância exerce sobre a vida de uma pessoa. Trata-se da ideia de que os cantos, as escadas e os sótãos do lar onde crescemos não são cenários neutros, mas sim elementos fisicamente inscritos em nós. O degrau que era um centímetro alto demais, a qualidade particular da luz no quarto de infância: tudo isso passa a integrar a memória corporal, sendo levado para cada espaço que habitamos nas fases posteriores da vida. Esse espaço que foi "amado" e que oferece um valor psicológico protetor torna-se quase sagrado para nós — o que Bachelard conceitua como um "espaço feliz".

Sob sua perspectiva, o espaço feliz já nasce sob a sombra da nostalgia, de modo que cada casa que habitamos mais tarde torna-se uma tentativa de recuperar aquele primeiro lar ao qual nunca poderemos, de fato, retornar. Nesse contexto, para Bachelard, a casa em que vivemos nunca é um mero abrigo. É o ponto de convergência entre a realidade física e o que ele chama de virtualidade da imaginação e do sonho — um microcosmo e um refúgio seguro, construído a partir das camadas de nossas experiências passadas e dos "sonhos" de todas as pessoas que ali viveram antes. Para compreender melhor essa ideia, podemos recorrer à obra de Juhani Pallasmaa. Para o autor, não vivemos de forma cindida entre mundos materiais e mentais; pelo contrário, essas dimensões estão profundamente interligadas.

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 3 de 7
O quarto de Howl / Mundo interior no Ghibli Park, Japão. Imagem cortesia de Ghibli Park

"As construções arquitetônicas são erguidas no mundo da matéria e da geometria euclidiana, mas o espaço vivido sempre transcende as regras da física e da geometria." — Juhani Pallasmaa

Essa ideia de que uma casa abriga um mundo mental imaginado ao lado de sua existência física deixa de ser uma abstração para quem já assistiu a Meu Amigo Totoro, do Studio Ghibli. Quando as duas irmãs protagonistas chegam à sua nova — porém já bastante vivida — residência, elas descobrem que os cômodos estão repletos de pequenos espíritos da fuligem que se dispersam ao menor sinal de movimento. Nesse contexto, os espíritos não são intrusos; eles representam o que já se imagina existir em uma casa vazia antes mesmo que as memórias tenham tempo de se acumular ali. O longa dramatiza, quase literalmente, o que Bachelard descreve: uma casa nunca é apenas um espaço físico à espera de preenchimento. Ela já nos acolhe semi-habitada por aquilo que esperamos e desejamos encontrar nela.

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 4 de 7
A casa de Meu Amigo Totoro. Imagem cortesia de Studio Ghibli

Nesse sentido, se a casa é o ponto de encontro entre a vida interior e o espaço físico, cruzá-la tampouco é um ato neutro do ponto de vista arquitetônico. Em vez disso, a entrada assume o caráter do que Arnold van Gennep descreve como um rito de passagem que, segundo seus escritos, desdobra-se em três etapas: a separação de um estado anterior, uma fase liminar ou de transição (o limiar) e a incorporação ao novo estado. Embora Van Gennep não estivesse escrevendo sobre a volta do trabalho para casa, essa estrutura teórica se aplica perfeitamente a esse cotidiano.

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 7 de 7
Corte do Castelo Animado no Ghibli Park, Japão. Imagem cortesia de NIHON SEKKEI

Parar diante da própria porta de entrada é um pequeno rito de separação, um ponto em que as exigências do mundo exterior são forçadas a cessar. Em seguida, abrir a porta e cruzar o umbral constitui o próprio momento liminar: aquele instante breve, e raramente notado, em que as pessoas transitam do profano para o seu sagrado. Por fim, acomodar-se no coração da casa — seja em uma poltrona, em um cômodo específico ou por meio do ritual de tirar os sapatos e pousar a bolsa — representa a incorporação, o retorno ao próprio eu ou àquele microcosmo que só existe ali. Sob essa ótica, a porta não é um mero elemento arquitetônico, mas sim um portal. Por mais mágico ou esotérico que isso possa parecer, diferentes culturas demarcam esses acessos há séculos. No Japão, por exemplo, o portal xintoísta Torii anuncia visualmente, antes mesmo que se passe por ele, que o espaço seguinte já não é mais profano. O limiar desempenha sua função simbólica no instante exato em que surge no campo de visão.

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 2 de 7
A casa de banhos em A Viagem de Chihiro. Imagem cortesia de Studio Ghibli

Os filmes do Studio Ghibli não apenas sugerem essa estrutura ritualística, mas constroem narrativas inteiras a partir dela. Em A Viagem de Chihiro, a protagonista atravessa uma ponte para entrar no mundo dos espíritos, dominado por uma imensa casa de banhos, e a trama se desenvolve em torno de sua incorporação a esse universo. A própria casa de banhos acompanha seu amadurecimento, revelando seus espaços gradualmente à medida que Chihiro cresce. Já em O Castelo Animado, Sophie, a protagonista, cruza um limiar mágico para entrar no castelo. O espaço interno surge como uma representação do mundo interior do outro protagonista, o Mago Howl. Nesse processo, Sophie limpa lentamente o ambiente enquanto se integra a essa nova realidade. Em ambas as produções, as personagens permanecem nesse estado intermediário ou espaço liminar: não pertencem mais inteiramente à sua antiga realidade, mas também não estão de todo imersas na nova.

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 5 de 7
O interior do Castelo Animado no Ghibli Park, Japão. Imagem cortesia de Ghibli Park

Na vida contemporânea, contudo, apartamentos com plantas livres ou estúdios integrados costumam criar cômodos indiferenciados, diluindo esse rito de entrada. O trabalho híbrido, por exemplo, arrasta as demandas do mundo exterior para além do próprio limiar que antes as encerrava. Da mesma forma, as casas que admiramos nas redes sociais costumam ser ambientadas para se tornarem legíveis a olhares alheios, em detrimento da memória acumulada que, em primeiro lugar, tornaria aquele espaço "feliz". Curiosamente, Bachelard já descrevia esse cenário em 1958, lamentando que na cidade moderna "não existem casas", apenas habitantes vivendo em "caixas superpostas".

O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa - Imagem 6 de 7
A ponte para o mundo dos espíritos em A Viagem de Chihiro. Imagem cortesia de Studio Ghibli

Nesse sentido, as animações do Ghibli também oferecem uma oportunidade de escapar do ritmo acelerado do cotidiano, inserindo-nos em momentos de quietude em meio a cenários que parecem simultaneamente mágicos e reais. Depois de transportar o público para dentro de seus universos, obras como A Viagem de Chihiro dedicam cenas inteiras ao silêncio. Exemplo disso é quando a câmera se detém por cerca de quatro minutos em Chihiro sentada em um trem, sem qualquer diálogo. Em O Castelo Animado, por sua vez, o filme reserva um minuto inteiro para mostrar Sophie sentada diante do fogo, enquanto a cena enfatiza os detalhes arquitetônicos da grande lareira e a penumbra do ambiente ao redor. Susan Napier, em sua obra "Miyazakiworld: A Life in Art", identifica essa característica nos filmes por meio do termo japonês "mono no aware": uma sensibilidade melancólica em relação à transitoriedade dos momentos cotidianos, valorizados justamente por serem efêmeros.

Em uma época na qual nosso entorno nos incita constantemente à produtividade, esses momentos de silêncio e as representações desses rituais na tela nos permitem escapar para dinâmicas espaciais e psicológicas para as quais parecemos não ter mais tempo. De certa forma, eles nos ajudam a restabelecer a conexão com nosso próprio "espaço feliz". A nostalgia evocada por essas produções não se dá por acaso; trata-se de um lembrete para profissionais da arquitetura de que podemos usar nossa prática para construir mundos que mereçam ser amados e para os quais valha a pena retornar todas as noites. Uma casa não tem o poder de prolongar as horas do dia, mas pode ser projetada e organizada, deliberadamente, para acolher esse tipo de quietude.

Este artigo é parte do Tema do ArchDaily: O Fascínio do Escapismo na Arquitetura e Mundos Alternativos. Mensalmente, exploramos um tema em profundidade por meio de artigos, entrevistas, notícias e projetos de arquitetura. Convidamos você a conhecer mais sobre os Temas do ArchDaily. E, como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nosso público leitor; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato conosco.

Este artigo foi escrito por . A tradução é gerada por IA.

Avalie esta tradução

Obrigado pelo seu feedback.

Galeria de Imagens

Ver tudoMostrar menos
Sobre este autor
Cita: Carrasco, Moises. "O Sagrado Cotidiano: Studio Ghibli e o Ritual de Voltar para Casa" [The Sacred Ordinary: Studio Ghibli and the Ritual of Coming Home] 20 Set 2026. ArchDaily em Português. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1185181/o-sagrado-cotidiano-studio-ghibli-e-o-ritual-de-voltar-para-casa> ISSN 0719-8906

¡Você seguiu sua primeira conta!

Você sabia?

Agora você receberá atualizações das contas que você segue! Siga seus autores, escritórios, usuários favoritos e personalize seu stream.