Senior Content Editor no DAAily Platforms. Arquiteta, mestre em Projeto Urbano pela Pontificia Universidad Católica de Chile (2021). Reside em Santiago, Chile
Seres humanos sempre foram fascinados por reflexões. Embora eles não sejam mais do que a luz que retorna após atingir uma superfície, sempre haverá algo místico e fascinante nelas - seja um lago espelhando uma bela paisagem ou um pequeno espelho de mão, refletindo nosso rosto. Isso explica por que algumas culturas antigas consideravam os espelhos objetos sagrados com poderes mágicos, enquanto outras as associaram a portais que levavam a um mundo desconhecido. Desde então, os espelhos evoluíram para adotar muitas funções valiosas indispensáveis na vida cotidiana, sendo encontradas em carros, equipamentos médicos e, é claro, em inúmeras aplicações arquitetônicas, especialmente em interiores. Experimentar com a reflexão e a percepção do espaço tornou-se uma maneira fácil de arquitetos, designers e proprietários de imóveis transformarem qualquer sala. E, ao procurar maximizar esse impacto, o poder de espelhos excepcionalmente grandes é incomparável. Afinal, quanto maior o espelho, maior o impacto.
As janelas desempenham múltiplas funções essenciais em qualquer projeto, desde emoldurar vistas até fornecer iluminação e ventilação naturais. À medida que as necessidades humanas mudaram e a tecnologia avançou significativamente ao longo dos anos, elas evoluíram em caráter, forma e uso de materiais. O que começou como pequenas seteiras usadas para defesa em fortificações medievais mais tarde se transformou em aberturas mais amplas que simbolizavam status e riqueza. Os romanos foram os primeiros a usar o vidro, mas este foi considerado um bem precioso por séculos. Painéis complexos de vitrais adornavam inúmeras igrejas e catedrais medievais, enquanto a maioria dos moradores de residências comuns tinha que se contentar em cobrir suas “janelas” com madeira, peles de animais e outros materiais.
Os ruídos –especialmente aqueles que não podemos controlar– afetam profundamente tanto a saúde física quanto a mental. Sejam provenientes da rua, da vizinhança do andar de cima ou do cômodo ao lado, pesquisas sugerem que eles podem aumentar o estresse, reduzir a produtividade, interferir na comunicação e contribuir para o desenvolvimento de problemas como a hipertensão arterial. Em última análise, a qualidade acústica define a experiência de uso e (literalmente) dá o tom para o restante do interior. A má notícia é que a maioria dos materiais de construção convencionais utilizados hoje na arquitetura moderna –concreto, vidro, alvenaria– possui superfícies extremamente duras e propriedades acústicas limitadas, o que faz o som reverberar várias vezes e força as pessoas a elevarem a voz para se fazerem entender. Somado ao crescimento da densidade urbana e à adoção de layouts de uso misto nos projetos, tudo isso resulta em ambientes de vida e trabalho cada vez mais barulhentos, desconfortáveis e dispersivos.
In Out Office / Alfredo Häberli. Imagem cortesia de Andreu World
Profissionais de arquitetura de interiores e de design costumam afirmar que um espaço de escritório bem projetado se traduz em maior produtividade, criatividade e satisfação no trabalho — contudo, o impacto é ainda maior do que a maioria costuma imaginar. Estudos recentes sugerem que o bom design impacta positivamente a cultura da empresa, fomenta o senso de comunidade e cria um ambiente saudável, feliz e motivador. De fato, ele influencia diretamente o recrutamento e a retenção de talentos: “o design do espaço de trabalho aumenta significativamente a atratividade das empresas empregadoras para profissionais em potencial”. Iluminação adequada, um layout flexível e recursos biofílicos são fatores importantes a serem considerados na fase de planejamento. No entanto, para atender plenamente ao conforto e ao bem-estar de quem utiliza o espaço, esses elementos devem ser combinados com um excelente design de mobiliário. Afinal, integrar peças ergonômicas de alta qualidade é uma maneira simples de elevar o ânimo, além de aprimorar a funcionalidade e a estética ao criar ou redecorar o espaço de trabalho.
A Organização Mundial da Saúde define a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Se um ou mais desses aspectos forem comprometidos, a qualidade de vida e a felicidade podem ser severamente afetadas. Nos últimos anos, e particularmente durante a pandemia da COVID-19, isso se mostrou especialmente desafiador. As restrições de deslocamento forçaram muitas pessoas a permanecerem em casa e os estabelecimentos a suspenderem as atividades presenciais, visando conter a propagação do vírus, mas inevitavelmente sacrificando a saúde psicológica, emocional e até física no processo. Diante disso, o estilo de vida das pessoas mudou para encontrar novas formas de cuidar do bem-estar, o que incluiu a adaptação de seus espaços residenciais. As academias em casa, por exemplo, tornaram-se uma alternativa popular.
Muitas pessoas associam banheiros a cômodos pequenos, simples e práticos, sem características marcantes de design. Historicamente, eles foram concebidos como ambientes meramente funcionais, estritamente programados para higiene, privacidade e facilidade de manutenção – muitas vezes sem espaço para a criatividade. No entanto, à medida que as mudanças no estilo de vida colocaram a saúde e o bem-estar como prioridades máximas, o design de banheiros contemporâneo foi reimaginado nesse sentido, caminhando para refúgios pessoais espaçosos destinados ao conforto, relaxamento e recuperação; uma fuga do caos do mundo exterior. Como costumamos passar a maior parte do tempo dentro de casa, muitas discussões recentes giram naturalmente em torno de banheiros residenciais, negligenciando outro ambiente onde também passamos um número significativo de horas (cerca de um terceiro de nossas vidas, para ser exato): o local de trabalho.
De smartphones a foguetes espaciais e carros autônomos, o poder da tecnologia nesta era digital moderna é enorme (e praticamente ilimitado). Isso impactou todos os aspectos de nossas vidas e continuará a abrir possibilidades que hoje não podemos nem vislumbrar. Quando aplicada de maneira social e ambientalmente responsável, a tecnologia tem o poder de melhorar a produtividade, a comunicação e a sustentabilidade, permitindo que as comunidades globais funcionem com eficiência, atendendo às necessidades cotidianas das pessoas e melhorando sua qualidade de vida. Simplificando, a boa tecnologia serve para a humanidade. E, assim como as indústrias de saúde ou manufatura aproveitaram isso, o mundo da arquitetura, design e construção não pode ficar para trás.
Os museus desempenham um papel fundamental na preservação das culturas locais, na promoção de uma melhor compreensão de nosso patrimônio coletivo e no estímulo ao diálogo, à curiosidade e à autorreflexão. Nos últimos anos — e em grande parte impulsionados pela pandemia de Covid-19 —, os avanços tecnológicos permitiram que pessoas de todo o mundo visitassem exposições virtualmente, a qualquer momento e no conforto de suas casas. Contudo, embora as visitas virtuais sejam uma ótima maneira de ampliar a acessibilidade, a experiência presencial em um museu tem algo de atemporal: a oportunidade de testemunhar, contemplar e admirar de perto artefatos, pinturas e esculturas em sua forma real, além da chance de vivenciar a atmosfera e a essência únicas de um espaço tradicional. Ver a Mona Lisa virtualmente, por exemplo, jamais se comparará a apreciá-la pessoalmente no Louvre.
Estatísticas recentes sugerem que, se alguém vive até os 80 anos, cerca de 72 desses anos serão gastos dentro de edifícios. Isso faz sentido se tivermos em mente que, quando não estamos em casa, os humanos estão trabalhando, aprendendo ou se envolvendo em atividades divertidas principalmente em ambientes construídos. Contemplando eventos atuais, no entanto, esse número deve crescer. Em um mundo cada vez mais caótico e incerto, marcado pelos efeitos contínuos das mudanças climáticas e pela pandemia global, o desejo de permanecer dentro de casa em um ambiente protegido, controlado e pacífico está mais forte do que nunca. Os arquitetos enfrentam um desafio importante: criar interiores confortáveis, produtivos e saudáveis com parâmetros bem regulamentados, considerando fatores como qualidade do ar interno, luz natural e características biofílicas dos estágios iniciais do design. Obviamente, isso envolve a escolha de materiais de maneira sensível e adequados, seja evitando certos componentes prejudiciais à saúde ou integrando produtos atóxicos que acalmam e promovem o bem-estar.
Iluminação Linear Suspensa. Imagem cortesia de Alcon Lighting
A iluminação desempenha um papel crucial na arquitetura: permitir que os/as usuários/as enxerguem, habitem os espaços com segurança e realizem suas atividades diárias. No entanto, seu poder há muito tempo supera essas funções básicas, impulsionado principalmente pelos avanços tecnológicos e pelas novas tendências de design que trouxeram maior inovação e criatividade. O design de iluminação contemporâneo tem a capacidade de transformar completamente um ambiente, impactando o conforto visual e definindo o tom ao delimitar volumes, destacar texturas e realçar cores. Também pode determinar a percepção de forma e tamanho; por exemplo, em um cômodo especialmente pequeno, uma iluminação adicional refletida em paredes de tons claros ajudará a fazer com que o espaço pareça maior. Da mesma forma, está comprovado que a luz afeta o humor, a concentração e o bem-estar geral. Enquanto um ambiente adequadamente iluminado está associado ao aconchego e a melhores níveis de energia, uma iluminação deficiente pode levar a problemas de saúde, incluindo dores de cabeça, fadiga ocular e até depressão.
À medida que as mudanças climáticas atingem níveis sem precedentes, muitos apontam para a necessidade de ampliar a circularidade no setor da construção. Em essência, a economia circular visa eliminar o desperdício e o uso contínuo de recursos por meio do reaproveitamento, reparo ou reciclagem sistemática de materiais. Esta abordagem cíclica é capaz de atender à demanda e minimizar as emissões de CO2 ao estender a vida útil dos produtos, o que é particularmente importante diante de recursos limitados. Ao contrário do tradicional método extrativo linear — no qual tudo passa por um processo extremamente poluente de "extrair-produzir-descartar" —, a circularidade mantém os materiais em uso pelo maior tempo possível para extrair deles o valor máximo. Isso, por sua vez, reduz a poluição, regenera os sistemas naturais e contribui para um ambiente construído mais saudável, gerando, assim, capital econômico, natural e social.
Seja integrando-se ao contexto urbano ou destacando-se para atrair a atenção, a fachada conta a história de um edifício. Trata-se de um meio expressivo pelo qual interagimos com a arquitetura, definindo as primeiras impressões e determinando o tom do interior ao experimentar com transparência, movimento, textura e cor, entre outras possibilidades estéticas. Naturalmente, o envelope também desempenha um papel funcional crucial, atuando como barreira protetora contra condições climáticas extremas e impactando diretamente a transmissão de luz, a eficiência energética e o conforto acústico. Os arquitetos e arquitetas enfrentam, portanto, um desafio importante: alcançar o equilíbrio entre uma estética atraente e o desempenho técnico. Para tanto, é fundamental especificar os materiais adequados ainda na fase de projeto.
Estantes têm uma função clara: organizar, armazenar e expor. Esse papel simples, mas vital, tornou-as uma obrigação em todos os lares, mantendo o local arrumado armazenando livros, roupas, brinquedos ou quaisquer outros itens que, de outra forma, seriam espalhados pelo chão. Embora geralmente encontradas em armários, quartos, banheiros e cozinhas, as prateleiras são úteis onde quer que o armazenamento extra seja necessário. São especialmente ideais para tirar o máximo proveito das salas pequenas, o que sempre se beneficiará de ter espaço mais limpo e sem desordem. Respondendo a essa necessidade crucial de armazenamento e, seguindo uma abordagem rigorosa de 'forma segue a função', as estantes tradicionais são frequentemente compostas por planos horizontais mínimos e planos presos a uma parede - um layout simples que não se destina particularmente a chamar a atenção. Portanto, as pessoas não tendem a pensar em estantes além do armazenamento e, nesse sentido, as inúmeras possibilidades de design que eles oferecem são frequentemente negligenciadas.
O papel da área de entrada de um edifício é fundamental em um mundo onde as primeiras impressões são tudo. Ela antecipa o que está por vir, marca o ponto de partida de uma jornada arquitetônica e define o tom para o restante do interior. Como uma “passagem” prática entre diferentes lugares, a entrada conecta e une, mas, ao mesmo tempo, separa, protege e garante a segurança tanto de moradores(as) quanto de visitantes. Desse modo, cada aspecto transmite características formais específicas para cumprir essa função; desde a posição da porta até a forma do limiar e a estrutura do teto.
O mistério das cores nos intriga desde a infância. Misturar tintas para criar novos tons ou observar os raios de sol e cristais formando arco-íris torna-se uma parte fascinante da nossa infância muito antes de ouvirmos falar em química e óptica. À medida que crescemos, a cor continua a desempenhar um papel fundamental em como vivenciamos o mundo, impactando o humor, as emoções, a produtividade e o comportamento. Isso explica por que os seres humanos são naturalmente atraídos por certas tonalidades; trata-se de algo intrínseco ao cérebro humano. Há uma percepção comum, por exemplo, de que as paletas de vermelho, laranja e amarelo geram uma sensação de calor e alegria, ao passo que tons de marrom, cinza e preto evocam tristeza e melancolia. Naturalmente, o mesmo se aplica ao design e ao ambiente construído, pois, juntamente com a textura, a luz e a sombra, os espaços ao nosso redor são definidos por tons e nuances que moldam o que vemos e como nos sentimos. Assim, a cor acaba transformando a maneira como percebemos, sentimos e vivenciamos a arquitetura.
Usado por artesãos em todo o mundo por milhares de anos, o vidro colorido é uma das formas de arte mais antigas. Suas origens datam do século VII, quando janelas coloridas começaram a adornar igrejas, catedrais e conventos - geralmente representando símbolos religiosos e histórias bíblicas. Eles se expandiram para mesquitas e palácios islâmicos durante o século VIII, e na Idade Média podiam ser encontrados em inúmeras igrejas em toda a Europa. Intrincados trabalhos em vidro atingiram o esplendor máximo nos edifícios monumentais do período gótico, resultando em vitrais gigantes e elaboradas com figuras, padrões e geometrias extremamente complexas. No entanto, hoje em dia isso já não é exclusivamente reservado para locais de culto proeminentes ou estruturas antigas. De mãos dadas a métodos inovadores de produção e novas tecnologias, o vidro colorido retornou na arquitetura contemporânea, embelezando edifícios com seus toques ousados e animados.
AHC Spa Waterful Desert em Seul por FLYmingo . Cortesia de FLYmingo
Mudanças repentinas no estilo de vida decorrentes da pandemia fizeram com que muitas pessoas se dessem conta de que o espaço que habitam influencia diretamente seu bem-estar. Os espaços de moradia e trabalho se adaptaram a essa nova realidade, incorporando elementos que promovem tranquilidade, saúde e sensibilidade por meio da inovação. Reconhecendo essas novas prioridades, a edição deste ano do ICONIC AWARDS: Innovative Interior premiou as inovações mais importantes do design internacional, com foco em produtos de relevância especial no contexto da pandemia. O prestigiado prêmio do German Design Council é considerado o termômetro de tendências do setor de design de interiores, apresentando eletrodomésticos e mobiliários de destaque que respondem a quatro conceitos atuais: Smart together, Less is more, Homo movens e Material innovation.
A arquitetura de interiores é, sem dúvida, muito mais do que a composição de ambientes esteticamente atraentes. Desde materiais de construção e condições térmicas até revestimentos e mobiliário, cada decisão de projeto afeta diretamente o conforto do/a usuário/a. No entanto, essa relação entre design e bem-estar é ainda mais evidente no âmbito residencial, sobretudo após os mais de dois anos de pandemia que forçaram muitas pessoas a passar mais tempo em suas casas. Isso posicionou o lar como protagonista na renovação de espaços, transformando-o em um ambiente dedicado à tranquilidade e à saúde. O bem-estar não é, portanto, uma mera tendência passageira. Embora tenha ganhado destaque impulsionado pela pandemia, hoje se consolidou como um movimento de design que veio para ficar – e ao qual cada material ou produto deve responder.