Mesmo o transeunte mais distraído é capturado pela presença monumental dessa estrutura situada no consolidado bairro valenciano de Benimaclet. Diante dela, qualquer tentativa de apreensão racional se desfaz. A lógica construtiva parece escapar enquanto o espaço se desdobra em tensões e desvios onde nada se oferece de imediato. Entre massas de concreto e a insurgência da vegetação, emerge um jogo quase coreográfico de planos, ângulos e rotações. Na vertigem desse encontro, percebe-se que o edifício não foi feito para ser compreendido, mas para ser experimentado.
A arquitetura é frequentemente compreendida como uma questão de fechamento. Paredes definem o espaço, separando o interior do exterior e estabelecendo limites claros. No entanto, em muitos projetos na América Latina, essa distinção se torna menos precisa. Em vez de operarem como objetos fechados, os edifícios muitas vezes permanecem abertos, permitindo a passagem do ar, da luz e do movimento.
Essa condição vai além da forma. Em toda a região, a arquitetura responde há muito tempo a climas caracterizados pelo calor, pela umidade, pela forte exposição solar e pelas chuvas sazonais, bem como a culturas construtivas moldadas pela adaptação, pelo trabalho coletivo e pelo engajamento direto com o meio ambiente. Nesses contextos, interiores totalmente vedados nem sempre são a resposta mais eficaz. O espaço é frequentemente organizado por meio da sombra, da ventilação e de zonas intermediárias que regulam, em vez de isolar.
Como resposta a um mundo em rápida transformação, a flexibilidade tornou-se prioridade absoluta no design de interiores contemporâneo. Isso explica, por exemplo, a crescente demanda por espaços amplos e multifuncionais em detrimento de layouts rígidos e fechados — como demonstra a tendência das cozinhas integradas. Essa mudança nas necessidades espaciais sugere que projetar para o presente e para o futuro significa criar espaços capazes de se adaptar facilmente a múltiplos usos: em um dia, uma sala pode ser destinada a um grande evento; no outro, pode ser necessária para atividades menores e mais reservadas. Diante disso, materiais, produtos e outros elementos do design de interiores devem responder à altura, integrando tecnologia e inovação para criar espaços flexíveis e, ao mesmo tempo, funcionais.
O ensino de arquitetura nunca foi concebido para preparar você para o lado empreendedor da gestão de um escritório. Na mente dos criadores que construíram o sistema que hoje define o caminho para a obtenção do registro profissional, a ideia nunca foi que você iniciasse um negócio de arquitetura de forma precoce. Existe um código, um conjunto de regras que o/a impulsiona a obedecer e a seguir uma visão unilateral de sucesso.
Burgess Creek Promenade, Steamboat Springs, Colorado. Imagem cortesia de Wenk Associates
A necessidade de se adaptar rapidamente às mudanças climáticas assumiu, com razão, o centro das atenções. No entanto, as conexões entre as mudanças climáticas e a gestão de águas pluviais frequentemente passam despercebidas. As mudanças climáticas impactam o ciclo hidrológico ao aumentar a escassez de água e a frequência e intensidade das inundações, além de contaminar os cursos d'água. Gerenciar melhor as águas pluviais é fundamental para a gestão dos recursos hídricos e para a proteção de nossa segurança e da saúde do meio ambiente.
O mistério das cores nos intriga desde a infância. Misturar tintas para criar novos tons ou observar os raios de sol e cristais formando arco-íris torna-se uma parte fascinante da nossa infância muito antes de ouvirmos falar em química e óptica. À medida que crescemos, a cor continua a desempenhar um papel fundamental em como vivenciamos o mundo, impactando o humor, as emoções, a produtividade e o comportamento. Isso explica por que os seres humanos são naturalmente atraídos por certas tonalidades; trata-se de algo intrínseco ao cérebro humano. Há uma percepção comum, por exemplo, de que as paletas de vermelho, laranja e amarelo geram uma sensação de calor e alegria, ao passo que tons de marrom, cinza e preto evocam tristeza e melancolia. Naturalmente, o mesmo se aplica ao design e ao ambiente construído, pois, juntamente com a textura, a luz e a sombra, os espaços ao nosso redor são definidos por tons e nuances que moldam o que vemos e como nos sentimos. Assim, a cor acaba transformando a maneira como percebemos, sentimos e vivenciamos a arquitetura.
Os ruídos –especialmente aqueles que não podemos controlar– afetam profundamente tanto a saúde física quanto a mental. Sejam provenientes da rua, da vizinhança do andar de cima ou do cômodo ao lado, pesquisas sugerem que eles podem aumentar o estresse, reduzir a produtividade, interferir na comunicação e contribuir para o desenvolvimento de problemas como a hipertensão arterial. Em última análise, a qualidade acústica define a experiência de uso e (literalmente) dá o tom para o restante do interior. A má notícia é que a maioria dos materiais de construção convencionais utilizados hoje na arquitetura moderna –concreto, vidro, alvenaria– possui superfícies extremamente duras e propriedades acústicas limitadas, o que faz o som reverberar várias vezes e força as pessoas a elevarem a voz para se fazerem entender. Somado ao crescimento da densidade urbana e à adoção de layouts de uso misto nos projetos, tudo isso resulta em ambientes de vida e trabalho cada vez mais barulhentos, desconfortáveis e dispersivos.
Como o segundo maior escritório de arquitetura do mundo, a Perkins&Will tem a responsabilidade de colocar as pessoas no centro de sua prática projetual, visto que seu trabalho impacta milhões de horas da experiência humana. O foco em sustentabilidade, saúde e justiça é um objetivo compartilhado por profissionais de projeto.
Desde a década de 1980, a impressão 3D tem aberto novos caminhos para o desenvolvimento da arquitetura, da engenharia e dos objetos do cotidiano. Diante da digitalização de processos analógicos, torna-se fundamental que os/as usuários/as compreendam as inovações tecnológicas atuais e seus benefícios. O projeto HIVE reinventa a arte e o ofício da construção com argila, combinando o fazer cerâmico tradicional, a geometria inteligente e a precisão robótica para erguer uma parede composta por 175 blocos de argila exclusivos impressos em 3D.
Durante os últimos dois anos que passei fotografando a Expo 2020 Dubai, fui frequentemente questionado por amigos e conhecidos sobre o que ela era exatamente. No momento em que se encerra, neste dia 31 de março, gostaria de responder a essa pergunta sob duas perspectivas. A maioria dos leitores e leitoras sabe que a expo faz parte de uma tradição que remonta ao século XIX — uma vitrine para empresas e nações, uma atração turística e um campo de testes para inovações técnicas. No entanto, ela é também um conjunto de estudos paradigmáticos sobre oportunidade, sustentabilidade e mobilidade, além de um empreendimento imobiliário lucrativo que cria um novo bairro nos Emirados Árabes e propõe um futuro modo de habitar. Talvez esta última referência seja a mais interessante, por ser justamente o que mais diferencia esta edição de suas predecessoras.
O desempenho das edificações é uma marca registrada da arquitetura no século XXI. Como os edifícios e a indústria da construção civil são grandes contribuintes para as emissões de carbono, os/as profissionais de projeto devem fazer todo o possível para reduzir o consumo de energia e a pegada de carbono de suas obras. Além disso, as edificações precisam contribuir para uma experiência positiva dos ocupantes, melhorando a saúde e a produtividade de quem as utiliza por meio de maior conforto visual e térmico e melhor qualidade do ar. Atualmente, espera-se também que os edifícios tenham um desempenho que extrapole seus limites físicos e impacte positivamente as comunidades do entorno, reduzindo suas contribuições para as ilhas de calor locais e o escoamento de águas pluviais, além de apoiar economias verdes locais e sistemas sustentáveis.
Com as metas de projeto de alto desempenho se tornando uma referência padrão para o mercado, os/as projetistas devem identificar os aspectos de alta performance que desejam contemplar e definir metas para os principais indicadores de desempenho. Ao acompanhar a performance de um edifício em cada etapa do projeto por meio de diversas simulações, as análises de desempenho fornecem um roteiro que conecta gradualmente a performance prevista aos valores projetados como meta.
O recrutamento e a retenção de talentos são os maiores desafios para os escritórios de arquitetura. Por isso, para atrair profissionais qualificados/as que não apenas se alinhem à sua marca, mas também a elevem ao longo do tempo, é preciso investir em esforços de marketing, às vezes pensando fora da caixa.
Clínica Dr. Dragic em Novi Sad, Sérvia, projeto do Studio Fluid, 2015; foto de Ana Kostic. Imagem cortesia de Studio Fluid
Aliando sofisticação estética e baixa manutenção, a superfície sólida (Solid Surface) da Corian® Design auxilia arquitetos/as e designers a criarem espaços saudáveis que proporcionam total tranquilidade. O designboom e o ArchDaily dão continuidade à sua série de webinars em três partes com a fabricante do material, desta vez para explorar o futuro dos ambientes de saúde. Com a participação de representantes do Studio Fluid, da Operamed e da NOAS Sweden, importantes especialistas em arquitetura e design se juntam à conversa, que poderá ser assistida ao vivo — inscreva-se aqui.
Para além das fronteiras tradicionais do minimalismo escandinavo e do wabi-sabi japonês, as estéticas do extremo norte e do extremo oriente revelam mais paralelos do que se poderia supor à primeira vista — afinal, não é por acaso que são tão frequentemente combinadas, dando origem ao termo Japandi.
Nos últimos anos, tem havido uma atenção cada vez maior à iluminação de interiores, especialmente no contexto do crescente número de escritórios em plano aberto (*open-plan*). Em grande parte do mundo — e sobretudo nos países nórdicos —, as pessoas chegam a passar de 80% a 90% de seu tempo em espaços fechados. A luz que nos cerca afeta tanto nosso ritmo circadiano quanto nossos hormônios, tornando o ambiente interno e sua iluminação fatores determinantes para o nosso bem-estar. As opiniões sobre qual seria a solução ideal de iluminação interna — e se ela de fato existe — são diversas e divergentes. Para compreender melhor essa dinâmica, a fabricante dinamarquesa de iluminação Louis Poulsen propôs-se a testar os efeitos de diferentes condições de iluminação artificial em sua própria sede em Copenhague.
A visualização em tempo real é utilizada para gerar renderizações com excelente qualidade visual a partir de um modelo BIM ou CAD. Ao ser integrada ao fluxo de trabalho de projeto, ela também facilita a colaboração e permite que todas as partes envolvidas em um projeto de arquitetura participem ativamente ao longo de todo o processo de desenvolvimento.
A seguir, apresentamos cinco maneiras pelas quais a integração da visualização em tempo real pode proporcionar uma compreensão completa do projeto em suas diversas etapas.
Entre todas as tendências inusitadas de design de interiores residencial que estão voltando com força, o poço de conversa — ou espaço de conversa rebaixado — é talvez uma das mais inesperadas. Esse famoso elemento dos anos 1970, simultaneamente retrô e moderno, oferece um refúgio acolhedor na residência, totalmente livre das distrações da televisão e do cinema. Longe de ser um local para se conectar a dispositivos eletrônicos, trata-se de uma ampla área projetada para que as pessoas se sentem e conversem de verdade — um espaço de que, talvez, todos nós precisemos atualmente.
Com origens na Índia antiga e transmitido oralmente ao longo das eras, o yoga tornou-se uma prática amplamente difundida e popular que engaja o corpo e o espírito para alcançar a quietude da mente e uma autoconsciência clara. Embora existam variadas vertentes de yoga que refletem diferentes origens e tipos de práticas, todas elas exigem uma combinação de movimento físico com consciência mental e espiritual. Os benefícios para as saúdes física e mental que uma prática regular pode proporcionar, mesmo em tempos turbulentos ou difíceis, foram reconhecidos pelas Nações Unidas no Dia do Yoga de 21 de junho de 2022, sob o tema "Yoga pela Humanidade".
À primeira vista, Quarticciolo é um bairro atraente de Roma. Trata-se de um complexo de habitação social em escala humana, composto por edifícios de média altura vermelhos e amarelos dispostos em torno de pátios internos e jardins. Projetado pelo arquiteto Roberto Nicolini durante o regime fascista, esse aspecto de vilarejo não é encontrado nos massivos conjuntos residenciais do pós-guerra em outras partes da capital. À semelhança de outros/as arquitetos/as racionalistas, Nicolini se inspirou na cidade antiga. Baseando o traçado em uma malha ortogonal clássica, ele permitiu apenas uma estrutura alta: a Casa del Fascio (sede do partido fascista), uma torre fortificada que se impõe sobre a praça principal. A maioria dos edifícios foi construída entre 1938 e 1943 para abrigar uma população de classe trabalhadora que foi transferida à força do centro histórico de Roma para a periferia, abrindo caminho para as grandes obras públicas de Mussolini.
https://www.archdaily.com.br/pt/1135137/reconstruindo-e-destigmatizando-o-bairro-quarticciolo-em-romaMarina Engel
É um elemento arquitetônico essencial, que costumamos notar imediatamente ao olhar para edifícios novos — o telhado. As coberturas que abrigam os edifícios de nossas cidades apresentam tipologias diversas. Telhados planos são comuns nos centros das grandes metrópoles, coberturas em quatro águas são escolhas populares para residências no mundo todo, e o telhado em duas águas é indiscutivelmente o mais comum de todos, sendo o tipo de cobertura mais frequente nas representações estilizadas de uma casa padrão.
Seja integrando-se ao contexto urbano ou destacando-se para atrair a atenção, a fachada conta a história de um edifício. Trata-se de um meio expressivo pelo qual interagimos com a arquitetura, definindo as primeiras impressões e determinando o tom do interior ao experimentar com transparência, movimento, textura e cor, entre outras possibilidades estéticas. Naturalmente, o envelope também desempenha um papel funcional crucial, atuando como barreira protetora contra condições climáticas extremas e impactando diretamente a transmissão de luz, a eficiência energética e o conforto acústico. Os arquitetos e arquitetas enfrentam, portanto, um desafio importante: alcançar o equilíbrio entre uma estética atraente e o desempenho técnico. Para tanto, é fundamental especificar os materiais adequados ainda na fase de projeto.
“Viajar nem sempre é bonito. Nem sempre é confortável. Às vezes dói, chega a partir o coração. Mas tudo bem. A jornada transforma você; ela deve transformar. Deixa marcas na memória, na consciência, no coração e no corpo. Você leva algo consigo. E, com sorte, deixa algo bom para trás.” – Anthony Bourdain
A frase do saudoso Anthony Bourdain se aplica perfeitamente ao desenvolvimento de projetos de arquitetura no exterior. A curva de aprendizado é íngreme, repleta de riscos e recompensas. Como se preparar? Uma excelente referência está na atualização recente do documento de contrato da AIA (American Institute of Architects), o B161 - Agreement Between Client and Consultant for design consulting services where the Project is located outside the United States, publicado originalmente em 2002. A seguir, apresentamos uma breve introdução a esta nova versão do documento, disponível em aiacontracts.org.
A arquitetura inflável deu asas à imaginação de visionários ambientais de todos os tipos. De figuras como Buckminster Fuller ao grupo Ant Farm, as estruturas infláveis prometem libertar as pessoas das intempéries da natureza ou da tirania da arquitetura. Desenvolvidos originalmente pelas Forças Armadas dos EUA como coberturas para radares no Ártico, os infláveis foram adotados pela NASA antes que seus segredos fossem revelados ao público, que passou a utilizá-los para resolver os mais diversos problemas, desde a cobertura de piscinas até estádios.