
Dissimulação, ocultamento, camuflagem. Os inúmeros exemplos da natureza de disfarce como estratégia de sobrevivência forneceram à humanidade farta inspiração para a discrição militar ao longo da história. Hoje, o disfarce surge como uma forma de proteger a vida privada na Cidade com Olhos. Em uma época em que os sistemas de monitoramento e vigilância são cada vez mais onipresentes, Monica Hutton reflete sobre as estratégias de ocultamento em desenvolvimento e quais agências elas podem mobilizar como parte de ecologias urbanas complexas.
O que acontece quando a cidade repleta de sensores adquire a capacidade de ver – quase como se tivesse olhos? Antes da Bienal de Urbanismo\Arquitetura de Shenzhen de 2019 (UABB), intitulada "Interações Urbanas" (Urban Interactions), o ArchDaily está colaborando com a curadoria da seção "Olhos da Cidade" (Eyes of the City) na Bienal para estimular o debate sobre como as novas tecnologias – e a Inteligência Artificial em particular – podem impactar a arquitetura e a vida urbana. Aqui você pode ler o manifesto curatorial de “Olhos da Cidade”, escrito por Carlo Ratti, Politecnico di Torino e SCUT.
A evolução do disfarce no design pode ser analisada como uma resposta socio-natural aos cenários tecnológicos emergentes. A infraestrutura descentralizada distribuída pelas cidades e periferias continua a mudar a forma como indivíduos e grupos enxergam a cidade, e como a cidade nos vê. Há uma presença crescente de dispositivos que visualizam, coletam, compartilham e processam ativamente dados relacionados às nossas atividades cotidianas. Em um mundo cada vez mais monitorado e, reconhecidamente, mais transparente, surgem inovações para manter a discrição, a imperceptibilidade e o ocultamento. As estratégias de design para disfarçar dispositivos tecnológicos ou sujeitos tornaram-se mais sofisticadas. Por sua vez, isso altera a legibilidade do espaço urbano: às vezes, torna-se difícil decifrá-lo e fácil se deixar enganar. A camuflagem que ocorre naturalmente entre as espécies é, há muito tempo, objeto de estudo ecológico. Com o tempo, ela passou a influenciar designs que se mesclam e mimetizam a aparência e a forma de outros elementos do ambiente. O texto a seguir busca articular a relação entre corpos de diferentes espécies e o espaço urbano como algo simultaneamente natural e artificial. Examina-se aqui como o disfarce é usado como ferramenta de poder e resistência, a partir de exemplos de grupos e indivíduos que estão implantando, respondendo e se reapropriando da tecnologia para ocultar objetos, a si mesmos e a terceiros. Essas práticas de design em evolução e a crescente criatividade dão margem a especulações sobre a futura fusão entre natureza e cultura.
