Este artigo foi originalmente publicado pela Metropolis Magazine sob o título "Taking a Second Look at This Year's Nebulous Venice Architecture Biennale."
Uma das poucas verdades incontestáveis que emergiram durante a 16ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, inaugurada no último dia 26 de maio e aberta ao público até o próximo dia 25 de novembro, é que a sensibilidade e habilidade em projetar não necessariamente fazem de um arquiteto um bom curador de uma bienal.
Quando agosto chega ao fim e nossas férias - seja do trabalho ou da escola - já começam a parecer lembranças distantes, talvez seja um bom momento para refletir sobre nossa fé no que fazemos. Às vezes, a arquitetura nos proporciona a possibilidade de supervisionar mudanças maciças e empolgantes. Às vezes os projetos não funcionam, apesar dos nossos melhores esforços. E às vezes, eles não são tão capazes de gerar mudanças quanto acreditamos que sejam. As histórias desta semana tocaram em nossa fé na arquiteturade várias formas, desde as literais (como as igrejas brilhantes de Kerala) até as mais abstratas (como quanto o bom gosto num projeto de fast-food pode resultar em verdadeiros bons sabores). Leia a seguir a revisão desta semana.
Na continuação da lista das Dez cidades mais proeminentes no design, a Metropolis Magazine divulgou sua lista das cidades mais "movimentadas" no campo do design em 2018. Ao contrário dos grandes centros urbanos na lista anterior, elas são um pouco menores - mas surpreendem por serem tão vibrantes.
https://www.archdaily.com.br/pt/900501/as-dez-cidades-mais-surpreendentes-no-campo-do-design-em-2018-segundo-a-metropolis-magazineKatherine Allen
Para suas tradicionais listas de cidades, este ano a Metropolis Magazine adotou uma abordagem incomum: uma pesquisa de campo, perguntando para cerca de 100 profissionais do campo do design de todo o mundo suas opiniões e palpites. O resultado? Uma lista que apresenta não apenas as cidades que você esperaria (Milão, Londres, Berlim), mas algumas potências que podem não ter sido notadas até agora.
https://www.archdaily.com.br/pt/900502/as-dez-cidades-mais-proeminentes-no-design-segundo-a-metropolis-magazineKatherine Allen
Concluído em 1966, o Sewoon Sangga é uma megaestrutura residencial construída no coração de Seul. Projetado pelo proeminente arquiteto sul-coreano Kim Swoo-geun, este enorme edifício de uso misto é composto por oito blocos em altura cobrindo uma faixa de um quilômetro de extensão em pleno centro da cidade. Como um projeto extremamente inovador para a época, ele foi concebido como uma pequena cidade independente, contando com todas as comodidades necessárias para a vida de seus moradores além de um parque, um grande átrio de acesso e um deck para pedestres. Infelizmente, durante a execução muitas das ideias utópicas de Kim foram por água abaixo devido às limitações dos sistemas construtivos. Já no final da década de 1970, o Sewoon Sangga passou por um voraz processo de abandono, deixando centenas de unidades residenciais vazias assim como a grande maioria dos espaços comerciais, que se deslocaram para o outro lado do rio no novo distrito de Gangnam, em rápida expansão e desenvolvimento. Devido a sua localização central e a queda vertiginosa dos preços dos aluguéis, a megaestrutura foi sendo ocupada pelo comércio informal e abrigando uma série de atividades ilícitas.
No universo da arquitetura, o termo “pós-digital” pode ser usado com diferentes significados. Alguns o utilizam para referir-se a um estilo de renderização que se tornou popular entre estudantes, e cada vez mais, também entre os escritórios de arquitetura. Outros emprestam o seu significado para definir objetos arquitetônicos construídos, assim como tudo aquilo que tange a onipresença da esfera “digital” em nossa vida contemporânea.
A arquitetura sempre foi multidisciplinar, exigindo novos conhecimentos para cada projeto e desafiando os profissionais a manterem sua mente e a curiosidade aguçadas. Esta noção parece fazer mais sentido do que nunca, com arquitetos voltando sua atenção para novas tecnologias, agricultura, ciência de dados... e até mesmo para Marte.
https://www.archdaily.com.br/pt/899761/todays-rising-stars-in-design-metropolis-magazine-reveals-their-picksKatherine Allen
Shusaku Arakawa e Madeline Gins - artistas visuais, escritores conceituais e arquitetos autodidatas - acreditavam que, através de uma transformação radical da arquitetura, os seres humanos poderiam resolver a grande falha do projeto humano: evitar a morte. (Sua vez, Norman Foster.)
Arakawa e Gins desenvolveram apenas cinco projetos ao longo de suas vidas - três no Japão e dois nos Estados Unidos - porém, taxá-los de não-convencionais seria subestimar grosseiramente o seu trabalho. Uma viagem lisérgica em meio a um parque; um edifício de apartamentos extremamente colorido como se tivesse saído de uma animação da Pixar; ou lofts sem portas com pisos irregulares que reproduzem uma geografia acidentada. Não é por capricho ou para causar estranheza, o mote da dupla - apelidado de Destino Reversível - tinha um objetivo sério em promover a longevidade do ser humano, através de projetos que ativassem e estimulassem o corpo e a mente das pessoas.
https://www.archdaily.com.br/pt/896657/quem-foram-os-artistas-arquitetos-que-defendiam-uma-arquitetura-psicodelica-capaz-de-promover-a-longevidadeDante A. Ciampaglia
O que não pode ser feito na pista de dança? Não muito, disse o Gruppo 9999 do Radical Design dos anos 1960, argumentando que as boates deveriam ser “um lar para tudo, do rock ao teatro e artes visuais”. Outros artistas e designers - incluindo o pintor Jean- Michel Basquiat, o arquiteto Peter Cook, do Archigram, e o criador da "catedral da rave" de Manchester, Ben Kelly - viam a pista de dança como um ambiente mais subversivo: onde os limites podiam ser confusos e limiares cruzados, onde festas e política podiam ser entrelaçadas no escuro para canalizar uma revolução cultural. A exposição Night Fever no Vitra Design Museum apresenta esta concepção da boate como uma Gesamtkunstwerk social.
A arquitetura, em sua forma realizada, não é nem a visão nem o trabalho de uma única pessoa. É uma prática inerentemente coletiva em seus processos. Mas a arquitetura como a conhecemos só é celebrada depois de concluída, e raramente é celebrada pela forma como é produzida. Poucos prêmios reconhecem a vasta rede de pessoas que permite àqueles que estão no topo da pirâmide colocarem seus nomes nas obras concluídas.
A unidade Analytics e Insight da Zaha Hadid Architects (ZHA) desenvolveu modelos de planejamento de espaço orientados por dados para locais de trabalho que podem ser alterados ou adaptados em tempo real. A equipe, liderada pelo arquiteto Uli Blum e Arjun Kaicker, aplica suas pesquisas diretamente aos projetos da ZHA, incluindo o Sberbank Technopark no Skolkovo Innovation Center, Moscou, Rússia (visto aqui), e o Galaxy SOHO Beijing, construído em 2012. Imagem Cortesia de Zaha Hadid Architects
A busca por um espaço de trabalho que melhore a produtividade e a eficiência dos funcionários tem sido uma questão para gerentes corporativos há décadas. Mas mesmo antes de o escritório como o conhecemos hoje ter nascido, projetistas e pensadores já estavam estudando locais de trabalho, como as fábricas, para elaborar estratégias de melhorar o desempenho dos trabalhadores. Na década de 1960, Robert Propst, o inventor por trás da linha de mobiliário de escritório da Actionman, da Herman Miller, estava conduzindo uma pesquisa no espaço de trabalho que acabaria levando à criação do moderno cubículo.
Esses desenvolvimentos se basearam, em grande parte, na observação e na intuição para organizar os trabalhadores de escritórios de maneiras supostamente eficientes. Agora, os avanços na tecnologia permitem que os projetistas adotem uma abordagem mais sofisticada, utilizando sensores, mobiliários e acessórios conectados à Internet e análise de dados para estudar os escritórios em tempo real. "Você pode levar em conta todos os funcionários, e todas as pessoas são muito diferentes", diz o arquiteto londrino Uli Blum. "Trata-se de resolver os problemas fundamentais de levar as pessoas ao ambiente de que necessitam. E a maneira mais fácil é perguntar a eles”, acrescenta. Mas descobrir as necessidades de centenas, às vezes milhares, de trabalhadores pode rapidamente se tornar um exercício de futilidade.
Não são muitos os arquitetos que tiveram o desafio de projetar no espaço sideral, mas quem sabe o que nos aguarda no futuro... Será que teríamos que nos preocupar com chuvas de asteroides e foto-biorreatores? Buscando investigar este tema a Metropolis Maganize analisou o projeto da Estação Espacial Internacional, apontando como as regras convencionais de arquitetura se tornam obsoletas na gravidade zero. Paredes, tetos e pisos podem ser permutáveis e o conceito da 'forma que segue a função' é levado ao extremo.
2018 marca os 20 anos da construção da Estação Espacial Internacional. O Satélite é constituído por 34 peças separadas, as quais foram entregues por ônibus espacial ou automotora no espaço. Com nenhuma margem para erros, a construção de 13 anos da Estação Espacial foi, talvez, um dos grandes sucessos do milênio, recebendo 230 astronautas, cosmonautas e turistas espaciais nas últimas duas décadas.
Em um recente vídeo publicado pela Metropolis Magazine, Ed Gaskin, arquiteto associado sênior do escritório Zaha Hadid Architects, nos conduz por um passeio em torno do projeto 520 West 28th Street de ZHA, o único edifício de Zaha em Nova Iorque. O vídeo descreve a interessante relação do projeto com o High Line e também nos leva pelo saguão, pátio e interior das unidades residenciais.
O sol está se pondo rapidamente sobre uma colina quase congelada a cerca de cinco milhas (oito quilômetros) a oeste de Oslo. Nomeado Kikkut por conta de uma vila agora demolida, o vizinho Ekely, a antiga propriedade de Edvard Munch (agora degradada), e salvo por alguns detritos cobertos de grafite junto a algumas flores silvestres de primavera, o pico é totalmente árido. Olhando ao norte, para o Atelier de inverno de Munch, a cerca de 500 pés (150 metros de distância), é difícil acreditar que este seja o local proposto a Uma casa para morrer: uma das propostas de construção mais controversas da história recente da Noruega.
A ideia do artista norueguês Bjarne Melgaard, a proposta de “Uma Casa para Morrer” é uma escultura viva, parecida com um OVNI, luminescente que funciona como residência e estúdio para Melgaard e seus pais. Com o apoio financeiro de dois dos mais poderosos empreendedores imobiliários do país, Selvaags e Sealbay A/S - amigos de longa data do artista que também forneceram o terreno na periferia da cidade, Melgaard aproximou-se do escritório norueguês Snøhetta em 2011, com sua ideia para uma obra de arte combinada, estúdio e local do descanso final.
Recentemente a França testemunhou um dos invernos mais chuvosos dos últimos 50 anos. Em Paris, o rio Sena inundou parques e ruas afetando o funcionamento dos serviços de transporte público como o metrô. A cheia do rio também provocou um curioso acontecimento arquitetônico. No dia 8 de fevereiro, a Louise-Catherine, uma embarcação de concreto, reformada por Le Corbusier, foi arrastada pelas águas turvas do Sena até atracar na parte baixa do rio próximo a Quai D'Austerlitz, no leste de Paris.
À medida que o nível das águas diminuía, a estrutura de concreto de mais de 100 anos acabou ficando presa no cais, inclinando-se de forma perigosa em relação ao rio, de acordo com Le Parisien. Ainda que os bombeiros estivessem presentes e tentassem salvar a histórica barca de concreto, ela inundou e afundou em questão de poucos minutos.
O argumento, elaborado pelo historiador de arquitetura Charles Jencks na introdução de seu novo livro Postmodern Design Complete, de que os estilos pós-modernos nunca realmente deixaram a arquitetura parece mais preciso que nunca. O movimento do final dos anos 1970 que começou como uma reação aos cânones utópicos do modernismo retomou fôlego dentro do campo profissional, definindo o momento presente na cultura arquitetônica.
Isso levanta uma importante questão: qual é o movimento atual da arquitetura? E o que veio na sequência do pós-modernismo? Se é que houve algo, foi um grito lamurioso de "chega de pós-moderno", seguido por uma onda recente de "salve o pós-moderno", muito bem exemplificada pela recente movimentação para preservar o edifício AT&T de Philip Johnson da remodelação proposta pelo Snøhetta. Até Norman Foster se pronunciou, dizendo que embora nunca tenha sido um entusiasta do movimento pós-moderno, compreender sua importância na história da arquitetura. O pós-modernismo está retornando com todas as suas citações e o espalhafato que lhe são característicos.
Projeto "Potteries Thinkbelt" de Cedric Price. Cortesia de Canadian Centre for Architecture
O trabalho recém-publicado de Samantha Hardingham, intituladoA Forward-Minded Retrospective: Cedric Price Works-1953-2003, traça um panorama da carreira do arquiteto através de uma coleção abrangente de seus desenhos e imagens. O exaustivo trabalho, composto por dois volumes, reconhece Cedric Price não apenas como a novidade divertida, como é frequentemente considerado, mas como uma grande mente que estava à frente de seu tempo. Embora a grande maioria do trabalho produzido durante sua vida nunca tenha sido construída, Hardingham identifica o gênio radical por trás de projetos como o complexo híbrido de escritórios "Officebar", um restaurante zoológico cujo interior livre de colunas abriu caminho para sua posterior ideia do habitat girafa, e muitos outros -- construídos e não-construídos.
Além da estranha previsão do futuro expressa em muitos dos trabalhos de Price, eles também são conhecidos por terem servido de inspiração para projetos funcionalistas de Renzo Piano e Richard Rogers, tornando-os necessários para uma compreensão completa do cânone da arquitetura moderna. Em um artigo publicado pela Metropolis Magazine, Samuel Medina faz um tour por algumas das mais intrigantes obras apresentadas no novo livro de Hardingham.
As tecnologias digitais deveriam, supostamente, acabar com o desenho. E de algum modo, elas fizeram isso, com o CAD tirando o desenho à mão de cena há muito tempo. Mas o desenho é mais do que mera delineação - desenhos construtivos em escala - ou mesmo renderização, que se converteu em uma mera ferramenta de marketing. Na verdade, como Sam Jacob escreve, o desenho constitui um "ato arquitetônico" fundamental que está no cerne da auto-compreensão da disciplina.
Jacob descreve um novo modo de desenho "pós-digital" que incorpora pistas narrativas, alusões históricas de arte e técnicas de colagem habilitadas por softwares. Lembra as perspectivas de um ponto de fuga de Mies e as pinturas metafísicas de Chirico, bem como a irreverência afetada do pós-modernismo. É um estilo popularizado por blogs como KoozA/rch, fundado pela arquiteta Federica Sofia Zambeletti há três anos. Conversamos com Zambeletti sobre o ressurgimento do desenho arquitetônico e como o estilo poderia em breve esgotar-se.