
A arquitetura continua a desenhar as cidades como se os seres humanos as ocupassem sozinhos. Plantas traçam rotas de circulação, mapas de zoneamento atribuem funções e edifícios são avaliados de acordo com o conforto, a segurança e a eficiência humana. Caminhar por cidades na Índia e no Sudoeste Asiático, no entanto, revela algo muito mais complexo. Cães dormem sob barracas de mercado, macacos transitam por telhados, pássaros fazem ninhos em torres de templos e fachadas de mesquitas, e insetos polinizam paisagens urbanas, ocultos à vista de todos. Essas espécies estão integradas à vida urbana cotidiana com a mesma regularidade que os/as ocupantes humanos. Ruas, pátios, telhados, sistemas de drenagem, mercados e lotes baldios já são ocupados por múltiplas espécies simultaneamente. O pensamento arquitetônico, contudo, tem sido mais lento em incorporar essa realidade.
Há mais de um século, o desenho urbano trata os animais, em grande medida, como problemas de infraestrutura ou preocupações ecológicas. Sua presença é discutida sob a ótica do saneamento, do conflito, da conservação ou da saúde pública. Raramente são vistos como ocupantes do espaço arquitetônico, embora milhões de animais circulem pelas mesmas ruas, soleiras, pátios, parques e edifícios que as pessoas. Apenas na Índia, estimativas oficiais apontam que a população de cães errantes ultrapassa dezessete milhões. Pesquisadores/as há muito argumentam que esses animais não são externos à vida urbana, mas profundamente integrados a ela, adaptando seu comportamento aos fluxos de trânsito, sistemas de resíduos, territórios de vizinhança e rotinas diárias humanas. A vida urbana emerge a partir de relações sobrepostas entre pessoas, animais, vegetação, sistemas de resíduos, redes de água e a forma construída.















