Borja Fernández

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Corrales y Molezún: arquitetura oniricamente racional

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Com José Antonio Corrales e Ramón Vázquez Molezún, repete-se uma situação bastante comum na arquitetura espanhola posterior a 1950: a falta de projeção internacional de talentos da arquitetura, em grande parte devido à ausência de teoria. Além disso, um caráter intrinsecamente misterioso e enigmático permeia sua obra, profundamente reforçado pela atitude de ambos em relação à própria produção. Nunca se detiveram a explicá-la. Jamais demonstraram interesse em dotá-la de fundamentação teórica. Tudo isso dificulta extraordinariamente a compreensão de sua arquitetura, deixando inúmeras perguntas sem resposta, abertas apenas à interpretação de quem se propõe a refleti-las.

Corrales e Molezún colaboraram desde 1952 em diversos projetos. Eram personalidades muito distintas. José Antonio costumava se definir como uma “pessoa mais rigorosa”, enquanto Ramón aproximava-se mais do “gaie”, dotado de um toque mais leve, quase romântico. A dupla poderia ser vista como a personificação dos dois hemisférios cerebrais: o esquerdo — visual, verbal, linear, controlado, dominante, quantitativo — em Corrales; e o direito — espacial, acústico, holístico, contemplativo, emocional, intuitivo — representando mais fielmente Molezún. Mais uma dupla para a longa história da criação: Dom Quixote e Sancho Pança, Sherlock Holmes e Dr. Watson...

Madri habitável: Arturo, o algoritmo projetado pelos cidadãos

O urbanismo, assim como qualquer outra doutrina ou ciência, busca o estudo empírico do planejamento e da ordenação das cidades e do território. Não apenas enfrenta os desafios de propor uma mobilidade ágil, projetar um tecido residencial acessível, disponibilizar áreas para as atividades econômicas ou resolver com eficiência o impacto energético e ambiental de tudo isso, mas também busca fazê-lo de modo que as cidades resultantes sejam o mais habitáveis possível. 

Arturo, em homenagem a Arturo Soria, é o nome de um algoritmo treinado por cidadãos e cidadãs e projetado para determinar quais variáveis urbanísticas tornam nossas cidades mais habitáveis. Assim como o próprio Arturo Soria, que já deixava clara sua preocupação com a habitabilidade em intervenções como a *Ciudad Lineal*, o algoritmo tem como objetivo transformar a habitabilidade em mais um parâmetro, em um dado objetivo. Para isso, necessita da opinião de milhares de pessoas para construir uma ideia precisa do que é a habitabilidade.

Carlo Scarpa, o arquiteto da água

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Desde a sua mais tenra idade, Carlo Scarpa, aquele que se tornaria um dos mais importantes arquitetos italianos de todos os tempos, tinha muito presente o elemento fundamental que descreveria e fundamentaria sua obra muitos anos depois: a água. Enquanto brincava e se divertia por entre aquele emaranhado de vielas e canais, Scarpa vivenciava todo um universo de informações, especialmente a riqueza de estímulos que sua cidade natal o oferecia. Sua enorme sensibilidade para com o espaço è fruto dos estímulos que lhe proporcionava Veneza, sua mais bela inspiração. Sua devoção pelo simples, pelo despretensioso, exatamente o contrário da exuberância, do cenográfico e ostensivo, vai sendo construída pouco a pouco; a arte, o espaço e a história estavam presentes em suas leituras, em sua viagem em direção ao conhecimento.

Carlo Scarpa desenvolveu sua arquitetura à partir de sua extraordinaria cultura visual e de seu respeito pela tradição; percorrendo as evidências do passado e reinterpretando-as à sua manera, transformando-as em espaço arquitetônico onde todas as peças são unidades independentes mas bem orquestradas, uma narrativa espacial que, como ele mesmo dizia, poderia ser interpretada como uma música. Utilizava toda sua sabedoria e sensibilidade para se posicionar em relação ao passado, às preexistências. Mergulhando na história e interpretando o passado, construía suas obras de modo que valorizassem o contexto onde estavam inseridas. 

Quando se quer traduzir uma ideia volátil, o desenho é indispensável

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A arquitetura não ilustra nem imita ideias nascidas da filosofia, da literatura, da pintura ou de qualquer outra forma de representação artística; mas, sim, constitui um modo de pensamento por direito próprio: o pensamento arquitetônico. Esse modo de discorrer, de fazer, necessita de suas próprias ferramentas como único meio para traduzir todas essas ideias em algo concreto, em algo real, capaz de se comunicar por si mesmo. Uma dessas ferramentas, talvez a mais indispensável, é o desenho.

RCR Arquitectes: território, paisagem e vida como um único relato imanente

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O arquipélago catalão está conformado, em quase toda sua extensão, por uma pequena serra que o acompanha crescendo desde a linha da costa, tangente ao mar, formando falésias, até as poucas dúzias de quilômetros que conformam sua máxima expressão.

A própria arquitetura desta porção costeira tende a ser catalogada, recorrentemente, como arquitetura catalã; obviando e contaminando a arquitetura própria de terra, escura, sombria, pesada. Uma arquitetura - a interior - de digestões lentas, de luz de fundo e ar imóvel, que soa diferente.

Ao noroeste, encontramos uma região onde as faias permanecem imóveis e crescem a uma altura inferior a qualquer outra área do país. Onde a luz é mais suave, turva, onde as sombras são mais tênues e mais profundas. Onde chove diferente. Onde se fala diferente. Onde os campos são diferentes. Aqui vivem. Aqui trabalham. Falamos de Olot. Falamos de RCR.

Como ver e fotografar a arquitetura

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Os seres humanos são “máquinas de ver”. Exceto no caso de quem não possui essa condição, os olhos são o nosso maior produtor de informação. Posteriormente, o cérebro de cada pessoa interpreta essas imagens conforme o caso… Não se deve confundir o "olhar" com o ato de "ver" algo. O olhar, uma resposta automática e passiva, deve se converter no ato de ver, de processar todos esses bits de informação em algo concreto, tangível. Sherlock Holmes observava o lóbulo de uma orelha a fim de deduzir um parentesco; Proust, a bainha de um vestido ou a nuca para compreender profundamente uma mulher… Onde se oculta o signo? Como saber, em uma imagem, seja ela verbal, visual ou sonora, qual é a parte significante e qual é o fundo neutro e vazio, o ruído que se deve descartar?

Nossos olhos são responsáveis por captar e absorver essa informação; nosso cérebro, por tratá-la e traduzi-la; mas é a fotografia, mais especificamente a nossa câmera, que consegue retê-la, congelando-a sob a forma de foto, para que, uma vez que nossos olhos tenham deixado de olhar, comecem a ver. Como dizia Le Corbusier, de forma simples, “é preciso ver o que se olha”.

Algumas considerações se você pensa em ser o/a autopromotor(a) do seu projeto

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Construir a própria casa. Este talvez seja um dos grandes desejos de muitas pessoas — não apenas de arquitetos e arquitetas, mas de qualquer um que queira ver materializada a imagem de sua casa dos sonhos. Outros, no entanto, encaram esse desejo sob a perspectiva do legado: frases como “esta casa foi construída pelo meu bisavô” são o leitmotiv que os move. Preservar a própria memória em forma de construção.

Contudo, é preciso lembrar os inconvenientes de ser o próprio promotor, de não depender do trabalho de nenhuma imobiliária. Um caminho árduo. É por isso que muitas pessoas abandonam esse sonho para evitar complicações, acabando por optar pela compra de um apartamento ou de uma casa.

Arquitetura bioclimática na Espanha: insustentavelmente sustentável

Qual é a diferença entre arquitetura sustentável e arquitetura bioclimática? Ambos os termos são frequentemente utilizados no setor, embora a base de onde surgem tenha sido descoberta muitos séculos antes (se nos referirmos à tradição vernacular da arquitetura) e os termos que os nomeiam tenham sido derivados do conceito de “desenvolvimento sustentável”, proposto pela primeira vez pela primeira-ministra norueguesa, Gro Brundtland, na 42ª sessão das Nações Unidas em 1987:

“O desenvolvimento é sustentável quando satisfaz as necessidades da presente geração sem comprometer a capacidade das futuras gerações para que satisfaçam suas próprias necessidades”

Mas qual é a diferença entre ambos? Digamos que são conceitos muito semelhantes, que variam apenas de acordo com os propósitos do/a arquiteto/a que os utiliza. Explico-me. O termo arquitetura sustentável, ou arquitetura verde, ou ecoarquitetura, ou arquitetura ambientalmente consciente... costuma ser utilizado por arquitetos/as que tentam refletir em sua obra uma base de noção climática, mas cujos únicos “gestos” são pouco influentes no que diz respeito à eficiência energética. Suas únicas preocupações acabam sendo mostrar que seu edifício é “eco-friendly” por meio de uma fachada verde ou, em vez disso, de uma cobertura verde. Na maioria dos casos, carecem de fundamentação em relação ao clima. No entanto, o segundo termo, arquitetura bioclimática (sem outros complementos), fundamenta sua razão de ser no clima. Não importa qual será a imagem final do edifício, pois todas as decisões de projeto nascem de um estudo prévio do clima — mais uma ferramenta de trabalho — e buscam seu reconhecimento e aproveitamento.

Sáenz de Oiza: uma volta de bicicleta

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O renomado arquiteto espanhol Sáenz de Oiza [1918 - 2000] era um ciclista fervoroso. Como ele próprio confessava, sua vida mudou completamente após se mudar com a família de Navarra para Madri para iniciar seus estudos na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Madri [E.T.S.A.M.], em meio a uma Espanha em efervescência política e social após o estopim da guerra civil em 1936. Com a morte de seu pai em 1938, coube a ele, de certa forma, o sustento da família. Essas lembranças e as dificuldades emocionais e financeiras de seus primeiros anos fizeram com que, após seu posterior sucesso como arquiteto, ele gastasse parte do patrimônio acumulado em caprichos materiais dos quais não pôde desfrutar na juventude: carros de luxo ou bicicletas, as quais gostava de colecionar.

Outra lembrança curiosa do arquiteto remete ao momento em que, após disputar uma corrida espontânea com um ciclista desconhecido no trajeto de volta de La Granja a Madri, o outro lhe perguntou na altura de Puerta de Hierro: “Escuta... Em que equipe você corre?”. Acabou-se descobrindo que o oponente misterioso era ninguém menos que Federico Ezquerra, um lendário ciclista basco. Aquele deve ter sido um momento muito gratificante para ele.

Uma nuvem de pontos dota o Palácio Real da Espanha de um modelo 3D quase milimétrico

Quais são as dimensões exatas do Palácio Real de Madri? Quantos cômodos ele possui? Quantas portas e janelas? Todas essas perguntas surgem da necessidade de obter uma resposta. Por isso, foi exatamente isto que o Patrimonio Nacional — instituição estatal da Espanha encarregada de administrar e preservar seus edifícios históricos — propôs: criar um modelo 3D preciso do palácio com o objetivo de gerar um registro digital unificado do estado interno e externo do edifício.

Utilizando a tecnologia da Leica Geosystems, foi criado um modelo "quase milimétrico" de seus espaços internos, fachadas e coberturas: todos os cantos dos dois subsolos e seis pavimentos que compõem o edifício, totalizando cerca de 137.500 metros quadrados de área construída que exigiram mais de 2.500 escaneamentos.

Uma nuvem de pontos dota o Palácio Real da Espanha de um modelo 3D quase milimétrico - Imagen 5 de 4Uma nuvem de pontos dota o Palácio Real da Espanha de um modelo 3D quase milimétrico - Imagen 8 de 4Uma nuvem de pontos dota o Palácio Real da Espanha de um modelo 3D quase milimétrico - Imagen 9 de 4Uma nuvem de pontos dota o Palácio Real da Espanha de um modelo 3D quase milimétrico - Imagen 10 de 4Uma nuvem de pontos dota o Palácio Real da Espanha de um modelo 3D quase milimétrico - Mais Imagens+ 6

O futuro dos Países Baixos: o método pôlder como solução

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Quando falamos de cidades como Amsterdã, inevitavelmente nos lembramos daquela rede de canais, de ruas entremeadas por água. E a água é, de certa forma, um dos desafios mais célebres enfrentados por essa cidade. Com 60% de seu território abaixo do nível do mar, as mudanças climáticas (e a consequente elevação do nível dos mares e rios) são uma questão de sobrevivência não apenas para ela, mas para todo o país.

Estes são os vencedores do projeto de reabilitação do frontão Beti-Jai em Madri

Na última quinta-feira, 22 de novembro, o júri convocado pela Prefeitura de Madri, em parceria com o Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid (COAM), anunciou os resultados do concurso de reabilitação do histórico Frontão Beti-Jai de Madri, Espanha.

O concurso abriu inscrições em junho deste ano, recebendo um total de 73 propostas para a intervenção no emblemático edifício. O objetivo era selecionar a melhor proposta que compatibilizasse a preservação dos valores patrimoniais do edifício (declarado Bem de Interesse Cultural) com as soluções técnicas mais adequadas para seus possíveis usos esportivos e culturais.

Confira os resultados a seguir:

Le Corbusier e a linguagem da cor

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Quando falamos de Le Corbusier, parte de sua obra, sobretudo as primeiras vilas nas quais trabalhou em estreita colaboração com Pierre Jeanneret, ficou conhecida pelo nome de “Villas Brancas”. É curioso que essa cor, o branco, seja associada ao nome de Le Corbusier, sem que ele possua, como ocorre com alguns pintores, uma fase “azul” como Picasso ou uma fase “de ouro” como Klint.

Quando e por que foi cunhado o termo “Villas Brancas” de Le Corbusier? Seria possível que a brancura de seus edifícios tenha sido malinterpretada, assim como ocorre com a arte grega? Essa brancura foi uma ideia muito útil para consolidar as bases do neoclassicismo em sua época, mas totalmente distante da rica paleta de cores de que desfrutavam tais obras no período helênico.

O frontão Beti-Jai, um sacrifício arquitetônico em Madri

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Quando se projeta um edifício, um pensamento recorrente costuma ser o de quanto tempo ele durará. Afinal, uma vez concluída a construção do edifício e abertas as suas portas a quem o utiliza, inicia-se a sua vida útil e, pouco a pouco, constrói-se o seu legado. Entra em jogo, então, a questão de como ele será lembrado, de qual será a marca desse edifício em nossas lembranças: memória arquitetônica. E, assim como a memória humana, a arquitetônica é caprichosa. Os edifícios são esquecidos da mesma forma que esquecemos nossas próprias lembranças.

A arquitetura madrilenha faz bom uso da memória. Estilos próprios de sua arquitetura mais histórica continuam de pé hoje e em pleno funcionamento. O neomudéjar, por exemplo, consolidou-se no final do século XIX, e hoje são muitos os exemplos latentes que continuam sendo epicentros da cidade, abrigando usos como hospitais, universidades, colégios, asilos, centros culturais ou museus.

Enric Miralles ou como acessar os edifícios

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A maioria dos/as arquitetos/as costuma começar a explicação de seus projetos apontando o local por onde se entra neles. "Entra-se por aqui", costumam dizer. Como se, antes de entrar, nada tivesse acontecido ou nada existisse. Como se a vida do/a usuário/a, ou a do próprio edifício, começasse naquele lugar que muitos pensam separar o exterior do interior. Uma estranha concepção do tempo.

Enric Miralles fazia uma observação interessante sobre isso: não se trata de entrar, mas de acessar; algo que depois também será marginalizado. Devemos supor que, na arquitetura, acessar quer dizer: “entrar em um lugar ou passar para ele”, como o dicionário explica. No entanto, também encontramos outras interpretações mais interessantes, como “ter acesso a uma situação, condição ou grau superior; chegar a alcançá-lo”, que fazem com que o ato de acessar se revista de significados e de tempo.