“Sobre o crescimento e a forma”, obra escrita pelo biólogo e matemático D’Arcy Wentworth Thompson [1860-1948], é considerada a maior obra em prosa da ciência do século XX, destacando o papel da física e da mecânica na determinação da forma e da estrutura dos organismos. O livro tornou-se imediatamente uma obra clásica para a exploração de geometrias naturais na dinâmica do crescimento e dos processos físicos. Thompson se revela um grande cientista, sensível ao fascínio e à beleza do mundo natural, com um estilo que levou a imprensa especializada a qualificar sua obra como «tão boa literatura quanto ciência; um discurso sobre a ciência como se tratasse de uma questão da humanidade».
Após um ano de trabalho em Sintra [Portugal] — localidade declarada Patrimônio da UNESCO desde 1998 por seu extraordinário patrimônio arquitetônico e natural —, que conta com 30 mil habitantes e recebe mais de 3 milhões de turistas por ano, chega até nós o novo documentário 'FASCÍNIO', realizado pelo Left Hand Rotation e produzido pela Criaatividade Cósmica para o 'Festival Aura 2019'.
Sintra, um lugar de grande visibilidade midiática por sua arquitetura, encontra-se nos últimos anos em um processo de turistificação, como indicam seus números. É uma localidade cujo centro praticamente não possui mais residentes, em prol do turismo de massa. O documentário, realizado com um claro tom de denúncia urbana e social, será apresentado na próxima edição do 'Festival Aura 2019', a quinta do evento, que será realizada de 1 a 4 de agosto deste ano.
O departamento de Conservação e Restauro da Alhambra de Granada trabalha na área do muro da ravina de Fuentepeña, situado no setor conhecido como ‘Cuesta del Rey Chico’, para consolidar um dos trechos que desabaram na madrugada da última sexta-feira, 8 de fevereiro.
A informação foi divulgada pelo Patronato da Alhambra e do Generalife em sua conta oficial no Twitter. Segundo detalhou o diretor do órgão, Reynaldo Fernández Manzano, o muro foi erguido em 1915 pelo arquiteto e conservador da Alhambra, Modesto Cendoya. O muro foi construído com materiais muito precários que, com o passar do tempo, acabaram se deteriorando de forma gradual. Por essa razão, a demolição e reconstrução da estrutura já estavam previstas. Diante do desabamento repentino, o serviço de Conservação e Proteção irá reconstruí-lo com os materiais originais em uma primeira fase para, posteriormente, realizar o projeto integral.
O livro é mais uma ferramenta de projeto, indispensável para muitos, mas de utilidade limitada para outros. Ao falar de livros, não me refiro ao pensamento recorrente associado à literatura de ficção (romance, poesia, narrativa...), que também é proveitosa dentro do abstrato e difuso processo de projeto. Enric Miralles, por exemplo, costumava recorrer a versos de Lorca ou à parafernália de Queneau no momento de fundamentar suas intuições projetuais primitivas. No entanto, não me refiro a esse tipo de leitura, igualmente recomendada, mas sim àquela própria do nosso campo profissional, do nosso olhar peculiar e apurado. O/A arquiteto/a busca inspiração nos livros, mas é apenas ao refletir seu pensamento no papel que revela sua verdadeira e intangível natureza.
Qualquer arquiteto/a tem a sorte de contar com uma grande variedade de subgêneros no papel. Desde profundas reflexões sobre a disciplina em obras escritas até volumes ilustrados com imagens de arquitetura, detalhes construtivos, planimetrias, etc. Somos feitos daquilo que vemos, isso é inegável. Por isso, todo esse repertório nos acompanha no processo de projeto, surgindo de forma espontânea à medida que enfrentamos os desafios que ele nos impõ. O simples recurso a um livro pode abrir portas nesse percurso de projeto, da mesma forma que pode fechar outras. Mover-se por intuição, mas sempre sob a orientação de uma diretriz já estabelecida desde o início. Buscar referências externas em livros, revistas... é um exercício complexo no início, no qual o canto da sereia de múltiplas fontes pode nos desviar do caminho. Saber escolher essas referências, essas diretrizes iniciais, indicará um caminho viável no qual o projeto se mostrará mais dócil, mais acessível e muito mais permeável a futuras modificações.
Após receber 216 propostas de 39 países, o concurso internacional de ideias ‘Viewpoint of the Fjords’ (VOF), organizado pela arquideas, divulgou os projetos vencedores. O VOF busca proporcionar um novo espaço de contemplação para visitantes, localizando-se no entorno do fiorde Geirangerfjord, na região próxima a Homlungsaetra, na Noruega. A competição busca fomentar valores como a implantação adequada na paisagem, além de critérios de sustentabilidade e aproveitamento energético.
O júri foi composto por Peter L. Wilson, Atxu Amann, Magüi González, Svein Lund e pelos/as quatro vencedores/as do concurso anterior da arquideas (BaBH San Francisco). Após uma primeira fase de avaliação, na qual se destacaram 15 propostas finalistas, foi necessária uma segunda etapa de julgamento para, finalmente, selecionar as 5 menções honrosas e as 3 propostas vencedoras.
A realidade de 32 famílias deu uma guinada — literalmente — quando as moradias que ocupavam nos anos 1980 se tornaram, em 2009, uma atração turística oficial. Parte dos moradores decidiu aproveitar a circunstância realizando pequenos tours por suas residências. No entanto, apesar de todo o fluxo de turistas que costuma lotar o local, a comunidade de vizinhos permanece tão unida quanto seus cubos.
Curioso, inquieto e tenaz, Miguel Fisac [1913-2006] aprendeu fazendo. Fascinado pela tecnologia e pela construção, sua experiência direta em obra supriu tudo o que nem a universidade nem os livros foram capazes de lhe ensinar ou transmitir. Com um início que poderia ser rotulado como "academicista", em poucos anos o arquiteto de Ciudad Real consegue se desprender dessa atitude para recorrer sucessivamente a alvenarias de traçados orgânicos ou vigas de lógica óssea. Tudo isso fundamentado em um empenho intrínseco e pessoal de fazer uma arquitetura humanizada e sintonizada com a técnica.
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Serpentine Gallery Pavilion 2017 / Francis Kéré. Imagem
O Museu ICO (Madri) decidiu prorrogar Francis Kéré. Elementos primários, a primeira exposição na Espanha do arquiteto nascido em Burkina Faso e formado na Alemanha. Originalmente programada para terminar no último domingo, 20 de janeiro, a instituição reagendou o encerramento da mostra para o domingo, 3 de fevereiro.
Situamo-nos na Madri dos anos 80. Concretamente na Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Madrid [E.T.S.A.M.], uma universidade à sombra da de Barcelona, cidade otimista em relação às transformações urbanas. Uma cidade que confiou em seus/suas arquitetos/as, estimulando sua participação na reconstrução da própria identidade. Enquanto isso, a cidade de Madri parecia se ativar a partir de outras perspectivas. Esta estimulava outros setores artísticos, deixando os/as jovens arquitetos/as sem muitas possibilidades para exteriorizar seu entusiasmo compartilhado. Iñaki Ábalos e Juan Herreros pertenciam a essa geração madrilenha. Eles, como tantos/as outros/as, tiveram que esperar e traçar estratégias intelectuais para definir esses novos limites profissionais e territoriais que reconstruiriam a Madri do futuro.
A obra de Ábalos & Herreros não é apenas um exercício virtuoso de superfícies e técnicas construtivas, mas soma a isso o estabelecimento de mesclas, de conexões e relações espaciais. Estabelecer vínculos que façam dialogar todas as peças: o existente com o novo, as pessoas e os objetos, o edifício e a paisagem, etc. Sua arquitetura recolhe o legado da Modernidade para traduzir seus gestos em algo, talvez novo e inovador para um/a observador/a menos atento/a, embora intrinsecamente carregado de toda a experiência tecnológica acumulada durante o século XX. Fazem tudo isso de uma forma ilustrativamente modesta, propondo-se a resolver os problemas de sempre de uma maneira diferente. A sua não é uma arquitetura revolucionária nem radical — entendendo esta última palavra sob o ponto de vista de querer romper com uma totalidade. Não existem origens, mas sim achados em seu caminho. Reconsideram-se tópicos estabelecidos, utilizam-se tecnologias, materiais, gestos e formas que, por razões diversas, continuam armazenados nos arquivos de ideias de muitos/as que ainda não souberam como implementá-los de maneira engenhosa e criativa.
A vertente historicamente expressionista na arquitetura nasce após o desastre humano e social herdado da Primeira Guerra Mundial. Uma guerra enlameada, fétida, de ínfimo valor humano, que espalhou seus estragos por toda a Europa, parte da Ásia e EUA. No entanto, o território mais funestamente desolado foi, sem dúvida, o alemão, onde ela não apenas deixou uma crise econômica e de infraestrutura, mas também perturbou o pensamento de toda uma sociedade. Uma grande depressão emocional. Por essa razão, a luz do expressionismo era tão necessária. A cor, o retorno à natureza, a crueza da reta ao lado da delicadeza da curva, as arestas vivas, texturas, jogos formais... Uma nova linguagem. Uma nova dialética para expressar o olhar sobre o mundo.
Hans Scharoun [1893-1972] bebeu dessa linguagem. Ele, junto a muitos de seus contemporâneos —Mies, Taut, Mendelsohn ou o próprio Häring— formou-se no clima expressionista vivido na Alemanha do pós-guerra, sob a direção de Poelzig e sua Escola de Breslau. Esse expressionismo surge pela primeira vez em uma série de aquarelas que ele enviou para a “Gläserne Kette” (“Corrente de Cristal”), a famosa correspondência entre arquitetos/as e artistas da Alemanha da época. Idealizada originalmente por Bruno Taut, essa correspondência servia como meio de comunicação entre os membros do grupo. Nas cartas, libertos dos limites da viabilidade, os membros descreviam suas visões de uma sociedade ideal e de uma arquitetura benéfica.
O projeto, conhecido como Welcome Mother Nature, busca criar uma grande área verde no centro da cidade, recuperando a identidade de “praça”, perdida há muito tempo por ter se tornado, basicamente, um espaço de circulação. A proposta enfatiza a definição de praça como um "lugar social de expressão, de confluência e de liberdade". O desenvolvimento do projeto tem como objetivo prioritário criar um espaço no qual "seja fácil somar vivências cidadãs", gerando, com isso, um novo pulmão para uma cidade que vive sob uma persistente nuvem de poluição.
Poucos nomes se ajustam tanto ao rótulo de “escritor de culto” quanto Raymond Queneau, que conta com uma minoria fanática de seguidores, quase militantes da causa: a literatura como um jogo muito sério. À primeira vista, e mesmo em uma leitura menos atenta, Exercícios de Estilo, escrito pelo francês em 1949, revela-se radicalmente diferente de uma obra literária convencional. O livro se situa, ou finge se situar, em uma espécie de terra de ninguém entre a teoria e a prática literárias, transmitindo a impressão de ter sido elaborado com base nos capítulos de um manual de estilística. Queneau rejeita qualquer esquema prévio que pudesse organizar os “exercícios” em agrupamentos temáticos, por sua complexidade gradual ou, simplesmente, por ordem alfabética. Ele sequer trabalha sobre um mesmo fragmento de partida. Em alguns momentos, prefere-se o mero jogo mecânico de transformação textual para alcançar uma sensação de puro absurdo.
Não é de surpreender que este livro de sete décadas atrás continue parecendo revolucionário e seja considerado um manual indispensável em todas as faculdades de letras. O que Queneau nos ensinou na época, essa liberdade criativa quase debochada, é algo ainda difícil de igualar hoje em dia. Por isso, esse exercício de variação, de não impor limites à imaginação, é e deve ser compatível com o trabalho com maquetes arquitetônicas. O que Queneau nos ensinava, partiendo de um texto irrelevante e transformando-o até 99 vezes, é o mesmo que qualquer arquiteto/a deveria tentar traduzir em seu trabalho com maquetes. A arte da variação e da acumulação. “Diferença e repetição”, como diria Gilles Deleuze. Trabalhar 99 vezes sobre uma mesma ideia, vê-la mudar até, em dado momento, saber enxergar nela a sua própria síntese.
Expansão viária de Nova York, segundo Mourner. Image
As cidades são realidades informes e mutáveis, que se expandem de forma caprichosa, movidas por tendências sociourbanas e socioeconômicas. Mas será que é possível prever quais são essas tendências de crescimento? Apresentamos uma ferramenta que permite analisar a estrutura viária e calcular qual porcentagem de vias está disposta em uma determinada orientação em relação ao norte.
Juan Navarro Baldeweg gostava de imaginar sua obra dentro de uma sala onírica, onde as silhuetas de seus edifícios são percebidas recortadas sobre um horizonte de fugas visuais e em cujo centro de confluência encontra-se o espectador. Ambicionando, além disso, que suas exposições, se não antológicas, sejam pelo menos acumulativas, convidando o espectador a vagar e traçar, entre suas peças, trajetos afins que as encadeiam como elos de um mesmo meio expressivo ou de diferentes gestos formais.
Diante da retidão das atitudes classicistas e da síntesis moderna em torno das linguagens artísticas, Navarro Baldeweg, para o desconhecimento de muitos, defende o cultivo simultâneo de diversas disciplinas, às vezes contrapostas, e distintas artes. Um mover-se sem preferências nem fronteiras no amplo espectro das práticas artísticas que, em seu momento, prenunciava procedimentos hoje amplamente difundidos, como o nomadismo e as poéticas do “entre”. Esse nomadismo não nasce de uma atitude oportunista, mas sim de um impulso criador, de um olho inquieto, de um olhar educado… Em suma, do trabalho de um artista total.
O polêmico “imposto do sol”, medida implantada há alguns anos pelo governo espanhol, deixa de existir no cenário local graças ao novo Real Decreto-Lei 15/2018 de transição energética aprovado pelo Conselho de Ministros, em um contexto no qual a Espanha está longe de cumprir as metas estabelecidas pela União Europeia para o setor.
Entre outras medidas, o referido Real Decreto estabelece o direito ao autoconsumo de energia elétrica sem encargos; reconhece o direito ao consumo compartilhado (por várias pessoas usuárias utilizando uma mesma instalação); simplifica os trâmites administrativos; prevê a moderação das tarifas de energia elétrica; e estabelece medidas para incentivar os veículos elétricos.
A Generalitat da Catalunha, que aprovou a modificação do Plano Geral Metropolitano, propôs uma nova medida pela qual 30% das habitações em novos empreendimentos residenciais e grandes reformas de edifícios em Barcelona deverão ser destinadas à habitação social.
Essa mudança na regulamentação é respaldada pela Lei do Direito à Moradia de 2007, que já previa a possibilidade de reservar cotas de habitação de interesse social no tecido urbano. Com base nessa legislação, o conselheiro de Território e Sustentabilidade da Generalitat, Damià Calvet, e a prefeita de Barcelona, Ada Colau, explicaram que a Subcomissão de Urbanismo alterou uma disposição adicional que detalha o período de transição para a aplicação da nova norma.
A família de José Antonio Coderch [1913-1984] entregou o importante acervo do arquiteto catalão ao Museu Reina Sofía de Madri. Com isso, o famoso museu madrilenho busca seguir o caminho iniciado por outros museus de arte contemporânea, como o MoMA de Nova York ou o Pompidou de Paris. Essas instituições já contavam com departamentos voltados ao universo da arquitetura, razão pela qual o Reina Sofía tem como objetivo ampliar seu acervo, abrangendo tanto movimentos arquitetônicos quanto profissionais que marcaram a arte da construção. Toda essa iniciativa vem sendo promovida, há alguns anos, sob a direção de Manuel Borja-Villel à frente do museu.
O arquivo, que se encontrava em um depósito na residência de um dos filhos de Coderch, é composto por 9.800 documentos, organizados em 875 pastas e datados entre 1941 e 1978. Nele, estão incluídos plantas e croquis de seus projetos arquitetônicos; desenhos, fotografias e clichês de suas obras, além de fotos de família; correspondência profissional; faturas e recibos de cada projeto, bem como revistas, livros, publicações e maquetes; retratos do arquiteto, alguns de seus inúmeros prêmios e objetos pessoais.
O modelo de habitação social parece uma utopia atualmente na Espanha. Sob o domínio de incorporadoras e imobiliárias, o país se vê imerso em uma política de Estado que não atende — nem nunca atendeu — ao problema da moradia.
Ao longo dos anos, promoveu-se a ideia de que alugar um imóvel era quase um crime, um desperdício de dinheiro que poderia ser investido na compra da casa própria. Boas-vindas ao maravilhoso mundo da especulação imobiliária. Com aluguéis abusivos, cujos preços são estipulados por imobiliárias ou particulares, sem qualquer tipo de regulação estatal ou provincial que os controle, o próprio sistema empurra a população a contrair hipotecas e a alimentar a incorporação privada. Se na década de 1950 mais de 50% das moradias na Espanha eram alugadas, esses números hoje estão muito distantes do declínio progressivo que nos trouxe ao cenário atual: quase 80% dos imóveis hoje são próprios, reduzindo a apenas 20% o total de habitações sob regime de aluguel.