
O sistema de transporte coletivo nas grandes cidades brasileiras já estava em crise anterior à pandemia do coronavírus. Operadores de transporte viram a demanda de passageiros cair gradualmente ao longo das últimas décadas, em um cenário envolvendo múltiplos fatores como: políticas urbanas incentivando o uso do transporte individual; espraiamento urbano, perdendo ganhos de escala no atendimento de periferias; congestionamentos crescentes; rotas cada vez mais defasadas em relação aos padrões de deslocamento das cidades; a exigência crescente de transferências/baldeações nas rotas realizadas pelos passageiros; a depreciação das frotas e da qualidade de serviço; o aumento da renda da população, com a adoção de alternativas como o automóvel individual, a motocicleta e, ainda, serviços de transporte individual por aplicativo; e, acima de tudo, tarifas de transporte coletivo cada vez mais altas.
A pandemia do coronavírus exacerbou essa tendência em um grau significativo, com uma queda abrupta na demanda pelo transporte coletivo. Em nota publicada em abril de 2020, a Associação Nacional de Empresas de Transporte (NTU) afirmou que “A redução média identificada foi da ordem de 80% na quantidade de passageiros transportados. Estima-se que em todo o país, 32 milhões de passageiros deixaram de ser transportados diariamente.” Além das medidas exclusivamente ligadas à higiene, como a exigência do uso de máscaras pelos passageiros e a circulação com janelas abertas, diferentes medidas foram tomadas em relação à operação, desde a restrição tanto do número de passageiros por veículo, impactando de forma ainda mais negativa na sustentabilidade operacional, assim como a eliminação temporária das gratuidades e a redução do número de linhas e da frequência de ônibus em circulação, na tentativa de aliviar os custos operacionais durante o período de pandemia.

