
As convicções isoladas, fortes como sejam, não podem fazer uma revolução nas artes. Se hoje em dia nós procuramos reatar aqueles fios quebrados, apanhar num passado que nos pertence em propriedade os elementos de uma arte contemporânea, que não seja em prol do gosto de tal ou tal artista ou de uma confraria; nós não estamos ao contrário mais que dos instrumentos dóceis dos gostos e das ideias de nosso tempo, e é assim por isso que temos fé em nossos estudos e que a descoragem não nos alcançará. Não somos nós que redirecionamos as artes da nossa época, é nossa época que nos arrasta..... Para onde? Quem sabe! É preciso ao menos que nós preenchamos do nosso melhor a tarefa que nos é imposta pelas tendências do tempo em que vivemos. Esses esforços, é verdade, não podem ser mais que limitados, já que a vida do homem não é bastante longa para permitir ao arquiteto abraçar um conjunto de trabalhos ao mesmo tempo intelectuais e materiais; o arquiteto não é nem pode ser mais que uma parte de um todo: ele começa aquilo que outros conquistaram, ou termina aquilo que outros começaram; ele não saberia então trabalhar em isolamento, já que sua obra não lhe pertence em propriedade, como o quadro ao pintor, o poema ao poeta. O arquiteto que pretenda impor sozinho uma arte a toda sua época fará um ato de insigne tolice.
Ao estudar a arquitetura da idade média, ao buscar difundir esse estudo, devemos declarar altamente que nossa meta não é fazer retrogradar os artistas, fornecer-lhes os elementos de uma arte olvidada, para que sejam retomados tais quais, e aplicados sem razão aos edifícios do século XIX; essa extravagância pode nos ser reprochada, mas felizmente ela jamais foi a meta de nossas pesquisas, a consequência de nossos princípios. Poderíamos fazer as cópias mais ou menos felizes dos edifícios anteriores ao século XVI; essas tentativas não devem ser consideradas mais que como ensaios destinados a recuperar os elementos de uma arte perdida, não como o resultado ao qual deve tender nossa arquitetura moderna. Se consideramos o estudo da arquitetura da idade média como útil, e podemos fomentar pouco a pouco uma feliz revolução nas artes, não é seguramente para obter obras sem originalidade, sem estilo, para ver reproduzir sem escolha, e como uma forma muda, monumentos notáveis sobretudo por causa do princípio que os ergueu; mas é ao contrário para que esse princípio seja conhecido, e que possa dar frutos hoje como produziu durante os séculos XII e XIII. Supondo que um arquiteto daquelas épocas reaparecesse entre nós, com suas fórmulas e princípios aos quais ele obedecia a seu tempo, e que ele pudesse ser iniciado a nossas ideias modernas, se colocássemos a sua disposição os aperfeiçoamentos aportados na indústria, ele não construiria um edifício do tempo de Philippe-Auguste ou de saint Louis, porque ele falsearia a primeira lei de sua arte, que é de se ajustar às necessidades e costumes do momentos, de ser racional. Jamais provavelmente recursos tão fecundos foram oferecidos aos arquitetos: os executantes são numerosos, inteligentes e hábeis com a mão; a indústria chegou a um grau de potência que nunca havia alcançado. O que falta a tudo isso, é uma alma; aquele princípio vivificante que rende toda obra de arte respeitável, que faz que o artista possa opor a razão às fantasias amiúde ridículas dos particulares ou das autoridades pouco competentes, muito dispostos a considerar a arte como uma superfluidade, um assunto de capricho ou moda. Para que o artista respeite sua obra, é preciso que ela haja sido concebida com a convicção íntima que essa obra emana de um princípio verdadeiro, baseado sobre as regras do bom senso: o gosto, frequentemente, não é outra coisa, e para o artista seja respeitado ele mesmo, é preciso que essa convicção não possa ser posta em dúvida: ora, como supor que se respeitará o artista que, submisso a todas as puerilidades de um amador fantasioso, construirá para ele, seguindo o capricho do momento, uma mansão chinesa, árabe, gótica, ou da renascença? Que devém o artista em meio a tudo isso? Não é o alfaiate que nos veste seguindo nossa fantasia, mas que não é nada por si mesmo, não tem nem pode ter nem preferência, nem gosto próprio, nem aquilo que constitui antes de tudo o artista criador, a iniciativa? Mas o estudo de uma arquitetura em que a forma é submissa a um princípio, como o corpo é submisso à inteligência, para não restar estéril, não saberia ser incompleto ou superficial. Nós não tememos em dizer, isso que muito retardou os desenvolvimentos da renascença de nossa arquitetura nacional, renascença da que se deve tirar proveito para o futuro, é o zelo mal dirigido, o conhecimento imperfeito de uma arte na qual muitos não veem mais que uma forma original e sedutora sem apreciar o fundo. Vimos surgir assim pálidas cópias de um corpo cuja alma é ausente. Os arqueólogos, ao descrever e classificar as formas, não eram sempre arquitetos práticos, nem podiam falar mais que daquilo que golpeava seus olhos; mas o conhecimento do porquê deviam necessariamente faltar a essas classificações puramente materiais, e o bom senso público é encontrado justamente chocado à vista de reproduções de uma arte da que não se compreendia a razão de ser, que parecia um jogo bom no máximo para entreter alguns espíritos curiosos de velharias, mas com a prática da qual deveria bem cuidar de se engajar. É que em efeito, se há uma arte séria que deva sempre ser escrava da razão e do bom senso, é a arquitetura. Suas leis fundamentais são as mesmas em todos os países e em todos os tempos: a primeira condição do gosto em arquitetura, é de ser submisso a essas leis; e os artistas que, após haver condenado as imitações contemporâneas de templos romanos nos quais não se podia recuperar nem o sopro inspirador que as ergueu, nem os pontos de conexão com nossos hábitos e nossas necessidades, estão postos a construir esses pastiches de formas romanas ou góticas, sem render contas dos motivos que fizeram adotar essas formas, não fazem mais que perpetuar de uma maneira muito grosseira os erros contra os quais eles eram erguidos.
