
Em uma condição de crescente sobreposição entre o digital e o físico, o limiar do real está sendo expandido por um vasto conjunto de aplicativos e plataformas que, como uma infraestrutura conectada e conectora, manipulam as cidades e seus/suas habitantes em uma constante troca de dados. Por sua vez, esse fenômeno invade e ultrapassa progressivamente o conjunto de referências de que dispomos para descrever a condição urbana. Quem utiliza esses sistemas — hoje em uma posição ativa de produção do ambiente humano — provavelmente perderá sua agência física e se tornará produtora de dados, no que Federico Ruberto descreve como a esquizofrenia digital da cidade de amanhã. Por meio de referências filosóficas, artísticas e cinematográficas, projeta-se uma série de cenários, investigando quais seriam os limites para as infraestruturas digitais e quais ferramentas poderíamos empregar para manipulá-las.
Para a Bienal de Urbanismo\Arquitetura de Shenzhen (UABB) de 2019, intitulada "Interações Urbanas" (21 de dezembro de 2019 a 8 de março de 2020), o ArchDaily está colaborando com a curadoria da seção "Eyes of the City" para estimular um debate sobre como as novas tecnologias podem impactar a arquitetura e a vida urbana. A contribuição a seguir faz parte de uma série de ensaios científicos selecionados por meio da chamada de trabalhos "Eyes of the City", lançada em preparação para as exposições: solicitou-se a pesquisadores/as internacionais que enviassem suas reflexões em resposta à declaração desenvolvida pela equipe curatorial de Carlo Ratti Associati, Politecnico di Torino e SCUT, que você pode ler aqui.
[CIDADES PÓS-DIGITAIS] O que é uma “cidade”? A perspectiva mereológica de Achille Varzi define as cidades como “não objetos permanentes; elas são processos” [1]. Para Varzi, assim como para nós, não há dualismo entre a essência física e a ideal (analógica e digital) de uma cidade: a cidade é um processo que incorpora diferentes cidades e tempos; um conjunto transfinito implícito e explícito. A topologia densa da “cidade” é uma “profundidade” infinita, aumentada e acessível de diferentes maneiras por meio de aplicativos. Fragmentos de sua “infinitude” explícita são visíveis fisicamente, mas a infinitude que nos interessa é a implícita: trata-se da “Cidade em Toda Parte” [2], a infraestrutura conectada/conectora que interfere de forma diferenciada em múltiplas partes da cidade, o espaço latente que extrai e manipula dados [3]. A “cidade” como uma cosmo-polí(tica) é potencialmente infinita — na verdade, já o é —, embora seu potencial seja fragmentado, implícita e explicitamente, de múltiplas formas por investimentos privados e regimes de propriedade opacos ("black-boxed"). A “cidade” pós-digital (estruturada por aprendizado de máquina) é radicalmente diferente das formas urbanas anteriores devido à transformação no modo como “vemos as coisas”. Jonathan Crary, em “Técnicas do Observador”, escreve que “as imagens visuais já não têm qualquer referência a quem observa em um mundo ‘real’, opticamente percebido” [4]. O que Crary descreve é a topologia anterior do atual paradigma hiperdigital. Não existe mais uma única cidade-objeto (ou objetiva), pois a “cidade” é lida e mapeada por “olhos” que vagam por seus espaços latentes, decifrando sua fibrosidade digital e sintetizando suas formas. A realidade da cidade é superavitária, infinitamente aumentada. Isso traz implicações ontológicas, estéticas e éticas: não há uma única “natureza”, forma, identidade ou “imagem da cidade”, uma vez que sua própria natureza é fruto de uma contínua construção virtual. A essência da cidade é sua espectralidade em camadas, vivenciada de maneira ubíqua por consumidores/as-produtores/as em imersões profundas. Aplicativos e plataformas operam ininterruptamente nessa construção, conectados por miríades de dispositivos digitais que vinculam ações físicas a digitais, moldando simultaneamente a “cidade” e a “nós”. A “cidade” próxima será de profundidade real: multidões de agentes com dispositivos de ampliação multissensorial criarão séries de imersões híbridas [5]. A realidade experiencial será híbrida: “eventos” físicos interagindo de forma causal, ou não causal, com eventos digitais. As interpolações de agentes e eventos serão realizadas massivamente por máquinas digitais. A “realidade” resultará de traduções em tempo real entre o digital e o físico, em ciclos de retroalimentação de consultas por protocolos de aprendizado de máquina, que se reajustam silenciosamente e reparametrizam os espaços latentes. Corpos-dispositivos-sensores, a santíssima trindade localizada, alimentarão e serão alimentados por algoritmos, avaliando, filtrando e aumentando o que constitui o “mundo”. O “SLAM” (localização e mapeamento simultâneos) estará alimentando experiências físicas com eventos digitais curados. As experiências serão (como já são) armazenadas externamente como dados performados, mantidas em hubs deslocalizados junto a milhões de outras para serem manipuladas no futuro, analisadas e filtradas por algoritmos projetados para "aprender" ao varrer reiteradamente bancos de dados, buscando correlações e distorcendo parâmetros: criando novas chaves para a realidade e forjando condições para o surgimento de novas realidades mistas. A realidade consistirá em experiências multilineares: ações, interfaces de dispositivos de ampliação e algoritmos de aprendizado de máquina que leem fisicalidades presentes e fornecem a elas pares digitais opcionais e otimizados, criando eventos em espaços híbridos, tanto digitais quanto físicos. Em breve, deixará de fazer sentido falar sobre a "cidade" e sua divisão físico/digital. A cidade como "eventos" logo passará a existir sob a forma de cadeias causais e não causais de díades físico-digitais. A multilinearidade e o desenrolar não totalmente causal das experiências desencadearão a transformação radical e total das narrativas urbanas (pré-modernas, modernas e pós-modernas).
