Rumo a uma nova normalidade com menos desigualdade urbana no Peru

Rumo a um novo normal com menos desigualdade urbana é uma petição dirigida aos diferentes níveis de governo do Estado peruano – a Presidência do Conselho de Ministros, as Prefeituras Provinciais, os Ministérios, as Prefeituras Distritais e os Governos Regionais – que busca chamar a atenção e denunciar a situação atual enfrentada pelas diferentes cidades do território. Por meio do documento, as pessoas signatárias manifestam sua preocupação e solicitam que sejam tomadas ações prioritárias e estruturais para melhorar as condições de vida de todos os cidadãos e cidadãs do Peru.

A petição destaca que é necessário adotar medidas concretas e imediatas para solucionar a atual situação de emergência — decorrente da pandemia — e, ao mesmo tempo, iniciar as profundas mudanças que o país historicamente exige. Dessa forma, busca-se consolidar um sistema que aproveite as potencialidades e riquezas de cada região nos aspectos econômico, produtivo, social, cultural e ambiental para fortalecer, sob uma perspectiva territorial, o processo de integração e descentralização exigido pelo país, ajudando a mitigar os impactos socioeconômicos da crise.

A pandemia está evidenciando a enorme desigualdade no Peru e as condições precárias nas quais vive a maior parte dos peruanos: sem acesso de qualidade a água e esgoto; em moradias superlotadas e precárias, carentes de espaços públicos adequados e com áreas verdes insuficientes; sem segurança no trabalho; com baixo nível educacional; com um sistema de saúde muito debilitado; e enormes limitações de transporte e acessibilidade. Isso demonstra que estamos longe de ser uma nação com iguais condições e oportunidades para todos.

As pessoas signatárias exigem, por meio do documento, transformações profundas na organização das cidades para a construção de um “sistema nacional de centros urbanos” eficaz, que sirva de motor para uma economia diversificada e descentralizada e permita realizar a transição do estado de frequência para um novo normal com menos desigualdade nas cidades do Peru. Para isso, propõe-se a adoção urgente das seguintes medidas:

1.  Aprovar uma Lei de Desenvolvimento Urbano Sustentável e uma Lei do Solo, incorporando ferramentas de gestão para reduzir a desigualdade e enfrentar as mudanças climáticas em nossas cidades sob uma perspectiva intercultural, a partir de um debate aberto com a academia e as organizações sociais.

2. Garantir que a sociedade civil tenha participação direta e ativa na elaboração e revisão dos planos urbanos distritais, provinciais e metropolitanos em todas as regiões do país.

3. Criar “Unidades Territoriais de Gestão” (UTG), novas demarcações geográficas articuladas com as divisões político-administrativas para o planejamento e gestão estratégica e para a mitigação de riscos, enfrentando a fragmentação territorial e dos investimentos públicos.  Estabelecer alianças de gestão entre a cidadania e os governos locais para impulsionar um programa de fortalecimento, articulação e institucionalização das organizações de base, em harmonia com a área rural e os ecossistemas naturais, com o respaldo de comissões técnicas de apoio (“Serviço Rural e Urbano Marginal”) e em parceria com conselhos profissionais e universidades.

4. Propor uma política urbana que norteie, por sua vez, a política de habitação, reduzindo a ênfase no sistema de subsídios que não resolveu o problema. Reforçar o investimento em habitação de interesse social para além dos interesses privados, propondo: (1) novos projetos urbanos, sustentáveis e inclusivos em áreas de expansão estratégicas e adequadas, apoiados em programas de acesso a lotes urbanizados,  (2) um programa de densificação urbana para utilizar as lajes das moradias previamente regularizadas, modificando o Regulamento do "Bono Techo Propio - Construcción en Sitio Propio" (Subsídio Teto Próprio - Construção em Lote Próprio), a fim de reduzir rapidamente o déficit habitacional, diminuir a favelização e o cortiçamento, e reativar o setor da micro e pequena construção, gerando empregos, e (3) a renovação nos distritos históricos e a construção de moradias acessíveis nos centros das principais cidades do Peru.

5. Retomar a execução de projetos acessíveis de água e saneamento em áreas urbanas regularizadas, priorizando as obras de expansão de cobertura, reabilitação e melhoria de redes de infraestrutura em todo o Peru, atendendo às regiões desabastecidas e viabilizando zonas de expansão com habitação de interesse social.

6. Reestruturar el Programa de Melhoria Integral de Bairros (PMIB) do MVCS para que — em coordenação com as prefeituras e as organizações de moradores, e dotado de recursos financeiros suficientes — promova e financie Projetos Urbanos Integrais (PUI) nas novas UTG propostas no âmbito dos Planos de Desenvolvimento existentes e da priorização de projetos de habitação de interesse social e densificação urbana. Cada PUI deve implementar urgentemente um “Núcleo de Serviços de Bairro” multiuso (restaurante popular, biblioteca, centro comunitário, espaço de teletrabalho, creche, suporte básico de saúde, hortas comunitárias, etc.) administrado pela comunidade e suas lideranças.

7. Implementar um Sistema de Espaços Públicos que priorize as populações vulneráveis sob a perspectiva de gênero, vinculando estratégias multissetoriais de gestão territorial (“Primeiro a Infância”, “Bairro Seguro”, etc.). Promulgar a Lei de Proteção de Espaços Públicos Nº 1312, já aprovada pela Comissão de Descentralização do Congresso em maio de 2018.

8. Durante a emergência e as fases de reabertura, promover um Programa de Mercados e Serviços Itinerantes que reorganize espacial e administrativamente os mercados de abastecimento e os serviços de saúde. Adaptar espaços públicos e equipamentos urbanos de escala local existentes (ruas, escolas, quadras esportivas) para atender às necessidades da população.

9. Impulsionar uma Reforma Integral do Transporte Urbano Nacional, com estratégias de mobilidade sustentável, multimodal e inclusiva (vias de pedestres, calçadas amplas, ciclovias e eletromobilidade), priorizando o transporte público de massa com cobertura, frequência e acessibilidade nos últimos 700 metros do destino. Subsidiar a formalização do sistema, reduzindo a informalidade e eliminando a sobreposição de rotas (como em Lima e nas províncias).  Rejeitar qualquer lei que não se enquadre em uma política integral (ex: Lei de formalização de lotações).                                       

10. Declarar a intangibilidade de vales urbanos, ecossistemas de lomas e áreas úmidas, além de criar um fundo para a promoção da agricultura urbana e periurbana que gere empregos locais. Promover projetos que fortaleçam e protejam a infraestrutura ecológica das cidades e potencializar a campanha “10 milhões de árvores urbanas até 2021” (Minagri, Serfor, etc.) sob o conceito de cidades verdes. 

11. Endurecer as sanções penais contra prefeitos, prefeitas e servidores públicos que permitam ou promovam direitos de uso do solo fora do marco normativo (licenças em áreas de risco ou de preservação, etc.). Empoderar as organizações comunitárias em aspectos urbano-normativos, de modo que desempenhem um papel de vigilância e fiscalização.

Esta crise nos obriga a uma reformulação estrutural das atitudes e políticas com as quais as cidades vêm sendo governadas. Deve-se transitar para um sistema de cidades seguras e justas, com sistemas urbanos integrados de maneira eficiente e coproduzidos democraticamente com as comunidades. Todo esse esforço deve ser direcionado para construir cidades onde todos os seus cidadãos tenham as mesmas oportunidades de alcançar seus sonhos e seu bem-estar integral. Trata-se de um novo pacto social entre a sociedade e suas autoridades.

Você pode acessar a versão completa e assinar a petição por meio deste link.

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Sobre este autor
Cita: Maiztegui, Belén. "Rumo a uma nova normalidade com menos desigualdade urbana no Peru" [Hacia una nueva normalidad con menos desigualdad urbana en Perú] 26 Jun 2020. ArchDaily em Português. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/pt/1127125/rumo-a-uma-nova-normalidade-com-menos-desigualdade-urbana-no-peru> ISSN 0719-8906

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