
À primeira vista, é difícil assimilar o título deste artigo, pois o grande número de visitantes desta importante cidade — o principal destino turístico do país — se reconhece como caminhante e frequente ativador(a) urbano(a). Por que se sustenta a reivindicação de uma cidade para as pessoas? Quem não está apenas de passagem, mas vive ali, conhece essa realidade melhor do que ninguém. De forma crescente, os carros estão sendo priorizados em detrimento de pedestres; consequentemente, isso atropela e coloca em risco a cidade, sua conservação e seu patrimônio.
Lembro-me de ter experimentado o efeito de uma caminhada mágica por ali, entre garoas, pedras, ruelas, colunatas e catedrais. Deve ser um dos lugares mais especiais do mundo, onde caminhar é uma experiência mística e envolvente.
Cusco é la capital histórica do Peru, declarada Patrimônio da Humanidade em 1983 pela Unesco, pois antigamente foi a capital do Império Inca e, posteriormente, uma das cidades mais importantes do Vice-Reino. Conserva uma grande quantidade de monumentos daquelas épocas, refletidos em suas igrejas, palácios e praças. A Plaza Mayor, escoltada majestosamente por duas catedrais, é um de seus grandes atrativos por sua centralidade, arquitetura e atividade cultural, reunindo muitas pessoas, mas também muitos carros. Eis aqui o tema de discussão: Deveria se tornar exclusiva para pedestres? Qual é o estado da mobilidade urbana?

A decisão de reabrir quase toda a Plaza Mayor para a circulação de veículos continua sendo defendida pelo prefeito de Cusco, Víctor Boluarte. A medida foi considerada por várias pessoas como um retrocesso na tarefa de proteger o patrimônio mundial, enquanto ele afirma estar cumprindo seu compromisso de campanha (quando prometeu abrir toda a praça) e que não existem normas técnicas que respaldem o processo de restrição. "Não destrói o patrimônio, como disseram algumas pessoas; pelo contrário, ajuda a melhorar a vida dos/as habitantes de Cusco", assegura o prefeito, afirmando que a medida soluciona o problema de trânsito gerado pela restrição iniciada na gestão anterior.
PRONUNCIAMENTO PÚBLICO
Mobilidade Urbana Sustentável em Cusco

Devido aos recentes acontecimentos em Cusco, a Red de Municipalidades Urbanas y Rurales del Perú (REMURPE) e a equipe ANKAWA internacional, com o apoio do Colectivo Ciudad, em coordenação com a Comissão de Mobilidade Urbana do Colegio de Arquitectos del Perú, e com o Colegio de Arquitectos del Perú – Regional Cusco, emitiram há alguns dias um Pronunciamento Público com relação à conversão em área exclusiva para pedestres da Plaza Mayor de Cusco e à problemática da mobilidade urbana na cidade. A seguir, apresentamos os principais pontos deste manifesto para conhecimento, divulgação e debate.
Neste documento são reunidas as contribuições do “I Conversatório sobre Mobilidade Urbana Sustentável – Cusco”, evento realizado no último mês de fevereiro na Universidad Andina del Cusco. O painel multidisciplinar foi composto por representantes das áreas acadêmica, técnica, política e social, especialistas no tema, que compartilharam conhecimentos, experiências e boas práticas em termos de mobilidade urbana sustentável.
Atualmente, a “mobilidade urbana sustentável” vem ganhando notoriedade não apenas na esfera técnica, mas também na política e, sobretudo, entre a cidadania. É comum ouvir que a mobilidade urbana é um “direito” que as pessoas que vivem nas cidades têm para se deslocar e acessar todas as atividades urbanas oferecidas. No entanto, o fato é que hoje um dos maiores problemas das cidades é o congestionamento e o tráfego de veículos; situação que gera não apenas poluição ambiental e acidentes, mas também tempos de viagem e custos cada vez maiores, especialmente para grupos que vivem nas áreas periféricas da cidade.

Promover um modelo de mobilidade urbana sustentável é fundamental; e toda ação, medida e/ou políticas públicas para exercê-la deve colocar ênfase em três aspectos: um maior incentivo à pedonalização, impulso a meios alternativos de transporte urbano, e colocar o foco na redução de emissores poluentes através de um sistema de transporte moderno.
Cusco é uma cidade de porte médio, com uma população aproximada de 500 mil habitantes, cuja estrutura e forma urbana permitem deslocamentos em transporte público para distâncias longas, e modos não motorizados, como bicicleta e caminhada, para distâncias médias e curtas. Portanto, esses modos de deslocamento deveriam ser promovidos e priorizados.
Diante do exposto, propõem-se as seguintes AÇÕES, MEDIDAS E/OU POLÍTICAS PÚBLICAS, resultantes das contribuições dos/as painelistas, cujo resumo de participação está anexo ao documento.

Desenho e gestão do sistema viário com uma nova abordagem de mobilidade a favor de pedestres.
Que tanto o desenho quanto a gestão das vias levem em consideração os deslocamentos majoritários (transporte público 40%, a pé 50%, segundo o PLAN CUSCO Espacio Público y Movilidad), e que estes estejam representados no espaço da mobilidade urbana. A proposta para cada tipo de deslocamento (a pé, de bicicleta e de transporte público) é detalhada no documento.
Conversão do Centro Histórico em Área de Pedestres
Embora os processos de restrição de veículos em centros históricos e urbanos sejam práticas comuns em muitas cidades do mundo, eles seguem processos diferenciados de acordo com as circunstâncias urbanas de cada local. No caso do centro histórico de Cusco, um lugar com imenso valor histórico, arquitetônico e patrimonial, sua conservação deve implicar a restrição da acessibilidade veicular, fato que também determina a humanização de suas ruas.
A Municipalidade Provincial de Cusco como órgão gestor do transporte e da mobilidade urbana.
“Exigimos que a municipalidade assuma sua responsabilidade”. O órgão responsável pelo transporte e pela mobilidade urbana na cidade de Cusco é a Municipalidade Provincial de Cusco, cuja estratégia (em relação a essa função) tem consistido apenas em regulamentá-lo, mas não em geri-lo, priorizando questões de infraestrutura viária e renovação da frota de transporte urbano. Assim, nos últimos anos, promoveu a substituição das chamadas 'combis' por ônibus de maior capacidade, uma medida necessária, mas insuficiente.
Toda intervenção no Centro Histórico deve responder a uma visão de conjunto, apoiada em embasamento técnico, com base em “instrumentos de planejamento e gestão”, e não à posição do partido político de turno.

O trecho deste manifesto apresentado acima busca ser compartilhado com a opinião pública e entregue à Municipalidade Provincial de Cusco, ao Congresso da República, à Presidência do Conselho de Ministros do Peru e à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
---
Comentários
Confira aqui o documento completo do Pronunciamento Público.
Estudos e pesquisas ainda seguem desconectados dos planos em ação. Cusco conta com os estudos técnicos de um Plano de Mobilidade Urbana e Espaços Públicos, cujo diagnóstico e proposta foram expostos no conversatório pelo Bacharel em Arquitetura Javier Maldonado; no entanto, esse plano ainda não foi socializado. Por outro lado, apesar de o convite ter sido feito tanto ao prefeito provincial de Cusco quanto aos prefeitos distritais, não houve a participação deles. Até quando continuarão as gestões isoladas e avessas ao diálogo com especialistas e/ou a população? Por que se desperdiçam essas oportunidades de trabalhar em equipe por um bem comum?
“Cada cidade tem uma configuração diferente. Não é porque Madri ou Arequipa fizeram que nós também temos de fazer; acima de tudo está a pessoa e o seu conforto”, declarou o prefeito. É verdade, cada cidade é muito diferente. No entanto, é preciso saber encontrar uma maneira de reinterpretar os bons exemplos e adaptá-los a cada realidade. Já que Madri foi mencionada, vale notar que a cidade espanhola possui acesso restrito e controlado em seu centro histórico, onde os carros chegam apenas a certas ruas do entorno, facilitando a acessibilidade, mas sempre priorizando pedestres, e não o contrário. O conforto não se resume a andar de carro ou ao que se compreende erroneamente por modernidade. Vale lembrar que o Icomos, em sucessivos acordos, recomenda às cidades patrimoniais que a circulação de veículos seja regulada no interior dos bairros históricos.

“Decisões meramente políticas, sem qualquer embasamento técnico, são a pior combinação. Cusco retrocede na destinação de seu centro histórico para pedestres, mas o aprendizado continua. Que isso sirva de motivo para debater, aprofundar o tema e, o mais importante, gerar consciência cidadã de que merecemos uma cidade melhor”, conclui a Mg. Arq. Katy Huaylla. Será que teremos de voltar ao uso de adesivos que regulavam o rodízio de carros por dias da semana? Será que precisamos abrir a mente e o corpo para caminhar mais e usar meios de transporte ativos e saudáveis, como a bicicleta? Não são necessários veículos para tudo; Cusco é uma cidade de porte médio e (agradavelmente) caminhável. A resposta sempre estará onde as pessoas são a prioridade, pois é assim que se constroem cidades inclusivas e, consequentemente, sustentáveis ao longo do tempo.
Participantes do I Conversatório sobre Mobilidade Urbana Sustentável – Cusco

Arq. Rubén Acuña, Decano(a) do Colégio de Arquitetos do Peru – Regional Cusco; Arq. Javier Flores, Colégio de Arquitetos do Peru – Comissão de Mobilidade Urbana; Mg. Adv. Amilcar Romero, Presidente da Ankawa Internacional.
Eixo Acadêmico: Mg. Arq. Katy Huaylla, arquiteta e especialista em Mobilidade e Planejamento Urbano; Mg. Arq. Enrique Estrada, docente da Escola de Arquitetura da UAC; Mg. Arq. Zulema Conto, arquiteta e urbanista especialista em mobilidade urbana e espaços públicos.
Eixo Social: Mg. Adv. Amilcar Romero, presidente da Ankawa Internacional; Mg. Lannia Camargo, Coletivo Biciñan; Dr. Arq. Edwin Gudiel, ativista social do Coletivo Ciudad.
Eixo Técnico: Bach. Arq. Javier Maldonado, profissional do Plano de Mobilidade de Cusco; Arq. Javier Flores, consultor(a) em Mobilidade Urbana; Arq. Juan Menéndez, gerente de Centros Históricos da Municipalidade Provincial de Cusco.
Eixo Político: Prof. Edgar Ochoa, parlamentar da República; Soc. Marisa Glave, parlamentar da República
Este artigo foi escrito por Delia Bayona. A tradução é gerada por IA.