São José dos Campos. Foto por wtrilhas - Flickr, via Wikipedia. Licença CC BY-SA 2.0
O presente artigo parte da premissa de que cidades não são espaços neutros. Os territórios, assim como a arquitetura, o urbanismo, a literatura, a cultura e a política, são elementos condicionados por valores de uma determinada sociedade em um dado período de tempo. Assim sendo, a configuração desses espaços é concebida a partir de valores de uma sociedade; sociedade esta patriarcal, racista e capitalista. Por conseguinte, a ausência de neutralidade para a produção do espaço urbano implica em diferentes usos por parte dos usuários das cidades. Essas singularidades de vivências permeiam, ao seu turno, questões relacionadas à classe social, raça e gênero.
A arquitetura é uma das mais antigas carreiras do mundo, com sua origem, tal qual compreendemos hoje, datada dos primórdios da humanidade. O ensino de arquitetura, por outro lado, em um primeiro momento, era passado em coletivo a partir de habilidades que se aprendiam na prática e oralmente, de geração para geração. A partir das escolas de Belas Artes e das Universidades esse ensino foi se institucionalizando e se transformando até chegar no que temos hoje em dia.
No Brasil, os problemas urbanos associados ao crescimento urbano e à pobreza, gerados especialmente pela informalidade da ocupação urbana e da precariedade da infraestrutura e serviços urbanos, têm se mostrado um desafio insuperável para o poder público.
Em que pese os esforços já empreendidos, o acesso à moradia pela população de baixa renda tem sido possível, em grande parte, em função do auto empreendimento da habitação e da não aplicação estrita das normas urbanísticas de parcelamento, uso e ocupação do solo.
Quando pensamos em escritório de arquitetura, nos vem à cabeça a elaboração e desenvolvimento de projetos de variada complexidade e escala, mas tradicionalmente associados ao espaço vivenciado. Seja este espaço para atividades habitacionais, comerciais, institucionais, dentre tantas outras que caracterizam nosso modo de vida urbano. Portanto, é natural o estranhamento ao nos depararmos com um portfólio contendo, ao mesmo tempo, residências, equipamentos náuticos, sistema de transporte público e eletro portáteis, tais como ventiladores de teto, purificadores de ar e espremedor de fruta.
As alterações climáticas, a alta dos combustíveis, crise financeira, importância das atividades físicas e os congestionamentos nos grandes centros urbanos, são alguns dos motivos que têm levado as pessoas a repensarem hábitos e gastos mensais, sendo o transporte um custo relevante nesta composição.
Montagem realizada sob o trabalho "Invisíveis no Visível: Cinco Ensaios para São Paulo". Imagem cortesia de Luiz Sakata.
Anualmente, realizamos uma chamada de trabalhos finais de graduação do nosso público aberta a todos os países lusófonos. Com isso, buscamos selecionar os projetos que consideramos os mais interessantes a fim de apresentar visões inspiradoras e debates para o campo da arquitetura e do urbanismo.
Arábia Saudita divulga planos de construir cidade linear de 160 quilômetros de extensão. Cortesia de NEOM.
“Do problema da locomoção derivam-se todos os demais da urbanização.” Foi em 1882 que o urbanista espanhol Arturo Soria y Mata proclamou tal afirmação e em resposta a ela criou e implementou o conceito de cidade linear. Baseado em uma doutrina funcionalista, este modelo de cidade renuncia a estruturas tradicionais como praças e quadras, subordinando o desenho aos traçados de circulação na sua configuração espacial mais racional, a reta.
Desde o começo da pandemia de Covid-19, a bicicleta se tornou uma alternativa ainda mais popular, resiliente e confiável para os deslocamentos cotidianos, e ciclovias temporárias (ou pop-up) são cada vez mais comuns em grandes cidades ao redor do mundo. Entre março e julho de 2020, 394 cidades, estados e paísesrealocaram espaços das ruas para que as pessoas pudessem caminhar e pedalar com mais facilidade, eficiência e segurança.
https://www.archdaily.com.br/pt/972848/4-maneiras-de-desenhar-ruas-seguras-para-bicicletasNikita Luke e David Pérez-Barbosa
O Snøhetta acaba de ser anunciado como o grande vencedor do concurso de arquitetura para a revitalização da Praça Eliel e Asema em Helsinque, um espaço cívico de importância histórica próximo à estação ferroviária central da capital finlandesa. Desenvolvido em parceria com os escritórios locais Davidsson Tarkela Oy e WSP, a projeto apresentado pela equipe encabeçada pelo Snøhetta visa contribuir com as metas ambientais estabelecidas pela cidade para os próximos anos, reconectando importantes elementos do tecido urbano histórico de Helsinque à estação ferroviária, proporcionando uma maior permeabilidade e acessibilidade à região central da cidade além de promover novos usos e atividades ao ar livre.
O escritório Heatherwick Studio divulgou sua proposta de intervenção para o centro da cidade de Nottingham, Reino Unido. Um desenho que cria um novo centro arborizado e remodela o antigo centro comercial, localizado no coração da cidade, sem deixar de aproveitar seu potencial turístico. Propondo uma nova e ampla área verde que oferece aos habitantes a possibilidade de se conectar com a natureza, o projeto não só traz novos espaços de convívio, comércio e edifícios de uso misto ou residenciais, como também prevê ligações viárias do centro com outras regiões da cidade. Esse projeto representa uma redefinição de centro de cidades e a forma como se organizam.
As inscrições para a pós-graduação lato sensu da Escola da Cidade estão abertas até 11 de março de 2022. Existente há mais de 10 anos, o programa é composto por sete cursos e está estruturado a partir de dois aspectos centrais: a prática e o fazer projetual, entendidos como pesquisa e estratégia de aproximação do espaço em suas múltiplas escalas. Tendo ainda como temática geral e abrangente “Civilização América: um olhar através da arquitetura” – que propõe a compreensão e enfrentamento das condições históricas, geográficas, territoriais e sociais que nos constituem. É a partir dessa visão que os cursos de pós-graduação da Escola da Cidade visam aproximar profissionais atuantes no mercado de arquitetura e urbanismo e de áreas afins, da pesquisa e da reflexão crítica aplicadas ao desenho e ao ensino.
Em diferentes partes do mundo as mulheres estão transformando as cidades e ocupando espaços no planejamento e na gestão urbana como nunca havia acontecido. Paris, Barcelona e Roma, por exemplo, além de serem cidades onde quase qualquer pessoa gostaria de viver, são, hoje, cidades gerenciadas por mulheres pela primeira vez em sua história, ambas em seu segundo mandato. Grandes mudanças e planos celebrados atualmente, como a “cidade de 15 minutos”, em Paris, a abertura da Times Square para as pessoas, em Nova Iorque, e a digitalização urbana de Barcelona como cidade inteligente, foram capitaneadas por mulheres.
Espaços urbanos estão em constante processo de transformação social, política e econômica. Neste contexto é impossível falar de redesenvolvimento urbano sem mencionar os consequentes processos de gentrificação, um fenômeno complexo que engloba uma variedade de diferentes questões, desde melhorias na infra-estrutura urbana, incentivos à economia local até o deslocamento forçado e a transformações do perfil demográfico das comunidades de uma determinada região da cidade. Por um lado, redesenvolver significa revitalizar, ou seja, “trazer o desenvolvimento ou a vida de volta” para um espaço que teoricamente deveria estar exaurido de vitalidade—o que nem sempre é verdade; por outro lado, a consequente gentrificação provoca o aumento dos preços das propriedades e dos aluguéis, além do custo de vida nestas regiões—expulsando as comunidades de mais baixa renda que se veem forçadas a migrar para outros bairros e cidades. Dito isso, seria o deslocamento das comunidades mais pobres um “efeito colateral” insanável do processo de desenvolvimento urbano de uma cidade? Existiria uma outra forma possível de se repensar o espaço construído de nossas cidades?
Nesta edição do Editor's Talk, nossos editores da Argentina, Líbano, Brasil, Chile e Tanzânia compartilham suas opiniões sobre o papel do desenvolvimento urbano no agravamento dos processos de gentrificação das cidades.
A COP26, Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, está programada para ser realizada na Escócia na última semana de outubro de 2021. No pano de fundo desta conferência está uma maior consciência global das mudanças climáticas, à medida que discussões ocorrem sobre como um futuro mais igualitário pode ser alcançado. O estado atual e futuro da arquitetura é um componente-chave desta conversa, já que, as críticas são dirigidas aos escritórios de arquitetura que fazem uso do "greenwash" (ou maquiagem verde) levantando questões sobre se o termo "sustentabilidade" está cada vez mais sendo usado apenas como a palavra da moda de hoje.
Um novo plano diretor ao longo do rio Pailao em Shenzhen propõe a regeneração da área usando a natureza e zonas ecológicas de retenção de água para mitigar o risco de inundações. Criado pelo escritório de arquitetura e urbanismo VenhoevenCS, com paisagismo de Hope Design e plano de gestão da água da Huadong Engineering, o Projeto Pailao River Blueway capitaliza a coexistência do ambiente urbano e natural, garantindo resiliência e aumentando o crescimento econômico da cidade.
A teoria urbana da cidade de 15 minutos recebeu o Prêmio Obel 2021, em reconhecimento ao valor do conceito para a criação de ambientes urbanos sustentáveis e centrados nas pessoas. Criado pela primeira vez em 2016, pelo professor da Sorbonne Carlos Moreno, o termo define um modelo urbano altamente flexível. O modelo garante a todos os cidadãos o acesso às necessidades diárias em uma distância de 15 minutos, quebrando assim a hegemonia do carro, e reintroduzindo as qualidades das cidades históricas no planejamento urbano contemporâneo.
Quando consideramos o contexto das cidades, ao mesmo tempo que a violência urbana é um reflexo dos problemas e das desigualdades sociais, ela também reflete no território e na nossa forma de viver. Em outubro, no dia 2, foi celebrado o Dia Internacional da Não-Violência – inspirado nisso, destacamos aqui uma série de projetos para refletir sobre formas não-violentas de ocupar os espaços públicos.