Todos os anos, em 21 de setembro, as Nações Unidas celebram o Dia Internacional da Paz, uma data que convida à reflexão global sobre as condições necessárias para cultivar a não violência, a estabilidade social e a dignidade humana. Sob o tema de 2026, "Invista na Paz – Para Todos, em Todos os Lugares, Todos os Dias", o órgão internacional enfatiza que a paz não é estática nem autossustentável. Longe de ser uma condição abstrata definida apenas por acordos diplomáticos, a paz funciona como um processo social contínuo, moldado pela equidade econômica, integridade institucional e pela qualidade da vida cívica nas comunidades.
O pavilhão ucraniano na 20ª Exposição Internacional de Arquitetura – La Biennale di Venezia está sendo projetado pela equipe do CO-HATY, uma iniciativa voluntária local que restaura edifícios abandonados no país para transformá-los em moradias estáveis para pessoas deslocadas internamente. A equipe é formada pelo METALAB e por membros realocados da agência ucraniana Urban Curators, que vêm desenvolvendo o CO-HATY desde 2022. Intitulado "Pool of Questions" [Piscina de Perguntas], o projeto levanta uma questão que a organização argumenta ser raramente abordada no contexto de sobrevivência: não se trata apenas de onde as pessoas deslocadas devem morar, mas sim de quando elas podem começar a viver. Para Veneza, a instalação idealizada estende o trabalho de restauração e reutilização adaptativa para um debate sobre moradia acessível, dignidade e descanso em tempos de guerra.
Uma guerra pode apagar a silhueta urbana de uma cidade do dia para a noite. Telhados desabam, ruas tornam-se intransitáveis e marcos que outrora orientavam a vida cotidiana são reduzidos a escombros. A perda mais profunda, no entanto, frequentemente permanece invisível. Edifícios podem ser levantados, fotografados, escaneados e, eventualmente, reconstruídos. O conhecimento que os produziu é muito mais frágil. Ele sobrevive nas mãos de canteiros e canteiras que compreendem como uma abóbada de calcário suporta sua carga, de carpinteiros e carpinteiras que sabem como as juntas de madeira reagem aos movimentos sazonais, de estucadores e estucadoras que misturam a cal de cabeça, e de moradores e moradoras cujos rituais cotidianos mantêm esses edifícios em uso. Quando essas pessoas são deslocadas, mortas ou forçadas a abandonar seus ofícios, a reconstrução herda um problema que nenhum desenho ou modelo digital pode resolver. A pedra sempre pode ser extraída novamente. Recuperar o conhecimento necessário para moldá-la exige muito mais tempo.
Toda primeira segunda-feira de outubro, celebramos o Dia Mundial da Arquitetura e o Dia Mundial do Habitat, datas que servem como um lembrete para a comunidade global de sua responsabilidade coletiva pelo bem-estar do ambiente construído. Esta edição, assim como nos anos anteriores, lança luz sobre o campo da arquitetura e os desafios enfrentados por nossas cidades, introduzindo novos temas, contemplando o estado de nossas áreas urbanas e propondo estratégias construtivas.
Uma vez que as economias urbanas enfrentaram dificuldades significativas este ano, o Dia Mundial do Habitat promovido pela ONU concentra-se em no tema Economias Urbanas Resilientes: cidades como impulsionadoras do crescimento e da recuperação. Lançando o Outubro Urbano, este evento busca reunir diversos atores para deliberar políticas que ajudem as cidades a se recuperarem após os impactos econômicos duplos causados pela pandemia de Covid-19 e conflitos em todo o mundo. Alinhado a esse conceito, o Dia Mundial da Arquitetura, criado pela UIA em 1985, foca em Arquitetura para Comunidades Resilientes, enfatizando o papel e o dever da arquitetura em promover a existência próspera entre comunidades, ao mesmo tempo em que inicia um diálogo global sobre a interconexão das regiões urbanas e rurais dentro de cada país.
Arranha-céus são elementos inerentes às cidades contemporâneas. Seja em São Paulo ou Nova York, em Seul ou Dubai, essas estruturas imponentes são onipresentes no tecido urbano e a imagem convencional que se tem delas é de planos de vidro. Isso não ocorre no Iêmen, onde há exemplos antigos que são bem diferentes dos arranha-céus atuais. No centro do país, a cidade de Shibam é cercada por uma muralha fortificada e é o lar de exemplos deslumbrantes de habilidade arquitetônica: casas em torre que datam do século XVI com até sete andares de altura.
No início da pandemia de coronavírus, em março de 2020, os parisienses abastados afluíram para suas segundas residências na costa atlântica da França, quando foi declarado o lockdown no país. Em junho de 2020, quando as restrições afrouxaram na Inglaterra, os moradores se dirigiram para cidades litorâneas como Bournemouth para aproveitar o tempo ensolarado. O primeiro cenário reflete a crescente lacuna entre ricos e pobres da França, enquanto o último é um reflexo do poder democratizante das praias de acesso público.
Em ambas as situações, o que se busca é a tranquilidade natural normalmente encontrada nas praias. Globalmente, no entanto, há um fenômeno inquietante, segundo o qual, entrelaçado com mudanças climáticas e decisões políticas, as praias estão se tornando cada vez mais espaços privados e inacessíveis.
A arquitetura está muitas vezes entrelaçada ao contexto político. Esta conexão profunda é especialmente evidente na Irlanda do Norte, um lugar de história política muito complexa. O Estado surgiu como consequência da guerra em 1921, quando a Irlanda foi dividida em Estado Livre Irlandês Independente (agora a República da Irlanda) e Irlanda do Norte, uma região industrial ainda controlada pela Grã-Bretanha. Desde então, houve conflitos na Irlanda do Norte entre uma população majoritária pró-britânica unionista e uma minoria, embora significativa, comunidade nacionalista irlandesa. A segunda metade do século XX testemunhou uma luta brutal, com mais de três mil pessoas mortas, milhares feridas e imagens angustiantes espalhadas pelo mundo.
A turbulência do conflito da Irlanda do Norte se desenrola no desenvolvimento arquitetônico de Belfast, sua capital. Com trinta anos de guerra entre os anos 1960 e 1990, a arquitetura de Belfast encarnou uma atmosfera de cidade sitiada. Quando surgiu a perspectiva de paz, na década de 1990, nasceu uma arquitetura de esperança, confiança e desafio. Nos dias de hoje, com a Irlanda do Norte firme em um caminho pacífico, Belfast tem sido palco de uma série de propostas arquitetônicas e edifícios públicos de referência projetados por renomados arquitetos. Com a história rica, amarga e emotiva da Irlanda do Norte vista através de múltiplos prismas, muitas vezes conflitantes, o desenvolvimento arquitetônico de Belfast oferece uma narrativa tangível de uma cidade que queimou, ardeu e renasceu das cinzas.