Max e Helen Gurvich Residence, em Seattle (1964). Construída por Lionel M. Pries, arquiteto e professor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Washington, demitido da instituição por ser homossexual
O coletivo Arquitetura Bicha surgiu na pandemia, a partir do interesse em ler materiais sobre gênero e sexualidade na arquitetura. Os integrantes passaram a se reunir semanalmente para debater e investigar a bibliografia sugerida por cada um deles. Livros de teoria queer, feminismo e arquitetura foram dando ideias ao coletivo, que abriu um perfil na rede social Instagram, com o o objetivo de compartilhar as discussões.
Não é novidade que a questão de gênero permeia toda a nossa organização como sociedade e sistema, refletindo diretamente a dualidade dos "papéis femininos e masculinos" e seus mecanismos de opressão de gênero. No âmbito da arquitetura e do urbanismo isso não é diferente. Ao longo dos séculos, as cidades e suas edificações têm se mantido e se transformado de forma a priorizar as demandas de um perfil bem específico de usuário. Tal estrutura, obviamente, não considera outras identidades e formas de apropriação, ou seja, a demanda real e toda a sua diversidade de classes sociais, gênero, cores, faixas etárias, orientações sexuais, etc. São planejamentos e projetos disfarçados de uma concepção “neutra”, mas que na verdade reproduzem o olhar de um homem branco de classe média.
Dissimulação, maquiagem. Expressão da subjetividade de um grupo, linguagem ou signo. Documento histórico, emblema de modismos passageiros. Um crime. Interpretados de distintas maneiras, os ornamentos foram considerados um dos pecados mais degenerados da arquitetura. Resistir à tentação da decoração se tornou uma virtude, um sinal legítimo de autenticidade e futuro possível.
Imagem criada no DALL-E por Lucas Reitz sob o prompt: "an illustration of shopping mall sitting and waiting areas with couches and arm chair only occupied by white middle class men"
O espaço como adjacência de gênero e a dimensão espacial da sexualidade são temas recentes no campo da arquitetura. O caso do banheiro como dispositivo regulador de gênero, tem sido uma temática constantemente discutida, tanto dentro das pautas LGBTQIA+, de uma forma mais ampla, quanto nas intersecções da teoria queer na arquitetura.
O que poderia ser diferente no ato projetual se você se colocasse à frente das expectativas e limitações da sociedade e trouxesse uma mirada queer nas suas referências? Conversamos com Andreas Angelidakis, que se refere a si mesmo como "um arquiteto que não constrói", mas que enxerga a arquitetura como um local de interação social, criando obras que refletem sobre a cultura urbana ao misturar ruínas, mídia digital e psicologia para entender como mergulhar em si mesmo pode ser tão poderoso para encontrar diferentes caminhos de projeto.
Quantas arquitetas e arquitetos LGBTQIA+ você conhece? Certamente estudou com alguém, mas dificilmente ouviu algum professor citar uma referência. Trazer esses nomes à tona é fundamental para compreender como essa população possui papel fundamental no campo da arquitetura, nas suas áreas teóricas e práticas. Afinal, se torna mais evidente como alguns deles trazem vivências de suas identidades na hora de projetar ou debater as teorias arquitetônica e urbana. Um fator essencial para que qualquer pessoa que se identifique como LGBTQIA+ se sinta à vontade para se expressar livremente, com sua potencialidade e individualidade na profissão.
Paul Rudolph, Rudolph Apartment at 23 Beekman Place, New York (1977-1997). Corte Perspectivado, 1997. Desenho digitalizado | 4732 x 3416 px. O Arquivo Paul Rudolph, Biblioteca do Congresso, Divisão de Impressão e Fotografia, LC-USZ62-123771. O corte mostra a complexidade do espaço que Timothy Rohan descreve como exemplar da abordagem de Rudolph ao domínio privado.
Um número crescente de teóricos e profissionais está discutindo o impacto de gênero e raça na profissão e na teoria da arquitetura. Questões ligadas à relação entre o ambiente construído, orientação sexual e identidade de gênero, no entanto, permanecem particularmente pouco estudadas, talvez por causa de sua relativa invisibilidade e consequências discriminatórias menos claramente identificáveis; elas também são completamente negligenciadas pela teoria do design no mundo francófono. Este artigo corrige parcialmente a situação.
A arquitetura pode ser muitas coisas, inclusive bicha. Este termo junto de tantos outros que são desviantes e transitam distintas possibilidades e significados, disparam novos olhares sociais e colocam em conflito o modo como surge um projeto arquitetônico ou urbanístico, seu programa e ocupação. Se está dito como a arquitetura deve ser feita, se há uma certeza sobre o que ela representa, aqui se expressa o desejo de não saber o que ela é e o direito de duvidar das suas tradições para assim expandir a possibilidade do seu sentido, profissão e representatividade.
Collage realizada utilizando fotografias de Matias Romero e Raquel Aviani/Secom UnB. (licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 2.0 Generic license and Creative Commons Attribution 2.0 Generic license) via Wikimedia Commons
O que seria de todo o ambiente construído sem seus usuários? Esta pergunta talvez facilite a compreensão de que a arquitetura e o urbanismo não se sustentam apenas como espaço físico, pelo contrário, ganham significado principalmente através das movimentações e vínculos humanos e não-humanos que - juntos dos traços arquitetônicos ou espontâneos que compõem a paisagem urbana - provocam as sensações que cada indivíduo sente de forma única.