Romullo Baratto é arquiteto, doutor em arquitetura pela FAUUSP e Gerente Editorial do ArchDaily Global. Coordenou a equipe editorial da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo em 2017 e atuou como Gerente Editorial do ArchDaily Brasil entre 2019 e 2024, período em que a plataforma conquistou o Prêmio FNA, tornando-se o primeiro veículo de mídia a receber a honraria. Colaborou na edição do livro "Concrete Jungle", publicado pela gestalten, e foi responsável pela curadoria de exposições de arquitetura no Brasil, Chile, Dinamarca e Itália, além de ter realizado palestras e moderações de debates na Espanha, Estados Unidos e Portugal. Sua tese de doutorado, intitulada "Comoções", investiga as paisagens urbanas de São Paulo a partir do cinema. Seu trabalho articula pesquisa acadêmica e prática editorial, comunicando a arquitetura por meio de textos, entrevistas, curadoria e fotografia. Siga no Instagram @romullobf.
A gentrificação vem sendo um dos principais pontos de debate sobre o projeto que pretende transformar o Minhocão em um parque linear. Imagem: Felipe Rodrigues
Um dos temas mais presentes nas discussões atuais sobre a cidade é a gentrificação. Definido, de modo geral, como "quando alguém diferente de você muda-se para o seu bairro", o fenômeno urbano é muito mais complexo que isso e envolve questões de uso do solo, especulação imobiliária, espaços públicos e de lazer e planejamento territorial.
A indústria do entretenimento costuma oferecer à arquitetura alguns de seus programas mais inusitados. De parques temáticos que exploram tempos perdidos e mundos ainda não descobertos a Las Vegas, cidade já muito estudada por suas características urbanas particulares e numerosos edifícios de hotéis e cassinos que apresentam, lado a lado, uma infinidade de estilos arquitetônicos.
No Brasil não é diferente e o impulso em explorar a economia do entretenimento resultou, em meados do século XX, em um singular edifício em estilo normando-francês, construído na serra do Rio de Janeiro: o Palácio Quitandinha
Ver do alto – do ponto de vista aéreo – é a ilusão do saber, disse em certa ocasião Michel de Certeau, historiador francês muito interessado nas páticas cotidianas que acontecem no solo, no nível da rua. Entretanto, imagens de satélite podem ser ferramentas poderosas para compreender, prever e lutar para um futuro melhor para a humanidade, como nos mostra Benjamin Grant, fundador do Overview, uma plataforma que explora a atividade humana da Terra por meio de imagens aéreas.
Interessado em proporcionar "uma experiência do sublime" através da privilegiada perspectiva aérea de nosso mundo, Overview oferece fotografias que mostram traços da atividade humana na superfície do planeta. Fotos de cidade e outros artefatos culturais se unem a imagens hipnotizantes de topografias e belezas naturais em um enorme arquivo imagético produzido por drones e satélites. Um sentimento misto de temor e admiração profunda é alcançado não apenas quando vemos do céu algumas das façanhas humanas mais espetaculares da história, mas, sobretudo, quando somos confrontados com os tenebrosos efeitos colaterais de nossa própria existência na Terra.
Enquanto meio de representação da arquitetura, a fotografia apresenta qualidades indiscutíveis. Com ela, é possível apresentar a um público distante obras erguidas em qualquer lugar do mundo, de vistas gerais a espaços internos e pormenores construtivos - ampliando o alcance e, de certo modo, o acesso à arquitetura.
Entretanto, como qualquer outra forma de representação, não é infalível. Na medida que avanços tecnológicos permitem fazer imagens cada vez mais bem definidas e softwares de edição oferecem ferramentas para retocar e, por vezes, alterar aspectos substanciais do espaço construído, a fotografia, por sua própria natureza, carece de meios para transmitir aspectos sensoriais e táteis da arquitetura. Não é possível - ao menos não satisfatoriamente - experienciar as texturas, sons, temperatura e cheiros dos espaços através de imagens estáticas.
Calçada de São Paulo. Imagem cortesia de Caos Planejado
A qualidade das ruas e calçadas é um tópico bastante debatido no Brasil e a pandemia de coronavírus acrescentou mais um fator de complexidade ao tema – a saúde pública —, fazendo-nos questionar se é, efetivamente, possível para o pedestre praticar o distanciamento social. A inquietação levou o estudante de arquitetura Conrado Freire a desenvolver um mapa da largura das calçadas de São Paulo.
Adaptado do projeto Sidewalk Widths NYC de Meli Harvey, sobre as calçadas de Nova Iorque, o Largura do Passeio toma os dados das calçadas disponibilizados pelo portal GeoSampa e sintetiza de forma visual informações sobre os passeios de São Paulo que não são acessíveis ao público em geral. A partir dos códigos abertos disponibilizados por Harvey, que já foram também adaptados para cidades como Toronto, Washington, Berlim e Milão, Freire cria uma cartografia visual que informa aquilo que é apenas sentido pelos pedestres ao se deslocarem no espaço urbano de São Paulo.
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Eduardo Souto de Moura. Imagem via beira.pt, usada sob termos de "fair use"
Eduardo Elísio Machado Souto de Moura nasceu no Porto em 25 de julho de 1952, formou-se em arquitetura pela Escola de Belas Artes do Porto e iniciou sua carreira trabalhando com Álvaro Siza, com quem mantém até hoje uma relação profissional muito rica.
Sua obra é frequentemente associada a uma suposta corrente de influência miesiana, no entanto, seus projetos revelam um virtuosismo singular na escolha dos materiais – granito, madeira, mármore, tijolo, aço, concreto e vidros são apenas algumas das texturas que compõe a paleta de Souto de Moura.
O IAB divulgou a seleção das obras brasileiras habilitadas a participar da 3º edição do Prêmio Oscar Niemeyer. Do total de 33 que cumpriram o edital, 20 foram selecionadas pela comissão avaliadora. O Prêmio "Oscar Niemeyer" de Arquitetura Latino-Americana (ON Prize) é uma iniciativa da Rede Bienal de Arquitetura da América Latina (REDBAAL), fundada em 2012 na Bienal Panamericana de Arquitetura de Quito.
Um dos elementos arquitetônicos que mais fortemente promove a relação do interior com o exterior é a varanda. Difícil é precisar sua origem, sendo vista em exemplos de arquitetura vernacular no oriente, no mundo árabe, na Europa e, com grande expressividade, no Brasil.
O Instituto dos Arquitetos do Brasil - Departamento São Paulo disponibilizou online as 74 edições do Jornal Arquiteto, publicação relevante do campo da arquitetura e urbanismo editada pelo próprio IABsp em parceria com o Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo (SASP) entre os anos 1972 e 1980. O jornal teve tirangens em todo o país e tinha como objetivo ser um “porta-voz de todos arquitetos”.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) publicou recentemente um guia prático para edificações, espaços públicos e canteiros sustentáveis no Brasil. Elaborado por Esperanza González-Mahecha, Livia Minoja, Lucas Rosse Caldas e Clémentine Tribouillard, a publicação visa simplificar o acesso dos gestores públicos e privados a informações práticas sobre como incorporar elementos de sustentabilidade em uma obra, seja ela edificação, como habitação ou equipamento, ou espaço público.
Um dos efeitos colaterais da pandemia global de coronavírus no campo da arquitetura é a reflexão sobre o futuro das cidades e do ambiente construído. Talvez nunca se tenha debatido tanto sobre isso e muitas propostas e visões vêm sendo divulgadas, abordando desde o convívio nos espaços públicos até os pormenores dos novos usos para espaços privados. Em relação às dinâmicas urbanas, mudanças de programa talvez sejam uma possível saída para garantir que bairros comerciais e de serviço mantenham sua vitalidade.
Com mais pessoas trabalhando remotamente, há uma possibilidade de que alguns edifícios comerciais sofram ligeiro esvaziamento. A partir desta reflexão, os arquitetos Matheus Marques, Ricardo Goncalves, Luis Favilla e Rolando Figueiredo, do escritório paulistano Hiperstudio, desenvolveram uma proposta que aborda a conversão de edifícios comerciais monofuncionais em conjuntos de uso misto, incorporando unidades residenciais e espaços de convívio público.
Robert Szucs, analista e cartógrafo húngaro, compartilhou com o ArchDaily mais uma de suas séries de mapas, desta vez, abordando a distribuição populacional na Terra. Em um enorme quadro negro marcado apenas com a delimitação geopolítica dos países e continentes, constelações luminosas representam as aglomerações humanas e os grandes vazios no globo terrestre.
Em todo o mundo, aglomerados urbanos apresentam, em maior ou menor grau, diferenças sociais e econômicas. Refletidos no espaço, esses desequilíbrios de renda e acesso à educação, saúde, saneamento e infraestrutura geram rupturas mais ou menos visíveis - embora drasticamente sentidas.
Realidade cotidiana para alguns, as desigualdades sócio-espacias podem passar despercebidas aos olhos de outros, sobretudo do nível do chão - do ponto de vista individual que, por definição, não abrange o todo. De cima, a partir de um olho imaginário que enxerga a totalidade das relações, ignorar essas desigualdades seria mais difícil - é isso que nos apresenta a série Unequal Scenes, do fotógrafo sul-africano Johnny Miller.
O fotógrafo de arquitetura Guilherme Pucci compartilhou conosco uma série de imagens da Igreja Ascensão do Senhor no Centro Administrativo da Bahia, projetada por João Filgueiras Lima, o Lelé. Concluído em 1975, este clássico da arquitetura brasileira revela a sensibilidade de Lelé ao projetar, seja pela escolha do local onde se implantou a edificação, integrando-se à topografia, pela qualidade dos materiais empregados – concreto, vidro, madeira e pedra –, ou, ainda, pela tensão criada por sombra e luz no interior da igreja.
Habitação em Lausanne, Suíça. Image Cortesia de Fala Atelier
A arquitetura, do mesmo modo que qualquer outra profissão, necessita de ferramentas específicas para acontecer. Como o poeta usa a caneta e o carpinteiro o serrote, o arquiteto também usa alguns instrumentos para traduzir suas arquiteturas imaginárias em paredes, chão e teto. A complexidade, porém, da arquitetura exige mais que caneta e serrote, muito mais que régua e prancheta; atividade coletiva e realizada e múltiplas etapas, até que se faça a arquitetura propriamente dita – aquela concreta – há passos que devem ser seguidos e, para cada um deles, as ferramentas mais adequadas.
Na arquitetura não há quem não tenha fracassado. Dito de outro modo, não há arquiteto ou arquiteta que tenha conseguido, todas as vezes, transformar as ideias em espaço concreto, construído. Aliás, essa espécie de “fracasso” é muito recorrente na profissão; o longo e intrincado processo necessário para trazer uma ideia ao mundo das concretudes faz com que a maior parte de nossos projetos permaneça apenas projeto. Assim, lidamos boa parte do tempo com representações – ou apresentações, já que não existe um referencial concreto a ser re-apresentado.
Um dos mais prestigiados festivais de cinema como foco em arquitetura de todo o mundo, o Arquiteturas Film Festival promove uma série retrospectiva de suas sete edições anteriores, realizadas entre 2013 e 2019, com transmissões online de alguns dos principais filmes de cada ano. Inaugurando a série, a película canadense Misleading Innocence (2014), de Francesco Garutti e Shahab Mihandoust, ficará disponível entre 12 e 19 de junho no website do festival.
Guilherme Wisnik conversa com Bruno Dunley, artista plástico, professor e um dos idealizadores e integrantes do projeto ali: arte livre itinerante, escola nômade de arte que estabelece trânsitos entre centros e periferias que atua no distrito de Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo.