Nos deparamos diariamente com uma abundância de imagens de interiores de apartamentos e casas, frequentemente espaços amplos e bem iluminados, pés-direitos generosos e com grandes aberturas. Espaços integrados e semi-abertos, varandas e sacadas que dissimulam os limites entre espaços interiores e exteriores, cozinhas impecáveis e estantes de livros do piso ao teto. Entretanto, por trás das imaculadas paredes brancas destes elegantes espaços domésticos, escondem-se outros ambientes menos cândidos: espaços sem ventilação ou iluminação natural, os quais ainda hoje, são dedicados às pessoas responsáveis por manter a imagem da casa casta, pura e impoluta.
Neste país de muitas contradições, a organização espacial de nossos ambientes domésticos—estejam eles localizados em uma estrutura do século passado, em uma casa dos anos 50 ou em um apartamento cheirando a novo—reflete um legado “colonialista” enraizado em nossa cultura e que insiste em perseverar até os dias de hoje. Proprietários e patrões, ou pelo menos uma boa parte deles, nunca se deteve a refletir sobre as atuais condições dos espaços habitados por seus subordinados e trabalhadores domésticos, não apenas em relação ao espaço físico em si, mas principalmente em termos de salubridade, conforto e qualidade de vida.
Quando fluxos migratórios não se dirigem a grandes centros urbanos surge a manifestação de uma arquitetura espontânea para suprir a necessidade de abrigo e proteção, função primordial de uma habitação. O uso de técnicas que se adaptam e improvisam com os materiais disponíveis no local traz novas possibilidades de imaginar a arquitetura e o modo como o humano desenvolve o entorno para servir a seus desejos e necessidades. Na impressionante Chapada Diamantina, em Igatu, o garimpo levou aproximadamente trinta mil pessoas para morar numa região distante e sem infraestrutura, impondo à criatividade humana o desafio de solucionar a questão de moradia, que foi respondida através da interação com o próprio entorno: as pedras.
Arquitetura é talvez a forma mais expressiva da cultura, representando o zeitgeist de um local específico e contando a história de como ele evoluiu ao longo do tempo. Permite aos visitantes transportar-se na história para compreender as influências que moldaram o mundo em que vivemos. A arquitetura barroca, em particular, foi um dos estilos arquitetônicos mais ornamentais e decorativos. Traduzida para "curiosa ou estranha" em francês, já foi usada como uma palavra depreciativa, que significa ruidosa, excêntrica e excessiva - e a arquitetura barroca foi realmente isso.
Há um ano, no dia 4 de agosto de 2020, a terceira maior explosão não nuclear já registrada na história devastou metade da cidade de Beirute, destruindo o porto e a porção leste da capital libanesa. Uma das maiores tragédias urbanas dos tempos modernos, matou mais de 200 pessoas, feriu milhares e deixou cerca de 300 mil desabrigados, danificando mais de 80 mil estabelecimentos comerciais, residenciais e públicos. Sentida em países vizinhos, a explosão gerou cerca de US$ 15 bilhões em danos materiais — tudo isso em tempos de Covid-19, crise política, agitação social e colapso econômico.
Um ano depois, pouca coisa mudou. Apenas ficou mais difícil para a população de Beirute. Um ano depois, tudo na cidade ainda os lembra daquele dia. As principais questões permanecem sem resposta, nenhum resgate ou plano de ação foi colocado em marcha por instituições governamentais; na ausência completa do Estado, a sociedade civil se mobilizou para assumir com suas próprias mãos os esforços de reconstrução.
As pessoas têm necessidades fundamentais que devem ser atendidas para sobreviver, que incluem: oxigênio, água, comida, sono e abrigo. Eles também possuem demandas secundárias, uma das quais é o acesso à luz do dia. Ao pensar em como os edifícios podem manter as pessoas saudáveis, é importante lembrar que a luz natural é essencial para o bem-estar; de fato, os ritmos circadianos humanos dependem dela.
Historicamente, o desenvolvimento das cidades se dá de forma lenta e gradual. Paisagens urbanas transformam-se constantemente à medida que enfrentam novas questões sociais, econômicas e políticas, a tal ponto que nos é difícil apontar apenas uma única razão pela qual o espaço urbano e construído se modifica ao longo do tempo. Mais recentemente, em razão dos muitos desafios que nossas cidades enfrentam, muitos arquitetos e arquitetas têm começado a se perguntar sobre como poderíamos construir um futuro melhor para nossas cidades e, principalmente, para as pessoas que nelas habitam. Neste longo e inexorável processo de evolução, muitas vezes a razão pela qual construimos nossas cidades de uma maneira e não outra tem a ver mais com uma linha de pensamento dominante do que com as condicionantes sociais, econômicas, políticas e também geográficas as quais arquitetos e urbanistas deveriam tentar responder.
Figura 1. Panorama de arquitetura e trabalho de campo durante o século XX. Fonte: Elaboração própria (José Abásolo Llaría, 2020). Image via Revista rita_
Este artigo deJosé Abásolo Llaríafoi originalmente publicado no número 14 da revista rita_ com o título "O/A arquiteto/a como etnógrafo/a: Trabalho de campo e representação nas pesquisas de Kon Wajirō, 1917-31[i]" e faz parte de uma parceria para difusão de textos acadêmicos.
Ao longo dos últimos 18 meses da pandemia de COVID-19, proprietários e proprietárias de restaurantes em todo o mundo sofreram perdas contínuas — especialmente os estabelecimentos de pequeno porte e independentes. Se há um vislumbre de esperança para muitos desses negócios, à medida que as diretrizes de saúde pública continuam a evoluir, é o fato de que muitas cidades flexibilizaram suas políticas e permitiram a construção de estruturas temporárias em calçadas e vias públicas para mantê-los em funcionamento. No entanto, no cenário pós-pandemia, como devemos lidar com essas instalações? Deveríamos transformá-las em algo permanente e permitir que as refeições ao ar livre permaneçam?
O projeto de Adolf Loos da casa para Josephine Baker talvez seja uma das obras não construídas mais analisadas do modernismo. Seu projeto e história abordam uma série de questões sociais e políticas complexas do início do século XX. O design surge quando Josephine Baker, uma artista afro-americana, estava ascendendo ao estrelato ao passo que Loos vivia sua fase de decadência social. A casa em si nunca foi realmente encomendada por Baker – trata-se mais de uma fantasia criada pelo arquiteto. Este vídeo apresenta um percurso por um modelo 3D da residência, acompanhado de narração que descreve como e por que ela foi projetada.
Campo de refugiados em Dadaab, Nordeste do Quênia. Created by @benjaminrgrant, source imagery: @digitalglobe. Imagem
Quando digo Katuma, Hagadera, Dagahaley, Zaatari ou Ifo o que é os vem à mente? Estes nomes singulares e originais poderiam facilmente ser algumas das 55 cidades invisíveis de Ítalo Calvino não é mesmo?
No entanto, estas cinco cidades não são estruturas invisíveis, inventadas ou fruto da fantasia de um poeta. Katuma, Hagadera, Dagahaley, Zaatari e Ifo são assentamentos informais localizados no Quênia e na Jordânia, cidades onde atualmente vivem entre 66.000 e 190.000 refugiados, a maioria vindos de países limítrofes. Erguidas como acampamentos supostamente temporários a mais de meio século atrás, estas cidades cresceram e se desenvolveram, permanecendo habitadas até os dias de hoje. Comumente carentes de infraestrutura urbana e espaços públicos de qualidade, algumas delas contam com escolas e hospitais, sendo que em Zaatari é possível até encontrar uma academia de circo. Ainda assim, para a maioria das pessoas que ali vivem, estas são as únicas cidades que elas já conheceram.
Quando chegam os dias mais quentes do verão na cidade de Djenné, no coração do Mali, é momento de celebrar a La Fête de Crépissage, ou a “Festa do Reboco”. Acontece que, todos os anos é preciso reparar e reforçar as imensas paredes de barro da Grande Mesquita de Djenné, Patrimônio Mundial da UNESCO e um dos mais impressionantes marcos arquitetônicos de todo o continente africano.
"Podemos fazer com que a argila forme uma estrutura que resista a cargas de força?", pergunta John Pawson a Alejandra Sepúlveda, do Taller Barros. Juntos, eles estão trabalhando na Rota da Argila em Pomaire, Chile.
Decidir onde um edifício deve ser implantado envolve uma negociação complexa entre forças visíveis e invisíveis, objetivas e subjetivas. Arquitetos/as realizam a análise do terreno para identificar e articular todos esses fatores, mas em quais deles se concentram? Este vídeo é um levantamento (com o perdão do trocadilho) do que envolve determinar a localização de um edifício na superfície da Terra. Desde requisitos legais, como limites de lote e recuos, passando por questões de infraestrutura, como pontos de conexão de serviços públicos e fluxos de pedestres, até fatores ambientais, como insolação e topografia, o vídeo aborda como arquitetos/as e construtores/as posicionam as estruturas. Além de examinar regras práticas gerais, o vídeo também apresenta exemplos arquitetônicos importantes, como a Casa Malaparte e o Centro de Estudantes do OMA no IIT, para inspirar abordagens singulares sobre o tema.
Construções em taipa não são novidade, muito pelo contrário: partes da Grande Muralha da China foram feitas utilizando essa técnica. Ofuscadas e ultrapassadas por métodos mais modernos de construção, as paredes de barro vêm ressurgindo como uma solução econômica, sustentável e de baixo impacto. Inclusive, uma jovem empreendedora aposta que podem ser a resposta para o déficit de moradias na África. A taipa de pilão é um sistema rudimentar de construção em que a terra é comprimida em caixas de madeira, chamadas de taipas. O barro é disposto horizontalmente em camadas de cerca de 15 cm de altura e socado - com piladores manuais ou socadores pneumáticos - até atingir a densidade ideal, criando uma estrutura resistente e durável.
"A construção com terra crua é uma técnica ancestral, uma alternativa sustentável, quase sempre um trabalho comunitário e, em grande parte, realizado por mulheres", assim começa o vídeo de “Paula Pacha Patrimonio”, projeto de Nidia Bellene que apresentamos por ocasião do Dia Mundial da Fotografia (19 de agosto).
A obra é o resultado de um trabalho de intercâmbio entre a artista e mulheres construtoras com terra de diferentes regiões da Argentina, que compartilharam seus registros cotidianos de trabalho e de experiências. Realizado por meio de uma convocatória aberta nas redes sociais, o projeto reuniu mais de 100 imagens que hoje estão expostas em uma videoinstalação no Museu Casa Natal de Sarmiento.
É sabido que Frederick Law Olmsted, projetista do Central Park em Nova York, André Le Nôtre, responsável pelos jardins do Palácio de Versalhes, e Alan Fred Titchmarsh, entre outros, foram precursores do paisagismo por sua capacidade de romper com os esquemas tradicionais da disciplina. No entanto, o México tem realizado um trabalho notável que merece ser reconhecido.
Expansão da Sede Norte-Americana da Adidas em Portland, Oregon. Edifício Sul em construção mostrando o sistema de madeira e aço. Imagem cortesia de LEVER Architecture
A família de produtos que compõem a madeira engenheirada (mass timber) – incluindo a Madeira Laminada Cruzada (CLT), a Madeira Laminada Colada (MLC ou Glulam) e o Painel de Compensado de Madeira Engenheirada (Mass Plywood) – está se tornando cada vez mais uma alternativa construtiva viável para a indústria da arquitetura, engenharia e construção (AEC). A madeira tem sido usada como material estrutural há milhares de anos, mas esses produtos de madeira engenheirada ampliaram o campo de opções e forneceram uma base sólida para o trabalho de profissionais de arquitetura e design, expandindo sua gama de materiais e acabamentos.
No âmbito do Dia Mundial da Fotografia (19 de agosto), o trabalho realizado pelo arquiteto chilenoFrancisco Ibáñez Hantke oferece uma perspectiva da disciplina que a situa como testemunho da transformação da urbe e da instabilidade provocada pelos processos de regeneração urbana e pela constante especulação imobiliária. As séries fotográficas realizadas na cidade de Londres registram de maneira exaustiva um conjunto de processos de construção e demolição que, em sua condição de transitoriedade, revelam o delicado limite entre a arquitetura e as ruínas urbanas.
A fotografia de arquitetura se desenvolveu em sua própria expressão artística e pode, às vezes, ser tão importante quanto a própria obra construída. Experienciamos a arquitetura não apenas física e espacialmente, mas também por meio das fotografias. Uma boa reportagem ou série de fotos pode trazer ao espectador a atmosfera do lugar, ainda que esteja distante da obra. A fotografia também é uma forma de documentar o processo do projeto, o uso de materiais, iluminação e elementos arquitetônicos e, como resultado, narrar a história por trás de uma obra.
Para comemorar o Dia Mundial da Fotografia, reunimos uma lista de 25 fotógrafos de arquitetura de todo o mundo que merecem ser conhecidos – e seguidos no Instagram. Esses fotógrafos emergentes foram selecionados por sua capacidade de registrar a arquitetura por meio de um olhar sensível e singular.
A expansão do campus de Manhattanville da Columbia University deu início a um distrito cristalino de edifícios revestidos de vidro, em meio à arquitetura vernacular de alvenaria do Harlem. As últimas adições ao campus de 6,87 hectares (17 acres) e $ 6,3 bilhões, planejado pela SOM, são dois edifícios projetados por Diller Scofidio + Renfro (DS + R) em colaboração com a FXCollaborative, que configurou um novo lar para a Columbia Business School. Com inauguração prevista para o início de 2022, Henry R. Kravis Hall e o Edifício Leste possuem onze e oito pavimentos, respectivamente, e oferecem 45.708,00 m² (492.000 ft²) de salas de aula, espaços públicos e escritórios para o corpo docente.
The Peak House, Main Street, Medfield, Norfolk County. Image Courtesy of Library of Congress HABS MASS
Antes mesmo que o estilo colonial se estabelecesse nos Estados Unidos—como em muitas outras colônias do novo mundo—já haviam edifícios sendo construídos. Digamos que antes do “colonial” havia a arquitetura do imigrante. Como um exercício de sobrevivência, a arquitetura do imigrante é aquela feita com aquilo que se tem à mão, com o que se pode encontrar e com o principal objetivo de ter um teto sobre o qual protege-se dos perigos do desconhecido. Depois de um certo tempo e distanciamento, é comum romantizarmos sobre o estilo de arquitetura colonial do país em que crescemos, afinal, somos todos imigrantes não é mesmo? Edifícios simples e honestos, representativos de quem somos e de onde viemos. Estruturas simétricas e de uma sobriedade avassaladora, de pequenos acréscimos e infinitos desdobramentos. Mas acontece que a arquitetura “colonial” não necessariamente é aquela construída com ânsia pelas mãos do imigrante em busca de um teto para morar.
O Hilda L. Solis Care First Village (HSCFV) acaba de ser inaugurado no centro da cidade de Los Angeles. Batizado em homenagem a supervisora do condado que idealizou o projeto, o Hilda L. Solis Village é uma infraestrutura pública concebida para proporcionar moradia e cuidados com a saúde física e mental de pessoas em situação de rua que vivem no condado de Los Angeles.
O Ártico ocupa um sexto da superfície terrestre. Grande parte de seu território é coberta por água e o restante por enormes extensões de terra firme. A região abriga cerca de 4 milhões de habitantes, entre os quais existem mais de 30 povos indígenas. Oito Estados (Canadá, Dinamarca/Groenlândia, Finlândia, Islândia, Noruega, Federação Russa, Suécia e Estados Unidos) possuem territórios na região ártica. Sua importância reside, entre outras coisas, na sua função de ar-condicionado para a Terra, ao refletir a luz solar e regular a temperatura do planeta.
https://www.archdaily.com.br/pt/1130567/sobre-a-quarta-onda-de-urbanizacao-no-artico-cenarios-de-crescimento-pos-fossil-para-as-cidades-articasBob J. Barraza
Fotografia do terremoto no Haiti em Janeiro de 2010. Imagem via Flickr user: United Nations Development Programme. Lincensed under CC BY-NC-ND 2.0
O Haiti sofre hoje as consequências de um terremoto de 7,2 graus que aconteceu no último dia 14 de agosto e que mergulhou o país em uma crise total. Reportagens internacionais espalharam imagens de edifícios completamente desmoronados em Porto Príncipe que se misturam com as imagens da destruição do terremoto anterior em 2010 (barracas de abrigo improvisadas estavam aparecendo lentamente em meio a um mar de escombros na capital). O número de mortos nesse momento está na ordem dos milhares.
Como a ajuda humanitária se espalha ao redor do mundo para ajudar no resgate, abrigo, saúde e alimentação, surgem questões: como a arquitetura pode ajudar?