
Arquiteta e arquivista. Foi autora dos três edifícios da Fundação Antorcha em Buenos Aires. Realizou o diagnóstico, a proposta de refuncionalização, o orçamento e o estudo de equipamentos da Biblioteca Nacional em Buenos Aires para sua conclusão e funcionamento. Foi diretora do Centro ARCA (Asociación Civil para el Archivo de Arquitectura Contemporánea Argentina) entre 1998 e 2002.

Martha Levisman estudou na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidad de Buenos Aires entre 1952 e 1958, quando as aulas ainda eram ministradas na Manzana de las Luces. Começou seus estudos de arquitetura com um grupo de cinco amigas, entre elas Beatriz Goldestein, Nely Cueitel e Nora Monreal. Teve, como explicou, a oportunidade de se formar em um momento de transição, com um currículo e professores que respondiam ao esquema Beaux-Arts no início e, nos últimos anos do curso, vivenciar toda a eclosão da modernidade em Buenos Aires. Uma modernidade evidenciada na cátedra de Visão de César Janello, nas conferências de Tomás Maldonado — nas quais defendia um curso de design integral —, na formação do grupo oam e na irrupção de seus integrantes na FAU, com ações como "pico y pala" (picareta e pá), com a qual queriam evidenciar o fim do modelo Beaux-Arts por meio da encenação da destruição do edifício. Entre seus professores, não teve apenas Manolo Borthagaray e Francisco Bullrich, mas também arquitetas precursoras como Odilia Suárez e Enriqueta Méoli.
Ficou tão impactada pelos modernos, em especial por Borthagaray, que esteve prestes a deixar o curso em Buenos Aires e ir para Rosário — onde o professor havia fundado a nova faculdade de arquitetura — para concluir lá seus estudos. No entanto, nesse período conheceu aquele que seria seu sócio, marido e pai de seus três filhos, Gerardo Clusellas (1929-1973), que integrava o grupo oam, e acabou não se mudando.
Em 1957, aproximou-se de César Janello, interessada por seu curso: “quando fui vê-lo, ele me disse: junte-se à cátedra, mas não quero que seja minha aluna, e sim minha assistente”. Ao mesmo tempo, começou a trabalhar como assistente na cátedra de arquitetura de Wladimiro Acosta, desta vez graças ao seu amigo Justo Solsona, que já lecionava ali. Permaneceu no cargo até engravidar: “Wladimiro me disse: com essa barriga, nem pense em vir à minha cátedra, então eu saí.”

Sua relação com a universidade foi intermitente, como em outros casos devido às oscilações políticas do país. Foi chefe de trabalhos práticos de Introdução à Arquitetura e de primeiro ano na cátedra dirigida pelo arquiteto Alfredo Ibarlucía entre 1963 e 1966. Foi professora adjunta de Construções de primeiro e segundo anos na cátedra do arquiteto Mario Tempone entre 1972 e 1974. Com a redemocratização, retornou em 1984 à FADU como professora titular adscrita à Secretaria Acadêmica, responsável por Eventos Culturais, e, entre 1989 e 1991, foi professora titular adscrita ao Decanato, responsável por pesquisa e exposições relacionadas à "Memória Histórica da FADU".


Entre 1998 e 2002, foi diretora do Centro ARCA-FADU (Asociación Civil para el Archivo de Arquitectura Contemporánea Argentina), criado em 1982 com a doação do acervo de documentos do arquiteto Alejandro Bustillo. Em 2002, o convênio com a UBA foi encerrado e, desde 2012, os arquivos de Bustillo e de Bullrich foram doados à Biblioteca da Universidad Torcuato Di Tella.
Sua formação continuou especialmente em duas áreas. A primeira delas, a reabilitação, estudando em 1987 no Paul Getty Conservation Institute e no Instituto de Conservación y Restauración em Churubusco, México, onde se dedicó ao estudo de referências para a realização do Taller de Restauración de la Pintura Colonial Argentina. Em 1995, obteve uma bolsa da Fundação Antorchas para estudar na Scuola di Restauro da Università La Sapienza em Roma. Sua segunda área de interesse foi a arquivística, que estudou na Universidade de Columbia para propor, em 1990, um modelo para a criação de um Arquivo de Plantas da Cidade de Buenos Aires. Esses estudos a levaram a participar de conferências internacionais da ICAM ( International Confederation of Architectural Museums) em diferentes cidades: Nova York em 1996, Edimburgo em 1998, Rio de Janeiro em 2000, Viena em 2002, Veneza em 2004 e Paris em 2006.

Em 1989, a pedido da Presidência da Nação, com a presença da Dra. Zelia Zaher, especialista em Biblioteconomia, e com o apoio do Diretor-Geral da UNESCO, Federico Mayor Zaragoza, foi encarregada da conclusão da Biblioteca Nacional. Para isso, realizou o diagnóstico, a proposta de refuncionalização, o orçamento e o estudo de equipamentos do edifício para sua finalização e funcionamento. Isso implicou refazer parte das plantas que estavam perdidas e realizar certas modificações na proposta. No entanto, ela não pôde realizar a direção da obra como estava previsto inicialmente.

Anteriormente, Martha Levisman havia participado do concurso em equipe com Justo Solsona, mas, por questões pessoais, acabou se retirando da disputa. Como arquiteta de projeto e construção, iniciou seu escritório em sociedade com seu marido Gerardo Clusellas, tendo como principais clientes o escritório de advocacia Allende y Brea, que manteria mesmo após a morte dele.
As obras que considerava mais importantes em sua carreira são os três projetos de caráter institucional que realizou para a Fundação Antorchas, pioneiros em restauração, reabilitação e refuncionalização na cidade de Buenos Aires. Entre 1984 e 1985, realizou a primeira dessas obras, a Sede Antorchas, instalada no que havia sido o antigo armazém com residência da família Mihanovich, datado de 1850, no bairro de San Telmo.
… Escolher um lugar para localizar a sede não era uma tarefa fácil: me incumbiram de preparar um escritório próximo à Plaza San Martín com aproximadamente 800 m². Pareceu-me uma escolha infeliz… Convenci-os da importância simbólica do edifício que fariam e de que poderiam apostar de maneira pioneira na recuperação de um edifício nos bairros antigos de Buenos Aires… San Telmo era um bom espaço urbano para abrigar a sede da Antorchas, que introduzia o tema da preservação em seu programa, e uma esquina de 1860 era um excelente testemunho e símbolo dos planos que se desenvolveriam ali. Encontrei um velho edifício de térreo e dois pavimentos…
Minha alegria era enorme, a planta típica da velha Buenos Aires… era perfeita e, embora sumamente degradada, tinha todos os atributos para ser convertida em um lugar especial como memória das quadras labirínticas interligadas e com terraços, onde ao entardecer os portenhos da colônia se reuniam para tomar “o fresco”, paredes maciças, espaços bem dimensionados, portas e janelas de boa madeira para recuperar, coberturas de abobadilhas que deixamos à vista e um pátio em torno do qual se organizavam os escritórios, no qual uma nova e enorme claraboia, orlada de flores, iluminava a sala de conferências.

Todas as estruturas foram desmontadas e reparadas, as esquadrias foram lixadas e repintadas, os escritórios foram equipados e os ladrilhos hidráulicos foram refeitos a partir dos modelos originais, com o próprio edifício sempre oferecendo referências de sua antiga origem para serem reproduzidas.
A segunda foi a Fundación TAREA, concluída em 1987, que consistiu em um ateliê para a restauração da pintura colonial argentina no bairro de Barracas, em um edifício originalmente construído como oficina e depósito industrial em 1926. Este foi o primeiro centro de restauração de pinturas históricas da América do Sul. O modelo adotado para o desenvolvimento do projeto buscava emular a eficiência de instituições como o Getty ou a Academia de Veneza. A intenção da diretoria da Antorchas era investir um esforço significativo para obter um resultado excelente, de modo que consultaram assessores especializados da Europa e da América e enviaram Martha para estudar as especificações de espaço e equipamento no Getty, em Los Angeles (EUA), e no Centro de Churubusco, no México. A terceira obra foi a ampliação da sede da Fundación Antorchas, concluída em 1991, com o objetivo principal de abrigar uma fototeca.

Foi difícil, mas bem-sucedida a negociação para que a Comissão de San Telmo — U24 — aprovasse as contribuições à modernização que a reciclagem de ambos os edifícios exigia, mas consegui introduzir uma escada circular envidraçada ligada ao pátio… Tinha trabalhado com pintores amigos e colegas na busca pelas cores para a sede principal da Antorchas. Escolhemos os tons bordô, que foram celebrados pela empresa ALBA, a qual me concedeu o Primeiro Prêmio de “Cor na Arquitetura”. A ampliação, ou segundo edifício, foi pintada seguindo uma amostra de imprimação feita à mão com pano embebido em cor óxido. Por isso também recebi um prêmio do centro de preservação da U24 e do Conselho de Arquitetos para a área de reciclagens.
Nos anos 1970, fez amizade com o arquiteto Alejandro Bustillo (1889-1982), que lhe deixaria em vida seu arquivo. A partir dele, Martha Levisman realizou uma primeira exposição na "La Escuelita de los Arquitectos" em 1982, Alejandro Bustillo, Arquitecto. Esse foi o primeiro acervo que deu origem ao ARCA e sobre o qual ela continuou trabalhando, organizando exposições e seus respectivos catálogos, além de publicar dois livros sobre a obra do arquiteto: Bustillo, un Proyecto de Arquitectura Nacional (2007) e Bustillo en Patagonia (2010). Em 1989, organizou a exposição na FADU Homenaje a Le Corbusier, 60 años después, que contou com a colaboração de, entre outros, Jorge F. Liernur, Anahí Ballent e Pablo Pschepiurca.

Sua exposição mais recente foi Diseño Argentino de Autor: Sillas, que reunia cadeiras projetadas e produzidas na Argentina entre 1932 e 1955, apresentada na Fundación PROA em 2013. Relacionado a essa busca pelas origens do design industrial moderno na Argentina, ela havia preparado, no início de 2015, um livro que reúne as histórias dos escritórios, grupos e empresas que marcaram o design moderno do país, cuja publicação é muito aguardada.
Faleceu em Buenos Aires em 2022.

* Texto por Zaida Muxí, cortesia de Un Día | Una Arquitecta
Este artigo foi escrito por Zaida Muxí. A tradução é gerada por IA.


